Digimon Mobile Adventure
1 Capítulo 1 - Aplicativo
Notas iniciais
Era noite quando o avião pouso em Tokyo e Daniel acordava com a sensação estranha de um leve cansaço. Olhando pela janela circular do avião, a lua estava posicionada no céu estrelado dando a impressão óbvia de seu deslocamento continental. Foram algumas paradas e longas horas de viagem do Brasil até o Japão. Antes de descer pela longa escada que ligava o avião ao aeroporto, fez questão de pegar sorrateiramente aqueles lanchinhos que tanto gostava do carrinho da aeromoça.
Passou pelo patio de pouso até chegar ao grande salão da recepção, tirou seu celular do bolso para checar se a hora estava correta e atualizada de acordo com o fuso horário. O relógio marcava 19:00 horas, quando reparou em uma pequena aglomeração de pessoas a sua frente. Apesar de nunca ter visto pessoalmente o rosto de seu amigo, reconheceu a face carismática de Daichi, e chegou à conclusão que não era necessária a placa com seu nome escrito, Daniel Sullivan.
– Finalmente posso te cumprimentar — Disse Daniel elevando a mão em gesto de aperto.
– Oras, deixa de enrolar e me dê logo um abraço — Ele era um pouco mais baixo e magro, seus cabelos escuros e medianos eram perfeitamente lisos, e seus olhos puxados tinham uma expressão divertida — Achei que vocês brasileiros fossem mais extrovertidos.
– E eu achei que vocês japoneses fossem mais antissociais — Sorriu largamente envolvendo o amigo em um abraço apertado — Pelo menos esses três anos aguentando seu jeito tagarela me renderam alguma coisa!
– Você precisa melhorar um pouco o seu japonês, o sotaque ainda esta meio forçado, mas você consegue com o tempo. Agora vamos, tem um táxi nos esperando lá fora!
Os dois caminharam em direção ao carro que os aguardava, conversando sobre as mais diversas coisas, animados com o fato de concretizarem uma fase nova em suas vidas. Atravessando Tokyo de uma ponta a outra, Daichi comentava sobre diversos lugares pelos quais passavam em frente, dizendo que deveriam visitar em alguma outra hora, além de mencionar os pratos típicos que certamente Daniel adoraria comer.
O táxi chegou a um cruzamento amplo, a rua era larga e a calçada lotada de pessoas, se movimentando e embaralhando em um quebra-cabeça de corpos humanos. As luzes eram ofuscantes mas maravilhosas, os altos edifícios irregulares e seus outdoors chamavam a atenção para inúmeras propagandas. Mas uma coisa em especial chamou a atenção de Daniel.
– Ei Daichi, o que é aquela torre? — Questionou.
Daichi olhou pela janela esquerda, na direção em que lhe era apontado. Vendo através da longitude do cruzamento oposto ao movimento do carro, via-se uma alta torre cinzenta, quase irreconhecível, camuflada pela escuridão dos prédios as suas costas, reparada apenas pelas fortes luzes vermelhas que piscavam lentamente.
– Existem várias torres assim em Tokyo — Respondeu — Mas aquela é especial, você tem bons olhos. Aquela torre pertence a Interaction and Digital Entertainment, é uma torre potente que emite sinais por toda cidade. Qualquer aplicativo conectado a rede que siga o nome dela tem acessibilidade em uma velocidade incrível.
– Entendo. Eles tem investido bastante ultimamente né? A alguns meses eles instalaram uma sede em São Paulo. Alguns de seus aplicativos tem feito muito sucesso.
– Sim, sim. Na verdade tem um em especial que esta fazendo muito sucesso por aqui — Daichi sorriu, tirando seu celular do bolso
– Nossa! — Exclamou Daniel fantasiado — Esse modelo do seu celular é muito bom! Eu queria compra-lo, mas eu economizei para vir para cá — Disse em tom desapontado afinal.
Daichi riu.
– Sim! Mas não é isso que eu queria te mostra, veja — mostrou a tela do celular para o amigo.
Daniel leu as letras miúdas do nome do aplicativo que se iniciava.
– Taming Digital Monster é? É um novo jogo?
– Sim e não — Riu alegremente — É um aplicativo que permite a você interagir com digimons, colher informações e fazer algumas batalhas!
– Digimons? — Surpreendeu-se — Sério? Estamos no ano de 2043, passamos por mais uma guerra fria, suspeitamos que uma guerra nuclear se iniciasse e agora eles vendem ideias antigas renovadas? — Caiu em gargalhada — Realmente, isso é incrível! Mas digimon? Essa me pegou de surpresa.
