Digimon Final
6 Nenhum Perdão, Apenas Cinzas
Naquela fábrica, enquanto a manhã de um novo dia se iniciava, Tanoue e Galgomon encaravam Hibino e Gotsumon, sentindo-se profundamente confusos. Tanoue, em particular, estava tão perplexo e surpreso quanto emocionado por encontrar outra pessoa naquele lugar desolado. Ele já começava a perder as esperanças de cruzar com mais alguém naquela realidade aparentemente vazia. Hibino, por sua vez, lançou um olhar rápido para Gotsumon, que respondeu com um meneio de ombros despreocupado antes de voltar sua atenção para a dupla que haviam finalmente encontrado após uma longa busca.
Sob o olhar atento de Tanoue e Galgomon, Hibino enfiou a mão no bolso traseiro de sua bermuda e retirou um dispositivo idêntico ao que Tanoue carregava consigo. Segurando o objeto com uma mão, apontou para ele com o dedo indicador da outra, sua expressão mais séria do que antes.
— Isto se chama Digivice — explicou Hibino, seu tom tão grave quanto seu semblante. — Consegui detectar vocês através dele. Há um radar integrado neste aparelho, e aparentemente, ele identificou a localização do seu Digivice. Foi assim que finalmente os encontrei após dias de procura.
Gotsumon cruzou os braços atrás da cabeça, seu rosto estampando um sorriso divertido e levemente provocador.
— E ele fala com tanta naturalidade, como se não tivesse passado dias inteiros correndo atrás desses dois, que pareciam estar pulando de um lugar para o outro — comentou Gotsumon, revirando os olhos.
O sorriso de Hibino esmaeceu ligeiramente, uma veia em sua testa pulsando de irritação. Ele lançou um olhar carregado para Gotsumon, mas o Digimon de pedra apenas bufou, divertido, como se não levasse a sério a frustração do parceiro. Hibino cerrou os punhos por um instante, respirou fundo e voltou sua atenção para Tanoue e Galgomon, já mais calmo. Os dois, por sua vez, observavam toda a interação em silêncio, sem articular uma palavra.
Após absorver a explicação de Hibino, Tanoue olhou para o dispositivo em sua própria mão — o tal Digivice. Surpreendeu-se ao descobrir que aquela pequena peça, que ele julgava ser apenas um instrumento para desencadear digievoluções, possuía um radar interno. O aparelho revelava-se muito mais complexo do que ele imaginara. Nervoso, pressionou um dos botões do Digivice, e a tela antes inativa acendeu, exibindo um mapa simplificado com alguns pontos piscando em meio a um fundo esverdeado e circuitos digitais. Os pontos estavam próximos uns dos outros, levando Tanoue a deduzir que seu Digivice estava detectando o sinal do aparelho de Hibino. Galgomon inclinou-se para olhar, sua curiosidade evidente.
Finalmente, Tanoue guardou o Digivice no bolso interno de sua blusa e concentrou-se em Hibino e Gotsumon. Eles pareciam uma dupla incomum, mas havia uma sincronia entre eles que Tanoue não conseguia decifrar claramente. A lembrança de Golemon, a forma evoluída de Gotsumon, atravessando uma das paredes da fábrica — antes sólidas estruturas de aço, agora vaporizadas pelos ataques devastadores de Andromon, que permanecia imóvel no chão — ainda ecoava em sua mente. Nunca imaginara que um Digimon pudesse atingir tamanho porte, e que Gotsumon, em sua forma atual, fosse tão pequeno em comparação àquela versão poderosa.
Ao observar Hibino por alguns instantes, Tanoue notou os óculos de aviador que adornavam o rosto do rapaz. Eles se destacavam, sem dúvida. Percebeu também que as lentes estavam levemente empoeiradas. Seus pensamentos foram interrompidos quando Gotsumon acenou uma mão diante de seus olhos, chamando sua atenção. O Digimon estalou os dedos de pedra bem à sua frente, com o braço esticado.
— Você parecia absorto em algo importante. Quer compartilhar conosco o que era tão fascinante? — perguntou Gotsumon, abaixando o braço.
Tanoue engasgou nas palavras, visivelmente nervoso. Baixou o olhar para seus próprios tênis.
— Seu par de tênis realmente prende sua atenção, hein? — Galgomon comentou, abafando uma risada com uma de suas orelhas.
Tanoue riu, um som nervoso, e ergueu a cabeça. Seus olhos então se voltaram para a abertura por onde Hibino e Gotsumon haviam entrado. Do lado de fora, um deserto se estendia sob o céu da manhã, o sol ascendendo lentamente no horizonte, banhando a paisagem em tons dourados.
