Manhã de Domingo.

Um Boeing acaba de aterrissar em solo espanhol, mais precisamente em Madrid. Toda sua grandiosidade ao taxiar era observada por várias pessoas de dentro do saguão. Um homem de aproximadamente trinta anos se deslocava em direção ao portão de desembarque. Vestia terno escuro, camisa branca e gravata também escura. Várias pessoas entravam pelo portão de desembarque e cumprimentavam as pessoas que os aguardavam. Leon é um dos últimos a deixar a aeronave portando sua mochila e sua pequena mala. Seu braço ainda estava preso a uma tipoia. O rapaz segue caminhando em direção a saída, sem se preocupar com alguém que possivelmente poderia estar à sua espera. O homem de terno, ao vê-lo se afastar, apressa seus passos e se aproxima do garoto, que é um pouco maior do que ele.

— Hola Caballero.

— Hola Júlio ¿Como estás?

— Bien. ¿Cómo fue la boda?

— Fue hermoso. ¡Brasil es un país maravilloso!

— ¿Y ese brazo?

— Tropezó mientras corría a la playa — Leon continua andando, agora era ele quem seguia Júlio.

Já no estacionamento o homem de terno abre uma das portas traseiras de um carro preto esportivo. O carro mais caro daquele estacionamento.

Durante o trajeto, Leon apreciava a vista da sua cidade natal como se há muito tempo a tivesse deixado pra trás. Entre as boas recordações de vários pontos famosos da capital espanhola, ele se recordava de seus amigos que ficaram no Brasil e do seu digimon, Veemon.

A casa de Leon é espetacular. Um grande portão de ferro se abria em duas partes conforme o carro se aproximava. Dois homens, também usando terno, faziam à segurança da entrada. O carro segue por um pequeno caminho. Ao seu lado direito, uma quadra poliesportiva e do lado esquerdo uma enorme piscina em forma de oito, que se ligava a outra piscina, menor e redonda, por meio de um canal que passa por debaixo do caminho que leva a casa. O chofer estaciona o carro e abre a porta para Leon descer. O garoto agradece e segue até sua casa.

Uma grande escada de mármore negro fazia a ligação entre os dois pisos da casa. No hall havia um confortável sofá branco, alguns quadros presos à parede e enormes fotografias do domador e dos seus pais. Seguindo pela direita da escada, ainda no térreo, chegaremos à garagem e a academia. Já pela esquerda, chegaremos à cozinha e ao escritório. Leon abre a enorme porta de madeira e entra no escritório. No local havia enormes prateleiras abarrotadas de livros e miniaturas de vários corpos celestes que seguiam pelas paredes laterais. Próximo à porta haviam duas mesas redondas de madeira com quatro cadeiras cada. Sobre as mesas haviam um globo do tamanho de uma bola de futebol feito de alumínio polido, com as divisões políticas gravadas em sua superfície. Ao fundo da sala havia uma enorme mesa munida de laptop, livros de astronomia empilhados uns sobre os outros, réplica de um telescópio, canetas, lápis, bloco de anotações e uma confortável cadeira de couro. Atrás da mesa havia um telescópio posicionado em frente a uma cortina roxa que tomava toda a parede.

Leon se assemelha muito a seu pai: Altura, tom dos olhos e do cabelo, sorriso e personalidade. A única diferença é que o seu pai possui um corpo com musculatura um pouco mais definida e cabelo bem curto. Otávio Freire tem quarenta e quatro anos e estava utilizando o computador quando percebe que seu filho havia chegado e estava parado, próximo a porta, observando-o.

— ¡Mi hijo! – Otávio se levanta radiante da cadeira e vai de encontro ao Leon.

— ¡Padre!

Os dois se abraçam com pleno carinho.

— ¿Cómo fue la boda del Maurício?

— Padre, pode falar português. Eu aprender.

— Leon, que bom! Não acredito que em quase dois meses você conseguiu aprender.

— Ainda fale erado. Mas estava aprender.

— Só por entender já é o bastante. Conjugação ainda é seu pecado, mas isso você aprende com o tempo. Português é difícil. Deixe-me formular a pergunta novamente: Como que foi o casamento de Maurício? Alice devia estar radiante.

— Sí. — Leon caminha até a mesa da direita e se senta.

Seu pai o acompanha.

— Tia Alice estava radiante. Casamento foi hermoso. Maurício dijo que pasaría la luna de miel aquí. Sólo se espera que tome vacaciones.

— Fiquei sabendo que fez amigos lá em Salvador. Alice me contou tudo. Disse também que você não parava em casa.

— Fiz muchos amigos la. Estoy pensando seriamente en vive la.

Otávio se assusta com a notícia.

— Sempre te convidava para irmos passar vacaciones en Brasil e você era contra. Colocava defectos. Foi a boda contra a vontade, para representar su madre e eu. Deve ter acontecido algo de legal lá. Y esas lesiones? Alice me dijo que se tropezó enquanto caminaba por la playa. ¿En serio?

