Diga-me Quem é Você
4 MUITO PRAZER
SEGUIRAM O JOVEM RAPAZ até os fundos da casa, que dava para uma grande área bem cuidada.
— Mamãe, visita para você — disse o filho aparecendo na porta de vidro.
Victoria ficou de pé e encarou o capitão Jim Brass.
— Senhora Seeger — cumprimentou Brass. — Esta é Catherine Willows, forense criminal. Podemos conversar?
Ela sorriu, chamou-os para debaixo da sombra da árvore e disse:
— Como tem passado, capitão?
Ele dispensou o comentário e continuou:
— Uma moça — e abriu o bloco de notas — chamada Darleen nos disse que, na noite do crime, a senhora emprestou seu Dodge Charger a Melody...
— Eu empresto meu carro somente ao meu filho — ela deu início a explicação, mas não prosseguiu, os amigos de Joshua eram muitos, talvez algum deles pudesse ter dirigido o carro, o que ela não aprovava, mas não sabia o que acontecia com os rapazes quando estavam na farra. — Naquela noite Melody pegou as chaves na minha gaveta, na hora da minha apresentação.
Curtis olhou para Catherine, não acreditavam na desculpa.
— Temos aqui um mandado para examinar seu carro, senhora — e Brass lhe entregou o papel. Ela o tomou lentamente enquanto o filho se postava ao seu lado.
— Ele está na garagem — ela apontou para um puxado no final do jardim.
Enquanto o rapaz levava Catherine e Curtis até lá, Brass permaneceu com Victoria, que voltava a mexer na terra do canteiro com uma pequena pá.
— Acredita mesmo que eu tenha algo haver com esse crime?
Brass fitou a porta da garagem que se fechava e voltou a olhar para ela.
— As evidências colocam seu carro em contato com a cena do crime...
— Não tivemos nada haver com ele.
— É o que esperamos provar. Por hora precisamos saber por que Melody estava com seu carro. E se você o emprestou a ela, deveria falar logo, o tempo pode levar...
— Eu não emprestei o carro a ela. Pode ter certeza, capitão. — Ela passou os dedos pela terra fofa e escura e depois olhou para Brass. — Eu não quero encrenca com aquele pessoal, se é que me entende. Eu não saberia lidar com aquele tipo de pessoa. Mas não tenho nada com o que aconteceu. Se quiser confiscar meu carro, vá em frente, não faço objeções.
Ficaram em silêncio por alguns instantes. Brass fitou o filho de Victoria atravessar o jardim e ir se sentar à mesa, na varanda.
— Você gosta disso? — perguntou apontando para o jardim.
—Gosto — respondeu simplesmente, e abaixou-se novamente para remexer o solo com as mãos. Ela estava calma demais para ter qualquer envolvimento.
Catherine descobriu que a fechadura do porta-malas não trancava e encontrou um pedaço de metal nela, impedindo que a chave entrasse. Com a ajuda de Curtis, abriram o porta-malas e retiraram os tapetes, encontrando o nicho onde o macaco ficava guardado. Foi uma surpresa saber que faltava a alavanca usada para girar a roldana e erguer o carro e que, num dos cantos, uma bituca de cigarro se mantinha espremida entre o macaco e o fundo do nicho.
— Uma peça do macaco está faltando — disse Catherine ao voltarem à presença de Victoria. -Trocaram algum pneu recentemente?
— Não — respondeu Victoria, fitando o filho, que também balançou a cabeça negativamente.
— Teremos que levar seu carro para o laboratório — concluiu Catherine, pouco depois.
