Digimon Beta - E o Domador Inicial
3 Uma Grande Surpresa!
O velório de Carlos aconteceu uma semana após a difícil conversa que João e Verônica tiveram com os pais do garoto. Flávia conseguiu entrar em contato com alguns domadores pela internet e explicou tudo o que havia acontecido. Aos poucos a notícia foi se disseminando e muitos custavam a acreditar que Levi estava vivo e que Carlos e um dos calouros haviam morrido. Vários dos colegas e amigos de Carlos estavam presentes, entre eles familiares, professores, vizinhos e domadores.
— Júnior, esses são Celso e Renata, pais de Carlos, e essa é a minha mãe, Cláudia.
— Sinto muito por tudo! – O garoto alto e magro cumprimenta os pais de Carlos e a mãe de João.
Verônica estava sentada a direita do salão e estava muito abalada. Murilo estava ao seu lado. Por vários momentos recebia abraços e ouvia palavras de conforto de pessoas que sabiam da sua grande amizade com o garoto falecido. Ao seu lado também estavam Bárbara e Bento. Flávia estava próxima deles, assim como Cláudio, mais conhecido por Kau, Lucas, Levi, Albert, Mateus e Fernanda. Os outros domadores ficaram impossibilitados de comparecer por causa dos digivices. Sem esse aparelho fica difícil se locomover com rapidez e custo zero.
O digivice se assemelha a um aparelho celular: retangular, prateado e superfície espelhada. Somente os digivices dos Domadores Beta possuem cores diferenciadas, o de Carlos era azul. Possui ainda uma enorme tela colorida com quatro botões cursores e um teclado alfanumérico retrátil. Cada domador tinha um jeito próprio de portar o seu aparelho, alguns o carregavam pendurado ao pescoço, outros preso a calça ou a camiseta. O digivice possibilita a evolução e o armazenamento dos digimons, troca de mensagens entre os domadores, mapas e abertura de portais que levam ao Mundo Digital. Através desses portais os domadores conseguiam, por meio de uma escala no Mundo Digital, ir a várias cidades e localidades do Brasil.
A tristeza dominava todos os presentes. Uma foto havia sido pendurada na parede ao fundo, de modo que, quem entrasse no local do velório, visualizaria uma bela e sorridente foto do garoto de olhos verdes e cabelos negros bagunçados, e logo abaixo o caixão onde todos julgavam estar seu corpo.
Bárbara cochicha algo para Flávia e a moça prontamente se levanta para acompanhá-la. As duas atravessam o salão e passam próximas ao João. A garota loira de voz rouca não resiste e abraça seu amigo profundamente. Uma lágrima rola pela sua face até desaparecer em seus lábios. João afasta o rosto da garota do seu ombro e a beija profundamente na testa. O garoto de barba cerrada repete o mesmo gesto com Bárbara, antes que ela e Flávia pudessem seguir até o banheiro.
Júnior conforta João tocando-lhe o ombro.
— Quando Caio morreu, procuramos a família dele.
— E o que vocês fizeram? Contaram a verdade?
— Hesitei quando estávamos na porta da casa dele. Pra falar a verdade, já os conhecia bem antes de nos tornarmos domadores.
— Já o conhecia pessoalmente?
— Não. Conheci todos eles pela internet. Cada um a seu tempo. Primeiro Cláudio, depois Caio, logo em seguida veio Lucas.
— E o espanhol?
— Leon surgiu bem depois, quando já estávamos no Mundo Digital. Nós quatro passamos dois longos meses procurando o domador que faltava. Caio acabou o apelidando de Domador Desconhecido.
Mais e mais parentes chegavam ao velório aos prantos. Todos custavam a acreditar que Carlos havia morrido afogado no rio que passa próximo à sede da fazenda da família. Marcos, pai de João, chega ao velório e cumprimenta seu amigo de longas datas. Marcos e Celso se conheciam desde a faculdade. Em poucas semanas de convivência no curso de administração de empresas, se tornaram grandes amigos.
João olha em direção a Verônica e nota que a domadora desviara seu olhar dele. Murilo continuava próximo a ela. Levi se aproxima, troca algumas palavras com os dois e se retira, tornando a conversar com Davi. Fernanda estava sozinha, debruçada em uma janela logo atrás dos demais.
