Digimon Final

8 Quando a Maré Vira


Em uma praia distante, repleta de coqueiros e palmeiras, uma figura pequena permanecia imóvel, observando por breves instantes as ondas que se chocavam contra as rochas, seus olhos cintilando com uma curiosidade infantil.

Era uma garota relativamente jovem — com marias-chiquinhas nas laterais da cabeça e um vestido vermelho adornado por bolinhas brancas e mangas compridas. Um Digivice estava preso à alça da bolsa grande e verde que ela carregava sobre um dos ombros.

Com uma expressão nervosa e os dedos apertando firmemente a alça de sua bolsa, ela então voltou o olhar para a esquerda, avistando um Digimon com aparência de leão-marinho emergindo das águas com um peixe entre os dentes antes de se aproximar dela.

Ela recuou alguns passos quando a criatura chegou mais perto, sacudindo o corpo bruscamente para se livrar da água salgada. Ao sentir algumas gotas respingarem na barra de seu vestido, ela franziu o rosto, visivelmente irritada, mas conteve a frustração.

Dirigindo-se a uma pedra lisa parcialmente enterrada na areia, a garota abriu sua bolsa e retirou uma toalha, que estendeu sobre a superfície antes de se sentar. Seus olhos acompanhavam o Digimon que se aproximava, cada passo deixando marcas de garras na areia úmida. Ela observou sua aparência em um silêncio estranho, onde apenas o som suave e quase satisfatório das ondas avançando e retrocedendo podia ser ouvido.

A criatura era branca e peluda, sem nariz visível, mas com orelhas compridas, olhos verdes, manchas roxas espalhadas pelo corpo e uma juba alaranjada avermelhada. Possuía garras negras e afiadas, uma cauda semelhante à de uma lontra marinha e um sorriso em forma de "W" com dentes pontiagudos expostos. Olhou para ela por um instante e acenou com uma das patas, engolindo o peixe cru que trazia na boca e mastigando com satisfação. Cuspiu as espinhas na areia em seguida e soltou um arroto breve, abafando-o com uma pata dianteira.

A garota, por sua vez, piscou, inicialmente confusa com a cena, antes de fazer uma careta de nojo, lutando contra a náusea que surgia em sua garganta. Engoliu em seco, respirou fundo com uma mão sobre o peito e, então, bateu o pé direito na areia, cruzando os braços. Seu semblante, antes perplexo, transformou-se em irritação, seus olhos fixos no Digimon aquático, que percebeu seu olhar e a encarou de volta, piscando lentamente.

— O que foi, Mikiko? — perguntou o Digimon leão-marinho, Gomamon, sua voz tão confusa quanto sua expressão. Curioso, cutucou o ombro da garota com uma de suas garras, levemente. — Vamos, fala! Não me deixe morrer de curiosidade.

— Pare com isso, Gomamon. — respondeu a criança, Mikiko, parando de bater o pé, seu tom autoritário.

Gomamon interrompeu as cutucadas e baixou a cabeça, murmurando um pedido de desculpas.

— Bem… — ela começou, hesitante, encarando-o. Sua expressão suavizou-se brevemente ao ver seu comportamento cabisbaixo, mas ela rapidamente abafou esse sentimento, balançando a cabeça em negação, e o aborrecimento retornou ao seu rosto. — Você é nojento, Gomamon. Não gosto disso.

Gomamon sorriu sem graça, seu olhar ainda melancólico. Ficou parado por um momento antes de se afastar, distraidamente arrastando uma pedra pela areia com uma pata, até parar e começar a desenhar linhas na superfície úmida. Mikiko observou de longe, antes de virar o rosto, resmungando baixinho.

Foi então que um Digimon surgiu no céu, voando para baixo, batendo suas asas sob os olhares perplexos de Mikiko e a expressão confusa de Gomamon.

— Um PicoDevimon…? — murmurou Gomamon, interrompendo seus rabiscos na areia e aproximando-se da criatura.

