Digimon: Fighters
18 A Indecisão de Pedro
Letícia despertou no outro dia recuperada. A manhã chegava e, com ela, a partida para uma nova aventura. Mas agora era diferente da última vez que tinha acordado para um dia assim. Agora se sentia mais pronta do que antes, mas, ao mesmo tempo, mais triste porque, dessa vez, iria embora para não ver sua família por algum tempo.
Ela suspirou enquanto terminava de fechar a mochila que planejava levar.
― Não se preocupe, Letícia ― ela ouviu Toramon a chamar, vindo de dentro de seu digivice roxo, como se tivesse lido os pensamentos de sua parceira ― Você vai estar de volta antes que perceba.
― Eu só não quero que meus pais fiquem muito preocupados ― ela falou, mas sabia que não tinha jeito de evitar tais sentimentos. Ela nem tinha tido a coragem de falar com eles cara a cara sobre o que ia fazer. Havia escrito um bilhete e iria deixá-lo em cima de sua cama. Estava planejando sair antes de eles acordarem.
Letícia soltou um fraco sorriso pela ironia. Tinha encontrado sua coragem para fazer Toramon digivolver e lutar, mas não conseguia ser corajosa o suficiente para contar aos seus pais que estaria partindo por um tempo. Talvez ela não tivesse mudado tanto assim...
― Mas não tem jeito, não é? ― Letícia voltou a falar, por fim.
― Acho que não, Letícia ― Toramon concordou e Letícia pegou seu digivice que estava em cima da cama, se preparando para sair ― Mas muito obrigada por fazer isso. Não somente eu, mas todo o Digimundo agradece.
Letícia sorriu para sua parceira e ajeitou sua mochila nas próprias costas. Dr. Joel estaria em sua porta a qualquer momento para buscá-la, foi o que combinaram na noite passada.
― Só queria que isso não fosse tão difícil assim ― ela suspirou e começou a sair do quarto. Aquela seria a última vez que estaria naquele quarto por algum tempo. Em apenas um único dia, muitas coisas mudaram em Letícia. Não foram mudanças gigantes, mas ela sentia em si mesma que algo estava diferente.
As batidas do seu coração ecoavam em seus ouvidos. O Digimundo a esperava e ela mesma esperava estar a altura das expectatives que Toramon e os outros estavam colocando sobre ela.
+ + +
Pedro mal tinha conseguido dormir. O sol nascia no Digimundo e ele estava assistindo o belo alvorecer do topo de uma torre do palácio de Royalmon. Sua cabeça martelava com a ideia de Jokermon. Seu tempo estava acabando e ele ainda não tinha uma resposta completa.
Uma oferta de verdade tentadora. Mas precisava admitir que não confiava completamente em naquele Jokermon. Cornmon havia lhe dito várias vezes que ele sentia algo estranho ao estar na presença do digimon palhaço. Só ficava mais difícil de aceitar aquela proposta. Mas, ainda assim, Pedro não conseguia encontrar em si a motivação para negá-la também. Era, de verdade, tudo o que ele vinha querendo para provar que era uma peça essencial do exército de Royalmon.
Mas era algo arriscado. Se o fizesse, estaria contrariando ordens diretas de seu mestre. Ele veria aquilo como alta traição. Mas se fosse bem sucedido na missão, Royalmon precisaria reconhecer o esforço de Pedro e permitir que ele agisse mais em missões. Pedro iria provar de uma vez por todas que ele era importante, que podia ser muito mais útil do que estava recebendo crédito.
Mesmo assim... Era muito complicado dar uma resposta. Muitos fatores divergiam na mente dele. Prós e contras lutavam entre si constantemente.
― Pedro? ― ele ouviu Cornmon se aproximar, tirando-o de seus pensamentos. Pedro havia deixado seu digimon dormindo depois de ter perdido o sono. Nenhum deles havia informado Royalmon de que estavam de volta, até onde sabia, ninguém no castelo tinha consciência da presença deles ali ― Eu acordei e você não estava no quarto. Tá tudo bem?
― Não consegui dormir ― Pedro respondeu ― Fiquei pensando o tempo todo em Jokermon e no que ele falou.
