Diga-me Quem é Você
3 O BAILE DOS OFICIAIS
O CAPITÃO BRASS ENTROU no departamento de polícia, ajeitou o paletó e foi direto para sua sala, onde um entediante trabalho o esperava: o relatório do último caso. Era uma tarefa maçante, dado que ele não tinha boa letra e era pouco familiarizado com a tecnologia a ponto de terminar em menos de meia hora, como muitos dos policiais novatos. Talvez não fosse ppor não conhecer a coisa em si e sim por não acreditar que devesse perder tempo com aquele tipo de recurso. Seu celular tocou e o rapaz da correspondência deixou envelopes sobre sua mesa. Um deles era pomposo, de material fino e caro, era um convite para o baile anual da polícia. "Ao Capitão James Brass", dizia a impecável letra na parte de fora. Nem abriu, empurrou os envelopes e deu início ao trabalho, enquanto resolvia com o legista outra evidência.
O salão de convenções do Palms foi o escolhido para a realização do baile anual da polícia. Estava estupendamente bem decorado, com mesas redondas minuciosamente dispostas e grandes toalhas brancas sob toalhinhas amarelas queimado emoldurando um belo arranjo de flores brancas e finos, e caríssimos, utensílios de jantar. O roteiro da cerimônia era sempre o mesmo: abertura, homenagens, discursos, fechamento, convite para jantar — servido à mesa por imaculáveis garçons, os quais eram a atração principal para muitas das mulheres — e o chamado para o baile, o ponto culminante. Mas quando todos menos esperavam, o chefe de polícia se pôs de pé e anunciou uma apresentação especial: cinco crianças subiram ao palco, curvaram-se diante do salão, saudando-o, e enfileirados puseram-se a cantar ao som de um violão nas mãos de uma linda mulher sentada numa banqueta logo atrás deles.
Well I have been searching all of my days
Many a road, you know I've been walking on
All of my days
And I've been trying to find what's been in my mind
As the days keep turning into night
Well I have been quietly standing in the shade
All of my days
Watch the sky breaking on the promise that we made
All of this rain
And I've been trying to find what's been in my mind
As the days keep turning into night
Well many a night I found myself with no friends standing near
All of my days I cried aloud, I shook my hands
What am I doing here
All of these days
For I look around me and my eyes confound me
And it's just too bright as the days keep turning into night
Now I see clearly it's you I'm looking for
All of my days
Soon I'll smile I know I'll feel this loneliness no more
All of my days
For I look around me and it seems He found me and it's coming into sight
As the days keep turning into night
Now even breathing feels all right*
Assim que terminaram, as crianças foram aplaudidas de pé. Era realmente a mais bonita homenagem que aquelas cinco crianças, salvas no saguão do hotel, poderiam dar a qualquer pessoa, e os oficiais se sentiram lisonjeados e orgulhosos por receberem pelo menos um obrigado, depois de tanto fazerem anonimamente.
De sua mesa, o capitão Brass tinha uma visão privilegiada do palco e reconheceu de imediato a mulher por trás do instrumento musical. Desviou o olhar e disse algo ao oficial sentado ao lado dele, era Nick Stokes, o perito criminal com quem trabalhava.
— Sim, bela apresentação — repetiu Nick, enquanto aplaudia e observava as crianças descendo do palco e passando algumas mesas à frente deles.
O chefe de polícia se aproximou da mesa, acompanhado por uma encantadora mulher de cabelos curtos e castanhos.
— Aqui está — disse o chefe de polícia estendendo a mão para o capitão Brass e a mulher deu um passo adiante, para ficar próxima a ele.
— Boa noite — disse ela, cumprimentando todos na mesa. E todos responderam. — Capitão Brass — continuou fitando-o -, esta é uma pequena e particular homenagem, em meu nome — ela estendeu a mão, entregando a ele um pequeno embrulho.
Brass se pôs de pé ligeiramente, quase derrubando a cadeira, e sorrindo depois, com as bochechas rosadas de vergonha.
— Obrigado, mas não é necessário — ele disse, e convidou-a para se sentar, mas ela recusou, não querendo atrapalhar as demais companhias. Então, ela pediu licença e se retirou.
Brass voltou ao seu lugar e abriu o pequeno embrulho: um belo chaveiro de prata, com um anjo entalhado de um lado e uma citação no outro, Quod angelus of Deus supervenio in terra**. Ergueu os olhos na direção que ela havia tomado e a viu ao longe, sentando-se em outra mesa perto da sacada. Durante todo o jantar Brass ficou tentado a ir até ela, conversar um pouco, mas sentia-se estranhamente tolo diante daquela mulher. Não sabia explicar a razão e não havia o que temer já que tivera de lidar com mulheres criminosas quase toda a sua vida e jamais perdera a pose... no entanto, com ela, era diferente. E não conseguia mover os olhos daquela direção, não que estivesse preocupado com os outros à mesa, não estava, porque todos eles se divertiam e estavam alheios ao que ele fazia.
