Digimon Final

9 Onde Até as Sombras Apodrecem


Observando com o canto do olho o sol a se pôr no horizonte, no topo de uma escada improvisada feita de tábuas rígidas, Takasaki mantinha três pregos entre os dentes cerrados. Empunhava um martelo pelo cabo de madeira, trajando uma faixa de tecido enrolada na cabeça que cobria seus cabelos, um avental desgastado levemente empoeirado e sem a jaqueta que costumava usar — apenas a camisa branca que vestia sob a jaqueta permanecia.

Com cautela, retirou um dos pregos da boca e o posicionou sobre uma tábua retangular fixada verticalmente na parede, pressionando o objeto metálico no canto superior esquerdo. Com um golpe brusco da face do martelo, acabou por entortar acidentalmente o prego.

Resmungando irritado, mas evitando falar ou fazer barulhos com a boca por estar segurando os outros pregos entre os dentes — o que poderia levá-lo a engoli-los inadvertidamente — relaxou por um instante. Com um movimento preciso de pulso, inverteu a posição do martelo, colocando a extremidade bifurcada em contato com o prego danificado, encaixando-o firmemente entre as garras da parte oposta à face de impacto.

Ao posicioná-lo corretamente, puxou o objeto pontiagudo com um movimento brusco, retirando-o da madeira com o braço movendo-se para trás. Depositou o prego deformado sobre um dos degraus da escada e, com um segundo golpe preciso, endireitou-o antes de recolocá-lo em sua posição original.

Desta vez, o prego penetrou profundamente na tábua que mantinha fixa com uma mão, enquanto seus pés permaneciam firmes nos degraus, seu corpo voltado para frente para evitar uma queda acidental. Após um segundo impacto preciso da ponta do martelo, a tábua ficou finalmente presa à parede.

Removendo cuidadosamente os demais pregos de sua boca e repetindo os mesmos movimentos metódicos, Takasaki perseverou mesmo sentindo fome, sede e o suor escorrendo pelo calor intenso e do esforço físico contínuo.

Após alguns instantes de trabalho concentrado, concluiu aquela pequena fração de uma tarefa ainda maior. Movendo a mão lateralmente, pegou um pincel fino que mergulhou em um balde de tinta preta antes de traçar um conjunto de caracteres na tábua, de cima para baixo, com rápidos movimentos de pulso.

Sua caligrafia não era impecável, apresentando certa irregularidade, mas permanecia perfeitamente legível.

Quando aquela simples tábua vertical transformou-se finalmente em uma placa, o jovem colocou o martelo na estrutura ao seu lado e pegou uma trincha, mergulhando-a em outro recipiente contendo tinta branca. Imediatamente, começou a pintar a parede com movimentos rápidos e repetitivos, seu pulso movendo-se incessantemente para cima e para baixo.

Ao terminar, estendeu o braço para alcançar outro pincel e tentou pegar um balde de tinta marrom, mas acabou derrubando-o acidentalmente quando a ponta do instrumento atingiu violentamente a borda do recipiente.

Quando o balde caiu da estrutura improvisada de latas ao seu lado, o rapaz tentou agarrá-lo rapidamente, mas seu braço não conseguiu alcançar. Segurando-se firmemente na escada e apoiando um pé contra a parede para manter o equilíbrio, Takasaki suspirou aliviado por não ter caído.

Enxugando o suor que escorria por sua testa com o dorso da mão, observou uma mão envolta em chamas azuis segurando o balde pela alça e recolocando-o no lugar.

Pelo canto do olho, viu SkullMeramon dirigindo-se para outra área do local, seus passos apressados. Takasaki agradeceu com um aceno discreto em sua direção, ao que o Digimon flamejante respondeu com um breve aceno de cabeça, mantendo seu comportamento lacônico e focado no trabalho.

A certa distância, Machida e Tentomon observavam admirados a dedicação de Takasaki em seu trabalho, embora tenham sentido um frio na espinha quando SkullMeramon passou próximo deles antes de seguir seu caminho.

Aos olhos de Machida, Takasaki parecia genuinamente saber o que estava fazendo. Notou como o colega havia se lançado imediatamente ao trabalho quando teve oportunidade, sem esperar por orientações ou autorizações, realizando a maior parte das tarefas de forma independente — um contraste gritante com ele próprio, que mal sabia por onde começar e limitava-se a transportar materiais pelo terreno, levando itens que pudessem ser necessários para as diversas atividades em andamento.

Tentomon, por sua vez, descansava relutantemente, querendo ajudar mas impossibilitado por sua fraqueza, com Machida insistindo para que permanecesse em repouso. O Digimon inseto permanecia sentado sobre uma toalha estendida no chão, emburrado, embora sua expressão denotasse certo prazer naquele momento de descanso forçado.