Pedro puxou a carta que tinha recebido do digimon palhaço, que carregava consigo para todo o lado desde que a tinha recebido. O coringa parecia o encarar diretamente nos olhos.
― Vai aceitar a missão dele? ― Cornmon questionou.
― Eu não sei... ― Pedro murmurou ― Você acha que eu não devia, não é?
― Se você sabe disso, por que pergunta? ― Cornmon retrucou.
― Eu quero aceitar, Cornmon ― Pedro baixou a carta e voltou a encarar os raios de luz que iniciavam o dia. As florestas na distância pareciam tão pacíficas sob o sol ― Quero provar que posso ser tão útil quanto Encantemon, Onyxmon e Katmon.
― Mesmo sabendo que isso pode te dar problemas com mestre Royalmon? ― Cornmon perguntou. Ele não usava um tom acusatório ou nada do tipo, parecia verdadeiramente preocupado com o que podia acontecer com Pedro ― Não acha melhor apenas seguir com os planos como eles foram elaborados?
― Se seguirmos com os planos de Royalmon, nós nunca vamos para a linha de frente, Cornmon ― Pedro respondeu ― Ele já tinha ficado bravo quando fomos para o mundo humano atrás daquele doutor e os outros pequenos digimons. Ele não... É como se ele não confiasse em mim.
― Ele confia em você ― Cornmon se aproximou mais de Pedro, o pequeno digimon estava agora bem próximo, na altura da cintura de seu parceiro. Pedro o encarou ― Ele só quer garantir o nosso sucesso. Você é um poderoso aliado ao lado dele.
― Ás vezes eu me sinto mais como um troféu do que como um aliado ― Pedro se encolheu enquanto as palavras saiam de sua boca ― Se formos bem sucedidos, Cornmon, Royalmon terá que me reconhecer como alguém que pode lutar. Um verdadeiro aliado. Eu sei que eu também sou um dos escolhidos de Halomon, mas os humanos destruíram a minha família. Eu nunca o trairia e me juntaria a eles. Mesmo assim...
― Você vai aceitar a missão, não vai? ― Cornmon interrompeu a fala de Pedro. Não adiantava mais seguir aquela conversa em círculos. Pedro seguiria sua vontade, aceitaria a proposta de Jokermon. Lá no fundo ele já sabia disso, mas sua consciência ainda brigava com seu coração.
― Se você sabe disso, por que pergunta? ― Pedro perguntou de volta com um sorriso fraco em seu rosto e ouviu Cornmon acompanhá-lo com uma leve risada ― Você vai ficar do meu lado mesmo que estejamos indo contra a vontade de Royalmon?
Ele ouviu um zumbido alto vindo do seu lado e se voltou para encarar Cornmon voando para ficar cara a cara com ele. As pequenas asas de inseto batiam rapidamente para fazer pequeno digimon verde planar. Os olhos grandes de Cornmon encaravam Pedro diretamente agora.
― É claro que vou ficar ao seu lado, Pedro. Sou seu parceiro, é pra isso que estou aqui. Pra te ajudar quando você precisa. Eu só quero que esteja preparado para lidar com as consequência da decisão que tomar.
Pedro respirou fundo. Estava preparado? Estava preparado para, se falhar, sentir a ira de Royalmon sobre si? A acusação de traição? E se fosse bem sucedido, será que as coisas saíriam como ele pensava? Será que estava preparado para todos os múltiplos cenários que poderiam acontecer?
Ele não sabia. Tudo o que sabia era que estava cansado de ser deixado de lado, estava cansado de se sentir inútil, estava cansado de ser mandado em grupos de busca. Estava cansado de ficar esperando pela vingança que Royalmon lhe prometeu.
― Vamos ter que descobrir, eu acho ― ele, então, levantou a carta coringa que tinha em sua mão e encarou Cornmon uma última vez ― Pronto, Cornmon?
― Quando você quiser, Pedro. Estou aqui pra tudo.
Pedro concordou com um movimento de cabeça e se voltou para a carta mais uma vez. Como será que essa carta funcionava? Jokermon apenas tinha dito para usá-la quando ele estivesse pronto, mas não tinha lhe entregado um manual de instruções.
― Jokermon? ― ele falou para a carta, arriscando um método para trazer o digimon até si ― Está me ouvindo?