– Não seja tão idiota! O aplicativo é um sucesso. Teve mais de 30 milhões de downloads no mundo inteiro, e essa é só a versão beta. O verdadeiro game será lançado em duas semanas e a mídia previne que o recorde de downloads possa ser batido em mais de 100 milhões depois de dois meses após seu lançamento.
– Parece um número incrível — admitiu — Algumas pessoas costumavam pesquisar na internet histórias sobre digimons. Uma vez eu li reportagens malucas de pessoas que dizem que digimon foi algo além de um jogo.
– Chegamos rapazes — Disse o motorista do táxi alegremente.
– Ah sim! Obrigado, aqui está — Disse Daichi entregando dinheiro nas mãos do taxista — Pode ficar com o troco, não é muito.
– Muito Obrigado — Agradeceu
Desceram do carro, a rua estava escura, apesar de ainda assim, iluminada pelos postes. Adentrando na casa de Daichi sentia-se um cheiro perfumado de flores, a sala era espaçosa, com todos os detalhes de uma casa oriental. A escada de carvalho no canto esquerdo levavam aos quartos no segundo andar e do lado direito via-se um estreito corredor que levava a cozinha.
– Seus pais estão aqui?
– Não! Como sempre. Os dois estão sempre viajando a trabalho. — Jogou alguns pertencem na baixa mesa de centro — Por isso não se incomodaram em deixar você vir aqui, minha mãe até disse que um pouco de companhia talvez me faça bem!
– Entendo.
– Agora vamos fazer um lamén! Depois vou te mostrar minha coleção de mangás e jogos!
– Opa! Beleza! — Daniel animou-se
"Taming..."
O senhor Nakajima estava parado olhando as luzes da cidade pela longa parede espelhada de seu escritório. Em sua mão direita ele segurava uma taça de vinho que bebia lentamente. Apesar da idade, ela era um senhor de cabelos brancos medianos, forte e robusto. Deram duas batidas na porta e o som ecoou pela ampla e aconchegante sala.
– Entre — Disse ainda fitando a cidade.
– Com licença senhor Nakajima, chamou eu e o Raimond? — Disse um homem alto de olhos profundos, seguido por outro homem com traços robustos não orientais.
– Não precisamos de tanta formalidade rapazes — Virou-se com o cenho franzido e um sorriso torto — Sentem-se, relaxem, eu irei servir um pouco de vinho para vocês!
Os três homens se reuniram em volta da grande mesa retangular. Raimond parecia divertido com a possibilidade de digerir um pouco de álcool, apenas Takumi não parecia a vontade.
– Rapazes, chamei-os aqui para parabeniza-los pelo desempenho que temos tido com nosso objetivo. E com certeza a corporação não teria tido sem a ajuda de vocês. Um brinde — Ergueu a taça.
Os três homens ergueram suas taças e brindaram tocando-as suavemente. Deram uma golada e o silêncio se prolongou por um minuto.
– Enviamos alguns dados para os nossos investidores e eles estão muito ansiosos pelo lançamento do aplicativo e os resultados que ele pode trazer. Mas mesmo assim, eles informaram que alguém tem vazado informação da companhia — Fez uma pausa para que todos pudessem se encarar seriamente — Vocês não desconfiam quem pode estar fazendo tal coisa certo rapazes?
– C..Claro que não senhor! — Raimond ajeitou-se na cadeira.
– Com certeza não senhor — Takumi fitou-o sério — Nós temos trabalhado duro para que toda a operação seja um sucesso, se soubéssemos de um traidor dentro da companhia eliminaríamos no mesmo instante.
– Ótimo! Excelente — Exclamou Nakajima — Dentro de duas semanas entraremos em ação, a operação 'digital god's gift" não pode falhar.
"Taming..."
Duas semanas se passaram desde a chegada de Daniel em Tokyo. Ele conhecia e fotografava toda Ikebukuro enquanto Daichi não voltava da escola e quando a fazia, passavam a tarde discutindo mangás, comendo em lugares diferentes e visitando inúmeros pontos turísticos. A pedido do amigo, Daniel baixou o aplicativo beta de TDM (Taming Digital Monster) e não conseguiu mais negar que o jogo que viria realmente parecia divertido.
Durante esse período de tempo, alguns acidentes aconteceram na cidade, como quedas de energia misteriosas, além dos jornais informarem que especialistas vinham captando estranhas ondas eletromagnéticas.
– Daniel! — Gritou — Venha logo, ou você vai perder a melhor parte.