Diferente de Tentomon, que ocasionalmente admitia entre resmungos seu desejo de colaborar, Machida sentia-se desmotivado para aquelas atividades, considerando-se lento e inútil em todo aquele processo, vendo-se como um peso morto.

Se questionado, não negaria sentir-se culpado pelos ferimentos de Tentomon na última batalha, mas preferiria mudar de assunto caso o tema fosse abordado. Permaneceu brevemente cabisbaixo, sua concentração esvaindo-se por um momento, até que sua atenção foi capturada por Betamon passando à sua frente.

O Digimon anfíbio de coloração verde e barbatanas alaranjadas aproximava-se de Takasaki, arrastando um balde pelo chão enquanto segurava a alça com a boca. Em seu trajeto, passou próximo de Tanoue e Terriermon, que iluminavam áreas escuras com lanternas para recuperar o máximo possível de objetos entre os escombros da cidade — pertences dos Digimon residentes.

Ao parar próximo da escada, Takasaki deslizou rapidamente para baixo, pousando com segurança no chão. Pegou o balde oferecido por Betamon e retornou à escada, colocando o recipiente junto aos outros.

— Obrigado, Betamon.

— De nada, Takasaki — respondeu o Digimon, exibindo seus dentes em um sorriso característico.

— Quando este outro balde de tinta acabar, eu te chamo, certo? — propôs Takasaki, de costas para o anfíbio, sem interromper seu trabalho de pintura.

— Combinado — concordou Betamon, acenando com a cabeça antes de se afastar, cumprimentando com uma garra os outros Digimon que cruzavam seu caminho, igualmente imersos em suas tarefas mas retribuindo as saudações com acenos breves.

Machida e Tentomon trocaram olhares perplexos antes de encolherem os ombros. Machida permaneceu em pé, observando o trabalho diligente de Takasaki a uma distância que considerava confortável, alguns metros afastado da área onde o colega e sua escada estavam posicionados.

— Onde será que ele aprendeu essas coisas? — questionou, com um tom de curiosidade em sua voz lenta. — Parece tão... natural.

— É como se não fosse sua primeira vez pintando paredes ou fazendo esses serviços manuais — comentou Tentomon, observando antes de respirar profundamente, com uma pata sobre o peito, sentado sobre um pano no chão com as pernas estendidas.

Machida concordou com um aceno, considerando que Tentomon não estava longe da verdade sobre a aparente habilidade de Takasaki naquelas situações que exigiam trabalho manual contínuo. Decidiu, porém, não questionar o colega, julgando que não era de sua alçada e não tinha disposição para abordar o assunto abruptamente, imaginando que suas perguntas poderiam ser ignoradas ou que Takasaki preferisse manter sua privacidade. Com uma mão no queixo, observou a parede distante adquirindo gradualmente um novo tom queimado, a tinta antiga e descascada sendo substituída pela nova encontrada em algum lugar do local.

Ao notar pelo canto do olho Tentomon respirando pesadamente, Machida percebeu seu cansaço e sentiu a culpa retornar com força. O Digimon havia digievoluído novamente algumas horas antes, transformando-se mais uma vez em Kabuterimon para enfrentar SkullMeramon, sendo derrotado de maneira violenta diante de seus olhos impotentes.

A lembrança de Tentomon sendo arremessado contra uma parede de escombros após receber um golpe devastador no rosto fez Machida sentir-se profundamente culpado e preocupado.

Recordava nitidamente como correu em direção ao companheiro, tropeçando em seus próprios pés e quase caindo, erguendo o rosto para ver Kabuterimon regredindo para sua forma inicial, caído entre destroços, seus olhos verdes brilhantes piscando irregularmente e sua respiração ofegante, aparentando mais exaustão do que após sua primeira digievolução.

Naquele momento, Machida desesperou-se, retirando Tentomon dali com extremo cuidado, carregando-o nos braços da maneira mais delicada possível para não agravar seus ferimentos, caminhando com deliberada lentidão — evitando correr para não piorar a situação ou despertar o Digimon, que havia adormecido.

Ao ser chamado por uma voz familiar, Machida retornou ao presente e viu aquele rapaz de antes — Hibino, segundo ouvira do Digimon de pedra que o acompanhava, sendo esta a forma como se referia ao jovem de óculos aviador. Hibino aproximou-se rapidamente, com os óculos pendurados no pescoço e uma bandana vermelha na cabeça e firmemente amarrada em um nó na nuca, protegendo sua cabeça do sol.

Machida percebeu que ele parecia querer comunicar algo importante, mas distraiu-se antes que pudesse ouvir claramente, seus olhos vagando pelo ambiente ao redor.