Uma garota de pele negra, corpo genuinamente brasileiro e lábios carnudos, chega ao velório muito emocionada. Ao seu lado um rapaz alto, cabelo loiro e corpo malhado.
— Carlito!
A moça se curva sobre o caixão, abraçando-o. Ambos usavam roupa social preta e óculos escuros. A pinta próxima ao lábio inferior do rapaz atrai a atenção de Fernanda. O rapaz retira a garota de cima do caixão cuidadosamente e a abraça. Era visível a emoção dos dois.
— Calma, Lúcia.
João, Verônica, Davi e Fernanda se surpreendem. Flávia, que acabara de sair do banheiro, também fica surpresa.
— Rafael?
Fernanda corre até o rapaz e o abraça, emocionada.
Poucos entendiam a verdadeira razão para a surpresa de alguns. Rafael e Lúcia estavam fora do Brasil há aproximadamente cinco meses. O pai dela é casado com a mãe dele e ambos estão morando em Sydney. Lúcia resolveu ir para Austrália por causa do trágico acidente que vitimou seu grande amigo, Leandro, quando saíam de uma casa noturna no Rio de Janeiro, cidade natal dos dois. Rafael sempre morou com sua mãe e com seu padrasto, Sérgio.
Verônica se levanta e corre até Lúcia. João e Davi também se aproximam. Flávia pede para Bento acompanhar Bárbara e também se aproxima dos amigos.
Bárbara, aos poucos se tornou uma domadora querida por todos que a conheciam. Sua deficiência visual havia se tornado um dom, indo de encontro ao pré julgamento de muitos que a tratavam como incapaz. A garota apareceu no Mundo Digital no mesmo dia que Murilo e Flávia. Seu irmão, Bento, estava desaparecido em meio à digimons e domadores cruéis. Em nenhum momento desistiu ou temeu enfrentar o que não lhe era visível. Com sua audição e seu coração conseguia enxergar além das capacidades físicas de uma boa visão.
Os seis amigos se abraçaram comovidos com o que estava acontecendo. Levi observava tudo de onde estava, em silêncio. Lúcia estava transtornada, sempre foi muito emotiva. Verônica e Flávia a retiram do salão para acalmá-la. Rafael recebe o apoio de João e Davi. Era difícil para todos, principalmente para quem não havia presenciado, aceitar aquela tragédia. Rafael retira os óculos e enxuga ás lágrimas, revelando olhos azuis.
— Tive que comprar as passagens de outros passageiros por um preço bem acima da média. Justamente essa semana todos resolveram viajar.
— Eu não fazia ideia de que vocês viriam. Por que não avisou? – Pergunta João.
— Justamente por não saber se conseguiria. Conseguimos essas passagens duas horas antes do embarque.
O garoto loiro de corpo extremamente definido olha a multidão próxima deles. Todos o olhavam abismado e comentavam com quem estava ao lado sobre sua presença, e principalmente sobre o aparelho na cor vermelha que carregava pendurado ao pescoço.
— Quem são esses?
— São domadores – Responde Davi.
— Novos domadores?
— Exato. – Confirma João. – Novos domadores, novos problemas, novas fatalidades.
— Outra pessoa morreu?
— Um dos calouros. Precisamos sentar e conversar, Rafael. Tem muitas coisas que você e Lúcia precisam saber. Uma delas tem que ser agora.
— O que, João?
— Levi está vivo!
— COMO? –Rafael exclama alto, em meio ao profundo silêncio do lugar.
João faz sinal para que ele fizesse silêncio.
— Foi mal. É que por essa eu não esperava! Eu o vi ser atingido pelos ditadores. Cadê ele?
— Está ali. – João indica a direção que Levi estava.
Ao vê-lo, Rafael rapidamente caminha até o garoto e o abraça. Os dois se afastam até a janela onde Fernanda estava há pouco.
— Que grata surpresa!
— Por que, Fernanda? – Davi estava ao seu lado.
João escutava a conversa.
— Pensei que não veria Rafael tão cedo. Infelizmente, o motivo que o fez voltar não foi dos melhores.
Lúcia sai do banheiro completamente diferente de como entrou. Estava com o semblante mais leve. Flávia e Verônica tentavam segurá-la. O olhar da garota percorre todas as pessoas até encontrar Levi. A garota negra caminha até ele e o surpreende com um abraço.
