Digimon Final
4 Quando o Aço Acorda com Fome
Em um deserto árido, uma tempestade de areia se formava algum tempo após o anoitecer. No meio daquele caos, Digimons se escondiam, fugindo dali com nítida pressa. Caminhando contra a ventania, uma grande sombra se aproximava, sua aparência oculta pela poeira que envolvia o deserto e pela escuridão da noite, seus passos retumbantes deixando pegadas que logo desapareciam, soterradas por mais areia. No centro da tempestade, a figura seguia avançando quase mecanicamente, e um brilho vermelho metálico reluzia de forma quase imperceptível. No que parecia ser seu ombro direito, alguém muito menor estava sentado, sua silhueta também encoberta pela névoa de grãos. Uma risada animada e juvenil ecoou, acompanhada por um grito que transbordava alegria e esperança.
— Vamos em frente, sem pressa — disse a figura menor, sua voz quase abafada pelo rugido da tempestade, que só aumentava. Colocou as mãos nos óculos de aviador que pendiam de seu pescoço, erguendo-os e ajustando-os sobre os olhos, protegendo-se da areia. As lentes, antes empoeiradas, reluziram com o reflexo prateado da lua enquanto seu sorriso se alargava. — Mantenha o ritmo, Golemon!
A criatura de porte imponente, chamada Golemon, soltou um rugido estrondoso que pareceu dispersar a tempestade por alguns instantes, sem nunca interromper sua marcha. Pelo que era possível discernir antes que a poeira se fechasse novamente, Golemon era uma criatura bípede com o corpo formado por rochas amarelas, membros e articulações presos por cordas brancas. Seus olhos vermelhos brilhavam sob uma máscara de metal, presa por um cinto marrom que cobria a parte superior de seu rosto. Seus braços eram longos o bastante para que suas mãos tocassem o chão mesmo quando estava ereto, movendo-se com firmeza. E sobre seu ombro direito, balançando as pernas com descontração, estava um humano — muito provavelmente, o parceiro daquele Digimon.
O rapaz era baixo e de constituição esbelta, talvez levemente atlética. Seu cabelo era tão curto que quase parecia raspado, e uma bandana cobria sua cabeça. Seus olhos estavam escondidos atrás de um acessório marcante: óculos de aviação.
Hibino olhou para o dispositivo em sua mão, onde pequenos pontos piscavam em uma tela esverdeada, semelhante a um radar. Respirou fundo, sua expressão endurecendo. Com um braço junto ao corpo, segurando o aparelho, e o outro apoiado na máscara de Golemon, ele inspira profundamente antes de acenar para si mesmo, como se buscasse coragem.
Olhando para Golemon pelo canto do olho, os lábios de Hibino se curvaram levemente, mas logo seu rosto assumiu um ar de concentração.
— Continue em frente. Depois, vire à esquerda, no mesmo ritmo — ordenou, sua voz baixa, mas firme, como uma instrução que não admitia questionamentos.
Golemon obedeceu sem hesitar. Hibino ergueu os olhos para o céu noturno, observando as estrelas que iluminavam seu caminho enquanto ele se aproximava de seu objetivo.
Não muito longe daquele deserto, no interior de uma estrutura que aparentava ser uma fábrica, suas salas e corredores estavam quase totalmente escuros, iluminados apenas pelo brilho fraco e amarelado de lâmpadas incandescentes empoeiradas, que piscavam de maneira irregular.
O ruído de máquinas realizando movimentos repetitivos em várias das salas daquela fábrica, produzindo um conjunto de peças estranhas de forma incessante, com um maquinário de estética peculiar, tornava o ambiente ainda mais inquietante, talvez até um pouco amedrontador. O odor quase fétido do óleo de motor misturava-se ao cheiro forte de algo semelhante a desinfetante, enquanto o som de engrenagens girando umas contra as outras, embutidas nas paredes, ecoava de forma rítmica. Junto a isso, havia o ruído reconhecível de passos lentos sobre o chão — completamente revestido por um piso de aço.
Naquela escuridão, uma figura adentrou um dos corredores, seu rosto iluminado de forma tênue pelo brilho das lâmpadas amareladas. Mesmo assim, seu rosto permanecia parcialmente oculto, pois o capuz de sua blusa moletom roxa estava erguido, cobrindo sua cabeça. Era possível distinguir mechas de cabelo ondulado e uma expressão tensa. Suas mãos estavam enfiadas nos bolsos frontais da blusa confortável. Seu pescoço moveu-se enquanto olhava brevemente para os lados antes de continuar a caminhar sem pressa, seus tênis produzindo um som suave contra o metal.
