Digimon Final
3 O Que a Neve Não Apaga
Durante uma pausa para descansar, após um longo período caminhando, Takasaki, Machida, juntamente com Betamon e Tentomon, sentaram-se na neve, à sombra de um alto pinheiro que se erguia no topo daquele monte íngreme.
Machida observou a paisagem daquele ponto elevado, acompanhando o rastro de pegadas que ele e os outros haviam deixado para trás – já quase totalmente cobertas pela neve que continuava a cair. Guardou seu canivete suíço no bolso superior da camisa, logo após recolher suas lâminas. Ele havia usado o instrumento para marcar as árvores ao longo do caminho que percorreram nas últimas horas. Respirou fundo antes de soltar um espirro abrupto.
Tentomon olhou para ele com uma expressão preocupada, embora também parecesse estar sucumbindo ao frio intenso do local.
Enquanto isso, Takasaki e Betamon pareciam estar apreciando o clima gelado, ao contrário dos outros dois. O rapaz estava sentado na neve, com as costas apoiadas contra o tronco do pinheiro, as pernas estendidas e Betamon acomodado em seu colo. O pequeno Digimon havia acordado há pouco tempo.
A mente de Takasaki começou a divagar, surgindo inúmeras perguntas que ele sentia não deveria mais guardar silêncio. Respirou profundamente, preparando-se. Seus olhos vagaram de Betamon para Tentomon, erguendo uma sobrancelha em questionamento.
— O que vocês são, exatamente? — perguntou Takasaki. — Não se parecem com nada que eu já tenha visto antes.
Machida interrompeu o que estava fazendo e voltou sua atenção para as duas criaturas, também interessado na resposta. Diferente de Takasaki, ele havia deixado essa pergunta passar e, com o tempo, decidira simplesmente aceitar a situação sem questionar.
— Bem, por onde começar? — Tentomon ponderou, parecendo organizar seus pensamentos antes de prosseguir.
— Somos Monstros Digitais. Em outras palavras, somos Digimon — Betamon respondeu, saindo do colo de Takasaki e deitando-se na neve, enquanto Tentomon resmungava, frustrado.
— Ei, eu ia dizer isso agora! — Tentomon reclamou, cruzando os braços com irritação, mas logo se acalmou.
Machida soltou uma risada suave, achando a cena diante de seus olhos um tanto cômica. Takasaki balançou a cabeça, mantendo uma expressão séria, mas o leve sorriso que surgiu em seu rosto denunciava que também achara graça na situação. Tentomon olhou para os dois, piscando, antes de suspirar e baixar a cabeça, momentaneamente desanimado.
— Bem, achei curioso que todos vocês têm "mon" no final do nome — comentou Takasaki, apoiando a mão no queixo, pensativo.
Os olhos de Machida se voltaram para Betamon e Tentomon, e ele perguntou, com um tom confuso:
— É algo de família?
Os dois Digimon piscaram ao ouvir a pergunta e imediatamente fizeram caretas de desdém.
— Eu não tenho nada a ver com esse cara — Betamon respondeu prontamente, apontando uma garra em direção a Tentomon.
— Pensando bem, acho que todos os Digimon têm nomes assim — ponderou Tentomon, também refletindo, mas achando a ideia um tanto ridícula. — Mas não somos exatamente uma família. Nada disso.
Takasaki acenou com a cabeça, demonstrando compreensão, mesmo que ainda não entendesse completamente.
— Aquele Hyogamon... ele é um Digimon como vocês?
— Sim, ele é — respondeu Tentomon. — Hyogamon é complicado. Extremamente territorial.
— Ele ataca com fúria assim que alguém pisa em seu território — completou Betamon, mantendo um tom calmo.
— E ainda não conseguimos perceber o quão territorial ele é — Machida comentou, com um toque de sarcasmo na voz.
— Ele foi um desafio. Mas eu consegui lidar com ele — disse Betamon, olhando fixamente para Takasaki. — Graças a você, Takasaki, eu pude digievoluir.
