Digimon Final
2 Sob o Gelo, a Fúria
Sentado em um tronco próximo a uma fogueira que parecia prestes a se apagar, seu corpo tremendo de frio, abraçando-se para se aquecer, Machida sentiu o nariz formigar antes de espirrar bruscamente. Rapidamente limpando o nariz com o dedo, olhou para o lado, trêmulo, onde uma criatura estranha — um inseto vermelho e verde-amarronzado, com grandes olhos verdes, mandíbulas em forma de boca, duas antenas amarelas, quatro braços, o primeiro par deles com garras cinzas, e élitros cobertos por espinhos cinzentos. Tinha uma aparência semelhante a de uma joaninha — estava afastada do fogo, mas perto o suficiente para se aquecer.
Com os dois pares de braços estendidos em direção às chamas, Tentomon parecia respirar profundamente quando Machida espirrou novamente. Seus grandes olhos verdes voltaram-se para o jovem, preenchidos de preocupação, apesar da expressão estóica. Baixou a cabeça, sentindo-se impotente.
Machida notou a preocupação de Tentomon e resmungou antes de abraçar os ombros com mais força, tentando se aquecer. Esfregou as mãos próximas ao fogo, que parecia fraco demais para durar.
No silêncio que já se tornara norma, Tentomon sentava-se curvado sobre uma pedra lisa, seu corpo pesado de sono. Bocejou, cobrindo a boca com uma garra, e sacudiu a cabeça para espantar o cansaço. De repente, suas antenas se moveram, e a expressão sonolenta transformou-se em alerta. Seus olhos brilhantes na escuridão vasculharam o ambiente até encontrar a origem do ruído: passos pisando na grama, quebrando galhos. Machida também ouviu e olhou na mesma direção, onde duas figuras surgiram.
Era um garoto de estatura média, aparentando idade próxima à de Machida. Cabelo em um penteado simples, rosto cansado, jaqueta com um rasgo no ombro e uma máscara cobrindo a parte inferior do rosto. Na mão livre, carregava uma sacola de frutas. Ao seu lado, um anfíbio verde quadrúpede, com barbatana laranja e olhos vermelhos gentis, parou ao vê-los e acenou com uma garra, sorrindo. O rapaz, porém, limitou-se a fitá-los, visivelmente confuso.
Takasaki e Betamon passaram os últimos minutos — ou horas — procurando abrigo. Em algum momento, no meio do caminho, Takasaki fizera uma piada sobre a ausência de hotéis na região, usando o humor absurdo para disfarçar a gravidade da situação. Betamon, que não sabia o que eram hotéis, ouvira a explicação simplificada do companheiro enquanto caminhavam. Agora, os dois se depararam com aquelas duas figuras improváveis.
Machida era baixo e magro, com cabelo despenteado de comprimento médio, óculos de sol sobre o nariz e uma camisa havaiana de estampa floral — nada adequada para o frio. Olhou para os recém-chegados com a sobrancelha arqueada, mas optou por não comentar, contentando-se com a descoberta de que não estava sozinho naquele lugar.
Ao notar Tentomon, Takasaki ficou receoso — sua última experiência com um inseto vermelho não fora boa. Porém, como Tentomon não parecia hostil, ele relaxou levemente. Betamon apenas acenou brevemente, sua expressão tranquila.
— Olá — cumprimentou Tentomon. — Sou Tentomon. Aquele emburrado ali é Machida. E vocês são?
Machida olhou para Tentomon, irritado com a descrição, mas ignorou relutantemente e acenou para Takasaki e Betamon.
— Takasaki — apresentou-se, a voz calma mas com um traço de riso contido. Apontou para Betamon. — E ele é Betamon. Feliz em conhecê-los.
Betamon acenou. Tentomon sorriu animadamente, enquanto Machida suspirava e deitava no tronco, exausto.
Takasaki pisca com a visão, mas decide ignorar. Ele se senta próximo da fogueira, abraçando seus joelhos e com o queixo apoiado sobre eles. Seus olhos parecem vagar. Tudo parecia ter se tornado tão estranho após esta tarde, ele considera. Fora uma manhã comum, começou bem, terminou com um simples passeio às compras...
— Mas acabou nisso — murmurou, desanimado.
Betamon observa Takasaki, percebendo seu desânimo, preocupado. Ele caminha e para próximo dele, enquanto mordia uma laranja que tirou da sacola alguns instantes antes, mas quase cospe a laranja fora quando seus dentes mordem a casca, que tinha um gosto esquisito. Ele decide ignorar a sensação do gosto em sua língua e come, forçando-se a achar aquilo comestível. No final, ele acha que não foi tão ruim.