Sobre o ombro direito da figura encapuzada, equilibrava-se um Digimon canino bípede, com pelo branco listrado de verde na clavícula, patas e pontas das orelhas — estas longas e desfiadas, sua característica mais marcante. Ele possuía um pequeno chifre na testa e membros curtos, lembrando um coelho. O Digimon, de nome Terriermon, mantinha-se firme no ombro de seu companheiro, segurando-se ao pescoço dele com uma das orelhas. Fungou o ar, como se estivesse farejando algo.
— Só sinto óleo, desinfetante… — Terriermon disse, fazendo uma careta. — Ugh, que cheiro horrível! Odiei totalmente, Tanoue.
O rapaz encapuzado, Tanoue, soltou uma risada breve antes de fixar o olhar no corredor à sua frente, onde um brilho estranho piscava irregularmente na escuridão, vindo de uma porta de aço danificada e marcada por cortes. Ele engoliu em seco, tirando uma das mãos do bolso para segurar uma lanterna. Ao pressionar o botão com o dedo, um feixe de luz iluminou a escuridão além da porta. Os olhos de Tanoue arregalaram-se ao distinguir uma figura alta, de aparência androide.
— Um Andromon…? — Terriermon indagou, sua voz mais curiosa do que tensa.
Andromon era um Digimon mecânico de estrutura humanóide, com grande parte do corpo coberta por uma armadura de aço cromado. Sua perna direita estava quase totalmente exposta, com uma aparência corroída. Seus braços eram protegidos por peças metálicas, e ombreiras do mesmo aço cromado completavam o visual. As mãos, largas e com dedos alongados, pareciam afiadas como lâminas. Um capacete semelhante a uma caveira cobria a parte superior de seu rosto, ocultando seu cérebro. Andromon observava Tanoue e Terriermon em silêncio, sua expressão estóica, porém aterrorizante.
Quando o andróide avançou, os dois tensionaram-se. Porém, Andromon desabou no chão com um baque estrondoso, seus olhos escurecendo como se tivessem se apagado. Um apito agudo, semelhante ao de um aparelho desligando por falta de energia, ecoou, claramente vindo dele. Tanoue aproximou-se com cautela, cutucando o dorso metálico de Andromon com o dedo antes de iluminar seu rosto com a lanterna, sua expressão confusa, mas também curiosa.
— Está morto? — Tanoue vocalizou a pergunta que pairava em sua mente.
Terriermon saltou de seu ombro, aterrissando no chão, e caminhou até Andromon. Cutucou-o com a pata antes de parar.
— Acho que ele está sem energia. Coitado. Como vamos acordá-lo? — Terriermon perguntou a Tanoue, que apenas encolheu os ombros.
— Não sei como. Mas se ele é uma máquina e precisa de carga, talvez haja uma forma de recarregá-lo — Tanoue respondeu, seu tom pensativo. Olhou para a porta de aço danificada à frente, a entrada da sala de onde Andromon emergira. — Talvez haja uma tomada ali dentro.
— Talvez haja! Vamos! — Terriermon gritou, apressando-se para entrar na sala.
Tanoue suspirou, inclinando-se para frente e segurando Andromon pelos braços, arrastando-o com certa dificuldade. Após algum esforço, conseguiu levá-lo para dentro da sala, que estava escura como breu e estranhamente silenciosa, com apenas o som de seus passos e o arrastar do corpo metálico de Andromon ecoando. Tanoue posicionou o androide próximo a uma parede, sentado, com as costas apoiadas nela. Para sua conveniência, notou uma tomada ao lado, com um cabo consideravelmente longo conectado.
De repente, a sala iluminou-se. Tanoue olhou para trás, alarmado, e viu Terriermon com uma das orelhas próxima a um interruptor na parede, em pé sobre uma mesa. Terriermon pulou para baixo, aproximando-se de Tanoue com energia e fixando os olhos em Andromon, depois no cabo, como se esperasse que ele o conectasse a qualquer momento.
Tanoue respirou fundo, balançando a cabeça, levemente estressado. Acalmou-se, murmurando uma sequência de números. Mesmo achando que poderia ser uma má ideia, não queria deixar Andromon sem ajuda. A situação fazia-o lembrar de quando ele mesmo precisara de auxílio e fora ignorado, como se não existisse.