— Champanhe, capitão? — disse Nick, oferecendo um copo. Brass aceitou, virando-o num gole só pela garganta e em seguida levantou, pediu licença e saiu salão afora. Nick o observou atônito até cair na gargalhada: Brass lhe pareceu inexplicavelmente atordoado, pouco depois voltou à conversa com a vizinha da cadeira ao lado.
— Desculpem — disse Brass ao chegar à mesa-objetivo -, a senhoragostaria de dançar?
— Claro que sim, capitão. — Ela estendeu a mão, Brass a tomou e caminharam para a pista.
Dançaram duas músicas enquanto conversavam sobre amenidades. Ela lhe disse que estava feliz por poder compartilhar uma noite com pessoas tão boas e gentis. Brass, apesar de não concordar com as palavras, não a contrariou, sabia que gentilezas se davam apenas em dias como aquele com as pessoas daquela área. Por fim, sentindo que a estava cansando, convidou-a para tomar ar fresco e descansar na sacada. Pararam diante da mureta, por cima dela a visão deslumbrava numa explosão de luzinhas cintilantes e coloridas.
— Como é linda!
— Vista de cima, é sim — murmurou Brass parando ao lado dela e fitando o horizonte. — Você é uma mulher alta — comentou fitando-a, depois de um prolongado silêncio.
— E nem estou usando salto — ela riu, erguendo a barra do vestido e mostrando o sapato rasteiro. Brass achou graça, mas a sacudidela que o corpo dela deu fez com que ele fechasse o cenho.
— Está frio aqui — disse ele tirando o paletó. — Tome. Vista, por favor.
— Não, não. Não se incomode — mas ele já a cobria com o paletó, sorrindo e mostrando que usava duas camisas além daquela peça. Ela enrubesceu, ele não acreditava que aquilo era possível se não tivesse presenciado. — Capitão, como é viver seus dias somente pensando nas outras pessoas?
— Bem, é por isso que sou divorciado.
Os dois riram, mas logo depois, a expressão dela exibiu seriedade.
— Meus turnos são longos, mas eu gosto do que faço. É a agitação, a adrenalina que mexem comigo. Se bem que perseguições só mesmo de carro. Já não sou um menininho.
— Eu não lhe daria mais do que 45 anos... Espero que não tenha menos! — ela exclamou arrependida. — É que...
— Não se preocupe. Tenho 50.
Sorriram novamente.
— Então... além de dançar — ele mexeu com as mãos, imitando ondas do mar — você dá aulas?
— Sim. Aulas de canto e dança. Nada com que eu deve me gabar...
— Ora, se aquelas cinco crianças — ele se referia às que tinham se apresentado no início da noite — foram instruídas por você, eu acredito que tenha a se gabar, sim.
— Dar aulas é muito fácil, quando as pessoas estão interessadas em aprender — ela sorriu.
— Quem sabe algum dia eu dê aulas também. — Ele falou. — Sou formado em História, estudei em Jersey.
— Sério? Ora vejam só! — Sorriu para ele, tocando-o no braço. — História era a minha matéria predileta na escola, mas as artes sempre me deixavam vidrada. Eu nunca fui uma menina popular, mas no palco eu me sentia a tal — ela riu de si mesma.
— Onde estudou?
— Columbus...
— Georgia? — ele se impressionou. — Está longe de casa.
— E você não está também?
Ele inclinou a cabeça e ergueu as sobrancelhas. Novamente o silêncio os acariciou, rasgando palavras e intimidando conforme os segundos passavam.
— Victoria — ele arriscou usar o primeiro nome dela -, quer beber alguma coisa?
— Acho que não. Sou fraca... — ela parou de falar. Ele tentava ser gentil e ela cortava as gentilezas. — Bem, talvez uma taça.
Brass sorriu, pediu licença e saiu em busca de champanhe, o bar ficava do outro lado do salão. Victoria permaneceu na sacada, abraçada ao paletó dele, um vento frio teimava em revirar-lhe os cabelos, mas a vista era tão formidável que ela não pôde deixar o ambiente.
— Uma noite linda, não acha? — Um homem alto se aproximou. — Bem, todas elas são em Vegas.
— Sim, são sim — Victoria murmurou mais para si mesma do que para ele.
— Meu nome é Robert, sou tenente do 18º distrito.
— Victoria — disse simplesmente e deixou que o homem falasse durante longos minutos, porque ele parecia ter muito assunto sobre si mesmo.
Brass apareceu na porta da sacada, os dois copos de champanhe na mão, mas o sorriso que mantivera ao longo da noite, nos lábios, logo se esvaeceu, e sentia um gosto amargo agora, descendo por sua garganta: esperava encontrar uma mulher interessada nele, de verdade, uma mulher diferente. No entanto, ela ladeava outro homem. Por um momento pensara ter conseguido encontrar alguém com quem pudesse passar a noite, sem ser com as mesmas pessoas de sempre. Não que não gostasse de seus colegas de trabalho... Não, não era isso. Mas que homem da sua idade não gostaria de passar uma noite ao lado de uma mulher tão bela e interessante? E lá estava ela, um anjo verdadeiro, sendo rodeada por uma chacal, por um abutre, um policial de quinta categoria, do 18º distrito, como se ele valesse a pena.