— Essa garota é louca. A-DO-RO! – Comenta Flávia com Verônica enquanto caminhavam na direção de João, Davi e Fernanda.
— Rafael e Lúcia serão de grande ajuda daqui pra frente. – João tentava ser otimista. – Calamon que nos aguarde.
— Por enquanto não poderei ajudar em nada, primo. Estou sem meu digivice e mesmo que tivesse outro, acho que não conseguiria alcançar a Extremidade novamente.
— Lógico que consegue! Você e Palmon formam uma dupla extraordinária. Destruímos Blackwargreymon juntos, lembra?
Davi sorri.
Verônica se exalta com a conversa desenfreada dos três.
— Você não dá um tempo, João. Respeite ao menos o velório de Carlos.
João muda repentinamente de humor e caminha na direção de Verônica. Davi o segura pelo braço.
— Quem deveria ter o mínimo de respeito, aqui, é você. Não se toca que aqui não é lugar para ficar de amasso com seus peguetes. Seu quarto deve ser um excelente lugar.
Flávia rapidamente retira Verônica antes que a conversa, ainda em tom amigável, se tornasse uma grande discussão.
— Vocês dois estão brigados ou foi só impressão minha? – Fernanda estava atônita.
— Relaxa, primo! Você sabe que eu acho uma idiotice essas briguinhas suas. Não tem motivo pra isso, ainda mais aqui.
— Ela provoca, Davi! Estávamos quietos e ela só se aproximou só para dizer aquilo. — João olha para Verônica e a vê conversando com Murilo e Flávia.
Kau, que estava sentado ao lado de Lucas, se levanta abruptamente. Lucas se levanta logo em seguida e olha fixamente, do mesmo modo que seu amigo, para o lado de fora do salão. O gesto aguça a curiosidade de todos que estavam próximos. Levi, Rafael e Lúcia também percebem a causa de tanta tensão. Todos eles estavam sérios, não expressavam nenhum tipo de emoção. Davi, Fernanda e João eram os únicos que estavam de costas e conversavam distraídos.
Bento comenta com Bárbara o que acontecia e se levanta às pressas, indo na direção de João.
— Olha só quem está nos observando.
O olhar do garoto de pele bronzeada e cabelos cacheados estava muito diferente do rapaz alegre e sorridente que todos conheciam. Rafael, Levi e Lúcia também se aproximam, sérios, despertando curiosidade e preocupação no líder dos domadores. O garoto de barba cerrada volta seu olhar para a entrada do salão e, juntamente com Fernanda e Davi, percebe do que se tratava. Vários carros cruzavam a avenida em frente. Em meio aos curtos espaços entre os carros, era possível ver Alex e Blaze observando o velório da calçada oposta.
Getúlio, mas conhecido como Blaze, é um rapaz alto, olhos verdes, pele extremamente branca, encorpado. Apesar de possuir largo sorriso, o mesmo era ocultado pelo olhar fixo e intimidador. Alex é um pouco mais baixo. Magro e cabelo negro. Possui personalidade forte para um garoto de apenas quatorze anos. Seu sorriso, misto de deboche e cinismo, e seu olhar levemente ocidentalizado conseguem abalar qualquer pessoa.
— O que eles pensam que vão fazer? – João retira o digivice do bolso, possuía um aparelho negro.
Enquanto Blaze apenas olhava para o velório, Alex esboçava um leve sorriso, deixando transparecer um ar de satisfação. As pessoas que não sabiam o que estava acontecendo, agiam naturalmente. Celso, Renata e Cláudia percebem o início do tumulto e ficam observando cada atitude dos domadores. Marcos não percebera nada de estranho.
— Coisa boa não deve ser. Melhor ficarmos preparados. – Avisa o domador de Renamon.
— Podem ficar tranquilos. Alex não vai fará absolutamente nada! – Fernanda estava segura de si. — Só quer tumultuar. Sabe que a simples presença deles pode nos desestabilizar.
Enquanto conversava, Fernanda fitava Alex nos olhos. Ele, por sua vez, retribuía do mesmo modo.
— E pelo visto conseguiram. – Lucas continuava com a serenidade que lhe é característica.
Alex e Fernanda trocavam olharem fulminantes. Por diversas vezes a domadora olhava para Blaze e percebia que ele transbordava de ódio. Ambos guardavam enorme raiva da garota por conta do seu plano. Fernanda havia sido designada por Culumon para proteger os Domadores Beta. Como estratégia, ela se aliou aos inimigos para alcançar seu objetivo.