Estava na mesma cidade de antes, aquela que lembrava claramente estar em destroços e envolta em chamas azuis avassaladoras, sobre as quais Kabuterimon voara com ele agarrado ao chifre antes de pousar.

Agora, as chamas haviam desaparecido completamente. O solo permanecia árido e queimado, coberto por cinzas, e ele observava Gotsumon e Terriermon varrendo os resíduos com vassouras, auxiliados por diversos Digimon habitantes da cidade — que se esconderam e permaneceram em silêncio, amedrontados pelo poder devastador de SkullMeramon, mas incapazes de enfrentá-lo. Sabiam que fugir não era opção.

O calor intenso fora sua companhia por longas horas, as chamas cercando todas as direções por um tempo considerável. Assim, aqueles Digimon simplesmente esperaram o fim do conflito, cientes de que, mais cedo ou mais tarde, terminaria, mesmo com suas esperanças sendo poucas. Quando a batalha finalmente cessou, emergiram de seus esconderijos sob os olhares de Machida, Takasaki, Hibino e seus companheiros Digimon — além de um rapaz de moletom roxo, aparentemente chamado Tanoue, acompanhado por um Terriermon, que chegara pouco depois com vários Digimon recrutados.

Reunidos, todos se dedicaram a reconstruir aquela cidade, fosse deles ou não, com suas próprias mãos. Apesar dos quatro humanos pouco se conhecerem e saberem ainda menos uns sobre os outros, houve uma decisão silenciosa de ajudar os Digimon na reconstrução da cidade devastada. Agora, juntos — talvez por solidariedade ou necessidade — todos estavam cientes de que cada um enfrentara seus próprios conflitos até então, sem necessidade de conhecer detalhes. Ou talvez trabalhassem juntos por simples cooperação, assistência moral, simpatia ou, no pior dos casos, pena. Porém, aquilo ainda não poderia ser considerado amizade.

Gotsumon, Betamon e Terriermon não se opuseram à ideia de ajudar, juntando-se rapidamente ao trabalho junto com os outros Digimon que formavam uma pequena multidão.

Assim, o ambiente transformara-se no que era agora. Não mais um inferno de chamas azuis, mas uma obra abrangente que levaria tempo para ser concluída. No entanto, Machida mantinha a esperança de que, com tantos ajudando motivados, tudo terminaria antes do previsto.

Seus olhos percorreram os Digimon ao redor, ainda alheio à voz de Hibino, observando suas aparências peculiares.

Notou vários Digimon minúsculos, com nariz longo e pontudo, garras negras alongadas, corpos rosados e semelhantes a ratos cartunescos, que corriam por diversos pontos da cidade, escalando escombros e acessando locais onde outros não conseguiriam entrar –- passagens suficientemente estreitas para que os Tyumon transitam sem dificuldade. Junto de Tanoue, que iluminava aquelas aberturas com sua lanterna, e Terriermon, que removia escombros quando os Tyumon encontravam objetos ou Digimon soterrados, os Tyumon continuavam sua parte no trabalho, resistindo ao cansaço, fome e sede que todos sentiam, cientes de que o momento de descanso ainda não chegou.

Ao dirigir o olhar para um canto mais distante, seus olhos encontraram os de um Digimon vermelho com cabelos brancos, estranhamente semelhante àquele que Kabuterimon enfrentara e de quem se lembrava bem. Fugamon, como era chamado, assemelhava-se ao Hyogamon que Machida encontrara na base da montanha nevada.

Diferentemente do Hyogamon azul pálido, Fugamon tinha a aparência de um ogro vermelho, com cabelos tão longos e despenteados quanto os do primeiro, igualmente brancos, e orelhas pontudas adornadas por brincos. Ao contrário de Hyogamon, Fugamon não possuía chifres, mas tinha uma mandíbula inferior igualmente exagerada, com presas afiadas na mandíbula superior.

No lugar da tanga preta com cinto, usava uma amarela com listras negras, com padrão semelhante a pelos de tigre. Machida notou que Hyogamon não usava bracelete no braço direito, enquanto Fugamon sim, e ambos tinham cintos negros na perna esquerda. O Digimon vermelho não tinha bandagens azuis na perna direita como Hyogamon, mas o mesmo tecido amarelo com listras negras. Possuía a mesma tatuagem de caveira com ossos cruzados no ombro, rebites metálicos nas juntas da mão esquerda e uma cicatriz no dorso da mão direita, assim como Hyogamon.

No geral, parecem semelhantes, mas distintos.