— Sí, padre. ¿Por qué ahora es la desconfianza. ¡Yo no hice nada! – Leon estava exaltado.

— Calma, Leon. Eu não estou desconfiando de nada, só perguntei. Me preocupo contigo.

Uma voz interrompe a discursão.

— Señor Leon – Júlio estava próximo a porta. — Tomé su equipaje a su habitación.

— Muchas gracias.

Júlio se retira. Leon se levanta.

— Padre... Eu vou para meu habitación. Tengo sueño. ¿Donde está mi madre?

— En nuestra habitación. En caso de estar tomando un baño de ahora.

— Depois conversamos. Adiós.

Leon se retira do escritório, fechando a porta. O garoto sobe as escadas e antes de ir até seu quarto, vai de encontro a sua mãe. Estava sedento de saudades. A mãe do garoto é uma bela espanhola também nascida em Madrid. Cabelos castanhos cacheados, pele morena, corpo escultural. Se dependesse da saudade de ambos, continuariam com a conversa por várias horas.

O quarto de Leon é grande e aconchegante. Televisão de última geração, aparelho de som, frigobar, cama de casal, poltronas, escrivaninha, uma enorme varanda com mesa e cadeira. O corredor que levava ao banheiro do rapaz era cercado por um imenso guarda-roupa. Leon entra em seu quarto e vai se despindo com certa dificuldade por conta do braço imobilizado. O garoto pega um controle sobre a escrivaninha próxima a cama e liga o ar condicionado, deitando somente de cueca. O vento gelado soprava em seu rosto, balançando seus cabelos. Olhando para o teto, aos poucos seus pensamentos o transportam de volta ao Mundo Digital. A difícil batalha que tiveram contra Etemon; A batalha contra os demais domadores; Contra Mugendramon que acabou vitimando Caio. A recente morte de Carlos, que conseguiu no último momento salvar a todos.

— “Y cuando mi tiempo? ¿Estará dispuesto a luchar por mi vida?”

Sem perceber o domador acaba caindo em um profundo sono.

— Leon.

Um pequeno ser de forma humanoide e pele azul, estava sentado ao lado do garoto.

— Veemon. ¿Estás aquí? – Pergunta o rapaz, assustado.

O lugar onde estavam lembrava muito uma praça no centro de Madrid que fica em frente à sua faculdade, que possui uma arquitetura medieval. Os dois estavam sentados em frente a um enorme palco equipado com enormes caixas de som, luzes e instrumentos.

— Lógico que estou. Nunca vamos nos separar, Leon.

O garoto de longa franja sobre o rosto sorri de maneira grata.

Várias pessoas começam a aparecer em frente ao palco. Em poucos minutos uma grande multidão gritava um único nome em coro: Etemon!

— Veemon, eles sabem sobre el Etemon? – Pergunta Leon, confuso.

— Sabem! Nossa existência não é mais segredo para nenhum humano.

O gorila de pele alaranjada e que usa óculos escuros, sobe ao palco movido pelos gritos e aplausos das pessoas que o esperavam. O digimon macaco caminha até o tripé que segurava um microfone no centro do palco.

— Boa noite, Mundo Real! — Todos os humanos gritavam e clamavam por Etemon. – Hoje irei fazer um enorme show. O maior de toda minha carreira.

Etemon pega, ao lado do tripé do microfone, sua guitarra.

— Que legal! Etemon es un muy famoso cantante, Veemon.

O pequeno digimon azul estava em pé sobre o banco da praça.

— Essa música dele é muito boa, Leon. Escuta só.

— Veemon, la canción pode te ferir.

— Silêncio, Leon!

Etemon posiciona sua guitarra e começa a tocar. Todas as pessoas pulavam e gritavam com a música que viria a seguir. O arranjo é muito familiar aos ouvidos de Leon, que entra em desespero.

— Esta canción... Vamos fugir Veemon!

Etemon começa a cantar:

— As duas faces são uma só, logo você entenderá. Breve, breve sua casa pelo avesso ficará. Os humanos vão morrer e ninguém evitará. Tudo de mal vai acontecer, se mal com bem não se juntar. Além das muralhas alguém influirá. O poderoso guerreiro, a grande rocha padecerá. Os humanos vão morrer e ninguém evitará. Tudo de mal vai acontecer, se mal com bem não se juntar.

Leon observava a música como havia pedido Veemon. Todos dançavam e cantavam. O digimon gorila fazia solos de guitarras absurdos, levando várias pessoas ao delírio. Aos poucos o domador vai se acalmando. Todos estavam felizes com a música, não havia motivos para entrar em desespero.

— Veemon, tienes razón... — Leon se vira na direção de seu dragão humanoide azul quando se depara com o digimon em convulsão. O domador se abaixa e tenta segurá-lo, mas ele continuava se debatendo.

— VEEMON!

Veemon nada responde, estava inconsciente. Sua boca espumava. Etemon continuava cantando. Leon olha em direção ao palco e percebe que Etemon o observava com um sorriso maquiavélico no rosto.