Hibino ajustou os óculos no rosto e, sem cerimônia, virou-se e saiu da fábrica pela mesma abertura. Gotsumon correu para alcançá-lo, apressado.
Tanoue e Galgomon trocaram um olhar antes que Galgomon seguisse o caminho aberto. Tanoue observou o Digimon caminhar para fora, sua silhueta imponente projetando uma sombra larga sobre a areia quando atingida pela luz solar. Ele, no entanto, permaneceu parado por um momento, seus olhos pousados no corpo inerte de Andromon e nos cartuchos de balas espalhados ao redor, disparados por Galgomon. Enfiou a mão no bolso, retirou uma caneta e uma folha de papel arrancada de um bloco de notas, escreveu algo rapidamente e prendeu o papel na parede com um pedaço de fita adesiva. Então, guardou a caneta e o bloco nos bolsos da calça e partiu.
Com o capuz cobrindo sua cabeça, protegendo-o do sol, mas sentindo o calor abafado da blusa naquele ambiente já naturalmente quente, Tanoue puxou o capuz para trás, revelando seus cabelos ondulados e penteados. Enquanto caminhava, transferiu rapidamente os objetos dos bolsos da blusa para sua mochila, que havia recolhido no caminho. A lanterna, o rolo de fita adesiva, o bloco de notas, as canetas, a caixa de fósforos, o toca-fitas portátil e a câmera digital foram todos guardados na mochila, já repleta de outros itens. Por fim, tirou a blusa e amarrou-a na cintura com um nó firme, colocando a mochila sobre um dos ombros. Continuou a caminhar, seus passos hesitantes marcando a areia do deserto, mas os olhares fixos dos outros três não passaram despercebidos. Sentindo-se um pouco mais constrangido, decidiu ignorar a situação e seguir adiante.
— Ainda não nos disse seu nome — Hibino falou, sem se virar. — O meu é Hibino. E o seu?
— Tanoue — respondeu.
— Tanoue… — Hibino repetiu, como se testasse o som do nome, antes de assentir para si mesmo. — Entendido. Tem algum interesse específico? Música, talvez? Aquele toca-fitas parece bem usado.
— Gosto um pouco — Tanoue admitiu. — Uma música que curto bastante é ‘Eye of the Tiger’. Conhece?
Hibino piscou, confuso, e depois balançou a cabeça negativamente.
— Nunca ouvi. É em inglês? Soou como inglês, acho — perguntou, antes de voltar a caminhar.
Tanoue confirmou com um aceno e então olhou para o lado. Galgomon parecia desinteressado no assunto, enquanto Gotsumon — que Tanoue julgava ser normalmente sério, a julgar por seus olhares penetrantes — irradiava uma empolgação infantil, como uma criança solta em uma loja de doces. Tanoue arqueou uma sobrancelha, perplexo.
De repente, Gotsumon começou a disparar uma série interminável de perguntas sobre música, sua curiosidade transbordando. Tanoue tentou responder uma a uma, mas o bombardeio de questões o deixou tonto.
No final, Gotsumon parecia satisfeito com as respostas de Tanoue, especialmente ao ouvir música no toca-fitas que pegara emprestado. Tanoue, por sua vez, sentiu-se orgulhoso ao ver Gotsumon balançando a cabeça no ritmo da batida, compartilhando de seu gosto musical.
Galgomon e Hibino observaram a cena antes de trocar um olhar entre si, igualmente perplexos com aquele desenvolvimento inesperado, mas também um pouco maravilhados.
Nos minutos seguintes, enquanto o grupo avançava pelo deserto, algo sob a areia chamou sua atenção. Ao olharem mais de perto, viram que era metal. Gotsumon aproximou-se e afastou um pouco da areia, revelando o objeto parcialmente enterrado. Acenou para os outros, que se aproximaram.
— São trilhos de trem — Tanoue observou, impressionado. — Mas em um lugar como este?
— É realmente surreal — Hibino concordou, igualmente surpreso.
— Pessoal — Galgomon chamou, apontando com uma de suas manoplas. — Aquilo é uma cidade?
Olhando na direção indicada, os três ficaram atônitos — Tanoue e Hibino mais que Gotsumon. Sem hesitar, Hibino correu em direção ao local, seguido de perto por Gotsumon. Tanoue e Galgomon foram atrás pouco depois.