Machida sentia que eram como primos distantes, ou como se um desenhista tivesse recriado seu próprio trabalho com variações sutis que poderiam passar despercebidas. Estranho, pensou. Questionou-se quantos Digimon existiriam tão parecidos quanto Fugamon e Hyogamon, mas logo abandonou o pensamento ao notar que o Fugamon voltara-se, percebendo seu olhar. O Digimon segurava um grande fêmur pontiagudo com rebites afiados em uma mão, e parecia realmente ameaçador.

Apesar de Machida sentir que poderia ser atacado a qualquer momento, o Digimon apenas bufou e o ignorou, contendo sua raiva e retornando ao trabalho.

Aquele Fugamon era seguido por um grande grupo de Digimon idênticos, e Machida contou cerca de doze antes de se sentir tonto, vendo muitos outros transitando pela área em reconstrução.

Shamamon era o nome daqueles Digimon –- criaturas de estatura baixa, cor verde-escura e aparência semelhante aos goblins que seu irmão costumava desenhar nos cadernos escolares, ocasionalmente –- o que despertou uma intensa saudade, fazendo-o questionar se realmente poderia voltar para casa.

Decidiu ser otimista, apesar do pessimismo que surgia.

Respirou fundo, concentrando-se. Notou que os Shamamon tinham olhos vermelhos, cabelo curto e amarelo, em um penteado moicano, e orelhas pontudas menores que as de Fugamon ou Hyogamon. Possuíam dentes grandes, cinco dedos em cada extremidade e um piercing na orelha esquerda, vestindo jaquetas azuis sem mangas abertas com acabamento marrom e couro adornado por esferas metálicas próximas aos ombros. Além da jaqueta, usavam um cinto negro na cintura segurando uma tanga azul de tecido similar. Cada um carregava um grande porrete de madeira com parafusos e enfeites metálicos no cabo.

Todos eles marchavam ordenadamente em três filas, carregando pesadas tábuas nos ombros e ferramentas com naturalidade, como se não pesasse nada. Trabalhavam diligentemente construindo estruturas e cavando buracos sob as ordens gritadas por Fugamon, que supervisionava com braços cruzados sobre os escombros, repreendendo qualquer um que parecesse relaxar.

Machida olhou para um ponto mais distante, vendo SkullMeramon partir tábuas maiores em pedaços menores com golpes de suas correntes flamejantes, o metal incandescente colidindo contra a madeira e dividindo-a simetricamente, o som resultante sendo um estalo agudo, com faíscas voando ao redor.

Sendo honesto, não sabia ao certo o que sentia por SkullMeramon, mas havia uma aceitação relutante de que, aparentemente, não machucaria Tentomon novamente. Diferente da fúria flamejante demonstrada antes, agora estava consideravelmente mais calmo, suas chamas azuis parecendo mais contidas.

No entanto, Machida sentia que, mesmo com o Digimon parecendo menos violento, estaria pronto para atacá-lo ao primeiro sinal de ameaça a Tentomon. Balançou a cabeça, afastando o pensamento.

Conhecia-se bem o suficiente para saber que não tinha o hábito de ser violento ou brigar sem motivo. Detestava violência, sentia repulsa pela brutalidade extrema, seja nos filmes de ação que seu irmão assistia –- repletos de explosões –- ou nas situações reais que testemunhara desde que chegara a esta realidade, da qual não via saída próxima.

— Ei, ei... Alô? Tem alguém aí? — Machida piscou ao notar Hibino estalando os dedos próximo a seus olhos, percebendo que deixou o colega falando sozinho pelos últimos minutos, sem ouvir quase nada.

— O que há com você? — perguntou Hibino, afastando a mão e baixando o braço. Fitou Machida por instantes, com as mãos na cintura antes de cruzar os braços. Suspirou, aliviado. — Cara, fiquei realmente preocupado.

— Desculpe. Acho que me distraí um pouco — disse Machida, coçando a nuca com um sorriso sem graça.

— “Um pouco”? Isso é um eufemismo. Você pareceu entrar no seu próprio mundinho — comentou Hibino, ajustando a bandana em sua cabeça. — E desculpas aceitas.

— O que você queria me dizer, afinal? — perguntou Machida, curioso. — Não ouvi nada do que disse, sério. Eu estava… bem, focado em outras coisas.

Hibino sorriu antes de rir brevemente. Colocou as mãos nos bolsos da bermuda marrom, virando-se para caminhar em linha reta, mas parou ao notar que Machida não o seguia. Olhou por sobre o ombro, encarando-o.

— Vamos, me siga. Achei algo curioso que pode te interessar — disse Hibino, tirando as mãos dos bolsos e caminhando, despreocupadamente, com os braços cruzados atrás da nuca.

— Ok...? — respondeu Machida, incerto.

Olhou brevemente para Tentomon, que o fitava em retorno. Machida virou-se sem manter o contato visual, sua expressão levemente culpada, e seguiu Hibino, que o levou até uma entrada quase totalmente soterrada entre dois prédios.