Leon grita desesperado:

— VEEMON!

O jovem acorda ofegante. Sua boca estava seca. Caminha até o frigobar e pega uma garrafa de água, sentando-se ao lado em uma poltrona. Aos poucos Leon se acalma quando percebe que tudo não passou de um pesadelo.

O dia de domingo estava sendo um dos piores dias da vida de João. Finalmente o domador havia conseguido reunir coragem suficiente e contar toda a verdade para os pais do Carlos. Verônica apareceu um pouco depois com Plotmon para confirmar toda versão. Renata e Celso relutaram em acreditar, pensaram que era algum tipo de brincadeira do garoto de barba cerrada. O choro contido dos dois amigos de Carlos os fizeram acreditar.

— Como assim, João? – Lágrimas rolavam pela face de Renata, que segurou-o pelos braços e o sacudia, desesperada. – DIZ LOGO O QUE ACONTECEU COM MEU FILHO!

Celso se aproxima e a segura, livrando o domador de sua inconsciente fúria. O garoto estava apático por conta da noite mal dormida.

Verônica tenta explicar.

— Tia Renata, João disse toda a verdade por mais absurda que possa parecer.

— Me desculpe, João. – Disse Celso ainda abraçando Renata. – Eu conheço o seu pai há muitos anos. Somos grandes amigos e não posso concordar com isso que você e Verônica estão falando. Terei que ligar para Marcos agora!

— Celso, por favor, não faça isso. O meu pai ainda não sabe de nada. Se quiser ligar, ligue para minha mãe. – João tentava contornar a situação. Não era o momento ideal para seu pai saber sobre os digimons.

— Celso, – diz Verônica — podemos provar tudo o que acabamos de dizer. Só preciso que você e Tia Renata sejam fortes.

Por um instante o desespero de ambos deu lugar à curiosidade. Celso e Renata olhavam para a garota magra de cabelos castanhos volumosos, que parecia paralisada após tal afirmação. Verônica estava insegura. Não sabia se poderia, de fato, provar o que havia prometido. João se aproxima da moça, depois de meses que romperam o conturbado namoro, e a toca no ombro, passando-lhe coragem através de um forçado sorriso. Verônica consente, avança na direção dos pais de Carlos e coloca Plotmon no chão. A pequena digimon fica em pé e imóvel. Verônica afasta-se de costas. Celso e Renata observavam, curiosos, sem entender a relação que havia entre a prova que a garota disse ter e o bichinho de pelúcia. Rapidamente Plotmon pisca os olhos. Celso e Renata continuavam olhando, curiosos.

Plotmon ergue a cabeça na direção dos humanos simples e diz de maneira meiga:

— Olá, pais de Carlos. Eu sinto muito pelo que aconteceu.

Instantaneamente os olhos da Renata reviram-se dentro das órbitas. A mulher de aproximadamente quarenta anos e detentoras de cabelos negros e lisos como os do filho, desmaia sobre o sofá. Celso, após o susto de ver sua esposa desmaiar, continuava olhando a pequena digimon semelhante a um cachorrinho de pelúcia de enormes olhos azuis, que nesse meio tempo corria para os braços de Verônica, assustada com o desmaio de Renata. Celso continuava olhando, calado. João e Verônica também não dizem nada até que Celso se aproxima. Seus olhos estavam vidrados na Plotmon.

— Verônica, vamos embora. Eu estou com medo dele! – Diz a digimon, que estava com os olhos úmidos.

— Calma, Plotmon.

— Isso é algum tipo de brinquedo? – Pergunta, intrigado, Celso.

— Ela se chama Plotmon e não é um brinquedo. É um ser vivo. – Responde João.

— Como assim um ser vivo? – Celso relutava em acreditar.

Verônica e João disseram tudo, contavam detalhes ao Celso. João contou também que sua mãe ficou sabendo de tudo no dia anterior.

A conversa se arrastou por várias horas. João esclareceu que todos corriam perigo e que chegaria o tempo em que todos descobririam a existência desses seres. Celso tinha uma enorme ligação com seu filho e aquela situação era muito difícil para ele. O homem chorava de maneira penosa, com as mãos pressionando a cabeça. João nunca tinha visto um homem chorar daquela maneira.

Horas mais tarde, João continuava na casa de Carlos juntamente com Verônica. Era difícil acreditar em tudo. Depois da prova quase que incontestável apresentada pela garota, os pais de Carlos resolveram dar um voto de confiança a ambos. João e Verônica tiveram que tratar a sangue frio como procederiam. Por mais inadmissível que pudesse parecer, resolveram de comum acordo divulgar a morte como uma fatalidade na fazenda da família, tendo como únicas testemunhas João e Verônica. Quanto ao corpo, o caixão viria lacrado e completamente vazio. O irmão mais velho de Celso, que é médico legista, arriscaria sua vida e sua carreira para preencher um atestado de óbito com uma morte forjada.

Continua...