Takasaki piscou, confuso.
— O que eu fiz? Não entendi.
— Você lutou contra ele, mesmo sabendo que não teria chance. E eu... não sei o que aconteceu depois — Betamon explicou, parecendo tão perplexo quanto ele. — Caí na água. Estava frio e escuro. Mas, de repente, senti um calor estranho. Quando me dei conta, havia digievoluído. Tornei-me Seadramon, mesmo que por pouco tempo.
A expressão de Takasaki tornou-se mais séria enquanto refletia sobre aquilo, mas ele acenou com a cabeça, parecendo compreender o lado de Betamon.
— Seadramon é o nome daquela serpente em que você se transformou? E vocês, Digimon, mudam de nome toda vez que... "digievoluem"? — Machida perguntou, fazendo um gesto de aspas com os dedos, com um tom de ceticismo.
Betamon confirmou com um aceno, emitindo um som afirmativo. Machida ponderou sobre aquilo, ajustando os óculos com o dedo. Olhou para Tentomon com uma expressão indecifrável, mas com um visível traço de expectativa.
Enquanto isso, Takasaki ficou encarando Betamon em silêncio por alguns instantes. De repente, percebeu algo estranho no bolso traseiro de sua calça. Levantou-se e virou-se, olhando para o bolso.
— O que é isso? — murmurou para si mesmo.
Ali, havia um dispositivo de aparência peculiar, um pouco menor que a palma de sua mão. Era branco, com três botões azuis — um oval à esquerda e dois em formato de elipse à direita. No centro, havia uma pequena tela quadrada monocromática verde, circundada por uma borda com inscrições em um idioma que Takasaki não reconhecia. O aparelho tinha formato quadrado com bordas arredondadas e uma pequena antena no canto superior esquerdo, cuja função ele não conseguia imaginar.
Machida olhou para o dispositivo na mão de Takasaki antes de enfiar a mão no bolso da bermuda e retirar um item idêntico. Examinou os dois objetos com curiosidade.
— Eu também tenho um. Achei que fosse um brinquedo — disse Machida, guardando o objeto novamente. — Quando cheguei aqui, Tentomon... não, Mochimon, estava parado ao meu lado.
Takasaki e Betamon ouviram atentamente. Tentomon observava a neve caindo dos galhos do pinheiro, mas também prestava atenção.
— Fomos perseguidos por um Digimon irritante. Woodmon, acho que era o nome dele. Em algum momento, Mochimon tornou-se Tentomon — continuou Machida, apontando para o dispositivo na mão de Takasaki. — O meu brilhou quando Mochimon... digievoluiu. Assim como o seu brilhou quando Betamon se transformou em Seadramon.
Os olhos de Takasaki arregalaram-se por um instante antes que ele acenasse para si mesmo, percebendo que poderia haver uma conexão ou um gatilho que desencadeava a digievolução. E, pelo que entendia, aquele aparelho parecia ser a chave para isso. Guardou o item no bolso interno da jaqueta, decidindo que sentar-se sobre ele — já que antes estava no bolso traseiro da calça — poderia danificá-lo.
Betamon e Tentomon trocaram olhares antes de concordarem com um aceno, reconhecendo que poderia haver lógica naquilo. Mas encolheram os ombros, decidindo deixar o assunto para outra hora.
— Eu estava em perigo quando Tentomon se transformou — Machida disse repentinamente. — Aquele Woodmon irritante decidiu nos perseguir sem motivo aparente. Quando quase caí em um buraco, aconteceu.
— Sem motivo aparente? — Tentomon repetiu, incrédulo. — Nós nos sentamos nele sem perceber que não era um tronco comum. Ele deve ter ficado furioso por causa disso.
— Quanto a isso, sou obrigado a concordar — retrucou Machida. — Mas me diga: como eu saberia que os troncos aqui podem ser troncos vivos ambulantes? Parecia tão normal que nem percebi que estava vivo.
