NA TERÇA-FEIRA, FALTANDO cinco minutos para as sete horas, Brass tocou a campainha da casa não tão grande, mas muito bonita e bem cuidada, em que Victoria morava, ficava numa rua calma, mas ele podia reconhecer maus elementos à milhas de distância e ali havia cinco ou seis deles perambulando em busca.

— Olá — disse Victoria ao abrir a porta.

Brass a cumprimentou e estendeu a mão para o carro, um exuberante Chlysler 300c. Ele abriu a porta do carona, esperou que ela sentasse e a fechou com cuidado. Assim que se sentou, finalmente veio o primeiro elogio, uma coisa que ele achava natural fazer ao lado daquela mulher.

— Você está muito bonita.

— Obrigada. Você também está, Jim. Ainda bem que vesti isso e não um jeans qualquer, não iria condizer com você.

Ele ligou o carro e pareceram flutuar até o restaurante, era realmente um carro confortável e belo. Victoria se sentiu importante dentro dele e ao lado daquele homem. E quando eles adentraram o restaurante, rostos se viraram para observá-los, primeiro porque ela estava vários centímetros mais alta do que ele, segundo porque entraram sorridentes, cumprimentando o metrè e o garçom que os encaminhou a mesa e os atendeu. Pela primeira vez Brass não estava em companhia de alguma mulher metida, insatisfeita ou impaciente. Victoria era o contrário de todas as mulheres que conhecera e com as quais convivera: era divertida, doce, paciente, observadora, gentil e em certos momentos recatada, adjetivo que achara ter entrado em extinção. Ele não conseguia deixar de observá-la, de estudá-la, como se esperasse uma explosão de malcriação a qualquer minuto.

Não a conhecia nada bem e certamente poderia esperar uma oscilação em seu comportamento ao decorrer da noite. Mas nada nela mudou, nem seu jeito calmo de falar, as risadas engraçadas e as piadinhas enquanto falava. Vez ou outra ela arregalava os olhos por ter elevado o tom de voz, mas Brass nada dizia, nãoa reprimia ou a censurava, divertia-se com ela, com o jeito brincalhão e alegre. E merecia aquela companhia, merecia como nenhum outro, porque ela lhe fazia sentir infinitamente bem, ela o fazia esquecer os longos dias de tragédia e as difíceis horas em que tinha que lidar com as famílias das vítimas.

— Você vem sempre aqui?

— Freqüento mais o bar, ali no lobby, com os colegas de trabalho, mas ocasionalmente. O trabalho não permite que a gente gaste o tempo com uma vida social agitada — ele parou repentinamente de falar, arrependido.

— O que foi? — ela pediu sorrindo e fitando-o. Brass desviou o olhar e viu o garçom se aproximando.

— Vamos fazer o pedido? Posso sugerir o salmão com alcaparras?

— Delicioso — ela o interrompeu. — Sim, por favor.

— Você me acompanha? Vou beber vinho. Talvez uma taça — ele brincou, fazendo-a sorrir.

O garçom saiu e não demorou a tornar com um vinho branco, o melhor da casa. Os olhos de Victoria pousaram no rótulo quase oculto pelo pano que envolvia a garrafa enquanto o garçom a abria com uma das mãos apenas. Depois que o garçom se afastou, Victoria pareceu mais séria ao se dirigir a Brass:

— Se você está querendo me impressionar, tenho que pedir para parar.

— Desculpe, não entendi.

— Gosto muito de tudo isso, Jim, mas... esse vinho, o valor dele... você...

Então Brass riu alto.

— Não, não. Não estou querendo impressioná-la. Eu gosto mesmo desse vinho, e você não merece menos do que isso.

Ela enrubesceu e baixou os olhos para o prato.

— Realmente acreditei que você fosse homem de... cerveja.

— Sério? É tão evidente assim?

— Ah, bem... não. É que eu sempre pensei que policiais...

— Ora, você está generalizando — ele sorriu e ergueu a taça. Depois de brindarem, ele mudou de assunto. — Por que decidiu se mudar de Columbus?

— Ah... vários fatores. Mas Las Vegas sempre me pareceu tão... divinamente excitante. O lugar certo para uma professora de canto, não acha?

— Eu me surpreendi quando descobri que você era professora.

— E por quê?

— Bem, não sei ao certo. Talvez porque não acredito muito em dançarinas que...

— Agora é você quem generaliza.

— Desculpe — ele balançou a cabeça. — Não sei por que disse isso. Tenho uma colega que foi dançarina e pagou os estudos com esse trabalho. É uma ótima técnica forense...

— Viu só? Mas você está certo. É difícil aceitar que uma dançarina seja professora. No início, quando falei sobre meu outro trabalho, alguns pais não gostaram muito de mim. É um pouco de preconceito e as pessoas não entendem muito sobre a dança do ventre, acreditam que ela seja vulgar. Tão vulgar quanto uma dança de boate... Não entendem o verdadeiro sentido, não entende a história por trás disso tudo.

— Não precisa explicar, eu entendo de história — ele riu.

— Que bom que não me vê como uma dançarina deselegante e insignificante.

— Acho que foi a primeira impressão que tive de você, lá no Cashmere, que me fez vê-la de modo diferente.

— Teve uma boa impressão, é?

— Tive — ele também assentiu com a cabeça.

— E... por que?

— Não se pode explicar as impressões. Pelo menos eu não posso. Mas confirmei hoje que sua companhia é muito boa.

— Então o envolvimento do meu carro no seu caso não o fez pensar mal de mim?

— Não costumo julgar as pessoas. Por isso falei da primeira impressão.