A cidade era diferente de tudo o que esperavam. Estranhamente silenciosa, como se não houvesse vida ali. As casas de madeira, frágeis e marcadas pelo fogo, sugeriam um incêndio recente. A pequena vila continha apenas algumas construções simples. Os trilhos levavam a uma ferrovia próxima, onde avistaram um vegetal enorme e verde, usando um chapéu de maquinista, encarando-os de longe.
— Um Vegiemon? — Gotsumon murmurou, confuso. — É estranho vê-lo em um lugar assim.
— Aquilo também é um Digimon? — Tanoue perguntou a Galgomon, que confirmou com um aceno.
— Ele não parece hostil — Hibino comentou e, sem pensar duas vezes, correu em direção ao Digimon.
— Hibino, espere! — Gotsumon gritou, correndo atrás.
— Lá vai ele de novo — Tanoue disse, impressionado com a imprudência de Hibino. Relutante, caminhou com Galgomon em direção ao Vegiemon, sem pressa. — Vamos ver no que vai dar.
Ao chegarem, depararam-se com o olhar abatido de Vegiemon, que suspirou, seu chapéu quase caindo. Hibino e Gotsumon piscaram, surpresos.
— Você parece um cachorro abandonado na chuva. O que aconteceu aqui? — Tanoue perguntou, confuso.
— Sou Vegiemon, o responsável por esta ferrovia — ele disse, suspirando novamente. — Era para eu estar trabalhando, para os trens estarem em movimento, para esta cidade estar viva como antes... mas tudo mudou desde que os trilhos foram incinerados e o lugar ficou… bem, assim.
— Incinerados? — Tanoue repetiu. — Como?
— Houve um desentendimento entre dois dos meus funcionários há alguns dias. Um deles era Meramon. Sua função era manter o carvão aquecido. Mas ele desapareceu por dias após a discussão. Quando voltou, ontem à noite, durante a tempestade de areia... — Vegiemon olhou para os vagões do trem caídos sobre a areia, fora dos trilhos, destruídos. Sua voz ficou mais tensa. — Dias antes, estávamos trabalhando normalmente. O outro Digimon, Flarerizamon — aquele com quem Meramon brigara — estava cobrindo seu turno enquanto ele estava ausente. Ele se esforçou ao máximo.
— E o que aconteceu quando Meramon apareceu? — Hibino perguntou, enquanto os outros ouviam atentamente.
— Ele surgiu repentinamente, quando já estávamos perdendo as esperanças de seu retorno. Flarerizamon, que era seu amigo, insistia que ele voltaria. Sentia saudades, queria se reconciliar — Vegiemon continuou. — Meramon caminhou pelos trilhos, parou diante do trem em movimento, bem naquele ponto — apontou com sua bengala de madeira. — Tentei frear, mas... algo aconteceu. Algo que nem meus olhos acreditaram.
Seu olhar perdeu-se no horizonte, como se revivesse o momento. O ambiente parecia transformar-se, transportando-os para aquela noite fatídica...
O trem avançava em direção a Meramon, que permanecia imóvel, sua expressão ilegível à distância, mas revelando fúria de perto. Vegiemon lembrava-se de tentar frear ou desviar os trilhos, mas Meramon agiu com uma velocidade assustadora. Com punhos flamejantes erguidos, seu rosto distorcido pela raiva, ele golpeou a locomotiva antes de saltar sobre os vagões, caminhando sobre o trem. O aço derreteu-se sob seus passos, chamas explodindo em todas as direções, levantando nuvens de areia e fumaça. Tosses ecoaram pelo ambiente. Flarerizamon, um dragão envolto em chamas e com um capacete metálico, emergiu da fumaça, seu corpo carbonizado. Vegiemon lembrava-se de estar paralisado quando o trem tombou, virando-se sobre os trilhos. Então, enquanto tentava se proteger, outra explosão de chamas estilhaçou janelas e portas, derretendo madeira e metal. Vegiemon tossia, evacuando os Digimon dos vagões. Ao descer, viu Meramon e Flarerizamon travando uma batalha furiosa sobre os destroços incendiados. Chamas colidiam no céu noturno, iluminando a tempestade de areia ao redor. Um soco de Meramon arremessou Flarerizamon para trás, mas este contra-atacou... A última lembrança de Vegiemon foi uma explosão ainda mais violenta antes de despertar em uma das casas sobreviventes.