Ao passarem próximos, Tanoue e Terriermon os observaram, notando seu destino mas sem comentar, retornando às suas tarefas com os Tyumon.

Takasaki estava sentado no degrau mais baixo da escada, bebendo água de um copo oferecido por um Shamamon. Agradeceu com um sorriso, recebendo um aceno em retorno. Então franziu os olhos, vendo Machida e Hibino afastarem-se estranhamente à distância, mas não comentou. Observou Tentomon e Gotsumon olhando na direção em que os dois se dirigiam. Tentomon parecia querer ir, mas permaneceu. Gotsumon, por outro lado, estava prestes a correr atrás de Hibino quando Fugamon o impediu com um grito.

Machida arqueou uma sobrancelha diante da cena, confuso sobre o motivo de ser levado até ali, mas manteve-se em silêncio. Ao descer os degraus que levavam a um ambiente sujo e malcheiroso, rapidamente tapou o nariz com uma mão e cobriu a boca com a outra, evitando sentir o odor repugnante. Diferente dele, Hibino parecia estranhamente à vontade, embora cobrisse o rosto com um lenço tirado do bolso.

— Por que me trouxe aqui? — perguntou Machida, com voz nasalada mas rápida.

— Você vai ver. Apenas me siga — respondeu Hibino, caminhando em linha reta antes de virar um corredor à esquerda, desaparecendo da vista de Machida, que resmungou antes de conter o impulso de vomitar.

Machida seguiu na direção indicada, seus passos lentos, tomando cuidado para não pisar no líquido viscoso e brilhante de cor verde estranha que escorria de canos nas paredes, misturando-se à água suja e sabe-se lá o que mais, formando um pequeno riacho entre as paredes, com o chão dividido ao meio. Viu alguns ossos entre a sujeira e sentiu a garganta formigar, a náusea aumentando, mas resistiu, pressionando as mãos mais firmemente contra o rosto enquanto avançava.

— Este lugar parece um esgoto — comentou Machida.

— E é um esgoto — respondeu Hibino imediatamente, seu tom seco.

De repente, Hibino parou, olhando para cima lentamente ao sentir uma gota de líquido verde e viscoso cair em seu ombro, manchando a camisa. Engoliu em seco e deu alguns passos para trás. Machida olhou em volta, confuso, até que algo fez seu semblante ficar chocado.

Ele recuou, tropeçando nos cadarços. Sentiu as costas colidirem com a parede suja atrás dele, endireitando-se enquanto engolia em seco, nervoso, seus olhos fixos em algo movendo-se na escuridão de um grande cano à frente. Viu inúmeros pontos vermelhos vívidos e brilhantes movendo-se irregularmente no breu, destacando-se na escuridão.

Então, notou algo verde que, mesmo à distância, percebia ser viscoso — gengivas sujas com duas fileiras de dentes podres e pontiagudos como presas, e uma língua grande, lembrando uma dentadura humana de plástico que ele costumava ver em consultórios odontológicos. Aquelas criaturas grotescas que saltaram da escuridão do cano imenso, caindo no líquido do chão diante deles. Tinham estatura pequena, olhos vermelhos esbugalhados, corpos de lesma verde com manchas azuis nas costas. Seus olhos eram sustentados por nervos ópticos alongados acima da boca, na testa. Era um grande grupo de Numemon, e Machida não conseguiu contá-los, pois mais e mais surgiam, amontoando-se.

Quando os Numemon notaram sua presença, mãos atarracadas emergiram sob seus corpos gelatinosos, segurando algo rosa e sólido, mas aparentemente mole.

Ao perceber que eram excrementos, Machida tapou a boca e com uma mão, tentando resistir a sua vontade de vomitar. Ele agarrou Hibino com a mão livre e fugiu, puxando-o para longe, enquanto os Numemon atiravam seus dejetos em sua direção, perseguindo-os com gritos selvagens.

Machida escondeu-se atrás de uma grande lata de lixo retangular próximo a um cano — sem ideia de por que estaria ali. Hibino seguiu-o, sendo puxado, e ambos prenderam a respiração, tentando não serem notados.

Ouviram passos e gritos aproximando-se.

Os Numemon passaram por eles, mas um sentiu um odor incomum — parecia perfume.

Sob os olhares dos outros, escalou a lata e olhou para baixo, vendo duas figuras encolhidas.

Machida e Hibino olharam de volta antes de correrem, tropeçando mas recuperando-se, enquanto todos os Numemon gritavam, atirando excrementos e perseguindo-os.

Os dois correram sem parar, pulmões ardendo, corações acelerados e pernas doloridas, mas estavam determinados.

