Diga Adeus à Inocência
33 Saudar a Crueldade - 1.
Notas iniciais
1 mês depois...
As últimas provas foram terríveis e agradeço pelo fim de semana estar chegando. O mês passou rápido, principalmente por eu estar lotada de coisas para fazer; ver a faculdade nova, levar e trazer documentos para a transferência, estudar para as provas, sair com o Matt e terminar a entrevista que comecei no dia do meu ataque de pânico – nunca mais tive nenhum ataque. A revista que irá publicar o trabalho do Rafael finalmente ficou pronta e ele nos chamou para a festa de lançamento, obviamente, chamei meus pais e a vovó.
– Mas que roupa se usa nisso? – ela me pergunta, pela terceira vez.
Sorrio.
– Roupa formal, vó, é uma festa.
– Meu Jesus, que roupa formal? – ela bate nas pernas – Vestido? Calça social? Terninho?
– Vestido. – é a terceira vez que dou essa sugestão – Aquele preto que usou na minha formatura está ótimo.
– Vou pegar. – ela sai do quarto apressada.
Há umas semanas atrás, sai com minha mãe para a consulta ao ginecologista – tomo anticoncepcional agora -, e acabamos indo comprar vestidos em uma cidade aqui perto; o meu é vermelho com cortes nas laterais e tule, além da renda na parte superior, deixando o decote maior.
Termino de passar o batom e passo o fixador de maquiagem. Jogo meu cabelo no ombro e prendo minha presilha. Escuto uma buzina, olho na janela e vejo o carro dos meus pais.
– Vamos! – grito.
– Nossa senhora, não estou pronta. – ela sai segurando a saia.
– Está ótima. – subo o zíper de seu vestido – Vamos.
Descemos a escada com o sapato na mão e continuamos assim até o carro.
– Oi. – cumprimento-os e pulo para o banco do lado, dando lugar para a minha vó.
– Você está linda. – mamãe sorri.
Meu pai apenas sorri. Nossa, faz tempo que não o vejo. Assim que vovó entra, seguimos para o salão da festa.
Não consigo conter o sorriso, não via a hora dessa revista ficar pronta para as pessoas, finalmente, considerarem nosso trabalho escolar algo sério, e ele acabou ganhando mais visibilidade depois da prisão do Jonas e todo o episódio que lançou uma luz aqui nesse fim de mundo. Foi meio difícil explicar para os meus pais do que se tratava – mais do que foi para a minha vó-, meu pai ainda teima que isso é papel de mulher da playboy quando viu minhas fotos da faculdade. Isso é tão triste, as pessoas estarem alienadas a pornografia quando uma mulher aparece de calcinha e sutiã em qualquer lugar e nesse caso isso se mostrou mais presente, pois era um protesto que não alcançou seu objetivo de primeira por esse preconceito.
– Vai virar modelo? – mamãe ri.
– Credo. – sorrio – Não sirvo para isso.
– Vai ser modelo de porta de bordel. – papai resmunga.
– Marcel. – mamãe o repreende.
– Está tudo bem. – debruço no meio dos dois bancos – Se ele ainda quer acreditar que estou fazendo papel de prostituta de luxo, não posso fazer nada.
– Seu pai é muito cabecinha. – vovó comenta- Não me lembro de criar um filho assim.
– Também não me lembro de ter ensinado a minha filha a se expor desse jeito. – ele rebate.
Quando uma pessoa mente aberta é apresentada a novas formas de protesto e sociabilidade, ela aceita – como minha vó e minha mãe, agora quando a pessoa é ignorante, ela não evolui em nada – como o meu pai.
– E você? – mamãe me encara – Está melhor das crises?
Meneio a cabeça e respiro fundo. É tão vergonhoso falar sobre isso. Ela acaricia minha bochecha e sorri.
– Estou me sentindo importante. – ela comenta, mudando de assunto.
Sorrio.
– Vão tirar muitas fotos. – aviso.
– Ótimo! – ela se olha no espelho mais uma vez – Adoro fotos quando estou bonita.
Em meia-hora chegamos em frente ao salão que irá acontecer a festa. A entrada está lotada e movimentada, havia flashes de todos os lados possíveis e nenhum lugar para o meu pai estacionar, o que nos fez descer na porta e ele ir procurar vaga em outro canto.
– Vamos aguardá-lo. – minha mãe arruma a bolsa.