Gotsumon cutucou Vegiemon, trazendo-o de volta ao presente. O Digimon tossiu secamente antes de respirar fundo. Olhou para o grupo, notando suas expressões tensas, e continuou:
— Muitos dos passageiros ficaram feridos quando os vagões tombaram... Meramon desapareceu novamente, mas não antes de forçar Flarerizamon a lutar. Ele perdeu, e isso só piorou sua fúria — Vegiemon narrava com voz pesada, seus olhos ainda parecendo ver as chamas. — O fogo consumiu tudo... amigos, trens, casas... O aço derreteu como se nada pudesse detê-lo, nem mesmo conter sua raiva. A madeira não resistiu a uma única faísca.
— Por sorte, estamos em um deserto. A areia da tempestade ajudou a apagar o fogo. Mas essas casas não aguentariam outra tempestade como aquela. Nem eu — Segurou sua bengala frágil, sério. Após uma pausa, olhou para o grupo. — Alguns de nós sobreviveram, os mais jovens. Outros fugiram. Não os culpo.
O grupo absorveu a história, percebendo que cada detalhe era real demais para ser inventado. Seus olhares pousaram nos trilhos destruídos e no trem despedaçado. Engoliram em seco.
De repente, Galgomon encolheu drasticamente, retornando à forma de Terriermon. Ele escalou Tanoue e equilibrou-se em seu ombro, segurando seu pescoço com uma orelha. Tanoue quase tropeçou, surpreso com o peso, mas recuperou-se. Ao olhar para Vegiemon, teve a sensação de que um pedido estava por vir. E, fosse o que fosse, ele estava disposto a ajudar.
— Sei que acabamos de nos conhecer, nem sequer sei seus nomes, mas tenho um pedido a fazer — Vegiemon disse, com um tom culpado, curvando levemente a cabeça. Ergueu a bengala, apontando para uma direção. — Ali há uma montanha e um túnel. Do outro lado, uma cidade. Se puderem nos ajudar, tragam o máximo de comida que conseguirem carregar. Eu lhes darei o dinheiro necessário. Nossos estoques estão acabando rápido.
— Eu topo — Hibino respondeu quase imediatamente.
Ele e Gotsumon pegaram dois sacos próximos a uma cadeira de balanço, e Vegiemon entregou-lhes uma pilha de notas amarradas com um elástico. Hibino notou que se assemelhavam a dólares. Colocou o dinheiro no bolso, o saco no ombro, e partiu com Gotsumon.
Tanoue e Terriermon observaram-nos irem, e Terriermon acenou com uma orelha. Então, olhou para Tanoue, hesitante. Tanoue respirou fundo antes de falar com Vegiemon.
— Alguém tem que ficar de olho nesses jovens, não é? — disse Tanoue, forçando um sorriso.
Vegiemon concordou, seu semblante iluminando-se, e dirigiu-se a uma das casas menos danificadas. Tanoue seguiu-o. Ao abrir a porta, pisou em um sabonete no chão e escorregou, caindo de costas. Resmungando, olhou para frente e viu um grupo de Digimon jovens rindo em um canto. Tanoue e Terriermon sorriram conspiratoriamente, enquanto Vegiemon parecia constrangido.
Enquanto isso, do outro lado do deserto, Hibino e Gotsumon avançavam por um túnel escuro e abafado. O calor era quase insuportável, como se caminhassem dentro de um vulcão. Quando finalmente saíram do túnel, seus sacos caíram no chão, suas mãos afrouxando o aperto.
A cidade à sua frente era um cenário de destruição. Edifícios desmoronados, concreto derretendo sob chamas azuis brilhantes. No epicentro do caos, uma figura sombria elevava-se, envolta em fumaça. Hibino e Gotsumon distinguiram um braço girando uma corrente de aço, balançando-a no ar. Então, o ser ergueu o braço, e as chamas dispersaram-se com um estrondo. Protegendo os ouvidos, a dupla olhou para cima. Agora, a figura era clara. Gotsumon tremia, seu dedo apontando, seu rosto petrificado de terror. Murmurou um nome, quase inaudível.
— Skull... SkullMeramon? — repetiu, desta vez em voz alta, seu tom carregado de medo. Seus olhos amarelos brilhavam de pavor.
De um dos prédios em ruínas, um Digimon saltou. Vestia calças pretas com padrões flamejantes e botas adornadas com caveiras. Seus braços e torso estavam envoltos em correntes, e uma máscara metálica semelhante a uma caveira cobria seu rosto, revelando apenas olhos vermelhos e cabelos azul-escuros. Chamas azuis dançavam em seu torso.
Ao cair no chão, agachado, sua corrente bateu contra o solo, enviando uma onda de choque que fez a terra tremer. Ergueu-se lentamente, encarou a dupla e riu, enquanto os edifícios continuavam a desabar atrás dele em um espetáculo macabro.
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