— Entendo seu ponto — disse Tentomon, parecendo refletir.
— Voltando ao que você disse, Machida — Takasaki interveio, chamando a atenção do outro. — Você mencionou que estava em perigo, e a digievolução aconteceu.
— E daí? — Machida perguntou, erguendo uma sobrancelha, esperando uma explicação mais clara.
— No meu caso, aconteceu algo parecido. Então, acho que o perigo pode ser um tipo de gatilho para a digievolução — Takasaki explicou, tentando articular seu raciocínio, embora também parecesse confuso com a situação que achava um tanto absurda. — É estranho? Sim. Eu me colocaria em perigo de propósito sabendo que isso pode ser verdade? Seria egoísta. Então, não.
Machida encarou Takasaki antes de olhar para Tentomon, sua expressão tornando-se um pouco culpada. Respirou fundo e levantou-se. Tentomon ergueu-se da posição sentada e abriu as asas, voando rente ao chão, seguindo Machida, onde quer que ele fosse.
Betamon e Takasaki observaram, confusos.
— O que houve com ele? — Betamon fez a pergunta que ecoava na mente de Takasaki.
— Assim como você, não faço ideia, Betamon — Takasaki respondeu, levantando-se da neve e alongando os braços.
— Vamos segui-lo? — Betamon perguntou, e Takasaki negou com um leve balanço de cabeça. — Tudo bem, então.
Não muito longe dali, Machida caminhava tenso, suas pegadas marcando o caminho percorrido. Tentomon voava lentamente atrás dele, acompanhando-o com expressão preocupada.
— Ei, Machida, espere! — reclamou Tentomon, parecendo exausto. — Não consigo voar tão rápido, especialmente nesse clima.
Machida parou, mas não porque esperava Tentomon alcançá-lo. À sua frente, com passos pesados, o Hyogamon de antes caminhava, alheio à presença deles. Machida prendeu a respiração, torcendo para que o Digimon não os notasse.
No entanto, Machida estava longe de ser discreto. Com uma camiseta tão colorida, em meio à neve branca, ele se destacava como um ponto vermelho em uma pintura inacabada.
Tentomon também percebeu Hyogamon e soltou um guincho de medo, tremendo. As orelhas pontudas de Hyogamon moveram-se com o som, e ele virou-se. Ao avistar os dois, sua expressão tornou-se furiosa.
— Vocês... de novo! — rosnou, incrédulo e irado.
Bateu o porrete de gelo contra a palma da mão, aproximando-se com ar ameaçador. Machida não era exatamente corajoso, mas engoliu seco, uma fina linha de suor escorrendo pela testa, imóvel, mas aterrorizado.
Tentomon apressou-se, voando para se colocar entre Machida e Hyogamon, já que caminhar na neve não era seu forte. Seu medo era visível, mas ele tentou superá-lo.
— Humanos. Imundos, sujos, nojentos... — Hyogamon cuspiu, avançando lentamente, seus olhos gelados fixos em Machida. — Vou esmagar todos. Um por um.
— Não vai! — Tentomon gritou, disparando um choque de suas asas. Mas o ataque estava fraco, reduzido a uma faísca que se apagou no vento gelado. Tentomon respirava ofegante, exausto, com frio, sede e fome.
O sorriso exagerado de Hyogamon alargou-se, divertindo-se com o esforço inútil do Digimon insectóide. Com um golpe do porrete, Tentomon foi atingido antes que pudesse reagir, seu corpo sendo arremessado como uma bola e caindo na neve.
— Tentomon! — Machida gritou, a voz falhando.
Correu em direção ao amigo, mas Hyogamon agarrou seu ombro no caminho. Machida olhou para trás lentamente, a expressão cada vez mais tensa. Seus óculos caíram na neve enquanto ele encarava o Digimon, sem conseguir articular palavras.
— Você vai sentir o que merece! — Hyogamon ergueu o braço, energia gelada concentrando-se em seu punho.