— Posso pegar uma? — Machida finalmente falou, olhando para as laranjas. — Takasaki, não é? Ouvi direito?
Takasaki piscou, confuso.
— Quê...?
— As laranjas. Posso pegar uma?
O rapaz anuiu após uma pausa, tirou duas frutas e entregou uma a Machida e outra a Tentomon, que agradeceu com um aceno. Machida usou um canivete suíço — surgido de algum lugar — para descascar e cortar a laranja em pedaços, removendo as sementes antes de comer. Tentomon, porém, lutava com a casca até Takasaki intervir, descascando-a e devolvendo-a à criatura, que reluziu de gratidão.
Betamon observava tudo em silêncio, mastigando. Havia uma estranha harmonia ali, algo que ele não compreendia totalmente, mas que parecia certo.
Takasaki ergueu os olhos para o céu estrelado, deixando a mente vagar. Ao mirar o fogo, viu nele um reflexo de sua determinação.
Esperava ser forte o suficiente para suportar o que viesse.
Passar a noite ao relento e ver o amanhecer foi uma experiência que Takasaki e Machida lembrariam por décadas. Afinal, quase não dormiram — apenas cochilaram brevemente. As olheiras marcavam seus rostos, as de Takasaki ainda mais profundas que as de Machida. Dores nas costas os acompanhavam, consequência das posições desconfortáveis em que haviam repousado. O quanto ambos sentiam falta de um colchão nem precisava ser dito.
Em contraste, Betamon e Tentomon não tiveram tantas dificuldades. Dormiram placidamente, aconchegados um ao lado do outro e próximos da fogueira, que se apagara em algum momento da noite. Ao perceberem isso, Takasaki e Machida não puderam evitar uma ponta de inveja daquela naturalidade diante de um ambiente tão hostil.
— Bom dia, Machida — cumprimentou Takasaki, a voz rouca.
— Bom dia — respondeu Machida, relutante. Chutou a terra onde estava o fogo, em um movimento impulsivo, e espirrou em seu antebraço antes de se afastar, quase tropeçando. Ele ajeitou seus óculos de sol, empurrando-os com o dedo indicador quando quase caíram.
Tentomon seguiu-o até um riacho, onde Machida lavou as mãos e o rosto. Takasaki observou a cena à distância, curioso, mas limitou-se a encolher os ombros, limpando a poeira acumulada na jaqueta com um lenço. Enquanto isso, Betamon parecia ter adormecido novamente. Takasaki cutucou-lhe levemente o rosto, e o anfíbio resmungou, perturbado pelo despertar abrupto.
Erguendo-se, Takasaki olhou ao redor. A floresta estava serena, quase pacífica.
Tudo parecia tranquilo.
— Mas não por muito tempo — murmurou, com um tom que denunciava o temor.
— O quê? — Betamon inclinou a cabeça. — Disse algo?
— Nada. Esquece.
Betamon não era ingênuo. Percebeu que algo pesava na mente do amigo, mas decidiu não pressioná-lo — por enquanto.
Enquanto se dirigia ao rio para lavar o rosto, Takasaki refletiu que uma noite mal dormida seria o menor de seus problemas naquele inverno tão anormal.
Ao se inclinar sobre a água, parou abruptamente, alarmado. Uma figura imensa aproximava-se do outro lado do riacho — um dinossauro de aparência incomum e intimidante. O rosto era coberto por uma armadura negra que se estendia em babados ósseos com listras vermelhas. Seu corpo acinzentado tinha placas blindadas nas costas e ao longo da cauda, enquanto a barriga era protegida por uma carapaça óssea branca. Um único chifre imponente adornava o nariz, acima de olhos verdes penetrantes. A criatura bebia água calmamente, ignorando-os.
Quando o olhar do dinossauro cruzou com o deles, ele apenas ergueu a cabeça, virou-se e afastou-se, indiferente. Machida soltou um assobio aliviado; Takasaki riu nervosamente, embora também visivelmente relaxado. Betamon e Tentomon trocaram olhares confusos, mas acabaram encolhendo os ombros, como se aquilo fosse apenas mais um detalhe bizarro daquele lugar.
Pouco depois, os quatro seguiam adiante pela floresta densa, decididos a procurar outros que pudessem estar tão perdidos quanto eles.