– É o cacete. – vovó segura minha mão – Vamos aproveitar.
Com paciência ilimitada, tive que tirar foto com todos os fotógrafos que se aproximavam só porque elas queriam tirar fotos e minha vó até pegou o número de alguns para comprar as fotos depois. Finalmente, depois de quase dez minutos tirando foto, entramos.
O salão é amplo com chão negro e pilares brancos. Mesas redondas com toalhas roxas espalhadas por todos os lugares e garçons circulando com badejas dourados cheias de bebidas de diversas cores. O bar ocupa uma parede inteira e atrás dele há uma prateleira de vidro abarrotada de garrafas de bebidas e com luz led passando por todos os compartimentos, mudando de cor a cada 30 segundos, além do chão do bar, que tem uma cor permanente: vermelho. A música é eletrônica, mas mal é ouvida no meio da falação.
Fotos do nosso trabalho estão espalhadas por todo o salão; grandes, pequenas, médias, na horizontal, na vertical, preta e branca. Uma foto me chama a atenção, é de Camila, quando ela fez para o trabalho. Sorrio ao encará-la.
– Sempre de vermelho. – Matt se aproxima.
Sorrio.
– Vermelho é meu forte.
– Estou vendo. – ele pega em minha mão e me faz dar uma volta – Gostei.
– Por que não gostaria? – ergo uma sobrancelha.
Ele contém o sorriso.
– Vovó! – ele a abraça e ela ri.
– Está bonito. – ela arruma o terno dele.
– E a senhora então? Deslumbrante.
– Não seja cortes. – ela dá um tapinha em seu braço.
Rimos.
– Matthew. – mamãe o cumprimenta.
– As meninas estão lá atrás. – ele informa.
Encaro minha mãe.
– Pode ir, vamos procurar uma mesa. – ela sorri e pega na mão de minha vó.
Passo o meu braço pelo braço de Matthew e caminhamos na direção da mesa do pessoal. Monique está usando um vestido preto com a parte superior em tule e pedras, Coraline está usando um vestido azul escuro com um decote nas costas.
– Que linda. – Monique se aproxima – Vermelho, para variar.
– Só um pouco. – nos cumprimentamos com um beijinho em cada bochecha.
Faço a mesma coisa com a Coraline, Juliana e Michaela.
– E a Amiony e o Rafael? – pergunto, sentando.
– Estão por aí. Hoje eles são estrelas. – Monique senta em seu lugar e retoca o batom.
Sorrio e observo o salão mais uma vez. Quem diria que um trabalho de escola nos traria aqui. Então percebo que há um palco aqui e no centro dele está a primeira edição da revista. Camila ficaria tão feliz.
– Vamos pegar uma bebida? – Matt pergunta, pegando em minha mão.
Levanto e antes de seguir, noto o olhar malicioso de Monique sobre nós. Reviro os olhos e o sigo até o balcão.
– Teremos uma presença indesejável hoje. – ele diz, debruçando no vidro balcão.
– Quem?
– Sabe quem ajudou a patrocinar esse evento?
Não me diga que... Não pode ser... Por quê?
– O pai do Malic. – ele responde, ao ver minha reação.
Merda.
O barman se aproxima de nós e Matt pede por nós dois, já que ele entende muito mais de nome de bebidas do que eu, apenas observo, concordando com tudo e fingindo que entendi. Em pouco minutos nossas bebidas vermelhas chegam.
– Uma bebida quente para uma menina quente. – ele sorri e me entrega o copo.
– Não vou levar isso para o lado malicioso. – sorrio pegando o copo.
– Que pena.
Dou um gole na minha bebida e o líquido desce queimando até meu estômago.
– Minha nossa. – faço uma careta – Nossa.
– Bom, não? – ele bebe a bebida como se fosse água, impassível.
– Isso é horrível. Qual o nome?
– Lagoa vermelha.
Só podia ser. Dou mais um pequeno gole na bebida e encosto as costas no balcão. Espero não trombar com o Malic aqui hoje, rezo para que isso aqui encha e impossibilite nosso encontro. Eu já o esqueci, já sai de minha abstinência.
– Achou que chegaria aqui quando foi fazer aquelas fotos no parque? – ele pergunta, me tirando do transe.
– Nunca. – confesso – Nem achei que ele fosse ganhar.
– O Ruffles é assim, quando faz alguma coisa é para ganhar ou para ser notado.