― Alto e claro ― a voz que tomou conta da pequena caverna assustou Pedro e Cornmon, que se voltaram para o interior do local enquanto assistiam o digimon palhaço sair das sombras. O sorriso dele fez o sangue de Pedro gelar ― Devo presumir que decidiu aceitar a minha oferta?
Pedro cerrou os punhos, se recompondo do susto de antes.
― Não quero ser deixado de lado na luta contra os digiescolhidos. Quero provar para mestre Royalmon o quão valioso eu posso ser.
― Muito bem, muito bem ― a voz de Jokermon ecoava pelas paredes como uma sinfonia macabra saindo de alto falantes ― Muito boa escolha, meu caro Pedro. Prometo que, assim que você acabar com o último dos digiescolhidos, Royalmon irá lhe recompensar pelo seu grande feito. Agora, ― mais um movimento de mão e mais uma carta coringa se materializou nas mãos de Jokermon ― hora de te mandar para o mundo dos humanos.
Pedro engoliu em seco e olhou para Cornmon mais uma vez. Ele podia jurar que via uma aura de preocupação cercando o olhar de seu digimon. A verdade era que ele também estava nervoso, mas agora não podia voltar atrás. Tinha uma missão para cumprir.
+ + +
Depois de terem tentado rastrear os generais de Royalmon, Paulo havia entendido porque o grande digimon havia enviado Katmon para chamar seus subordinados de volta ao palácio. O pequeno digimon felino era rápido e ágil podendo se locomover com muita facilidade entre as regiões das quais os generais eram responsáveis.
Ao todo, Royalmon possuía quatro generais que ficavam responsáveis por uma área do Digimundo: norte, sul, leste e oeste. Paulo e Maustmon não conseguiram acompanhar Katmon em sua missão por causa da facilidade do digimon em se mover pelas florestas do Digimundo, então não haviam chegado aos três primeiros generais com os quais Katmon havia se encontrado. Mas eles haviam encontrado o quarto e último deles.
Graças a uma ideia de Maustmon, Paulo e seu parceiro haviam encontrado Katmon no caminho para o deserto ao leste e o seguiram, dessa vez tentando de todas as maneiras não perdê-lo de vista. Paula queria que não fosse tão procurado no Digimundo, senão poderia ter feito Maustmon digivolver para acompanhar com mais facilidade. De qualquer modo, por um milagre eles haviam conseguido acompanhar Katmon.
Agora, eles estavam escondidos atrás de uma coluna de pedras ao lado de uma montanha no deserto, esperando a conversa entre Katmon e o último general, Crowmon, terminar. Crowmon era o general que cuidava do leste, ele possuía asas negras e uma espada dourada que descansava em sua cintura. Estava planando próximo à montanha enquanto seus subordinados garatiam o controle de um vilarejo próximo.
Katmon estava em pé no topo das pedras enquanto a conversa prosseguia.
― Como se as tropas rebeldes no Digimundo já não fossem problemas o suficiente, ― Paulo ouviu Crowmon falar. Ele estava de costas para Katmon, não tirava os olhos do vilarejo em sua frente ― agora temos que adicionar os salvadores de Halomon aos nossos problemas. Royalmon tem pelo menos um plano para esses pirralhos?
― Acredito que sim ― Katmon respondeu ― Afinal, não acredito que ele me mandaria buscar seus generais se não tivesse algo em mente.
Crowmon suspirou.
― Muito bem ― o digimon cruzou seus braços sobre o próprio peito ― Pode voltar ao castelo e avisar que estou a caminho. Só preciso garantir que tenha alguém no comando desse esquadrão.
― Sim, senhor ― Katmon falou e começou a saltar entre as pedras, fazendo o caminho de volta para onde tinha vindo.
Por alguns segundos, nada aconteceu. Crowmon não se moveu de onde estava e Paulo não tinha certeza do que fazer. Sentiu Maustmon se mover sobre seu ombro, chegando perto de seu ouvido.
― Como devemos atacar? ― Paulo susssurou para seu parceiro, tentando manter a voz o mais baixa possível ― Temos que aproveitar o elemento surpresa, mas precisamos de um bom plano, Maustmon.
― Sim, eu sei ― Maustmon concordou, também sussurrando ― Estou pensando...
