Digimon Final
5 Onde o Céu se Rasga
Caminhando para fora da caverna, sua entrada iluminada pelos raios de sol que passavam por entre as folhas das árvores, Takasaki se alongou antes de seguir em frente, aproximando-se de um riacho próximo.
Molhou o rosto, lavou os olhos. Agachado próximo à água, ele observou seu reflexo ondulado no riacho repleto de pedras de diferentes formas, cores e tamanhos. Imaginou que estava consideravelmente diferente de antes.
Aproximou os indicadores dos cantos da boca e os elevou, forçando um sorriso estranho. Então, abaixou as mãos, enfiando uma no bolso interno da jaqueta, tirando outra máscara descartável.
Rapidamente cobriu a parte inferior do rosto antes de se levantar, colocando as mãos nos bolsos. Caminhou de volta para a caverna — mas não antes de colher alguns frutos de um arbusto próximo.
Quando chegou, sentou-se no chão, com as costas apoiadas em uma das paredes, abraçando os joelhos e comendo uma das frutas que pegara, ainda se perguntando se eram venenosas ou não.
O gosto adocicado, mas levemente ácido, preencheu seu paladar por alguns instantes. Enquanto mastigava e cuspia as sementes ao lado, observava a cena à sua frente.
Machida estava deitado de bruços no chão da caverna, um fio de saliva escorrendo de sua boca entreaberta, sua camisa colorida mais suja do que o normal. Tentomon repousava não muito longe dele, dormindo silenciosamente, agachado, suas antenas caídas.
Olhando para a direita, Takasaki viu Betamon acordando lentamente. Quando o Digimon despertou, Takasaki estendeu-lhe uma das frutas, e Betamon, faminto, engoliu e mastigou devagar, saboreando-a com prazer.
O rapaz entregou as outras frutas que havia colhido para Betamon, logo antes de ajustar sua máscara. Em algum momento, Machida sentou-se e bocejou, levantando-se rapidamente. Olhou para baixo, vendo Tentomon ainda dormindo, e cutucou o inseto levemente com a ponta do sapato. As antenas de Tentomon se moveram, seus olhos se abriram e ele despertou, um pouco confuso, mas ergueu-se e olhou em volta, percebendo os outros três já acordados.
— Bom dia — disse Tentomon, sua voz ainda sonolenta. Acenou com uma de suas garras, os movimentos lentos.
— Bom dia — respondeu Takasaki, seu tom tranquilo.
— Bom dia aos três — cumprimentou Machida, alongando-se e esticando os braços com satisfação antes de ajustar os botões de sua camisa floral.
Betamon, por sua vez, resmungou algo incompreensível enquanto mastigava as frutas, mas que soava como uma saudação.
— Mastigue e engula antes de falar — advertiu Takasaki.
Betamon mastigou apressadamente, engolindo os pedaços com um gole, antes de assentir.
— Desculpe — disse, sua voz carregada de culpa.
Takasaki não respondeu verbalmente, mas emitiu um som afirmativo, como se aceitasse as desculpas. Cruzou os braços e olhou para Machida, uma das sobrancelhas arqueadas, sua expressão dúbia.
— O que foi? — perguntou Machida, piscando, confuso.
— Você não está com seus óculos de sol — explicou Takasaki, seu tom prático, a voz levemente abafada pela máscara. — Os perdeu em algum lugar?
Machida então percebeu que realmente estava sem os óculos. Suas mãos percorreram a camisa, o rosto, os bolsos da bermuda, mas não os encontrou. Takasaki observou, em silêncio, confirmando sua suspeita. Machida suspirou, levemente abatido.
Sua mente voltou a um dos momentos do dia anterior que o deixara tenso. Lembrou-se de como Hyogamon o agarrou pelo ombro bruscamente, e de como seus óculos caíram em algum momento antes ou depois disso. A memória já parecia um pouco turva — e ele se perguntou se era por causa do sono ou porque o momento fora tão impactante que os detalhes haviam se perdido. No fim, encolheu os ombros, decidindo ignorar o assunto por completo.
Tentomon, observando aquilo, sentiu-se levemente culpado. Quisera ter pegado os óculos de sol, mas não os viu cair e nem percebeu que faltavam em Machida no dia anterior. Estava distraído, e isso o frustrou brevemente. Porém, refletiu melhor e concluiu que não havia motivos reais para se culpar.
— Distração é algo normal — murmurou Tentomon, assentindo para si mesmo, sentindo-se um pouco menos culpado.
Enquanto Machida olhava para Tentomon, confuso, Takasaki limpava o focinho sujo de Betamon com um lenço. Ao terminar, aprovou com um aceno de cabeça, erguendo o polegar para Betamon, que riu, seu sorriso alargando-se.
— Bem, pessoal — chamou Machida, atraindo a atenção deles, que o encararam, aguardando que continuasse. Respirou fundo, levemente nervoso, mas prosseguiu. — Não vamos ficar parados por muito tempo, certo? Temos algo pendente. Encontrar mais pessoas.