Quem não faz?
Sua mão raspa em minha cintura, prendo a respiração e dou outro gole na bebida. Meu Deus, não. Sei que tenho que seguir em frente, mas não tão rápido e não com o Matthew. Vou para o lado e dou um sorriso amarelo.
– Vamos voltar?
Ele não diz nada.
– Vou ver minha mãe. – levanto a saia de meu vestido e caminho por entre as mesas, solto o ar com força.
Elas estão quase na primeira mesa em frente ao palco. Sorrio enquanto meu aproximo ao ver minha vó assaltar um garçom com a bandeja de canapê.
– Modos, vó. – brinco sentando.
– Onde está seu príncipe? – ela me encara.
Olho para trás e acabando olhando para a porta. Malic está entrando acompanhado de uma menina. Ela não tem a menor notoriedade ao lado dele, ao lado daqueles olhos amarelados. Fecho os olhos e volto a olhar para a mesa. Meu príncipe acabou de chegar, vovó, mas ele está mais para um demônio.
– O Matt deve ter voltado para a mesa do pessoal. – dou de ombros.
– Vá lá com eles, estamos bem aqui. – papai comenta. Não sei se isso foi uma grosseira ou gentileza, com a indecisão, levanto e sigo para a mesa do pessoal.
Matthew me encontra no meio do caminho. Ajeito sua gravata por puro impulso e respiro fundo.
– Bianca.
Mesmo com a falação, mesmo com a música alta, mesmo tentando ignorar, reconheço sua voz; grave e rouca. Fecho os olhos e prendo a respiração, viro lentamente e abro os olhos, encontrando as orbes amarelas.
– Malic. – forço um sorriso.
– Parabéns, foi um trabalho incrível. – ele coloca a mão no bolso da calça social.
– Obrigada. – endireito o corpo – Era o mínimo que o Rafael merecia pela produção que fez.
– Você foi uma das modelos? – a menina mia.
– Sim. – encaro-a – Estou ali, aqui, ali... – aponto para todas as minhas fotos.
– Interessante. – ela observa.
Ela é do mesmo tamanho que eu – pelo menos usando salto, usa um vestido vinho escuro com algumas pedras. Não parece que teve filho pelo corpo, tem um longo cabelo negro e olhos castanhos escuros. É bonita, admito.
– Essa é a Helen, minha noiva. – ele a apresenta.
Noiva.
Sorrio.
– Prazer. – sopro as palavras para fora.
– O prazer é meu. – ela estende a mão para mim. Hesito por alguns segundos, mas aperto-a.
Seu olhar é triunfante e até sádico. Isso não vai ficar assim, ele não sairá por cima.
– Esse é o meu namorado, Matthew. – digo, encarando-o nos olhos – Mas vocês já se conhecem.
Suas sobrancelhas se erguem momentaneamente.
– Sim. – diz, seco – Já nos conhecemos de outras épocas.
Matthew mantém a postura e lhe devolve um sorriso.
– Licença, temos que ir agora. – pego na mão de Matthew e sigo para nossa mesa.
– Namorado?! – ele me encara – Essa é sua vingança?
Dou de ombros.
– Fiquei em pânico.
– Ele vai matar a gente! – ele passa a mão no cabelo – Ele vai me matar.
Olho para Malic por cima dos ombros e ele ainda estão nos olhando. Sinto um arrepio.
– Ele não vai matar ninguém. – garanto.
Matt suspira.
– Se eu apanhar por sua causa, exijo uma recompensa. – resmunga.
Reviro os olhos.
– Ninguém vai brigar.
Sentamos na mesa e agimos como se nada tivesse acontecido.
Durante o tempo que decorreu, eu tinha a sensação de estar sendo observada sempre, cada passo meu era vigiado por alguém.
Após servirem o jantar, Monique convenceu todos a irem para a pista de dança e beber um pouco. O plano era beber um pouco, mas acabei ultrapassando meus limites. Tudo a minha volta começou a rodar e comecei a perder a consciência do que estava fazendo. Paro por alguns instantes e tento focar minha visão, está tudo tão borrado e lento. Uma mão grande e forte agarra meu braço e me arrasta. Não tenho equilíbrio para resistir.
Consigo ler uma placa que indicava a saída de emergência e de repente estou do lado de fora, nos fundos do salão. Consigo identificar meu sequestrador, Malic.