― Eu sei que estão aí ― a voz de Crowmon encerrou a conversa entre Paulo e Maustmon, pegando os dois completamente desprevenidos. Por alguns instantes, Paulo não conseguiu se mexer ― Não pensaram mesmo que iriam me pegar desprevenido, não é? Podem sair.
Paulo suspirou. Bom, não tinha mesmo o que fazer. Ele saiu de trás da rocha da qual se escondia, Maustmon ainda em seu ombro, se revelando para Crowmon.
― Acho que lá se vai o elemento surpresa ― Paulo murmurou.
― Acredito que sim ― Maustmon completou.
― Elemento surpresa ― Crowmon riu da frase enquanto se virava para encarar Paulo e seu parceiro. O rosto de Crowmon era uma máscara carrancuda com um pequeno bico afiado, seus olhos era rígidos como um quartel ― Acharam mesmo que tinham um elemento surpresa?
― Talvez tenhamos nos superestimado ― Paulo respondeu ― Afinal, você é mesmo um dos generais do exército de Royalmon. Vamos precisar ter muito mais cautela com você.
― Humanos... ― Crowmon murmurou, trincando os dentes ― Só trazem um problema atrás do outro em assuntos que não lhes dizem respeito.
― A proteção do Digimundo e do mundo humano diz respeito tanto aos digimons quanto aos humanos ― Maustmon falou em defesa de seu parceiro.
― A tomada do Digimundo já não pode ser evitada ― o digimon alado declarou ― E a invasão do mundo dos humanos é apenas uma questão de tempo. Não há nada que possa ser feito para impedir tais eventos. Além do mais, se não me engano, você não é um dos digiescolhidos. É só um humano que, como eu disse, está causando problemas em assuntos que você nem pode resolver.
― Posso não ser capaz de resolver essa guerra, mas posso ajudar a reduzi-la ― Paulo afirmou, retirando de seu bolso o seu digivice preto e laranja. Ele já conseguia sentir o calor em seu punho direito.
― Você é um tolo ― Crowmon, então, descruzou seus braços e começou a levar uma de suas mãos até sua espada ― Pensa que pode agir sozinho contra um general. Bom, se veio para uma luta, ótimo. Royalmon vai ficar feliz em saber que me livrei de você!
― Precisamos ter cuidado com ele, Paulo ― o cientista ouviu Maustmon murmurar contra seu ouvido para que só ele pudesse ouvir ― Eu posso ser um digimon forte comparado com os outros, mas Crowmon ainda é um bravo oponente.
― Está dizendo que... ― Paulo começou a falar, mas foi Maustmon quem terminou sua frase.
― Vou precisar digivolver para Hipocalimon para lutar de igual para igual com ele.
Paulo franziu a testa, preparando seu DNA para a evolução. Ele já imaginava que Maustmon não conseguiria lidar com os generais em sua forma adulta, afinal todos eles eram digimons perfeitos. O nível de poder era bem diferente. E mesmo assim, eles não tinham como ter certeza da vitória. Não haviam recebido os poderes sagrados de Halomon, uma luta de igual para igual nesse caso não seria algo vantajoso.
Mas já estavam aqui. Não podiam correr agora. Precisavam fazer o melhor que podiam para ajudar o Digimundo. Paulo sentiu o calor tomar conta de todo o seu corpo e, logo, seu DNA laranja tomou forma, cobrindo-o completamente com um manto feito de dados.
― Pronto, Maustmon?
― Sim! ― Maustmon respondeu, saltando do ombro de Paulo e se jogando na batalha.
Paulo, então, concentrou seu DNA em seu punho direito, colocando-o na parte superior do digivice. O fogo laranja foi absorvido e um brilho forte tomou conta do local.
― Carregar DNA! Carga Total!
Maustmon super digivolve para... Hipocalimon
A silhueta de Maustmon começou a crescer em um brilho laranja até ficar do mesmo tamanho de Crowmon, tomando a forma de sua aparência evoluída. Quando o brilho se dissipou, lá estava ele: um centauro de armadura dourada com asas brilhantes e um rosto em formato de dragão. Hipocalimon.
― Que comece a batalha ― Hipocalimon declarou, sua voz majestosa e profunda ecoando nas pedras. E os dois digimons avançaram um contra o outro.
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