— Andamos muito. Por horas, dias… E ainda nada. Já estou começando a achar que somos os únicos aqui — disse Takasaki, aparentemente discordando da ideia. — Mas vou com você. E você, Betamon?
— Vou te seguir. Alguém tem que te manter seguro, não? — respondeu Betamon, sua expressão serena.
— Me manter seguro, hein? — repetiu Takasaki, mas concordou. — Tudo bem, então.
— E eu farei o mesmo por você, Machida — disse Tentomon, levantando-se do chão e voando baixo ao redor de Machida.
— Parece que temos um plano em andamento, então — comentou Machida, sorrindo levemente.
Caminhou para fora da caverna, seguindo Tentomon, que já voava em direção à saída. Olhou para trás, seus olhos encontrando Takasaki e Betamon, e fez um gesto com a cabeça, como se os chamasse. Ambos trocaram um olhar antes de segui-lo.
Percorreram um caminho que margeava o riacho, o sono dissipando-se aos poucos conforme avançavam. Tentomon parou subitamente, olhando para uma árvore. Animado, voou até lá e arrancou uma fruta que Takasaki e Machida identificaram como uma fatia grande de melancia, porém de cor rosa. Observaram Tentomon comendo-a e se entreolharam, as sobrancelhas arqueadas em dúvida.
— Uma melancia fatiada crescendo em árvores? — vocalizou Takasaki, seu tom cético, genuinamente confuso. — E é rosa?
— Melhor ignorar isso — sugeriu Machida, balançando a cabeça, embora ainda olhasse para Tentomon devorando a fruta e depois para a árvore, como se não conseguisse ignorar aquela visão.
Takasaki encarou os dois antes de olhar para Betamon. Apontou para uma das frutas, e Betamon balançou a cabeça em negação. Takasaki assentiu, abaixando o braço. Os dois, junto com Machida, aguardaram Tentomon terminar de comer antes de continuarem. Tentomon parecia mais que satisfeito. Abriu as asas e elevou-se do chão, voando próximo ao grupo em velocidade moderada.
Caminharam por mais alguns minutos, e desde o início da jornada, Machida fazia pequenos cortes nas árvores que passavam próximas. Takasaki já notara essa ação desde o dia anterior, mas optara por não comentar.
— Bem conveniente — disse Takasaki, seu tom aprovador, a voz rouca levemente abafada pela máscara.
Machida sorriu brevemente, um pouco orgulhoso, antes de concentrar-se novamente. Tentomon moveu o pescoço, observando as árvores próximas, seus olhos brilhantes fixos nos pequenos cortes nos troncos. Betamon, por outro lado, parecia desinteressado, seguindo adiante sem prestar atenção.
Ao perceber que os outros já estavam mais à frente, Tentomon pousou no chão e correu para alcançá-los. Machida riu, achando a cena um tanto engraçada. Tentomon resmungou, aborrecido, erguendo uma das garras na direção de Machida como uma ameaça silenciosa. Então ele suspirou, suas antenas caíram, mas continuou andando, mesmo que um pouco desanimado.
Os quatro seguiram o mesmo caminho, ainda próximos ao riacho. De repente, depararam-se com uma montanha no final do percurso, onde uma pequena cascata despejava água no riacho. Eles trocaram olhares, questionando-se sobre o que fazer.
— Subir a montanha para ter uma vista melhor do terreno ou contorná-la para procurar outro caminho? — perguntou Takasaki a Machida, que colocou uma mão no queixo, pensativo.
— Contornar seria mais seguro. Poderíamos cair se tentássemos escalar, mas… — Olhou para a esquerda, pensativo. — Só vejo arbustos cheios de espinhos naquela direção. Andar por ali seria… doloroso.
Takasaki observou o local, notando os espinhos salientes naquela densa vegetação de tamanhos irregulares. Sua expressão tornou-se tão pensativa quanto a de Machida. No fim, ambos pareciam ter chegado à mesma conclusão.
— Vamos escalar, então — decidiu Takasaki, e Machida concordou. Voltou-se para Betamon e Tentomon. — O que vocês acham?
— Escalar essa montanha enorme pode ser difícil para mim, mas darei meu melhor — disse Betamon, encorajando-se.
— Não sei se consigo voar até lá em cima — admitiu Tentomon, parecendo nervoso.
O inseto olhou para Machida como se buscasse ajuda. Machida encarou-o e assentiu, encorajando-o. Tentomon respirou fundo, suas garras próximas ao corpo, fechando os olhos por um instante.
— Mas vou tentar — disse Tentomon, parecendo um pouco menos nervoso.
Machida sorriu, feliz por Tentomon estar disposto a tentar. Voltou-se para a montanha e aproximou-se, colocando um pé sobre uma pedra e subindo. Agarrou uma saliência e puxou o corpo para cima, continuando devagar, sem pressa.
Seus olhos arregalaram-se quando Tentomon o puxou para cima pela gola da camisa floral, mas sorriu, afastando as mãos e os pés das pedras, deixando-se ser carregado — confiante de que não cairia.