— Um PicoDevimon? Que nada! Eu sou O PicoDevimon! — o Digimon respondeu, orgulhoso, inflando o peito.

PicoDevimon tinha um corpo arredondado, olhos amarelos brilhantes e uma coloração azulada, lembrando um morcego. Uma caveira branca adornava sua testa, e longas antenas balançavam acima de suas asas de morcego, em dois pares. Suas patas terminavam em três garras vermelhas cada. Pousou sobre uma palmeira baixa, próxima à pedra onde Mikiko estava sentada, e os observou com sobrancelhas arqueadas, notando seus olhares óbvios e pouco discretos.

— Ele é perigoso? — Mikiko cochichou no ouvido de Gomamon, tapando a boca com uma mão para abafar o som.

— PicoDevimons geralmente são astutos e preferem a escuridão, então… talvez. — Gomamon respondeu em voz baixa, enquanto PicoDevimon, que ouvira tudo sem esforço, tinha uma veia pulsando em sua testa, irritado. Gomamon olhou de soslaio para ele, que respondeu mostrando a língua, como uma criança provocadora. — É estranho ver um em uma praia, especialmente de dia.

Quando PicoDevimon abriu a boca, prestes a protestar, os três ouviram uma voz gritando seu nome. Olhando na direção do som, avistaram uma pessoa quase tropeçando ao frear seus passos. A figura mudou de trajetória, caminhando enquanto observava as ondas, até avistar PicoDevimon e correr em sua direção, apressada.

Mikiko, Gomamon e PicoDevimon piscaram quase simultaneamente. A garota parecia confusa, mas também genuinamente feliz em encontrar outra pessoa naquele lugar, seu rosto iluminando-se — embora seus trajes a deixassem ainda mais perplexa.

Era uma garota alta e esbelta, com o cabelo tingido de branco em um moicano desalinhado, as laterais da cabeça raspadas e a parte superior trançada, caindo em cascata sobre suas costas. Tinha esmalte preto nas unhas e alguns curativos no rosto. Vestia um moletom preto e cinza estampado com uma caveira, calças jeans rasgadas nos joelhos e tênis escuros. Um Digivice estava preso à sua cintura.

— Cara, que merda… — ela resmungou, apoiando as mãos nos joelhos, ofegante. Então, ergueu a cabeça, seus olhos ardendo de raiva contida enquanto encarava PicoDevimon. — Você saiu voando do nada. Por quê?

Antes que PicoDevimon pudesse responder, Gomamon interrompeu, posicionando-se abruptamente diante da garota, examinando-a com curiosidade.

— Quem é você? Por que seu cabelo é assim? O que é isso na sua cintura? Ei, espera, a Mikiko também tem um desses! Esse PicoDevimon está com você? E por que… — Gomamon disparou perguntas sem parar, enquanto a garota ria nervosamente, até seu olhar encontrar o de Mikiko, que a encarava com um sorriso.

— Uma criança…? Aqui? — ela murmurou, arregalando os olhos, boquiaberta, antes de fechar a boca rapidamente.

— Oi, eu sou Mikiko. E você? Quem é? — Mikiko perguntou, levantando-se abruptamente da pedra, seus olhos brilhando.

Enfiando as mãos nos bolsos, a garota mais alta lançou um olhar suplicante a PicoDevimon, como se buscasse ajuda.

O Digimon, no entanto, apenas balançou a cabeça negativamente, um sorriso travesso estampado no rosto.

A garota cerrou os punhos por um instante, sua expressão endurecendo de raiva, antes de relaxar e recolocar as mãos nos bolsos. Respirou fundo e olhou para Mikiko, forçando um sorriso sem graça.

Agachou-se até sua altura e sorriu — um gesto que parecia um tanto artificial.

— Oi, Mikiko. Pode me chamar de Masuda. — apresentou-se com um aceno de cabeça.

— Tá bom. — Mikiko respondeu, assentindo.