Tendo avançado cada vez mais, Takasaki sentia que estava andando em círculos, sem rumo. Por outro lado, Machida riscava levemente os troncos das árvores pelas quais passavam com a lâmina de seu canivete, fazendo isso convenientemente, em um movimento quase mecânico. Tentomon voava próximo de Machida, suas asas zunindo. Betamon caminhava não muito atrás dos outros três, mas parecia um pouco distante, brevemente distraído por uma borboleta que pousou em seu nariz.
À frente, o ambiente parecia ter mudado, levando em consideração que, poucos metros atrás, não havia neve alguma. O frio cortante os envolveu, enquanto eles pisavam na neve espessa que cobria todo o chão. Ao seu redor, pinheiros altos se estendiam até o topo de um monte íngreme, suas folhas pesadas, cobertas por neve. Takasaki tirou a máscara de seu rosto, guardando-a no bolso da jaqueta, tendo em vista que respirar seria uma tarefa difícil caso a mantivesse em um ambiente que parecia um pouco opressor. Porém, estando moderadamente acostumado com ambientes frios como este, não parecia tão ruim.
Machida, por outro lado, estava abraçando-se aos ombros, seus dentes e seu corpo tremendo como nunca. Nunca tendo estado em um ambiente tão frio quanto este, acostumado com climas mais úmidos e quentes, parecia uma provação aguentar esse frio. Mas ele engoliu em seco, respirando profundamente, sua respiração saindo como uma fumaça fria, e continuou a caminhar enquanto esfregava as mãos.
Tentomon estava cansado de voar, tendo feito isso por pouco mais de algumas horas. Pousou no solo, próximo de Machida, suas patas quase afundando na neve. Ele parecia ter ficado preso, mas se forçou a caminhar, mesmo que um pouco mais lentamente do que antes. Olhando para Machida com preocupação, Tentomon não sabia o que deveria fazer; sentia-se um pouco impotente.
Betamon estava logo atrás, um pouco mais distante do que os outros. O ambiente parecia mágico aos seus olhos, que brilhavam enquanto ele olhava para todas as direções possíveis, como uma criança em uma loja de brinquedos na época natalina. Então, quando percebeu que tinha se afastado, ao ouvir Takasaki chamá-lo, ele se apressou, correndo o mais rápido que conseguiu. Esbarrou nas pernas de Takasaki, quase o derrubando, mas o rapaz se firmou, pisando na neve. Betamon murmurou um pedido de desculpas.
Então, o grupo parou quando começaram a subir o monte, ao ouvirem um grito repleto de selvageria. Do topo do monte, sobre um galho de uma árvore, uma figura saltou, pisando na neve e descendo o monte correndo em uma velocidade impressionante, sem parar de gritar. Com um golpe do pingente de gelo em mãos contra o solo, ele se impulsionou para a frente, parando próximo dos quatro com uma expressão que beirava ao ódio.
— Hyogamon…? — Tentomon presumiu, tremendo um pouco, sua voz nervosa.
O dito Hyogamon era uma criatura que se assemelhava a um ogro azul com longos cabelos brancos despenteados, orelhas pontudas adornadas por brincos, um único chifre na cabeça e um pingente de gelo saindo de cada um dos ombros. Sua boca estava completamente aberta, com uma mandíbula inferior exagerada e presas afiadas na mandíbula superior. Ele usava uma tanga preta com um cinto, outros cintos pretos no braço direito, bandagens azuis na perna direita e cintos pretos na perna esquerda. Carregava um porrete de gelo como arma. Tinha uma caveira e ossos cruzados no braço esquerdo, abaixo do pingente de gelo do ombro, tachas de metal nas juntas da mão esquerda e uma cicatriz nas costas da mão direita.
Hyogamon encarou o grupo enquanto ria uma risada nada amigável, seus olhos parecendo se contorcer. Movendo o braço direito para trás, ele socou o ar à sua frente logo depois, disparando um raio de energia com um formato semelhante ao de sua cabeça saindo de seu punho contra os quatro, que se jogaram no chão, se abaixando, desviando por pouco do golpe, que atingiu um pinheiro, fazendo-o tombar.
— Ótimo, exatamente o que eu precisava. Outro lunático — Takasaki resmungou, levantando-se da neve, cuspindo no chão uma semente de laranja que estava presa em seu dente.