— Você quer beber algo? Aceita vinho? — ele ofereceu o próprio copo.
— Se não se importa, estou esperando alguém.
— Ora, vamos, uma bebida não mata ninguém e vai esquentá-la rapidinho.
— Não, obrigada. Já disse que estou esperando alguém — e ela alisou o paletó.
— Uma mulher como você não deveria ser deixada esperando — ele alfinetou.
Victoria virou o rosto para o outro lado, revirou os olhos e então viu Brass, a quem rendeu um maravilhoso e ansioso sorriso, encorajando-o a se aproximar com as taças quase cheias.
— Capitão — cumprimentou o tenente. — Estávamos admirando a vista...
— Esta é realmente uma belíssima vista — disse Brass olhando para a direção que os olhos do outro homem apontavam: o decote da Srta. Seeger. E eu imaginando que você se referia às inúmeras luzes de Las Vegas.
O oficial se retirou sem pestanejar, seguido pelos olhares de Victoria e Brass.
— Desculpe por aquilo — pediu olhando para os sapatos, mas se surpreendeu quando ela voltou um rosto sorridente para ele.
— Certos homens não aceitam não como resposta — ela brincou e bebeu um breve gole de champanhe.
— É que esses homens têm uma visão deturpada de tempo e espaço — Brass disse, chamando a atenção dela para seus olhos. — Acham que todas as mulheres são de rua. Se bem que do jeito que as coisas andam hoje em dia, não me surpreendo com mais nada.
— É tão difícil encontrar um bom homem quanto uma boa mulher. Mas é esse mundo capitalista, onde o “eu” vem em primeiro lugar e as pessoas se aturam ao invés de se conhecerem.
— As relações se tornam frias, como se não houvessem sentimentos envolvidos numa relação.
Os dois se fitaram e disseram em uníssono:
— Como o casamento.
Victoria riu, Brass ergueu a sobrancelha.
— Ninguém atura mais ninguém — ela exclamou. — Uma briga por um cão, por exemplo, pode virar uma ação litigiosa...
— Essa seria a saída mais fácil. Mas um cão pode gerar tanto desentendimento que você não imaginaria onde as pessoas usam chegar! — ele desabafou e Victoria percebeu que ele já havia presenciado coisas muito piores e que jamais poderia imaginar.
— O casamento não significa mais nada na sociedade de hoje — ela murmurou cabisbaixa. — É uma pena, especialmente quando ainda existem pessoas que acreditam no amor e no “felizes para sempre”.
— Você acredita? — ele parecia surpreso.
— Eu sou uma mulher das antigas. Minha mãe vivia me dizendo que eu não nasci no século certo.
Brass soltou uma gargalhada.
— Está muito ousada esta noite para pertencer ao século passado — murmurou ele, aproximando o rosto do dela e sorrindo, referindo-se a bela vestimenta que usava.
Fitaram-se por instantes. Seus olhos tinham entrado em um contato diferente naquele momento e os lábios de Victoria, de um tom rosado natural, fecharam-se num biquinho, contendo uma gargalhada que provavelmente soaria alta demais para aquela ocasião. Havia algo acontecendo entre eles, uma química diferente da que já experimentaram, mas nenhum dos dois ousou um movimento, ousou jogar os dados e conferir os resultados, porque talvez os números não estivessem para a sorte.
Uma gargalhada alta chamou a atenção de Victoria, fazendo-a olhar para o salão. Brass seguiu o olhar dela, mas não conseguiu ver o que ela via.
— Eu... preciso ir — disse entregando a Brass sua taça, para poder retirar o paletó.
— Oh, claro, claro — ele disse, dando lugar para que ela passasse.
— Estou com os pais de uma aluna — ela explicou como se devesse isso a ele. — Talvez não gostem se eu não os acompanhar de volta...
— Entendo — ele murmurou com um breve sorriso.
— Foi um prazer passar a noite com você, Jim — ela sorriu também e estendeu a mão para ele, despedindo-se em seguida e caminhando para dentro do salão.
Brass nada respondeu, apenas tomou o paletó das mãos dela com um sorriso estampado no rosto, e a viu caminhar para a multidão e desaparecer por entre ela. Então, voltou-se para a sacada, bebeu o resto do champanhe e baixou os olhos para relembrar a noite, foi quando seus olhos bateram em algo brilhante no chão, perto de seu pé. Abaixou-se, pegou o objeto e não conteve o sorriso: era um dos brincos dela, provavelmente caíra quando tirara seu paletó.
Notas finais
** E os anjos de Deus desceram a terra.
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