– Estou indo! — Respondeu Daniel, que vinha correndo da cozinha carregando alguns salgadinhos e refrescos — Caramba, você não para quieto.
– Eu estou muito empolgado cara, veja!
Daniel sentou-se ao lado do amigo, observando atentamente a TV diante dele. Eram dezessete horas, e o jornal estava passando. Uma repórter baixa e morena estava na rua rodeada por alguns garotos jovens.
– Hoje será o lançamento de um dos aplicativos para celular mais esperado do momento...
Daichi segurava seu celular assim como Daniel. Ambos escutavam a TV atentamente sem tirar os olhos da pequena tela a suas frentes. Aguardaram alguns instantes, enquanto atualizavam as telas de seus celulares.
– Apareceu! — Gritou Daichi
– Certo! Abaixe o jogo como se sua vida dependesse disso.
Ambos focaram fazer o download do TDM oficial que estava sendo lançado, estavam extremamente empolgados com o lançamento.
– Terminei! — Daichi mostrou o aplicativo já instalado para seu amigo.
– Eu também, agora vamos abrir!
Ambos tocaram o ícone das letras TDM em seus celulares, e o aplicativo começou a carregar. A tela do celular estava preta com uma suposta barra de carregamento embaixo do termo "Taming..." que mostrava-se. A barra se preencheu e a tela do celular começou a pisca em diferentes cores como se pifasse e falhasse, assim como uma velha televisão.
– Droga! Será que o aplicativo veio com defeito? — Pergunto Daniel até escutar um "Plilim" vindo de seus dois celulares.
Ambos olharam respectivamente para suas telas. Em cada uma se mostrava uma silhueta escura em fundo branco, insinuando o que supostamente seriam seus primeiros digimons.
Olá! Por gentileza, escolha uma cor de fundo que lhe agrade! -Disse uma voz do celular de Daichi
Hey seu desgraçado! Escolhe uma cor de fundo, e quente de preferência!– Disse a voz do celular de Daniel
– Acho que meu primeiro digimon é rebelde — Levou a mão a cabeça e coçou desconfortavelmente — Esse parece ser o tipo de coisa estúpida que aconteceria comigo.
Daichi sorriu, analisando bem a tela de seu celular, selecionou a cor azul claro.
– Já que o maldito quer uma cor quente, vou escolher laranja. Eu gosto de laranja — Tocou na tela do celular
Uma novo fundo carregou, fazendo novamente um "Plilim", surgiu a animação de uma carta se abrindo, mostrando uma mensagem.
– "Olá domador de digimons, bem-vindo ao TDM, o novo aplicativo que permite a você experimentar uma aventura única. Você é um de mil domadores de todo o mundo, presenteados com uma expansão especial, pressione OK quando estiver pronto para começar a domar digimons e iniciar esta grande aventura."
– Eu também recebi a mesma mensagem! — Exclamou Daniel, levantando e começando a dançar de alegria.
– Pare de rebolar feito um macaco e vamos dar "OK" logo!
Uma nova tela começou a carregar, então o aplicativo TDM fechou e ao invés dele, havia um novo aplicativo no lugar. Os dois garotos se entreolharam, o novo aplicativo iniciou-se sozinho, com nome do aplicativo era "Digivice". Sua tipografia verde em um fundo preto dava um toque familiar.
A televisão desligou-se e as luzes começaram a piscar por alguns segundos. Na escuridão, ainda segurando seus respectivos celulares, leves estática e faíscas começaram a contornar seus aparelhos. Assustado, Daniel derrubou-o no chão, então o show de luzes parou o ambiente da sala voltou ao normal.
– Ei seu desgraçado — Disse uma voz rouca e fina — Não derrube meu digivice no chão, ou asso você em brasa maldito!
Em espanto, o garoto loiro de cabelos médios e olhos verdes claros encarou o amigo espantado.
– Isso veio do seu celular? — Perguntou Daichi.
– Claro que veio! — Exclamou a voz novamente, agora mais nítida — Você vai me pegar do chão logo?
Hesitou por um momento antes de baixar e pegar o celular.
– Esses desgraçados — Comentou Daniel — Eles estão realmente levando a sério essa coisa de AI, essa coisa tá cada vez mais real.
– Ei maldito! Você tá realmente me subestimando né? Quem você está chamando de AI?
– Mas ele está certo de certa forma — Disse uma segunda voz timidamente.
Daichi pareceu se assustar um pouco, mas segurou o celular firmemente.
– Vocês são nossos digimons? — Questionou
– Sim! Prazer em conhece-lo.
– Não! Ele que é meu escravo humano!
