Diga que me quer.

60 Sozinha em minha companhia ♪


Eu não estava acreditando que o Vitor estava ali. Parado na minha frente. Senti como se tivesse uns mil anos sem vê-lo. Corri e o abracei forte demais, de um jeito que pude ouvir e sentir nossos ossos estalarem, de tão apertado que o abraço foi. Ele me olhou e eu o olhei. Nos abraçamos de novo e ficamos assim por alguns segundos.

- Eu juro que não to acreditando que você está aqui. — eu disse segurando nos ombros dele e tentando conter as lágrimas.

- Eu te amo muito minha pequena. Tu sabe disso. E eu não quero que nada de mal te aconteça, nunca mais.

O abracei de novo e depois olhei pra mamãe. Ainda nem tinha reparado na mesa de café da manhã que estava preparada. Tinha tanta coisa boa, que me esqueci por alguns segundos que acabei de sair do hospital.

- Amigo, você vai ficar aqui? — perguntei olhando pra ele.

- Não sei. Só se você ainda quiser que eu more aqui com você. — ele disse sorrindo.

- Lógico que quero. Preciso muito de você do meu lado. Já que a mamãe já vai ter que ir embora.

- É por isso que eu vim. Vou cuidar de ti como ela faria.

- Ain, nem acredito. — eu disse e fui chegando perto da mesa. — Que mesa de café da manhã linda, você que preparou Vitor?

- Eu e mais duas pessoas.

- Duas pessoas? Quem? — eu disse e olhei pra trás.

Lia e Ju estavam escondidas atrás da cortina da sala. Eu corri e as abracei tanto. Estava sentindo falta da Lia. Ela tinha viajado e não pode ir no hospital me visitar, mas estava de volta e eu não aguentava mais de saudades.

Nos sentamos na mesa e começamos a conversar. A Ju contou que seus pais voltaram a morar com ela e com o Bruno e a Lia me disse que voltou a falar com a Raquel e que está tudo bem entre elas.

Me senti como se tivesse ficado uns 2 anos no hospital, tanta coisa aconteceu em pouco tempo que eu nem sei mais o que pensar.

- Mamãe, e o papai? Como ele está?

- Está bem filha. Ele ainda está no EUA, amanhã ele vai para Londres e no final do mês volta para o Brasil. Mandou um beijo e disse que mais tarde ele liga pra falar com você.

- Tudo bem. Estou morrendo de saudades dele.

- Amiga, a gente precisa conversar. — a Juliana me disse rindo de algo que eu não sabia o que.

Fiquei olhando pra Lia e pro Vitor e percebi de cara os olhares que eles estavam trocando ali na mesa. Olhei pra mamãe e ela riu. Então tentei puxar outro assunto.

- Então gente, como eu estava dizendo, ou melhor, sentindo. Esse café da manhã está muito bom. Obrigada por terem feio isso por mim. — eu disse tentando segurar o riso e percebendo que a Lia estava vermelha de vergonha.

- Amiga preparamos tudo com muito carinho. Eu fui no mercado comprar as coisas e a Lia e o Vitor ficaram aqui fazendo o bolo de cenoura com calda de chocolate, que ficou muito bom você não acha? Fizeram com muito carinho. — Juliana provocando e eu não pude conter a minha risada.

- Realmente. Tenho que concordar com você. Ficou muito bom. Deve ter muito carinho aqui mesmo, porque eu já comi o bolo inteiro praticamente. Não sabia que o Vitor gostava de cozinhar, e olha que o conheço a muito tempo.

- Vai ficar falando mal de mim pra elas? Você sabe que eu sei fazer doces como ninguém. — o Vitor disse olhando pra mim e percebi que ele tentou quebrar o clima.

- Gente, acho que já vou embora. — a Lia disse limpando a boca com o guardanapo.

- Nada disso bonitinha. Pode ficar sentada aí onde você está. Vamos conversar muito hoje ainda. — eu disse olhando pra ela e fechando a cara.