Não houve opções, o mandado era bem específico e pouco depois, um guincho estacionou diante da casa. O carro foi levado até o distrito, onde os peritos o examinariam mais a fundo. Nas ferramentas do porta-malas, mais uma digital foi encontrada e ela combinava perfeitamente com a parcial encontrada na valise. Greg assistiu a todas as fitas de vigilância pela qual o carro passou naquela noite e, pela quilometragem medida no painel, Melody não havia feito parada alguma, seguindo direto para outro clube. Quando foram até o local, notaram que não havia câmeras de vídeo, mas num dos cantos perto da lixeira Greg e Catherine encontraram restos de cigarro, um deles idêntico ao encontrado no carro de Victoria. Supuseram que a alavanca fora usada para quebrar o trinco de uma loja de lingeries uma quadra dali, onde alguém roubou peças íntimas e uma valise velha. Brass conseguiu um mandado para recolher DNA de todos os funcionários do estabelecimento. Um dos operadores de máquina, que trabalhava no depósito, se tornou o suspeito. Era um homem alto, de uma magreza extrema, mas com um rosto muito bonito. Restava descobrir o que levara Melody a roubar as chaves do Charger e sair durante o serviço. Era improvável que houvesse saído para se encontrar com o assassino porque as câmeras de vigilâncias mostravam-na saindo e tornando ao estacionamento do Tangiers sozinha e com as mesmas roubas e penteado. Não foi difícil desvendar as intenções de Melody. Logo que Brass interrogou o gerente do hotel, tudo se esclareceu.
...
— E então? Como é que foi o baile? Todos aqueles homens fardados... Uix, me arrepio toda!
— Ai, Louis — a amiga censurou. — Foi bem divertido. Acabei conhecendo melhor o capitão Brass, aquele policial que me salvou lá no hotel.
— Vai me contar tudo, não vai?
— E desde quando eu a deixo por fora de algum assunto? Aliás, tem vezes que você já sabe das coisas antes do que eu!
— Ossos do ofício, amiga! Vamos almoçar?
— Claro.
— Que tal o restaurante chique ali na outra quadra? Tem uns homens de terno lá... bem que podiam ser oficiais...
— Você está obcecada! Pare de pensar na minha vida, Louis.
As duas saíram porta da escola afora e atravessaram a rua, onde caminharam por entre uma massa contrária de pessoas apressadas. Entraram num restaurante em estilo colonial, com um grande lustre no meio e outros tantos menores sobre as mesas, que eram separadas pelas altas espaldas de cadeiras. Sentaram-se diante de uma janela e Louis retomou a conversa.
— Conte logo sobre o capitão, Vickie!
— Ele é um homem gentil e inteligente. Conversamos noite adentro.
— Eu fico fantasiando ele aparecer lá na escola...
— E por quê? O que ele iria querer lá?
— Ah, sei lá, oras. Mas faz tanto tempo que eu te conheço e você nunca arrumou ninguém... Olha só, vou sair com o Nick hoje, por que você não vem com a gente?
— Talvez eu vá. Mas sabe como é, dependo de você para voltar para casa, porque o Josh vai usar o carro... Está mais do que na hora de eu comprar outro carro, mas dinheiro que é bom...
— Você sabe que pode ir e vir comigo quando quiser, não é? Nem precisa pedir.
— Eu não gosto de incomodar...
— Ai, pare com isso! Até parece que você incomoda mesmo. Por que não liga pro capitão? Vê se ele tem um tempinho livre.
— Ligar para ele? Surtou, é? — e Vickie riu da amiga com gosto. — Ele deve ser bem envolvido...
— Então por que estava sozinho no baile?
— E eu sei? Vai ver que a namorada dele é enfermeira. Ou médica.
— Médica soa melhor. — As duas caíram na gargalhada e pediram um almoço light: salada e frango grelhado, com suco natural de laranja.
À tarde, depois da última aula, as duas organizavam a sala quando alguém bateu à porta.
— Eu convidei um amigo para ir junto — disse Louis se aproximando da porta.
— Ai, Louis, por que você faz isso comigo?
— Por que eu não quero outra amiga que viva a base de antidepressivos — disse antes de abrir a porta. Mas assim que a abriu, seus olhos pousaram sobre um homem de um metro e oitenta de altura, de corpo robusto e rosto redondo, num fino terno escuro. — Olááá — cumprimentou sorrindo.
— Por favor, a Sra. Seeger já saiu?
— A Srta. Seeger — ela ironizou olhando por sobre o ombro — está bem ali.
Vickie olhou para a porta e viu Jim Brass parado ao lado de Louis.
— Eu posso? — ele queria entrar.