Masuda levantou-se, seu olhar vagando brevemente para as ondas antes de retornar a Mikiko e Gomamon. Internamente, questionava-se que tipo de situação teria trazido uma criança para um lugar como aquele. Concluiu que algo — ou alguém — os trouxera até ali, em vez de terem aparecido por acaso.

E, considerando que havia conhecido Mikiko, Masuda começou a acreditar que não era a única pessoa naquele lugar estranho, onde só encontrava criaturas inexplicáveis e perturbadoramente violentas por onde andava. PicoDevimon estivera ao seu lado desde que acordara em uma montanha distante dali. Sem ele, duvidava que teria sobrevivido até agora.

Respirou profundamente, passando uma mão pela testa para acalmar seus pensamentos turbulentos. Foi então surpreendida por um jorro intenso de água que a atingiu em cheio, arremessando-a para longe, junto com PicoDevimon, Gomamon e Mikiko, que também foram lançados contra a areia.

As costas de Masuda colidiram com uma rocha próxima à costa, e, com um grito de dor, ela caiu no chão, levantando-se rapidamente, resistindo à dor.

Olhou para o lado, vendo PicoDevimon sacudir as asas molhadas. Então, seu rosto contraiu-se em choque ao avistar Mikiko caída na areia, com o tornozelo machucado, chorando baixinho, enquanto Gomamon tentava se levantar, atordoado.

Masuda olhou para frente, rangendo os dentes de raiva, seus olhos encontrando os do Digimon que os atacara sem aviso.

— Um Shellmon? — PicoDevimon murmurou, batendo as asas e pairando ao lado de Masuda, seus olhos fixos na criatura colossal.

A poucos metros dali, um Digimon do tamanho de uma pequena montanha emergira, avançando da água para a areia, soltando um rugido enlouquecido de seus lábios entrelaçados, seus olhos azuis fixos no grupo.

Shellmon tinha a aparência de um molusco com um rosto reptiliano semelhante ao de um dinossauro, metade de seu corpo escondido dentro de uma carapaça cinza em forma de turbante, repleta de espinhos irregulares. Seu corpo era rosado, com manchas azuis espalhadas — especialmente nos braços — e gavinhas verdes de anêmona na cabeça. As pontas de seus dedos tinham formato de ventosas, e seus membros eram desproporcionalmente grandes.

Apesar do medo, Masuda ignorou a dor nas costas e correu para frente, pegando o primeiro objeto que viu semi-enterrado na areia: um cano de aço enferrujado. Com um grito, investiu contra Shellmon, brandindo o cano.

No entanto, o Digimon apenas a afastou com um golpe, arremessando-a contra a areia com um baque. Quando ela se levantou, dolorida, viu pelo canto do olho uma nuvem de morcegos pequenos voando em direção ao rosto de Shellmon, atacando-o e causando-lhe irritação.

Furioso, o Digimon retraiu-se em sua carapaça, que começou a girar em alta velocidade, criando um pequeno tornado de areia. Movendo-se em linha reta, a carapaça colidiu com os morcegos, que se dissiparam em meio à poeira, incapazes de resistir ao impacto.

Os olhos de Masuda arregalaram-se ao perceber Shellmon girando descontroladamente em direção a Mikiko e Gomamon.

— Não…!

À distância, viu Mikiko chorando, suas mãos cobrindo o rosto, tremendo. Gomamon tentava confortá-la, alheio ao perigo que se aproximava.

— Eu não vou deixar…!

Com os pulmões ardendo e o coração acelerado, Masuda lançou-se para frente, correndo contra o tempo, seus pés afundando na areia com força.

PicoDevimon voou ao seu lado, mais rápido do que nunca, seus olhos afiados como os de uma águia.

No entanto, parecia tão exausto quanto ela — mas mesmo assim, continuavam, determinados a impedir Shellmon de alguma forma.

Segurando o cano com firmeza, Masuda correu em direção ao tornado de areia que cercava a carapaça giratória de Shellmon, tentando cravar o objeto no chão para pará-lo.

Porém, foi arremessada para o alto, gritando, seu aperto no cano afrouxando-se, fazendo-o escorregar de suas mãos e cair na areia.