- Mas Fatinha eu...

- Você nada.

Ficamos conversando durante toda a manhã. E depois as meninas se despediram de mim e foram pra casa. Chamei as duas para irem mais tarde ao cinema comigo e elas aceitaram.

Depois que as meninas foram embora eu conversei brevemente com o Vitor sobre Brasília e ele me disse que já conseguiu a transferência para o Quadrante e que na segunda mesmo já começa as aulas.

- Amigo, preciso conversar com a mamãe e saber o que houve comigo. Ela ainda não me contou. Você sabe o que houve, né?

- Sei. Conversa com ela e depois a gente se fala.

- Te amo, obrigada por estar aqui comigo. Estou muito feliz. — eu disse e o abracei.

- Eu te amo muito, minha irmã. Vou chamar a Tia Vilma pra vocês conversarem. Vou dar uma saída, fica bem. — me deu um beijo na testa e saiu.

Quando o Vitor saiu eu senti um aperto no peito. Acho que era saudade. Lembrei do Bruno. Eu sempre acabava lembrando dele quando alguma coisa ruim me acontecia. Eu ficava mal demais. Comecei a chorar e a mamãe bateu na porta do quarto.

- Posso entrar?

- Pode sim. — ela veio na minha direção. — Senta aqui. — eu disse segurando ela pelo ombro e ela se sentou na cama.

- O que houve? Porque está chorando?

- Depois eu te conto tudo. Agora você que tem que me contar. O que aconteceu comigo?

- Filha, você teve uma infecção no estômago. E fui muito mais grave do que parece. Eu quero saber de uma coisa, você passou mal alguma vez? Me fala a verdade.

Eu abaixei a minha cabeça e lembrei do dia que caí no chão e comecei a sangrar e fui para o banheiro. Eu não queria me lembrar daquilo. Me fazia mal, ninguém precisava saber. Mas eu não iria conseguir esconder isso da mamãe.

- Teve um dia que eu caí no chão e comecei a sangrar.

- Por isso. — ela disse preocupada.

- Por isso o que, mãe? — perguntei olhando pra ela.

Seus olhos agora não estavam assustados. Estavam tristes. Eu me senti mal, minha barriga doeu. E comecei a chorar.

- Fatinha, eu não vou ficar enrolando você. A única pessoa que sabe disso sou eu e agora, o Vitor. Não contei nada pra Juliana para que ela não contasse para o Bruno. E...

- Como assim pra que ela não contasse pro Bruno? O que ele tem a ver com isso?

- Filha, você estava grávida. Só que o bebê não resistiu. Certamente por esse sangramento que você teve, deve ter acontecido alguma coisa. Porque você não me contou?

Eu fiquei surda naquele momento. Eu não escutava absolutamente nada. Eu prendi a respiração e mordi meu lábio inferior. Como assim eu estava grávida? E ainda do Bruno? Não podia ser verdade. Eu estava desesperada.

- Mamãe, diz que isso não é verdade. Fala pra mim que é mentira. Pelo amor de deus. — eu disse em prantos.

Eu chorava e gritava muito. Não estava aguentando a dor no meu peito.

- Fica calma. Por favor, você vai ter que ser forte. E o Bruno precisa saber disso.

- Ele nunca vai saber. — eu disse rapidamente.

- Fatinha ele precisa saber. Mesmo que você não esteja mais grávida, ele precisa ficar sabendo disso. Querendo ou não, ele seria o Pai se essa criança estivesse aí dentro de você.

- Seria. Eu preciso ficar sozinha. Pensar nisso tudo que tá acontecendo. Pode me deixar sozinha um pouco? — eu disse me acabando de chorar.

- Lógico. Se precisar de qualquer coisa, vou estar lá na sala. Chama, grita, faz o que quiser. Mas por favor, pensa no que eu te falei.

- Vou pensar. — eu disse me deitando na cama e a mamãe saiu do quarto.