O caminho para o laboratório havia sido silencioso. Na verdade, dependia de para quem você olhava. Para Lucas, foi um silêncio porque ele não queria conversar com os outros. Estava mergulhado em seus próprios pensamentos enquanto Daniel, Vitor e seus digimons contavam para Letícia e Toramon sobre os eventos da noite passada.

O dr. Joel também estava prestando atenção enquanto dirigia, parabenizando Vitor por ter lidado bem com a situação. Lucas não achava que ele tinha lidado bem com a situação. Pular diretamente na ação sozinho e sem ser capaz de fazer seu parceiro digivolver tinha sido pura estupidez. Infelizmente, ele parecia ser o único que via tudo isso daquela forma.

Ele não conseguia tirar a conversa que tivera com Daniel de sua cabeça. Será que era tão errado assim se preocupar com o futuro da missão deles? Não é que ele não confiava em Vitor e Letícia para ajudarem com tudo, só que eles não haviam lhe dado motivos o suficiente para tal. Letícia havia congelado no primeiro sinal de batalha e nem queria ir para o Digimundo no começo. E Vitor havia agido impulsivamente apenas para provar que podia ser útil. Lucas não achava que essas eram qualidades que eles precisavam quando estivessem lutando contra o exército de Royalmon.

Mas não queria falar nada naquele momento. Não queria estragar o clima naquele carro. Nenhum deles pareceu se importar por Lucas não se meter na conversa deles.

― Tudo bem, Lucas? ― foi Guepmon quem perguntou, trazendo seu parceiro de volta para a realidade.

― Tudo bem sim, Guepmon ― Lucas respondeu, forçando um sorriso para o pequeno digimon azul. Ele olhou de relance para Daniel mais uma vez, bem rapidamente. Os outros não pareciam estar escutando a conversa dele com Guepmon.

― Tem certeza? ― Guepmon insistiu ― Desde ontem à noite que você tem ficado bem quieto. E você fica olhando pro Daniel o tempo todo...

Lucas congelou por um segundo. Ele ficava olhando para Daniel? Quando tinha começado a fazer isso? E era tão óbvio assim que Guepmon havia notado? Será que alguém mais havia notado?

― É por causa daquela “divergência de opiniões” que você falou ontem? ― Guepmon perguntou. Desde a noite anterior que Lucas havia tentando evitar falar sobre sua conversa com Daniel para seu parceiro. Podia causar ainda mais problemas e discussões que não seriam úteis para nada.

Lucas suspirou.

― Pode-se dizer que sim. Mas não se preocupa, Guepmon. Não é nada.

― Não parecia nada ― Guepmon insistiu. Lucas se perguntava como era possível que eles haviam conhecido seus parceiros há menos de uma semana e já estavam tão próximos dos pequenos monstrinhos. Será que seria aquele tal laço que o Dr. Joel havia comentado sobre? Depois de ter feito Guepmon digivolver, Lucas não conseguia mais ver a sua vida sem o digimon ao seu lado. Mas ainda não eram próximos o suficiente para que Lucas contasse tudo o que estava sentindo para o digimon azul.

― É o que eu falei ontem, Guepmon ― Lucas respondeu, por fim ― Daniel e eu temos opiniões diferentes. Só estávamos falando sobre um assunto sem importância.

Guepmon não respondeu de imediato. Lucas encarou o gato azul nos olhos e podia sentir a intensidade do que se passava em sua mente. De todos os quatro digimons, Guepmon era com certeza o mais intenso e sério entre eles. Não surpreendia que Lucas havia caído como seu parceiro.

Ele sentiu um leve calafrio percorrer seu corpo quando Guepmon voltou a falar.

― Você não precisa me contar tudo o que acontece. Mas, se quiser colocar algo pra fora, eu tô aqui. Somos parceiros, afinal.

Lucas sentiu um leve sorriso se formar em seu rosto.

― Obrigado ― ele agradeceu e encarou os outros uma última vez. Eles estavam empolgados e sorridentes. Lucas sentiu seu estômago embrulhar, sentindo-se um pouco de fora nessa situação toda. Sentindo como se fosse o único que entendia a gravidade do que estava acontecendo.

Mas ele tentou ignorar seus pensamentos.

“Você precisa confiar mais nos outros”. Foi o que Daniel falou. Talvez devesse tentar. Confiar que eles sabiam o que estavam fazendo. Mas ainda havia aquela pequena pulga atrás de sua orelha que não queria largar dele.

+ + +

A casa de campo ainda estava severamente destruída por causa do ataque do fantasma roxo, mas parecia que a pior parte da demolição já estava mais limpa. Pelo menos era o que Daniel pensou quando eles desceram da van. Ainda era um pouco difícil de acreditar que tudo aquilo tinha acontecido apenas um dia antes. Agora, lá estavam eles de novo para partirem. Dessa vez, nada poderia impedi-los.

