A única coisa que achei nunca veria em minha vida ganhava forma na minha frente: os olhos amarelos se encheram de lágrimas e uma delas escorreu por sua bochecha lisa. Meus lábios tremem e em uma traiçoeira piscada, deixo uma lágrima escapar.

Ele ajoelha aos meus pés e abraça minha cintura, encostando a cabeça em minha barriga. Um soluço evidencia seu pranto e é o ponta pé do meu. Acaricio seus cabelos e fecho os olhos. Na minha cabeça sempre foi tão fácil dizer adeus para ele, era só pensar que havia acabado e pronto, estava tudo certo e nada resolvido. Era doloroso, claro que sim, além de ser difícil pensar em não ter ele perto de mim e fazer isso se perpetuar. Mas agora é diferente. Dizer adeus na sua frente, olhando em seus olhos não é doloroso, é mortal. É impossível concretizar a promessa falada. Parece que estou me jogando no fogo e deixando tudo me consumir, me sufocar, nada pode me salvar. É como criar um inferno próprio.

– Por favor, não faça isso comigo. – ele diz, entre os soluços.

Prendo a respiração.

Escorrego entre seus braços apoiada na parede e fico de joelhos. Passo meus braços por debaixo dos seus e o abraço, o mais forte que eu consigo e encosto meu rosto na curva de seu pescoço.

– Não deixe tudo mais difícil. – peço.

Malic aperta o tecido de meu vestido e me puxa para mais perto, suas lágrimas molham meu ombro. Respiro devagar para conter o choro e me controlar.

– Por favor. – sussurro – Temos que fazer a coisa certa.

– Isso não – sua frase morre no meio de seu pranto.

As lágrimas escorrem por minha bochecha e me fazem erguer a cabeça para tentar secá-las e pará-las. Olho para o céu tímido com poucas estrelas e suspiro.

– Daqui a alguns meses irei embora. – declaro – Não daria certo.

– Eu faria dar certo. – ele discorda.

– Então faça agora. – sussurro. Minha garganta arde pelo ato de segurar o choro e minhas bochechas esquentam. Aperto seu terno e inalo seu cheiro – amo os perfumes que ele usa.

– Eu amo você. – ele sussurra.

A dor em minha garganta fica mais forte e insuportável.

– Eu também amo você. – falo com dificuldade.

Me sinto tão pequena diante de tudo isso. Tão prepotente. Gostaria de conseguir mudar tudo isso, até se o necessário a fazer fosse nunca ter conhecido o Malic.

– Não desista de mim.

Ergo seu rosto até seus olhos encontrarem os meus, limpo suas lágrimas com os polegares e forço um sorriso.

– Não estou desistindo de você. – garanto – Nunca desistiria.

– Então não me mande ir. – ele rebate.

Franzo o cenho com sua ideia.

– Mesmo te mandando ir, quero que fique. – declaro, baixo.

– Então me deixe ficar. – sua voz sai baixa e mansa.

Antes que eu possa responder, a porta de emergência abre com um barulho metálico alto. É minha vó.

– O Rafael vai fazer o discurso. – ela anuncia e então para, analisando a cena – O que aconteceu aqui?

Fungo e me desvencilho de seus braços, levanto com dificuldade e respiro fundo.

– Não aconteceu nada, vó. – aliso a saia do meu vestido – Só estávamos conversando.

Posso apostar que minha maquiagem está borrada e sei que ela é esperta o bastante para saber que isso não foi uma simples conversa.

– Ele irá demorar um pouco para falar. – ela diz e encara Malic por cima do meu ombro – Acho que dá para você ficar mais um pouco com ele.

Dou um rápido aceno com a cabeça e aguardo ela sair, o que não demore minutos. Passo a mão no rosto e em meu cabelo. Volto-me para Malic, que agora não está mais ajoelhado. Está de costas para mim, buscando um cigarro no bolso. Não sei o que falar e se devo me aproximar, então permaneço no lugar, observando sua alta silhueta a minha frente, gravando em minha mente sua imagem.

Quero gritar para ele ficar comigo e deixar Helen ir para o inferno junto com o filho, quero agarrá-lo e sequestra-lo; fugir. Fazer dele meu eterno e amável refém. Mas não posso. É nessas horas que devo mostrar que já sou adulta e saber lidar com as adversidades, não quero ser a desgraça da família dele e nem a dele. Se ele escolher ficar, será deserdado e jogado na rua feito lixo pela sua família e ficará comigo, e se ele for continuar será o filho que segue a carreira que o pai quis, o futuro pai de um menininho e não me terá. Não quero ser egoísta. Sou racional o suficiente para entender essa situação.

– Você ainda pode me ver. – dou qualquer desculpa – Ainda podemos continuar se falando.

Ele não diz nada.

– Está agindo feito uma criança. – repreendo-o – Sabemos que não há escolha nessa situação.

– Não quero ver você; quero você e não quero continuar falando com você; quero viver com você. – ele me encara por cima dos ombros.

Abaixo o olhar e a dor no fundo de minha garganta se faz presente novamente. Me aproximo devagar, com passos vagarosos e hesitantes. Ele volta a olhar para o horizonte a sua frente e traga o cigarro. Pego proximidade o suficiente para encostar a cabeça em suas costas, subo minha mão por seu abdômen e paro em seu peito.

Um último abraço.

– Tenho que ir agora. – murmuro. Contrariando minhas palavras, continuo abraçada a ele. É como se eu não conseguisse soltá-lo nunca mais, não tenho força o suficiente para ir. Por favor, não quero ir.