– O que pensa que está fazendo?
– Como você pôde fazer isso comigo? – ele me encara, sério.
– Eu?! – admiro-me – Foi você que pisou em mim como se eu fosse merda, seu desgraçado.
– O que eu fiz?
Como ele tem a audácia de perguntar isso?
– Você vai casar! – seguro o choro – E nem teve a dignidade de me falar pessoalmente, fiquei sabendo por outra pessoa.
– Mas não vou casar com a sua inimiga. – ele retruca.
– Que?
– Você está namorando com o cara que quase me matou, esqueceu disso?
– Eu estou com vontade de te matar. Eu! – bato em meu peito – Você não sabe o ódio e decepção que tenho por você.
– O engraçado é que você dizia que me amava. – ele estreita os olhos – E um mês depois já está transando com outro.
– Não tem o direito de me acusar assim. – cruzo os braços – Você disse que era apaixonado por mim e agora vai casar! Você tem um filho! Que porra, Malic.
Quero chorar de ódio, mas me contenho.
– Não estou casando por opção.
– Ah! Agora vai dar uma de indefeso, que está casando forçado. Coitadinho. – debocho.
– Estou fazendo isso para não pagar pensão.
O riso escapa de meus lábios sem que eu tenha a chance de processar o ato. É um riso de deboche, nervoso e triste.
– Você acha que sou imbecil? – encaro-o – Você ofendeu minha inteligência agora.
Ele revira os olhos e retira um cigarro do bolso. Ficamos em silêncio. Encosto na parede e ele caminha enquanto ascende o cigarro.
– Não era para ser assim. – ele passa a mão no cabelo.
– Mas foi. – retruco – E eu não estou aqui para ser idiota, se você pode seguir em frente, tenho o mesmo direito.
Ele vira as costas para mim e traga o cigarro. Suspiro e passo a mão no rosto, discutir será apenas desgastando para nós. Sigo para a porta e quando a puxo, ele bloqueia o ato, fechando-a a novamente. Arregalo os olhos com o susto e recolho o braço. Seu corpo pressiona o meu contra o metal da porta. Fecho os olhos e respiro devagar.
– Me deixe ir. – peço, fraca.
– Não posso deixar você ir. – ele sussurra.
– Pare com essa palhaçada. – abro os olhos – Já estou cansada disso tudo.
– Já cometi muita coisa errada na vida e não vou fazer merda de novo. – ele me encara, fixo – Não vou deixar você ir embora.
– Não estou aqui para ser a outra.
– Você nunca foi a outra. – ele coloca a mão na curva de meu pescoço – Você é minha menina inocente.
Limpo a garganta.
– Eu era. Entendeu? – tento buscar força para resistir.
Ele suspira.
– Eu sei que você ainda sente alguma coisa por mim. – ele insisti.
– Está enganado.
– Nunca estou enganado.
– Sempre há a primeira vez. – rebato.
Ele passa os dentes pelo lábio inferior e esse é golpe de misericórdia. Não vou resistir por muito tempo, mas eu preciso!
– Diga, olhando nos meus olhos, que não me ama mais. – ele pede, desafiador.
Respiro fundo e mergulho em seus olhos amarelos.
– Malic. Eu. Não. Te. Amo. Mais. – falo, pausadamente e vitoriosa. Isso não foi um desafio, por favor, é tão fácil dizer isso, no entanto é doloroso.
– Ah! Porra, você nem sabe o que está falando. – ele se afasta.
Ergo uma sobrancelha e sorrio.
– Sei muito bem o que estou falando. – discordo – Preciso ir agora.
Antes que eu possa abrir a porta, ele agarra meu braço e me puxa contra o seu corpo.
– Malic, quero evitar um vexame, não me faça gritar. – falo, calma.
– Pois eu não quero. – ele sussurra de volta – Grite a vontade, adoro escutar você gritar.
O aperto em meu braço fica mais forte.
– Irá marcar de novo? – pergunto, amarga.
Nós dois olhamos para sua mão em meu braço.
– Aproveite o momento, assim já faço jus a esse protesto.
Ele afrouxa um pouco o aperto até me soltar e passa a mão no cabelo.
– Realmente achei que você era diferente. – ele murmura com a voz embargada – Achei que com você eu seria diferente, só que minha mãe tinha razão, você é mais um tipinho.