Os digiescolhidos e os digimons seguiram o dr. Joel até o porão da casa, mesmo que agora não tivesse sobrado muito sobre ele para que fosse realmente um porão. As outras cientistas, Susana e Cristina, já estavam à espera deles. O portal estava reconstruído bem no centro do local e a loira e a morena estavam digitando em computadores, talvez terminando a programação.

― E então, meninas? ― foi o dr. Joel quem falou primeiro, se aproximando das outras cientistas nos computadores ― Tudo pronto?

― Já colocamos as coordenadas ― Susana respondeu ― Só precisamos da sua ajuda com as alavancas de força para impedir que elas sobrecarreguem. Mas está tudo pronto para a partida.

Daniel sentiu um súbito aperto no peito quando ouviu aquelas palavras. Ele sabia que era o que iria acontecer, mas ouvir em voz alta ainda o fazia hesitar. Ele desviou o olhar para os outros, estudando suas expressões e tentando adivinhar se sentiam o mesmo que ele.

Vitor parecia ter um ânimo rejuvenescido em seus olhos. Talvez ter feito Tanmon digivolver na noite passada tivesse lhe dado motivação extra para pular de cabeça naquela missão. Letícia já estava uma pouco mais assustada, repousando suas mãos sobre o peito como se rezando para que desse tudo certo. Mesmo assim, seus olhos mostravam uma nova determinação que, um dia antes, não estava ali.

Lucas era quem Daniel não conseguia desvendar. Ele parecia não estar impressionado, parecia estar apenas ali. Seus olhos não revelavam nenhuma emoção marcante. Ele parecia... Analítico. Essa era uma boa palavra para descrever Lucas, especialmente depois da conversa que ele e Daniel tiveram noite passada. Só esperava que as coisas não ficassem piores entre eles daqui em diante. Tinham uma missão importante demais para se deixarem levar por brigas desnecessárias.

Mesmo pensando assim, Daniel não conseguia ignorar a sensação fervente que o inundava quando pensava nas palavras de Lucas. Quando lembrava dele dizendo que Vitor e Letícia poderiam ser mais problemas do que ajuda.

― Muito bem, então ― o dr. Joel respondeu, se aproximando das alavancas no painel de controle ― Acho que é hora de nos despedirmos, então. Vocês têm uma missão à cumprir.

― O que? ― Daniel indagou ― Como assim nos despedirmos?

― O senhor não vai com a gente? ― Letícia completou.

― Infelizmente, não ― dr. Joel falou ― Ainda existe uma missão a ser cumprida neste mundo. Uma que só eu, Susana e Cristina podemos realizar.

― Mas como assim? ― Daniel tomou a palavra ― Que missão é essa?

― Ainda existe um digiescolhido para ser encontrado ― dessa vez foi Susana quem respondeu ― A profecia de Halomon fala de seis salvadores. Com vocês aqui e mais Pedro, temos apenas cinco.

― Precisamos encontrar o último e fazer com que chegue até o Digimundo para a batalha com Royalmon ― Cristina completou.

― Mas, dr. Joel, o senhor não acha que as meninas podem cuidar disso sozinhas? ― Lucas se intrometeu, pela primeira vez mudando sua feição séria ― Você seria muito mais útil nos ajudando no Digimundo, nos guiando por lá.

― É ― Letícia concordou ― Não sabemos nada de lá.

― Mesmo que ele quisesse ir, não teria jeito ― Susana continuou ― Com os danos da batalha, o portal não vai funcionar sem a ajuda externa. Nós três precisamos ficar para garantir que a estrutura toda não vai colapsar. Sinto muito, crianças, mas mesmo que os seis juntos estivessem aqui, não teria como irmos junto.

Ninguém falou nada. A sala caiu em um silêncio enquanto todos absorviam a inevitabilidade da situação. Daniel trincou os dentes, querendo falar palavras que não vinham. Querendo brigar pelo impossível, mas nada lhe surgia na cabeça.

Dr. Joel suspirou.

― Vocês ainda possuem seus digimons. Dinomon e os outros conhecem o Digimundo melhor do que nós ― Joel falava cada palavra enquanto passeava seus olhos pelos quatro adolescentes, encarando cada um nos olhos. Daniel sentiu toda a intensidade de suas palavras quando seus olhares se encontraram ― Vocês vão ficar bem. Seus digimons estarão lá para ajudá-los. E, além disso, existe mais um de nós no Digimundo. Dr. Paulo Mercedes ainda está lá e ele é o melhor da nossa equipe, com certeza vai poder ajudá-los.