Ele joga o cigarro no chão e vira, rodando em meus braços. Apoio o queixo em seu peito e o encaro de baixo para cima – seu maxilar fica ainda mais quadrado nesse ângulo. Sua barba está por fazer e seus olhos estão inchados, mas ele continua lindo. Suas mãos envolvem meus ombros e me fazem se afastar alguns passos, franzo o cenho com o ato e o encaro confusa. Por que ele está fazendo isso? Antes que eu possa perguntar, ele inclina o corpo e toca seus lábios nos meus.

Abro um pouco os lábios e início o beijo. Lento. Esse é um dos momentos em que rezo para o tempo demorar para passar. É letal a ideia de beijá-lo pela última vez, de abraçá-lo uma última vez. Mais uma vez quero gritar para tudo o que me sufoca sair, no entanto aprofundo mais o beijo. Reivindico seus lábios pelos meus e passo minhas mãos pelo seu pescoço. Mesmo de salto ainda preciso ficar na ponta do pé para alcançar sua altura.

Uma de suas mãos envolve meu rosto e a outra para na lateral de meu corpo.

Gostaria de não precisar de oxigênio para isso durar eternamente. Mas mesmo se isso durasse, uma hora ele teria que ir embora para sua família e eu seguir minha vida.

Separo meus lábios dos seus o mais devagar que consigo e evito abrir os olhos. Está na hora. Afasto o meu corpo do seu vagarosamente, com um recuo hesitante. Sua mão escorrega para o meu pescoço. Ombro. Bíceps. Cotovelo. Antebraço. Punho. Mão. Dedos.

Adeus.

Dou um mínimo sorriso e sou incapaz de dizer alguma coisa.

Não estou desistindo dele, então não preciso dizer adeus. A ideia me anima e me faz sorrir verdadeiramente.

– Até qualquer hora. – sussurro – Quem sabe não nos encontramos nessas trilhas fajutas da vida.

Ele dá um sorriso mínimo de lado.

– Adoraria te encontrar em alguma trilha fajuta.

Respiro fundo e dou as costas, caminho até a porta rapidamente e abro-a. Assim que a fecho, encosto minhas costas no metal e solto o ar com força. Meu deus. Vou direto para o banheiro retocar a maquiagem e agradeço por estar usando um batom 24 horas.

Volto para a mesa da minha família no meio do pronunciamento do Rafael, sendo a única pessoa em pé ali. Malic volta para a sua mesa um bom tempo depois, quase no final do discurso do Rafael e apresenta uma cara melhor.

Malic não permanece muito tempo na festa e acaba indo embora com Helen. A comemoração em si perda a graça para mim, porém evito demonstrar isso para as outras pessoas, então continuo sorrindo e tirando fotos. Monique tenta me convencer a não ir embora com os meus pais e continuar um pouco mais na festa bebendo e dançando.

– Você devia ficar. – vó aconselha – Assim você espairece um pouco, porque se for para casa irá chorar.

– Não vão não.

– Vai. Eu te conheço bem o suficiente para falar isso.

Se bem que ela pode estar certo.

– Fique e o Matthew te leva para casa de novo, se divirta um pouco. – ela sorri – Você é jovem, Bianca, irá encontrar milhares amores e não serão todos os correspondidos.

Cutuco a unha do meu dedão e não digo nada.

– Estamos indo. – mamãe se despedi.

Despeço-me dos meus pais por um tempo, já que não os verei até a mudança e depois dou um beijo de despedido em vovó, voltando para a pista com o pessoal.

– Você está linda nessas fotos. – Michaela me elogia enquanto observo uma de minhas fotos espalhadas no salão.

– Nada que um trabalho profissional. – fico ao seu lado.

– Não seja besta, você é muito bonita. – ela sorri.

– Obrigada. – cruzo os braços e observo a mesma foto que ela elogiou.

– Onde ficou esse tempo todo? – Juliana se aproxima.

– Estava com os meus pais.

– Não. – ela ergue o indicador – Antes do discurso do Rafael. Você sumiu!

Abaixo o olhar.

– Estava por aí. – dou de ombros.

– Podemos nomear o “aí” como Malic? – ela ergue uma sobrancelha.

Reviro os olhos.

– Chame do que quiser. – falo, indiferente.

– Vocês terminaram de novo? – Michael inclina a cabeça – Achei que iam ficar sério agora.

Pois é, também achei a mesma coisa.

– Ah. – suspiro – Você sabe né.

– Vamos beber. – Juliana agarra meu braço – Beber é ótimo!

Sorrio e a acompanho até o bar.

***

No dia seguinte a ressaca me impediu de levantar da cama. Fiquei no sofá o dia inteiro vendo tv e conversando pelo celular. A tv passou uma retrospectiva “comemorando” o um mês passado da prisão do maior serial killer do país – sei tudo de cor-. Israel levou minha vó jantar e eu chamei Matthew para jantar em casa.

– É incrível como as pessoas gostam de ver desgraça. – ele comenta referente a retrospectiva.

– Acho que isso está certo. – discordo – Mostra o que o efeito da omissão e falta de competência pode fazer.

Antes de terminar, eles passam a foto de todas as vítimas durante o celebre “um minuto de silêncio”.

– A mãe dele está em depressão. – ele comenta.

– Não é por menos.

– Deve ser a maior barra. – ele encosta a cabeça no encosto do sofá.

– Ela deve se sentir culpada, eu acho. – palpito.

– Você se sentiria?

– Acho que eu tentaria não sentir nada, sabe, na tentativa inútil de fazer tudo não passar de um delírio.

– Tipo uma sensação? – ele ergue uma sobrancelha.

– Sim, como uma sensação.

Notas finais
imagem: http://cdn.inspirationhut.net/wp-content/uploads/2015/05/Miranda-Meeks2.jpg ( ela acabou não sendo registrada, mas gosto muito dela, então passei o link)