Digimon Final

1 Nada Voltará a Ser Normal


Caminhando por um túnel abaixo de uma ponte, ele — um jovem de estatura mediana vestido com uma jaqueta, comumente chamado de Takasaki — piscou, confuso, ao notar um brilho estranho próximo à fiação elétrica no poste de onde acabara de se afastar. Parou e observou os fios, com os olhos bem abertos, como se esperasse que aquilo acontecesse novamente.

Alguns instantes se passaram e, pelo que se via, nada de incomum voltou a ocorrer. Takasaki soltou um suspiro que nem sabia estar retendo e balançou a cabeça, concluindo que talvez estivesse apenas imaginando coisas.

Com uma mão enfiada no bolso da jaqueta e uma sacola plástica na outra — proveniente do supermercado onde fizera compras —, caminhou lentamente até o fim do túnel, embora sua pressa para chegar em casa fosse visível.

Ao se aproximar dos trilhos do trem à sua frente, interrompeu os passos ao ouvir um som familiar ao longe. Olhou para a direita e avistou o trem-bala se aproximando. Quando o veículo passou, na mesma velocidade com que viera, Takasaki quase caiu devido à proximidade com os trilhos, mas conseguiu se firmar, pressionando os sapatos contra o asfalto.

Uma laranja escapou da sacola, rolando pelo chão até parar perto da ponta de seu sapato. Ele se inclinou, tirou a outra mão do bolso e estendeu o braço para recolher o fruto, guardando-o rapidamente na sacola.

Suspirou e resmungou, sua voz frustrada levemente abafada pela máscara facial e pelo frio. Endireitou-se, desfazendo a curvatura das costas, e respirou fundo. Decidido, deu mais um passo — mas parou no meio do movimento ao sentir algo estranho, como se houvesse alguém respirando muito perto de seu pescoço.

A sensação de estar sendo observado — ou mesmo seguido — fez os poucos pelos de sua nuca se arrepiarem. Virou-se bruscamente, os olhos arregalados vasculhando cada canto em busca de algo, de qualquer coisa. Mas não havia ninguém além dele.

Até que, de repente, o chão sob seus pés desapareceu, estilhaçando-se como vidro em cacos. Ele caiu no abismo, os olhos arregalados, mas sem forças para gritar. Uma sonolência anormal o envolveu, arrastando-o para a inconsciência.

Quando abriu os olhos, sentindo a cabeça latejar, Takasaki estava quase acordado. Grogue. Garganta seca, pálpebras pesadas. E um peso incomum sobre o estômago.

Sentou-se, as mãos roçando o que parecia ser grama. Seus olhos se estreitaram, questionando se aquilo não era mais uma invenção de sua mente confusa. Afinal, seu dia já havia sido estranho o suficiente. Talvez fosse apenas isso.

Então, inevitavelmente, olhou para baixo, onde sentia aquele estranho peso. Lá estava uma bola de basquete enorme, cor-de-rosa, com um rosto grotesco desenhado: olhos fechados, um sorriso largo e animalesco, exibindo dentes pontiagudos e esparsos.

— Que bola esquisita — murmurou, a voz ainda rouca. — Quem desenharia um rosto desses numa coisa dessas? E como… como veio parar aqui?

Antes que pudesse processar qualquer resposta coerente — ou mesmo se afastar —, a bola se moveu. As fitas onduladas que serviam de “braços” agarraram seu rosto, e de repente, snap! A criatura abocanhou seu rosto inteiro em uma única mordida, só para soltá-lo logo em seguida, afastando-se com um quicar despreocupado.

Takasaki ficou imóvel, a expressão congelada em puro espanto.

Quando a esfera rosada se aproximou novamente, ele agiu por instinto. Afastou-se com passos trêmulos, pegou a sacola de laranjas que estava ao seu lado e desferiu um golpe contra a criatura. O impacto acertou em cheio o rosto bizarro da bola, que voou a uma distância considerável e caiu de bruços, aparentemente desmaiada.

Takasaki respirou fundo, o peito subindo e descendo de forma irregular, e deixou a sacola escorregar de seus dedos. Desabou na grama, exausto.

Foi então que ouviu um som inesperado: um choro baixo e estridente. Alertou-se, procurando a origem do ruído — e descobriu que vinha da tal bola-animal… ou seja lá o que aquilo fosse.

No momento seguinte, uma explosão de bolhas de espuma atingiu seu corpo, estourando contra ele com força. A bola rosa agora exibia um machucado redondo e exagerado no lado direito do corpo, como em um desenho animado. Gritou uma sequência de palavras ininteligíveis, bufando, e cuspiu mais bolhas antes de finalmente se cansar, ficando imóvel na grama, ofegante.

Olhou para Takasaki com raiva e cuspiu, frustrada:

— Idiota!

— Isso fala? — pensou Takasaki em voz alta, apontando para a criatura com incredulidade.

— Eu não sou “isso”! Eu sou Koromon! — respondeu a bola, virando o rosto com um bufão infantil.

Takasaki só ficou ainda mais confuso. Mas, por hoje, decidiu ignorar aquilo.