― Mas... ― Vitor indagou, atraindo a atenção de todos. Sua voz tremia enquanto falava ― Isso quer dizer que não estarão lá para nos ajudar na luta contra Royalmon?

Joel balançou a cabeça de forma negativa, vagarosamente.

― Não, Vitor. Mas lutar contra Royalmon nunca foi nossa missão. Vocês são os salvadores daquele mundo, nós somos apenas seus guias. Derrotar Royalmon é o destino de vocês. Sempre esteve nas suas mãos, não nas nossas.

Daniel engoliu em seco, encarando as expressões assustadas de Vitor e Letícia. Ele próprio também estava nervoso agora. Carregar toda a responsabilidade sozinho, sem ajuda, era demais. Com Joel eles pelo menos teriam uma noção do que esperar, mas sem ele...

― O momento de desistir é agora ― Lucas declarou, fazendo com que todos os pensamentos de Daniel desaparecessem. Ele se concentrou na expressão do loiro, no olhar duro que ele dirigia para os outros. Novamente sentiu aquele aperto quente no coração ― Depois daqui não tem mais volta.

Os olhares de apreensão de Letícia e Vitor atingiram fundo no coração de Daniel. Letícia tinha encontrado a própria coragem a pouco tempo e Vitor só agora tinha descoberto o quão forte e necessário pode ser. Não permitiria que Lucas destruísse tal evolução com suas palavras frias.

― Ele tem razão ― Daniel tomou a palavra ― Depois daqui não tem mais volta. Essa é a hora de desistir. Porque, daqui pra frente, nós somos os responsáveis pelo nosso destino e o do Digimundo. Um mundo que está perdido nas trevas e que precisa da nossa ajuda. Um mundo que está contando apenas com a gente e com nossos digimons. Vai ser difícil, vai ser arriscado e perigoso, mas nós somos a única esperança que aquele mundo tem. Então, se querem desistir, tudo bem, mas lembrem-se de que Dinomon, Toramon, ― Daniel levou seu olhar até os olhos de Letícia ― Tanmon, ― então encarou Vitor ― e Guepmon ― por fim, parou os olhos em Lucas ― também contam conosco.

Lucas encarava Daniel com uma intensidade indecifrável. Daniel não sabia se ele queria cuspir na sua cara ou se o chamaria para tomar um chá.

― Tem razão ― Vitor falou, quebrando a tensão na sala ― Não podemos desistir. Não quando tem tanta coisa em jogo.

― Isso mesmo ― Letícia concordou ― Vai ser arriscado, você tá certo, mas eu fiz uma promessa para Toramon e eu não vou quebrar uma promessa que eu fiz para minha parceira.

Daniel sorriu com as palavras dos outros, agradecido por ter espantado um pouco do medo de antes.

― Se vocês pensam assim... ― Lucas murmurou.

― Muito bem então ― Daniel celebrou, cortando Lucas antes que ele falasse mais alguma coisa. Ele encarou o dr. Joel e as outras cientistas, que o encaravam de volta com um sorriso discreto, quase orgulhoso ― Estamos prontos para ir, dr. Joel.

― Certo ― Joel concordou ― Meninas, preparar para a abertura do portal.

― Certo ― Susana e Cristina concordaram em uníssono.

Daniel respirou fundo enquanto encarava a grande estrutura de metal se acender. Logo mais estariam no mundo de Dinomon e a coisa ficaria muito mais séria. A partida estava próxima.

+ + +

Lá estava ele. Com um simples passo, Pedro tinha aparecido no mundo dos humanos, atravessando o portal que Jokermon tinha aberto para ele. Lá estava, com Cornmon ao seu lado, pronto para completar a missão que o digimon palhaço havia lhe dado.

― Chegamos ― Cornmon declarou quando eles se viram em um beco da cidade, afastado de todos e escondidos pela sombra de alguns prédios ao redor. O portal por onde tinham chegado se fechava logo atrás deles.

Pedro engoliu em seco.

― Sim, chegamos.

― E agora? ― Cornmon questionou.

― Agora fazemos como Jokermon instruiu ― Pedro alcançou o bolso do short que usava e, de lá de dentro, tirou mais uma carta de coringa, mas que, dessa vez tinha uma função diferente das últimas ― Seguimos a carta e ela nos levará até o último digiescolhido.

Pedro jogou a carta para o céu como Jokermon havia lhe dito e esperou que funcionasse. A carta começou a planar e se afastar deles, do jeito que o digimon traiçoeiro falou.

― Vamos, Cornmon! ― Pedro falou, disparando atrás da carta com seu parceiro inseto voando logo atrás. Logo ele estaria na presença da última criança. E, para provar seu valor a Royalmon, acabaria com a ameaça de uma vez por todas.