— Diga... Você já salvou muita gente? — o entusiasmos dela aumentou, fazendo-a se endireitar na cadeira, apoiar os cotovelos sobre a mesa e juntar as mãos, fitando-o com curiosidade extrema.

— Não. Geralmente chego ao local onde o crime já aconteceu.

— Oh — ela pareceu desapontada.

— E já fiz grandes besteiras também. Não sou um grande exemplo de policial.

— Disso eu duvido — ela sorriu, colocou a mão sobre a dele, apertando-a levemente, e tornou a puxar a mão de volta a seu lado da mesa.

— A gente pensa que pode mudar o mundo e quando vê já se adaptou a ele — Brass desabafou.

Ela ergueu os olhos para o garçom, que parou carregado de pratos ordenadamente dispostos sobre um dos braços e soltou-os graciosamente sobre a mesa. Victoria sorriu para Brass e deram início a um jantar regado a amenidades sobre comida e bebida. A conversa se estendeu junto com a sobremesa, Brass falou sobre os pontos positivos e negativos de Las Vegas e sobre os lugares que freqüentava no tempo livre. Raramente ia a cassinos, a não ser que fosse a serviço, mas gostava de sentar ao balcão de um bar para esquecer-se de um dia duro de trabalho. Victoria, muito ao contrário de Brass, não saía de casa com tanta freqüência, a não ser para o trabalho. Ela pôde lhe dizer em menos de um minuto quais eram os locais que costumeiramente ia. Sentiu-se envergonhada pelo fato, mas afirmou que já havia usado sua cota de divertimento quando mais nova, em Atlanta, enquanto estava na faculdade. Agora tinha se acalmado, conseguira comprar sua casa e decorado-a justamente como queria. Seu próximo passo era adquirir um carro melhor, de preferência novo, mas para isso precisava juntar economias, já que não tirava mais do que trinta mil por ano, porque as aulas eram de meio período e as apresentações não pagavam tão bem. O bom da coisa se dava quando as dançarinas saíam com os clientes, mas isso Victoria na fazia de modo algum. Não estava reclamando, gostava de dançar e gostava de poder passear pela cidade, de carro, para espairecer depois de um dia exaustivo de trabalho.

Passava da meia noite quando Brass a acompanhou até a entrada de casa.

— Pronto, está entregue.

— Obrigada. Uma noite deliciosa — ela disse sorrindo e procurando a chave na bolsa. — Aqui está. — E balançou uma pequena chave vermelha, Brass achou graça.

— Que bom que sou tão boa companhia — brincou ele. — Posso considerar isso como um sim para um próximo jantar?

— Claro que pode — ela disse franzindo a testa. — Por que haveria de pensar o contrário? — Ela tocou de leve no braço dele.

— Bem, seria mais fácil se eu tivesse o seu telefone, não que ir até você seja algo desagradável, mas não quero atrapalhá-la no serviço.

Ela riu, abriu a bolsa novamente para achar papel e caneta, mas viu que ele tinha o celular em mãos, pronto para gravar seu número. Talvez ele já tivesse seu número, dado que ela fazia parte da investigação do último caso dele, mas não se importou em lhe ditar os caracteres.

— Agora estou contente.

— Bobo — ela zombou. — Bem, se não se importa, vou entrar. É muito tarde e você deve precisar acordar cedo amanhã, não é mesmo?

— Sim, preciso — ele ergueu a manga do paletó e olhou as horas. — Puxa! O tempo voa.

— Então, boa noite, Jim — ela disse, aproximando-se para lhe dar um beijo na bochecha, mas Jim inclinou a cabeça e fez com que suas bocas se unissem. O espanto dela não o fez recuar e, levando a mão até a nuca de Victoria, Brass a prendeu num beijo contínuo e ardente, com sabor da balinha de morango que tinham recebido na saída do restaurante, de uma mocinha propagandista. Quando finalmente se afastaram, passados alguns minutos, sorriram e ele foi até o carro, mas não entrou antes de vê-la entrar na casa e trancar a porta.

Na manhã seguinte, Louis esperava por Victoria no estacionamento.

— E então? E então? Conta!

— Tudo isso é vontade de saber sobre a minha vida, é? — quis saber Victoria.

— Você está feliz! Está feliz! Olha só esse sorriso!

— O que? Aonde?

— Ai, amiga, fala! Conta como foi! — a empolgação de Louis era contagiante.

— Louis, não foi nada. Jantamos e conversamos muito. Ele é um amor.

— Convidou ele para subir?

— Ai, não! O que é que ele ia pensar de mim?

— Que é uma mulher independente que quer um homem como ele!

— Eu nem o conheço direito!

— Pare já com isso! Ele é um herói! Um capitão da polícia, oras!

— Sim, é sim. Mas e se ele for violento? Já ouvi tantas histórias sobre policiais violentos... e não se tem a quem reclamar...

— Pare! — a voz de Louis se elevou. — Você... parece que você trocou de lado!

— Eu o que? Troquei de lado? Como assim? Louis, eu não convidei ele porque não achei certo, na verdade nem pensei que ele fosse uma má pessoa. O que ele fez a noite toda foi me tratar bem. E faz tempo que não sou tratada dessa forma. — Victoria riu em seguida. — Mas uma coisa eu posso te dizer: não troquei de lado não! E ele com certeza vai querer me ver de novo. Pelo menos eu espero que queira.

— Por quê? — Louis arregalou os olhos.

— Ele tem o beijo mais gostoso do mundo!

As duas caíram na gargalhada e caminharam para dentro da escola.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.