Ao virar uma esquina e seguir em linha reta, pararam por alguns segundos, mãos nos joelhos, ofegantes.

— Despistamos eles? — perguntou Machida em voz baixa, olhos momentaneamente fechados, sua respiração ofegante.

— Não, mas... — respondeu Hibino, recuando.

— Mas? — questionou Machida.

Abriu os olhos, limpando a sujeira deles com os dedos. Tossiu antes de abaixar as mãos, observando o ambiente.

— Mas parece que estamos cercados — Hibino diz, engolindo em seco.

Todos os Numemon os cercavam em círculo, segurando seus excrementos fétidos, com Machida e Hibino no centro. Os jovens recuaram até suas costas colidirem uma contra a outra, e trocaram olhares nervosos.

— Nunca imaginei que iria ser atingido por essa… essa coisa rosa — disse Machida, engolindo em seco.

— Eles são bem feios, não? — comentou Hibino, apontando com o dedo, olhando para os Numemon.

Ouvindo isso, os Numemon baixaram os braços, entreolhando-se antes de fitar a dupla, que piscou, confusa. Um deles apontou para Hibino, depois para si e então para os outros. Naquele instante, veias pulsaram em suas testas, que ficaram vermelhas de raiva. Prepararam-se e atiraram os excrementos. Machida fechou os olhos, enquanto Hibino os manteve abertos, apesar do medo, podendo ver claramente o que aconteceu.

Com mãos estendidas e dedos semelhantes a videiras com pontas roxas alongadas segurando alguns Numemon no alto, um Digimon verde bípede, parecendo uma mistura de mandrágora e réptil, apareceu. Tinha pés como raízes, braços foliáceos, cauda reptiliana e pequenas saliências nas costas. Cada mão tinha três videiras que funcionavam como dedos. Cabeça redonda com um sorriso de dentes pontiagudos expostos e dois grandes olhos negros. No topo da cabeça, uma flor rosa e amarela com longo estame vermelho exalando fragrância desagradável. Balançando os braços, lançou os Numemon contra outros, que caíram em dor.

Ao lado dele — Palmon — estava outro Digimon: uma grande engrenagem cinza-latão com borda acobreada. Seu rosto dividia-se em duas metades, com parafusos no lado esquerdo e sorriso inexpressivo. Olhos vermelhos com pupilas negras em forma de engrenagem dentro de buracos — um circular, outro estrelado. Mãos metálicas redondas com dedos de aço. De repente, seu corpo girou e seu rosto abriu-se, lançando uma engrenagem escura em alta velocidade que atingiu um Numemon, fazendo-o enlouquecer e atacar os outros antes de explodir.

— Isso aí, Hagurumon! — gritou uma voz desconhecida.

Hibino e Machida olharam na direção da voz simultaneamente, vendo duas figuras saltarem de um cano na parede, aterrissando com segurança antes de correrem para os Digimon.

Uma era uma garota de cabelo castanho escuro médio, com alguns fios no rosto, vestindo um suéter vermelho com mangas e colarinho roxo, uma saia azul escura plissada e tênis brancos de cano alto, posicionando-se ao lado de Hagurumon com confiança.

Próximo a Palmon, um rapaz de cabelo penteado para trás com uma camada de gel — mas que estava consideravelmente despenteado, com alguns fios soltos — que vestia uma camisa social rosa com punhos abotoados, calça marrom de cintura alta justa com um cinto preto, óculos com lentes ovais e sapatos pretos, parecendo nervoso mas acenando para Palmon com segurança.

O aroma da flor de Palmon tornou-se brevemente agradável quando o rapaz se aproximou, antes de voltar ao desagradável quando olhou para os Numemon.

Hibino cobriu a metade inferior do rosto com seu lenço, e Machida respirou fundo, cobrindo a boca com a mão e o nariz com outra.

Tremendo, os Numemon fugiram — não por se sentirem encurralados, mas pela luz brilhante de uma lanterna que os iluminou.

De pé, segurando a fonte de luz, sua lanterna, Tanoue estava com um pano cobrindo a boca para resistir aos odores, e o capuz de sua blusa levantado.

Ao lado, Terriermon fazia cara de nojo, mas resistia.

— Ugh… — Tanoue resmunga, enojado, pressionando o botão de sua lanterna e desativando-a antes de guardá-la na bolsa.

— Pelo menos você tinha pilhas reservas na sua mochila, Tanoue — comenta Terriermon, cobrindo o nariz com uma de suas orelhas. — Numemon tem medo da luz e prefere ficar em locais escuros e imundos.

— É bom saber, mas seria melhor se você tivesse me avisado antes de eu ligar a lanterna. Pensei que fosse inútil e que eles fossem nos atacar — replica o jovem, rindo com nervosismo.