Alex ergue seu indicador direito, como se portasse uma arma, na direção de Fernanda e faz um movimento como se houvesse efetuado um disparo. A garota de lábios carnudos e olhos amendoados sente seu corpo estremecer. Blaze sorri com a encenação do amigo e, após alguns carros transitarem a sua frente, desaparece juntamente com Alex.
O enterro ocorreu horas após. Tudo aconteceu com muito pesar e sofrimento. Era grande a comoção da multidão que acompanhou o cortejo até o futuro túmulo do garoto. Agora, sim, João possuía plena certeza de que nunca mais veria seu amigo.
A partir desse dia, os meses se tornaram semanas e as semanas dias. O tempo passou como um brilhar de digivice...
Um novo ano começa.
João e Flávia acabaram reprovados no terceiro ano do ensino médio. Ele por causa da Física e Matemática, ela por exceção da Literatura, Gramática e Língua Inglesa. Verônica conseguiu a aprovação com notas muito abaixo da sua média. Rafael retornou para Sidney a fim de concluir seus estudos, enquanto Lúcia foi visitar sua mãe no Rio de Janeiro. Davi estava de férias, acabara de finalizar o terceiro semestre mesmo reprovado em algumas matérias.
Já os demais domadores tentavam seguir a vida normalmente. Depois de terem seus digivices destruídos por Alex e Blaze, estavam afastados do grupo dos Betas e dos calouros. Alguns mantinham contato quase que diariamente através da internet, outros passavam meses sem ao menos dar notícias. Muitos desses domadores não conseguiram esconder a existência dos seus monstros de suas famílias, enquanto alguns conseguiam driblar esse problema com um pouco de dificuldade.
A cidade de Salvador estava encharcada de turistas dos mais longínquos cantos do planeta, do país e do estado. Sua localização no globo proporcionava sol e temperaturas altas praticamente todos os dias do ano. No verão, essas condições se intensificam e um grande desfile de etnias, corpos sarados e sotaques estranhos invadiam as praias e ruas da cidade.
João estava deitado em sua cama apenas de cueca. Seu quarto ainda estava escuro e o garoto olhava para o teto, quando a porta do seu quarto se abre com um estrondo e a luz rapidamente se ascende. Culumon e Betamon dormiam em um colchão aos pés da cama.
— Vamos à praia!
Flávia caminha diretamente para a janela e a escancara.
João se encobre rapidamente com um lençol.
— Você é louca? E se eu estivesse pelado?
— Ah, larga de drama. O que tem demais em vê um homem nu, ainda mais um amigo?
— Justamente por ser um amigo. Você ás vezes me assusta, Fafá.
— Para de enrolar e prepara uma sunga, óculos escuros, protetor e dinheiro.
— Hoje é terça-feira. Não to no clima. – João se levanta da cama enrolado no lençol e caminha até o banheiro. Flávia corre até ele e segura em uma das pontas do lençol que pendiam até o chão, e a puxa. O garoto tenta segurar o lençol ainda enrolado ao corpo.
— Para, sua maluca! Larga o lençol!
— Não largo!
— Larga, Fafá. Eu to “daquele jeito”. To falando sério.
Flávia larga sem muito questionar.
— Tarado. Pervertido.
— Eu menti! – João sorri caminha ao banheiro, ainda enrolado.
Flávia retorna à janela e observa o céu limpo e completamente azul sobre Salvador quando um enorme besouro de cor laranja, dois pares de braços e enormes pinças sobre a mandíbula, surge voando por detrás da casa de João em direção ao horizonte. O zunido que o inseto fazia com suas asas chama a atenção de várias pessoas que passavam pela rua naquele momento. Os digivices emitem ao mesmo instante um sinal sonoro e visual característico. Sempre que um digimon surgia no Mundo Real ele reagia daquela maneira.
Betamon acorda aos pulos com o insistente bip.
João sai do banheiro enrolado em uma toalha.
— Um digimon?
Culumon acorda meio sonolento.
— É, olha ele ali! – Indica a garota, aflita.
O garoto se aproxima da janela e vê o enorme besouro voar na direção de um helicóptero e o atingir com suas pinças, fazendo-o explodir.
Continua...
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