Com as mãos tremendo levemente, Tanoue segurou o cabo de energia, que era tão pesado quanto parecia e consideravelmente comprido. Terriermon ajudou, levantando-o com as duas orelhas. Juntos, conectaram o plugue na região traseira do pescoço de Andromon, alimentando-o com energia.
A dupla observou, aguardando. Pouco depois, os olhos turvos de Andromon iluminaram-se, sinalizando seu despertar conforme a energia fluía. Sua expressão permaneceu estóica, como antes, mas havia algo indescritível nela que não conseguiram identificar.
Subitamente, Andromon moveu-se, levantando-se da posição sentada, assustando-os. Enquanto Tanoue e Terriermon afastavam-se com passos lentos, Andromon ergueu o braço, sua mão em forma de garra girando em velocidade impressionante. No instante seguinte, balançou-a, disparando uma lâmina de energia contra os dois.
Alarmados, mas percebendo a hostilidade de Andromon um pouco antes, Tanoue e Terriermon conseguiram esquivar-se, abaixando-se no chão. Tanoue soltou uma risada forçada, reconhecendo que aquela realmente fora uma má ideia. Terriermon compartilhava do sentimento, mas estava furioso com Andromon. Ambos estremeceram ao ouvir um estrondo, virando-se para ver a lâmina de energia atingir uma parede, desintegrando-a como grãos de areia ao vento. Engoliram em seco, mais apreensivos do que nunca.
Percebendo uma chance de escapar, Tanoue agarrou Terriermon com pressa e correu pela passagem aberta pelo golpe de Andromon. Quase tropeçou algumas vezes no chão liso, enquanto o som de passos pesados o alertava de que Andromon o perseguia, ainda que lentamente.
— Eu sabia que era uma má ideia ajudar esse… esse tonto! — Terriermon reclamou.
— “Tonto”? Ele não era um coitado? — Tanoue retrucou, sorrindo de forma forçada, tentando aliviar a tensão.
— Isso não importa… Ei, ei, ele está vindo! — Terriermon alertou, olhando para trás e vendo Andromon aproximar-se cada vez mais. Seu tom tornou-se preocupado. — Corre, Tanoue!
— É exatamente o que estou fazendo! — Tanoue respondeu, ofegante, mas sem parar.
Ao virar em um corredor, Tanoue pisou acidentalmente em uma viga de aço, tropeçando e caindo. Ao levantar-se, percebeu uma lâmina de energia passar a centímetros dele. Mesmo com uma dor no tornozelo, ignorou a explosão causada pelo golpe em uma máquina próxima e continuou correndo.
Terriermon encarou Andromon antes de saltar dos braços de Tanoue, que virou-se, alarmado.
— O que você está fazendo? — Tanoue perguntou, temeroso.
— Vou lutar com ele, é claro — Terriermon respondeu, sem desviar o olhar do androide.
— Lutar? — Tanoue repetiu, incrédulo, rejeitando a ideia. — Sem chance! É arriscado demais.
— O que mais eu deveria fazer, então? — Terriermon retrucou, severo. — Tenho que lutar. É meu dever.
Tanoue piscou, esfregando a testa com a mão e balançando a cabeça, cansado. Percebeu que não convenceria Terriermon a recuar. Ao estudar sua expressão, viu algo raro: teimosia, persistência. Uma determinação que lembrava a sua própria.
— Não me impeça — Terriermon declarou, firme.
Tanoue cerrou o punho esquerdo com força, depois relaxou-o. Inspirou profundamente, fechando os olhos por um momento. Ao abri-los, encarou Terriermon, que mantinha o mesmo olhar resoluto.
— Quem sou eu para impedir isso? — Tanoue sorriu, voltando-se para Andromon, que girava a mão, preparando outro golpe devastador.
Tanoue pegou algo do bolso, segurando um dispositivo na palma da mão.
— Perguntar se você está pronto seria ridículo, pois já sei a resposta — murmurou. — Mas pergunto mesmo assim. Pronto?
Terriermon não respondeu, apenas acenou com a cabeça, resmungando em concordância.
Assim que Andromon disparou a lâmina de energia, um brilho intenso emanou da tela do dispositivo, vibrando na mão de Tanoue. O clarão envolveu Terriermon como um casulo, transformando-o em algo maior, mais forte e selvagem.