Terriermon encolhe os ombros, mas concorda com a cabeça.

— Eles fugiram? — pergunta a garota, incrédula, estalando a língua, enquanto limpa a sujeira que caiu sobre seu ombro, abanando a mão no ar. — Que covardes.

Hagurumon flutua em sua direção, e ela ergue o polegar, sorrindo.

— Ótimo trabalho, como sempre, Hagurumon.

O Digimon a encara com seus olhos inexpressivos, mas esboça um sorriso.

— Só fiz o necessário, Ito — responde, com sua voz mecânica. — Mas obrigado.

A jovem, Ito, sorri levemente antes que sua expressão se torne séria, e ela olha ao redor, como se procurasse por mais ameaças.

— Felizmente, ninguém se feriu — diz o outro rapaz, enquanto Palmon se aproxima dele. — Mas este lugar é horrível.

— Você disse exatamente a mesma coisa sobre todos os outros lugares por onde passamos, Sudo — Palmon observa, fitando-o com curiosidade. — Que tipo de lugar seria agradável para você?

— Qualquer um que não fosse daqui — ele responde, ajeitando os óculos com o dedo indicador antes de tossir levemente, levando a mão à boca.

Hibino e Machida se aproximam lentamente, afastando-se da parede. Ambos soltam um suspiro de alívio. Então, ouvem passos. Todos olham para cima e veem Takasaki descendo as escadas pelas quais Hibino e Machida haviam entrado naquele subsolo, carregando Tentomon nos braços.

Gotsumon e Betamon o acompanhavam de perto — o primeiro descia os degraus com pressa até ficar próximo de Hibino, enquanto Betamon avançava com mais calma, mantendo um ritmo similar ao de Takasaki.

— Tentomon estava preocupado com você, Machida. E Gotsumon queria explorar um lugar novo. Por sorte, um Tyumon me indicou o caminho que vocês tomaram, então os trouxe até aqui — Takasaki explica, parando perto do grupo.

Ele observa os rostos desconhecidos e acena para a garota e o rapaz em cumprimento, recebendo um aceno de volta em resposta. Em seguida, entrega Tentomon a Machida, que o segura com cuidado. Betamon alcança Takasaki e para ao seu lado.

— Então, pessoal, vamos sair daqui ou não? — pergunta Ito, mas antes que alguém responda, a planta de Palmon se agita, e os olhos do Digimon se estreitam, pressentindo perigo.

Ela fica em alerta, e Hagurumon se posiciona à sua frente, em postura protetora.

— Tem mais alguma coisa aqui — Sudo comenta, com um tom nervoso.

— Se algum de vocês olhar para cima, tente não desmaiar de repente — Terriermon avisa o grupo, fitando o alto, alguns metros à frente, engolindo em seco.

— E por que eu desmaiaria? — Tanoue questiona, pegando a lanterna e acendendo-a antes de apontá-la naquela direção. Ele engole em seco ao ver o que estava diante deles, assim como todos os outros.

À frente, com olhos vermelhos esbugalhados e irregulares fixados neles, um odor fétido exalado de seu corpo fazia os Digimon ao lado dos jovens recuarem, enojados — exceto Hagurumon, que parecia imune.

A criatura grotesca assemelhava-se a uma massa gelatinosa de carne cinzenta em decomposição, tão grande que sua cabeça batia no teto.

Parado, encarando-os com um semblante indecifrável, o monstro tinha cabos embutidos no corpo, costelas expostas e circuitos nas costas. Seus braços terminam em três garras afiadas, placas de metal cercavam seus olhos, e sua mandíbula exibia dentes pontiagudos e enormes.

Aquele Digimon, Raremon, ergueu o braço e o esmagou contra o chão, produzindo um estrondo ensurdecedor. O impacto fez o solo tremer, quase derrubando os jovens e os Digimon menores, que se firmavam no chão com dificuldade. O local onde Raremon tocou deteriorou-se instantaneamente, corroído por seu toque, rachando em pedaços que formavam uma fenda.

— Ótimo, de novo. Outro Digimon lunático — Takasaki suspira. — Por que sempre tem um desses onde quer que eu vá?

— Não sei dizer, Takasaki. Mas esse cheiro é horrível, e… estou cansado — Betamon lamenta. — Não acho que consigo lutar ou digievoluir. O teto não é alto o suficiente para meu tamanho.

— Também duvido que o teto aguentasse se eu digievoluísse para Golemon, Hibino — Gotsumon acrescenta, desanimado. — Desculpe.

Hibino o encara e sorri levemente, acenando em entendimento. Machida, por outro lado, permanecia imóvel, com Tentomon nos braços, mais afastado. Ele não permitiria que o Digimon lutasse. Não naquele estado.