— Claro que sim, querido. Entre. Vickie, eu vou buscar o resto dos materiais — dizendo isso, Louis saiu, mas que materiais ela iria buscar Vickie não sabia, tinha a certeza de que a amiga iria ficar atrás da porta escutando tudo.
— Desculpe aparecer assim.
— É uma surpresa.
— Bem, na verdade, vim devolver isto — ele abriu a mão e mostrou o brinco sem par.
— Ora, veja só! — tomou o brinco da mão dele e o alisou. — Tenho que admitir, fiquei triste por tê-lo perdido. É uma das poucas jóias que ainda me restaram.
— Bem, está a salvo agora.
— Muito obrigada. Você não precisava ter vindo, poderia ter me ligado, eu iria buscá-la. Ou... poderia tê-lo me entregue ontem...
— Não, não. Não misturo trabalho e vida pessoal. E depois, eu estava por perto. Um caso a dois blocos daqui — ele apontou para a janela. — Bem, na verdade, tenho informações sobre o caso do seu carro.
— Tem? E o que é?
— Melody recebeu uma multa na noite do assassinato.
Ela espiou com a testa franzida.
— Isso não é uma boa notícia, eu suponho — ela disse um tanto desanimada, porque certamente era ela quem teria de pagá-la. Ele estendeu um papel, Victoria se aproximou.
— Hum! — ela exclamou ao ver a fotografia preta e branca. — É Melody.
— Sim, este é o semáforo dez quadras adiante do Tangiers. Ela não fazia nada de muito grave... para nós, claro. Só estava levando informações a outro clube.
— Informações?
— Fotos suas, das suas roupas, ou das suas apresentações, eu acredito.
— Como é? — ela perguntou espantada.
— Foi o que o organizador de lá nos disse. Parece que eles também têm um show das mil e uma noites...
Então ela riu e se sentou sobre a mesa.
— Que safada! Com o meu carro...
— A vida nos prega peças.
— Com toda a certeza. — Ela levantou e o fitou como que o analisando.
— Gostaria de conversar melhor com você, lá no distrito.
— Nada que eu lhe diga sobre Melody é novidade. Eu não a conhecia...
— E seu filho? Talvez ele ou os amigos deles...
— Vocês já não têm um suspeito?
— Não posso falar sobre o caso. Mas qualquer pessoa pode ser culpada até se provar o contrário.
— Será que a forma como colocou a frase não está invertida? — ela ironizou. — Não seríamos todos inocentes até se provar o contrário?
— Posso convidá-la a comparecer ao distrito.
— Não precisa me intimidar, capitão — ela ergueu uma das sobrancelhas. — Se é necessário, irei ao distrito.
— Eu não... tive a intenção de ser rude... — Brass a fitou enquanto ela lhe dava as costas, seguindo para perto da janela, onde fitou o estacionamento. Permaneceram em silêncio por alguns instantes, até ele tomar a palavra.
— Bem, tenho que ir.
Vickie sorriu forçado e o acompanhou até a porta, mas antes que Brass saísse, Louis apareceu ofegante com uma caixa nas mãos, entrou na sala e sentou-se à mesa, pondo-se a separar os objetos. Brass sorriu, meneou a cabeça e se afastou. Vickie permaneceu à porta, vendo-o se afastar, mas de repente, ele parou, girou nos calcanhares e a fitou.
— Você... gostaria de jantar comigo — pediu sem rodeios — amanhã à noite? Se não tiver compromisso...
— Não tenho, não. E seria ótimo jantar com você — ela falou sem hesitar, o que o deixou envergonhado.
— Às sete horas então?
— Às sete está perfeito.
— Posso pegá-la em sua casa?
— Oh, não se preocupe, podemos nos encontrar...
— Eu a pego às sete horas — e sem se despedir, desapareceu no quebrar de corredores.
— Eis um homem com coragem. — Louis sorriu para Vickie. — Primeiro mete a faca e depois dá uma amaciada!
— Você não presta!
— Como ele é charmoso. E que voz gostosa!
— Louis, faz favor!
— Vou estar aqui na quarta-feira, contando os minutos pra você chegar e me dar um relatório completo desse encontro.
Vickie riu, balançou a cabeça e foi fechar as janelas para poderem ir embora.
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