Passo a língua pela parte interna de meu lábio e mordo minha bochecha. Ele não disse isso, não, ele não citou, não ousou.
– Eu não acredito nisso! – explodo e empurro seu peito.
Ele cambaleia para trás e arregala os olhos sutilmente.
– Depois de tudo você me fala isso?! Você só pode estar ficando louco! – finco os dedos em meu cabelo e desmancho o penteado – Você é o tipinho aqui, o tipinho de filha da puta. Ainda não consigo acreditar que amo você, não desce pela minha garganta isso. Como fui tão idiota? Cai na sua lábia como uma idiota. Eu odeio você!
– Eu continuo amando você. – ele dá de ombros.
Estreito os olhos. Depois de tudo que ele me faz passar, depois de tudo que já sofri por ele, ainda tem coragem de dizer isso? Depois de me insultar?
O movimento de minha mão e involuntário e quando noto, já o estou fazendo. Minha mão acerto o lado direito de seu rosto em um barulho agudo e ardido. Trinco o maxilar e respiro ruidosamente. Acerto um segundo tapa em seu lado esquerdo. E nesses dois tapas desconto toda a minha frustação, raiva e tristeza.
Seu cabelo perdeu a forma de seu topete, suas bochechas estão vermelhas e inchadas, seus olhos nublados e seu maxilar rígido. Um nó se forma na boca de meu estômago e minhas pernas ficam moles.
Em um movimento brusco e rápido, ele agarra meus braços e bate minhas costas contra porta atrás de mim. Meu corpo fica tenso e eu, mole. Antes que eu possa pensar em qualquer reação ao seu ato repentino e estúpido, seus lábios tocam os meus. Tento empurrar seus ombros, afastá-lo. Inutilmente, tento resistir.
Uma de suas mãos espalma minhas costas e me puxa para mais perto de seu corpo, a outra desce pela saia do meu vestido e a segura, amassando o tecido. Seguro em seu terno e o puxo para mim.
Preciso mais dele do que eu pensava. Nunca vou conseguir esquecê-lo porque ele foi o único que eu consegui amar desde a primeira vez, me encantar no primeiro sorriso. Não adianta negar, mesmo tentando. Por mais que eu fiquei louca com esse amor, não há sentido se eu não o tiver aqui. É uma necessidade do meu próprio corpo tê-lo perto, olha-lo, chama-lo.
Raspo meus dentes em seu lábio e puxo gentilmente. Perco o ar ao sentir sua mão passar por meu quadril, fazendo pressão em minha pele pelas pontas dos dedos.
– Malic. – sussurro tentando me afastar.
– Se eu não casasse com ela, meu pai iria me deserdar. – ele encosta a testa na minha e fecha os olhos – De acordo com suas palavras, ele não está aqui para sustentar puta de filho nenhum.
Mordo o lábio inferior.
– De fato ele está certo. – Malic continua, mansamente – O dinheiro da pensão viria do bolso dele e não do meu, sou tão filhinho de papai que nem tenho meu próprio dinheiro.
Agora entendo o “não tive opção”. O pai dele é arcaico, onde já se viu ter um neto significar desertar um filho? Garanto que Malic não planejou a gravidez de Helen e espero que ela também não tenha planejado. O que eu posso fazer por ele? Absolutamente nada. Não posso entrar no salão e agarrar o pai dele pelos colarinhos e o obrigar a parar com essa palhaçada.
Ergo seu rosto novamente e toco meus lábios nos seus em um simples selinho. Um pequeno consolo para nós dois. Não o mandarei ir contra a palavra do pai, não irei jogá-lo contra a própria família.
– Somos adultos. – sussurro – Temos que lidar com nossas próprias consequências. Fique com Helen, será mais saudável. Cuide de seu filho e não o deixe puxar o comportamento do pai – sorrio, tristemente -, faça dele um grande homem e viva uma vida melhor agora. Não se meta mais em confusão e não ande com más companhias. Você tem uma família, Malic. – seguro as lágrimas – Não há mais espaço para mim na sua vida.
– Mas – ele tenta objetivar, o interrompo pondo meu polegar em seus lábios.
– Já ouviu falar que quem ama deixa ir? – inclino a cabeça. Ele meneia a cabeça positivamente.
– Não estou desistindo de você. – olho para cima e evito as lágrimas – Estou te deixando livre, te deixando ir.

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