— Ele parece o Hedorah, ou é impressão minha? — Machida murmurou, franzindo os olhos ao notar a aparência de Raremon.

— Hedorah…? — Tentomon repete, confuso.

— Acho que é hora. Pronto para isso, Terriermon? — Tanoue pergunta, segurando seu Digivice.

— Claro que sim — Terriermon responde, com expressão séria.

— Eu não queria fazer isso, mas parece que não é hora de reclamações — Sudo suspira. Ele está parado à direita de Tanoue, com as mãos na cintura, balançando a cabeça, enquanto Palmon se posiciona à sua frente.

— Não é mesmo, Sudo — Palmon concorda, pronto para atacar.

— Você já sabe o que fazer, Hagurumon — Ito diz, com um tom encorajador, e o Digimon permanece em posição.

Vendo Raremon se aproximar, Tanoue, Ito e Sudo trocam olhares antes de acenar brevemente em concordância.

— Agora!

Com seus Digivices em punho, um brilho irrompe, iluminando cada canto escuro do esgoto. A luz envolve os corpos de Terriermon, Hagurumon e Palmon, que passam por uma metamorfose visível. Quando a luminosidade se dissipa, três Digimon maiores estão lado a lado.

Ao digievoluir, Terriermon se transforma em Galgomon e levanta os braços, pronto para disparar.

A evolução de Palmon resulta em um Digimon com aparência de um cacto gigante, de corpo verde, olhos e boca como buracos, e espinhos afiados por todos os cantos de seu corpo. Suas mãos estão envoltas em luvas de boxe vermelhas.

O Digimon, Togemon, posiciona-se ao lado direito de Galgomon, punhos erguidos, logo acima do rosto.

Hagurumon torna-se um Digimon de corpo blindado e sólido, com jatos de foguete nas costas e estatura similar à de Galgomon. Seus olhos verdes brilham em meio a peças de aço acobreadas espalhadas pelo corpo metálico. Seus braços mecânicos estão estendidos, prontos para o combate.

Aquele Digimon, Guardromon, fica à esquerda de Galgomon, imóvel, mas preparado para agir a qualquer momento.

Com tiros rápidos de suas manoplas, Galgomon dispara uma sequência de projéteis contra o corpo de Raremon. As balas atingem sua pele gelatinosa, afundando nela, enquanto os cartuchos caem ao chão.

Com um salto, Togemon se impulsiona para a frente e desfere uma série de socos no rosto de Raremon, finalizando com um golpe no queixo antes de se afastar rapidamente.

O inimigo fica imóvel, atordoado pelos impactos, seu corpo chocando-se contra a parede.

De seus braços estendidos, Guardromon dispara mísseis de lançadores retráteis em seus antebraços. Os projéteis assobiam antes de atingir Raremon em cheio, fazendo-o gritar de dor.

Percebendo que não teria chance de vitória, Raremon foge. Os três Digimon observam sua retirada e relaxam suas posturas, aproximando-se lentamente do grupo.

— Acho que essa é a hora de sairmos daqui, não? — Machida comenta, piscando.

— Ei, esperem. Tenho algo para mostrar — Hibino diz, chamando a atenção de todos antes de se afastar e correr em direção a uma parede.

Gotsumon o segue e remove uma pedra grande do chão, como instruído por Hibino. Ao limpar a parede com um lenço, revela-se uma gravura incrustada na pedra. Os outros se aproximam, curiosos.

— Isso são… — Ito murmura, olhando para os desenhos, sem palavras.

— Digivices — Sudo completa, comparando o desenho com seu próprio dispositivo.

— Por que algo assim estaria em um esgoto, debaixo de uma cidade? — Takasaki questiona, intrigado.

— Não faço ideia — Machida responde. — E há nove Digivices nessa imagem. Idênticos aos nossos.

— Isso não significaria que, além de nós seis, há mais três por aí, em algum lugar? — Ito pondera, com a mão no queixo.

— Não sei, mas é uma possibilidade — Hibino diz. — Encontrei isso por acaso hoje de manhã.

— Agora que você mencionou, eu te vi correndo mais cedo, antes da tarde — Tanoue comenta, pensativo. — Foi para cá que você veio?

Hibino acena afirmativamente, afastando-se com Gotsumon e subindo as escadas, deixando o esgoto apressadamente.

— Acho que devemos ir também — Takasaki sugere, afastando-se com Betamon.

Os outros se entreolharam antes de seguirem Takasaki, saindo dali.

Ao olharem para o céu noturno, questionam-se sobre o que realmente vieram fazer naquela realidade e se há algo mais que devam cumprir.

Decidem deixar essas dúvidas para depois.

Por ora, descansam, mas não em paz.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.