Quando a luz dissipou-se, um novo Digimon estava ali, com um braço mecânico estendido. Era um canino bípede, semelhante a um coelho, de pelo verde, com marcas de bigodes nas bochechas e um diamante na testa, abaixo do chifre. Usava manoplas que lembravam mini armas com extremidades móveis e vestia jeans presos por um cinto marrom, com carregadores de balas cruzando o peito.
Enquanto a lâmina de energia de Andromon avançava, tiros ecoaram quando o Digimon — agora Galgomon — disparou repetidamente contra o andróide, rindo de forma quase alegre. Esquivou-se do golpe com um salto quase até o teto, aterrissando com agilidade. Tanoue abaixou-se, evitando a lâmina, que destruiu outra parede em uma explosão. Ele protegeu-se atrás de escombros, mas manteve os olhos na luta.
As balas atingiram Andromon, fazendo seu corpo metálico tremer, mas ele permaneceu de pé. Galgomon continuou atirando, imitando o som dos disparos com a boca.
— Ele é resistente — Tanoue observou, até que seus olhos pousaram no cabo ainda conectado a Andromon. Uma ideia surgiu. — Ei, Terriermon — ou seja lá seu nome agora — cubra-me! Continue atirando. Eu cuido do resto.
Galgomon assentiu, mantendo o fogo. Tanoue rastejou pelo chão, aproximando-se cautelosamente. Quando chegou perto o suficiente, chamou a atenção de Andromon com gestos e uma careta provocante.
— Ei, lata velha! Aposto que não me pega nem tentando. Vai encarar ou tá com medo? — provocou, antes de correr para outro corredor.
A cabeça de Andromon gira, movendo-se na direção de Tanoue. Apesar de sua expressão estóica, ele parecia ter caído na provocação, provavelmente sentindo-se humilhado. No momento em que ele começa a andar, seus passos mais rápidos do que antes, o cabo conectado à parte de trás de seu pescoço se estende cada vez mais à medida em que ele avançava. Mesmo enquanto era atingido pelos projéteis continuamente disparados por Galgomon, a velocidade de Andromon não tinha sido muito reduzida.
Quando Andromon caminha e o cabo se estica, seus olhos focados na figura menor, ele de repente para, como se estivesse sendo puxado para trás, após caminhar por um determinado número de metros. O cabo de energia conectado a Andromon parecia ter se estendido até seu comprimento máximo.
Andromon estendeu seus braços, buscando, em vão, agarrar Tanoue, que estava parado na frente dele, abafando o riso com as costas da mão. Enfim, Andromon força seu corpo a dar um próximo passo. Entretanto, o cabo se desprende de seu corpo e cai no chão.
Os olhos de Andromon escurecem, nublando-se, e ele caiu, seu corpo se chocando contra o chão com um baque, os cartuchos de balas ao redor dele. Estava novamente fora de funcionamento.
Tanoue soltou um grito animado, erguendo o braço para cima com o punho levantado, dando um soco no ar em comemoração. Galgomon se aproxima, seu braço mecânico finalmente parando de atirar, e o abaixa lentamente, percebendo que a ameaça tinha sido neutralizada. Então, Tanoue respira fundo, se acalmando. Olhou para Galgomon, e sorriu.
— Alô, alô? O que houve aqui? — uma voz desconhecida interrompeu.
Tanoue e Galgomon viraram-se, avistando um Golemon de grande porte. Um rapaz pulou de seu ombro, aterrissando com os óculos de aviador pendurados no pescoço. Ele observou a cena: um humano, um Digimon em pé, outro caído e projéteis espalhados. Seu olhar seguiu o cabo estendido pelo corredor.
Tanoue e Galgomon piscaram, confusos, enquanto o recém-chegado — Hibino — murmurou algo, como se compreendesse a situação. O Golemon encolheu, transformando-se em um Gotsumon — um Digimon humanoide com corpo feito de pedras cinzentas. Possui olhos amarelos e duas pedras na cabeça que lembram orelhas de urso, três dedos em cada mão e três dedos em cada pé. Gotsumon fica ao lado de Hibino, olhando-os com severidade.
Longe dali, Takasaki e Machida, acompanhados por Betamon e Tentomon, dormiam pacificamente em uma caverna. Os primeiros raios da manhã iluminaram o local, despertando-os lentamente. Takasaki cobriu os olhos, sorrindo ao novo dia.
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