Enquanto Koromon o observava de relance — mas fingia não estar olhando —, Takasaki ajeitou as mangas da jaqueta e seguiu caminhando, ignorando-o.

— Ei! — gritou a criatura, saltando pela grama atrás dele.

Takasaki lançou-lhe um olhar breve, deu de ombros e continuou a andar sem rumo.

Foi então que, repentinamente, um besouro gigante irrompeu entre as árvores, cortando-as com facilidade absurda, como se fossem manteiga. Os troncos tombaram um após o outro enquanto a criatura sobrevoava o local.

O besouro passou rente às suas cabeças. Takasaki jogou-se no chão, aterrorizado, quase sendo cortado ao meio. A jaqueta não teve tanta sorte: um rasgo surgiu no ombro, revelando o tecido interno. Sem pensar, ele ergueu-se e começou a correr, sem olhar para trás.

Um som familiar ecoou — o estouro de bolhas de espuma. Ao virar-se, seus olhos arregalaram-se ao ver Koromon ser arremessado longe por um golpe do besouro vermelho, que agora parecia ainda mais irritado.

Koromon caiu na grama com um baque, o corpo machucado, mas não derrotado. Preparava-se para atacar novamente quando, de repente, foi envolvido por um par de braços humanos. Ficou imóvel, surpreso.

Takasaki, agora carregando Koromon, corria pela própria vida e pela de seu talvez novo amigo. O besouro aproximava-se cada vez mais, as asas emitindo um zumbido estridente. Com a adrenalina bombando em suas veias, ele pulou sobre um tronco caído, os pés batendo contra o solo sem hesitação.

Sua respiração era irregular, o cansaço o dominava, mas ele não parava. O objetivo era claro: despistar aquela ameaça mortal.

Koromon observou Takasaki, notando seu esforço — mesmo que o humano parecesse à beira do colapso. Aquilo o chocou. Afinal, minutos antes, fora atacado por esse mesmo estranho.

Mas a decisão estava tomada. E ele esperava não se arrepender.

Takasaki parou abruptamente, assustado, quando Koromon se debateu e escapou de seus braços, saltando para o chão. Ao virar-se, viu a criatura cuspir bolhas diretamente no rosto do besouro — o único efeito foi deixá-lo ainda mais furioso.

Koromon foi arremessado novamente ao chão por outro golpe. Takasaki cerrou os punhos, impotente, desejando ajudar, mas sabendo que não poderia fazer nada.

Então, respirou fundo. Os olhos estreitaram-se enquanto se inclinava, pegando uma pedra no chão. Com um movimento rápido, arremessou-a contra o besouro.

Atingiu em cheio o rosto da criatura.

O monstro virou-se lentamente. As asas vibraram, produzindo um ruído agudo e insuportável. Depois, elevou-se no ar, apontando-se diretamente para Takasaki.

Morte certa. Mesmo assim, ele não recuou. Ergueu os punhos diante do rosto, os braços tremendo, mas firmes.

O impacto lançou-o para trás. Seu corpo rolou na grama, a dor irradiando por cada músculo. Ao tossir, algo chamou sua atenção: um brilho estranho emanava do corpo inerte de Koromon.

— O quê…? — murmurou, confuso.

Levantou-se cambaleante, a cabeça latejando, e apoiou-se numa árvore próxima.

No lugar de Koromon, agora havia um anfíbio verde quadrúpede, os olhos cintilantes de fúria enquanto encarava o besouro. De repente, uma corrente elétrica disparou de seu corpo, atingindo uma das pernas do inimigo.

O besouro desequilibrou-se, os dentes afiados rangendo como lixa contra pedra. Takasaki tapou os ouvidos, quase caindo, mas conseguiu manter-se em pé.

O anfíbio, então, aproximou as patas dianteiras da barbatana laranja em seu dorso. Com um movimento fluido, arrancou-a e arremessou-a como um bumerangue.

O besouro foi atingido em cheio. Caiu, o corpo esmagando-se contra o solo com um estrondo — e então, explodiu. Desintegrou-se em partículas luminosas que se agruparam num objeto ovalado antes de dissiparem-se no vento.

Takasaki observou, atordoado, enquanto o anfíbio recolocava a barbatana no lugar. Aproximou-se dele sem pressa, a expressão serena.

— Koromon…? — perguntou ele, inclinando a cabeça.

— Não mais — respondeu o anfíbio, balançando a cabeça. — Agora, sou Betamon.

Takasaki não entendera nada dos últimos minutos, mas decidiu deixar para depois. Sentou-se numa pedra, pegou uma laranja da sacola e descascou-a com os dedos. Estendeu-a a Betamon, que a abocanhou — quase levando um dedo junto.

Ele riu, o som abafado pela máscara. Um sorriso escondido surgiu-lhe no rosto ao ver Betamon mastigar a fruta com expressão de puro deleite.

Enquanto o sol se punha no horizonte, Takasaki refletiu: suas férias seriam muito diferentes do que imaginara.

Só esperava sobreviver para contar a história.