Tentomon parecia cansado, mas não reduziu o esforço. Suas asas moviam-se rapidamente enquanto voava para o alto, segurando Machida com as quatro garras, sem apertar demais. Quando percebeu, já estava no topo. Pousou Machida no chão, afastado da borda, e caiu sentado, exausto.
Machida levantou-se e encarou Tentomon por um momento, erguendo os polegares. Tentomon suspirou, mas pareceu se alegrar por ter conseguido.
Enquanto isso, Takasaki lutava para escalar os primeiros metros. Diferente de Machida, que parecia ter experiência, Takasaki não lembrava de ter escalado nada além do escorregador do parque de sua infância. Mas não desistiu. Continuou, gotas de suor escorrendo pela testa, sua expressão tensa.
Betamon observava de longe, vendo seu esforço, antes de olhar para suas próprias garras. Desanimou-se, achando que não conseguiria. Mas balançou a cabeça e correu até lá, começando a escalar, usando as garras para se impulsionar, agarrando-se às pedras como um escalador improvisado.
Takasaki não precisou olhar para baixo para saber que Betamon quase o alcançava. Sorriu e continuou, sua respiração irregular. Tinha removido a máscara antes de começar, temendo não conseguir respirar direito com ela.
De repente, um grasnado ensurdecedor desorientou Takasaki. Seu aperto nas pedras afrouxou, e as mãos soltaram-se. Ele caiu, desesperando-se.
Na queda, porém, foi agarrado inesperadamente pela gola da jaqueta. Sentiu garras afiadas e firmes segurando-o.
Olhou para cima e seus olhos encontraram os azuis de uma ave de fogo gigantesca, semelhante a uma fênix. Seu corpo era envolto em chamas alaranjadas, exceto pela boca com dentes salientes e os pés com cinco garras cada.
A ave se afastava da montanha com Takasaki preso. Ele engoliu em seco, temeroso.
Parecia que o Digimon decidira que ele seria um bom café da manhã.
Quando a ave apertou seu pescoço, Takasaki sentiu a respiração faltar. Sua visão turvou-se, e uma tontura incômoda tomou conta dele.
Em meio à visão embaçada, viu um clarão de luz irradiando da montanha. Quando suas pálpebras abriram e a visão clareava, ele avistou um enorme e comprido animal marinho, Seadramon, rugindo, voando em sua direção — e na direção da ave, Birdramon. Seus olhos vermelhos pareciam reluzir.
Com seu corpo serpentino, Seadramon envolveu Birdramon no ar, que tentou soltar-se, mas contorceu-se no aperto, sufocando tanto quanto Takasaki, que agitava-se no aperto da ave gigantesca.
Enquanto caíam, Seadramon cuspiu uma explosão de água congelada no rosto de Birdramon. Parte do gelo derreteu ao tocar as chamas, mas outra parte atingiu seus olhos. Birdramon grasnou de dor.
Na queda, Birdramon forçou as asas a abrirem-se, mesmo sob o aperto de Seadramon. A serpente foi arremessada para longe e se chocou contra os troncos das árvores abaixo. Birdramon bateu as asas e lançou uma chuva de penas brilhantes, que caíram como meteoros, atingindo Seadramon, que gemeu de dor.
Enquanto Birdramon recuperava o equilíbrio, Takasaki tentou soltar-se das garras da ave, puxando-as com os braços. Quando conseguiu, ao fazer cócegas nas garras de Birdramon, foi libertado e caiu, respirando com dificuldade.
Seadramon voou ágil, e Takasaki aterrissou sobre seu corpo serpentino, perto da cabeça. Takasaki riu, mesmo que tonto. Segurou-se nas barbatanas de Seadramon enquanto o mesmo girava no ar, a visão o lembrando de um dragão escalando uma cascata. Quase no mesmo instante, Seadramon expeliu uma rajada de gelo contra Birdramon, que foi atingida em cheio antes de se chocar contra as pedras da montanha e cair, rosnando de dor, seu rosto congelado.
— Isso! — comemorou Takasaki em voz baixa, sorrindo.
O rapaz olhou para Seadramon, que voava ao redor da montanha lentamente, e acenou com a cabeça, murmurando um "bom trabalho". Seadramon rugiu, animado, antes de abaixar a cabeça ao se aproximar do topo daquela montanha. Enquanto tentava não olhar para baixo, Takasaki deslizou de seu pescoço como se fosse um escorregador, aterrissando no chão. Tropeçou, ainda um pouco tonto, mas recuperou o equilíbrio.
Machida e Tentomon, que assistiram a tudo, suspiraram aliviados. Takasaki massageou o pescoço, resmungando de dor. Olhou para o lado e depois para baixo. Betamon aproximou-se, sorrindo cansado.
— Obrigado — disse Takasaki, abaixando a mão.
— Só fiz meu dever — respondeu Betamon, sua voz cansada, mas feliz.
Takasaki então olhou brevemente para Machida e Tentomon antes de seguir caminhando. Betamon acompanhou-o de perto.
Observando o céu azul ganhar tons alaranjados com o entardecer, Takasaki cobriu os olhos com a mão e sentiu que aquele lugar não era tão ruim quanto imaginara.
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