— Masuda…?

PicoDevimon observou, imóvel, seus olhos arregalados, enquanto Masuda era lançada em direção às pedras da costa após colidir com Shellmon.

Enquanto seus olhos se umedeciam e sua expressão desmoronava, algo dentro dele despertou.

Era como se um interruptor tivesse sido acionado em um quarto escuro, iluminando algo que antes estava adormecido.

Seu corpo começou a esquentar estranhamente, e suas asas estenderam-se.

Naquele instante, com um grito de fúria, bateu as asas com força, voando mais rápido do que jamais fizera antes.

De uma nuvem escura e sombria, emergiram dois braços longos, com dedos terminados em garras enormes, estendendo-se por metros à frente, as palmas voltadas para cima.

Com um baque suave, Masuda aterrissou sobre aquelas mãos. Olhando para cima com a visão turva, viu uma cabeça com chifres demoníacos, envolta em uma balaclava que revelava apenas os olhos e a boca, saindo da escuridão. Seguia-se um pescoço alongado e uma enorme marca vermelho-escura no peito. Asas grandes, esfarrapadas e grotescas estenderam-se, enquanto ombros adornados com caveiras brancas e cintos negros nos braços e cintura completavam sua figura. Ataduras de gaze cobriam parte de sua mão esquerda, e a mesma marca vermelha aparecia em seu pé direito. Vestido inteiramente de preto, com uma caveira adicional no joelho esquerdo, o Digimon — Devimon — tinha um semblante severo e silencioso.

Segurando Masuda com um braço, Devimon estendeu o outro em direção a Shellmon, que girava a poucos centímetros de Mikiko e Gomamon.

Quando seus dedos alongados tocaram a carapaça, seus olhos brilharam em um vermelho intenso, e o movimento do inimigo cessou instantaneamente. Bateu as asas, voando para desferir um golpe preciso na cabeça de Shellmon quando este emergiu de sua proteção.

O Digimon aquático gritou de dor antes de explodir, seu corpo despedaçado, transformando-se em fragmentos de luz que se elevaram, formando um objeto oval brilhante que flutuou para longe.

Devimon retraiu seus braços, pousando na areia. Observou Mikiko chorando, sua expressão indecifrável.

Gomamon encarava-o, impressionado e temeroso. Devimon então colocou Masuda de pé no chão, e ela olhou para ele brevemente, acenando com a cabeça em agradecimento, antes de ajoelhar-se ao lado de Mikiko. Relutante, mas determinada, colocou uma mão rígida sobre a cabeça da garota, afagando seus cabelos enquanto cantarolava uma melodia suave em voz baixa.

Mikiko olhou para cima, fungando, acalmando-se aos poucos. Fitou Masuda, que sorriu sem graça antes de retirar a mão. Levantou-se, sacudindo a areia do corpo, e estendeu a mão para Mikiko, que a pegou, sendo puxada de volta para cima.

Gomamon observou tudo, boquiaberto. Devimon permitiu um pequeno sorriso antes de seu corpo encolher, retornando à forma de PicoDevimon.

O Digimon morcego voou até Masuda, pousando em sua cabeça, seu cabelo bagunçado servindo de ninho improvisado. Ela franziu o rosto levemente com o peso, mas não reclamou.

Então, sentiu uma mão pequena segurando a sua — Mikiko, sorrindo para ela.

Masuda suspirou, sentindo-se um pouco constrangida, mas não disse nada, apenas começou a caminhar sem rumo, com Mikiko e Gomamon ao seu lado.

Ela olhou para Mikiko. A garota segurou sua mão, apertando-a.

— Vai cantar de novo? — perguntou Mikiko, fungando.

Masuda sorriu, cansada.

— Não, sem chance.

— Mas eu…

— Não.

E, sem destino, eles caminharam juntos pela praia, enquanto o sol mergulhava no horizonte.

O perigo ainda os aguardava.

Mas, por enquanto, havia paz.