Machida não fechou os olhos, mesmo com medo. Seu estômago embrulhou-se, a voz presa na garganta. Sentia-se perdido desde que chegara àquele lugar estranho. Tudo estava bem nas primeiras horas de suas férias, mas então acabara ali, contra sua vontade.
Pensou em seus pais e como reagiriam ao seu desaparecimento. Talvez eles estejam preocupados, embora ele não tenha certeza. A culpa pesava nele. As palavras que dissera ainda ecoavam em sua mente, assim como a expressão de seus pais ao ouvi-las.
Tudo o que Machida queria era deitar-se em uma rede, tomar um suco gelado e relaxar por horas. Ou, pelo menos, era o que diria se alguém perguntasse.
Seu único desejo real era que a culpa diminuísse, mesmo que um pouco.
Seus olhos encheram-se de lágrimas, e, com um grito, pegou o canivete com as mãos trêmulas.
Com um movimento rápido, as lâminas estenderam-se com um clique, refletindo seu rosto tenso. Correu em direção a Hyogamon, pronto para o que viesse.
— Não mais... — Tentomon murmurou, levantando-se com dificuldade. — Não!
Um brilho cintilante envolveu Tentomon, que ergueu-se voando cambaleante. Machida viu o clarão pelo canto do olho, e os cantos de sua boca curvaram-se levemente. Hyogamon cobriu os olhos, resmungando irritado.
— Machida!
Enquanto o brilho intensificava-se, Tentomon voou em direção a Machida, seu corpo transformando-se visivelmente, crescendo. Em segundos, a digievolução completou-se.
— Kabuterimon! — bradou, com voz grave, agarrando Machida momentos antes que o golpe de Hyogamon o atingisse.
— De novo... aconteceu de novo! — Hyogamon gritou, esfregando a cabeça com raiva.
Kabuterimon era um Digimon bípede com quatro braços, corpo azul e músculos negros nos membros e tronco. Sua cabeça não tinha olhos, apenas um capacete preto com um longo chifre. Possuía dois pares de asas grandes e um ferrão na pélvis.
Olhou brevemente para Machida antes de focar em Hyogamon, que saltou, impulsionando-se com um chute. Kabuterimon esquivou-se do porrete e agarrou o punho do inimigo com uma de suas mãos, apertando com força — Hyogamon gritou de dor, pendurado no ar, agitando-se.
Kabuterimon arremessou-o para cima e, com um movimento rápido, lançou lâminas de ar comprimido de seu chifre. O ataque atingiu Hyogamon, que caiu com um baque, ficando soterrado na neve, seu corpo marcado por cortes.
Enquanto voava de volta ao monte com Machida, Kabuterimon notou o rapaz guardando o canivete. Quando Machida enxugou as lágrimas e sorriu, erguendo os polegares, Kabuterimon acenou em silêncio, repetindo o gesto com uma de suas mãos.
Ao pousar perto de Takasaki e Betamon, a sombra grande e o barulho das asas chamaram a atenção deles. Os dois olharam para cima, boquiabertos, entre maravilhados e tensos.
Machida saltou dos braços de Kabuterimon, quase tropeçando, mas apoiando-se em uma árvore. Quase no mesmo instante, Kabuterimon regrediu, e Tentomon reapareceu, respirando pesadamente.
— Você está bem? — Machida perguntou, preocupado.
— Sim, só... cansado — Tentomon respondeu, e Machida pegou-o nos braços com cuidado.
Virou-se e começou a caminhar, olhando para trás como se esperasse que os outros o seguissem. Takasaki e Betamon encolheram os ombros, ainda confusos, mas acompanharam-no.
— O que houve com eles? — Betamon sussurrou para Takasaki, parando por um instante.
— Não sei, mas deixa pra lá — Takasaki respondeu, enfiando as mãos nos bolsos.
Betamon acenou e continuou andando.
Machida sorriu, aparentemente tendo ouvido, mas ignorou o comentário. E o grupo seguiu adiante, ainda sem rumo, mas com seu objetivo claro em mente.
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