Betamon se levantou com pressa, colocando-se entre o grupo e Hyogamon, protetoramente. Tentomon não ficou parado, nem ocioso. Juntou-se a Betamon e, juntos, dispararam um feixe de eletricidade em Hyogamon. De suas asas, Tentomon reuniu eletricidade estática, amplificando-a em um choque que atingiu o ombro direito de Hyogamon, que foi levemente empurrado para trás ao ser atingido, seus pés deixando uma pegada na neve. Não muito depois, Betamon atacou, descarregando eletricidade de seu corpo em Hyogamon, que parecia não muito afetado.
Machida olhou para aquilo tudo, fechando a mão em um punho, desejando estar em qualquer lugar, menos neste. Takasaki respirou profundamente, contendo sua irritação com toda essa situação. Quando Hyogamon esmurrou Tentomon e Betamon com seu porrete, os olhos de Takasaki se arregalaram, enquanto Machida parecia enjoado com tamanha brutalidade.
Olhando para os olhos trêmulos de Betamon, que estava inerte, jogado no chão, Takasaki enfureceu-se. Ele pegou a coisa mais próxima que viu no chão, uma pedra, e arremessou-a no rosto de Hyogamon, assim como antes. Mas ele não ficou parado. Correu até Hyogamon, erguendo sua perna e tentando chutá-lo, mas Hyogamon agarrou sua perna com um aperto firme, segurando-o de ponta-cabeça.
— Solte-me, animal imundo! — Takasaki gritou, debatendo-se, tentando socar Hyogamon, que simplesmente o lançou contra o chão. Takasaki derrapou na neve, seu rosto enterrando-se no chão. Ele se levantou, sem demora, mas tropeçou.
Quando Betamon viu aquilo tudo, enfureceu-se e disparou outra descarga elétrica contra Hyogamon, que não desviou e foi atingido pelo golpe fraco. Betamon estava cansado, com fome e sede, mas não iria parar. Ele avançou, pulando contra Hyogamon, que simplesmente o jogou para longe com um golpe rápido e poderoso de seu porrete. Betamon caiu na água do rio congelado, seu corpo se chocando contra o gelo e formando um buraco, do qual ele afundou.
Takasaki viu tudo aquilo, sua expressão anteriormente confiante transformando-se em uma de puro medo, apreensão e bastante preocupação. Suas pernas tremeram. Sua garganta apertou-se. Ele cerrou os punhos, respirando irregularmente, tentando clarear a cabeça.
Voltando seu olhar para Hyogamon, com uma expressão enfurecida, ele permaneceu em silêncio.
Então, do lago congelado, um rugido estridente e animalesco ecoou, enquanto um feixe de luz brilhante iluminou o gelo, da mesma forma em que um brilho reluzia de um dispositivo estranho que estava preso ao bolso de trás da calça de Takasaki, que olhava tudo junto de Machida e Tentomon, engolindo em seco, atentos, mas receosos. Então, o gelo começou a rachar e se quebrar, como se algo enorme estivesse saindo das profundezas da água fria. Quando o gelo partiu-se em vários pedaços, o feixe de luz cresceu, moldando-se em uma serpente marinha de tamanho colossal, que rosnou com selvageria.
A serpente saiu da água voando, para a surpresa de todos eles, e se aproximou de Hyogamon com velocidade, envolvendo-o e apertando-o firmemente. Hyogamon tentava resistir, mas parecia estar ficando sem ar, até que finalmente desmaiou. A serpente soltou o corpo de Hyogamon, deixando-o cair mole na neve, e voltou-se para Takasaki, olhando-o com uma expressão estóica. Então, seu corpo reluziu, diminuindo de tamanho, enquanto Takasaki parecia realmente confuso, sem saber o que dizer.
Olhando para Betamon, Takasaki curva levemente a cabeça, grato. Betamon sorriu com um sorriso tranquilo.
Machida e Tentomon estavam ambos confusos, literalmente sem palavras.
— Não tenho ideia do que foi isso, mas… uau — disse Machida, coçando a cabeça, maravilhado.
Pegando Betamon em seus braços, percebendo seu cansaço, Takasaki decidiu que iria ao menos deixá-lo descansar um pouco, dado o esforço do anfíbio. Ele olhou para Machida e Tentomon, e virou-se, continuando a subir o monte. Betamon sorriu com um sorriso cansado, adormecendo.
Tentomon olhou para Machida, seus olhos verdes brilhando de expectativa.
— Ah, não viaja — disse Machida, revirando os olhos, mal-humorado.
— Porcaria — Tentomon murmurou, pousando no chão, mesmo que relutante.
Assim, o grupo continuou com sua jornada, em direção a cumprir seu objetivo principal: procurar mais alguém. Eles apenas desejavam que contratempos como estes não se repetissem muito.
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