As duas vozes disseram quase que respectivamente.
– Você sentiu isso? — Disse a voz suave, fez uma pausa e prosseguiu — Vocês precisam nos ajudar, antes que seja tarde. Eles estão chegando...
– Eles quem? — Perguntou Daichi.
– Os digimaus! — Respondeu — Rápido, estamos ativando a função mapa e enviando as coordenadas, se não chegarem rápido, não sei se sobreviveremos por muito tempo.
Seus celulares brilharam fortemente, a intensa luz que era liberada formou uma imagem que acompanhava a tela do aparelho. Era como um holograma, plano e circular, mostrando o que parecia ser a localização de algo.
– Deixe me ver — Daichi analisou por um momento enquanto Daniel ainda parecia estupefaço — Isso fica a algumas quadras daqui.
– Você não tá falando sério está?
E como um forte estrondo, conseguiu-se ouvir o que parecia ser uma forte explosão.
– Vá logo seu idiota! Não conseguiremos aguentar por tanto tempo. — Gritou a voz rouca e fina.
– Droga! Não acredito que estou fazendo isso!
– O jogo disse que seria uma grande aventura não disse? — Daichi levantou-se pegando seus sapatos.
Os dois saíram aos tropeços de casa pela plana e extensa rua que levava em direção ao centro da cidade, seguindo o mapa holográfico. Suas indicações eram como uma seta verde em um plano preto, e o destino era um circulo vermelho. Seguiram correndo enquanto o céu escurecia.
– Não temos muito tempo! — Exclamou novamente a voz rouca e fina — Vou iniciar o programa!
– Que Programa? — Daniel olhou para a tela.
O celular novamente carregava outro programa, até que surgiu a mensagem "Digital Limbo Gate". Estáticas se formaram em volta aos dois garotos enquanto corriam, enquanto um sinal era emitido de seus aparelhos, foi-se capaz de sentir uma mudança na atmosfera. A energia que os envolvia ficou mais forte e sem saber, foram envoltos por uma luz, parecia que percorriam um caminho digital, como se realmente um portão para outro plano tivesse aparecido.
Quando se deram conta, já não estavam mais no mesmo lugar, não era mais a mesma rua, a mesma cidade, o mesmo mundo humano, apesar da visão das formas ser semelhante. A diferença estava no ar, nas cores, nos detalhes, na sensação. Os prédios e luzes que os cercavam ainda pareciam os mesmos, mas as paredes agora eram marcadas por traços tridimensionais verdes e o chão estava coberto com o que suas mentes apelidou de "musgo digital".
– Mas que droga, onde estamos? — Perguntou a Daichi que estava de costas analisando o novo ambiente.
– Não sei também! Estou tão surpreso quanto você — Respondeu virando-se — Cuidado!
Daichi pulou em cima de Daniel fazendo-os cair no chão, desviando de alguma coisa atirada contra eles. O objeto passou zumbindo em suas orelhas, estilhaçando-se na parede do outro lado da rua, alto o suficiente para se escutar.
Eles rapidamente se levantaram na direção em que o objeto foi atirado e então viram um pequeno digimon parado a dez metros de distância. As informações do holograma mudaram de forma, agora exibindo dados de um digimon.
– DemiDevimon? — Refletiu Daichi — Esse é um digimon das primeiras versões.
– Não é hora para isso, droga! — Daniel gritou — Esse desgraçado tentou matar a gente.
DemiDevimon possuía um corpo em forma de esfera, com asas e garras, seu tom era acinzentado e uma caveira estava desenhada em sua testa. Toda ou qualquer semelhança lhe lembrava vagamente um morcego.
A criatura sorria maliciosamente e avançava lentamente na direção do dois jovens. Aquele era um perigo real, suas pernas tremiam de medo e apesar de quererem correr, não conseguiam se livrar do estado de paralisia. DemiDevimon abriu suas asas em posição ofensiva e preparava-se para ataca.
–Chama Bêbe! — Uma voz recém conhecida ecoou de algum canto.
DemiDevimon foi atingido e envolto por uma chama que apesar de pequena, atingiu-lhe ferozmente por trás. Seu corpo digital queimou por alguns segundos antes de se despedaçar em dados.
– Você é muito lerdo para um humano escravo! — Exclamou a voz rouca e fina. Uma pequena criatura de pele alaranjada que parecia um réptil cruzou a rua atrás do mesmo prédio em que DemiDevimon veio, encarando Daniel com seus olhos esverdeados — Escute bem seu maldito, meu nome é Agumon e eu sou seu mestre!
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