Difficile
2 #2 Não estrague o momento, Kurtie
Notas iniciais
"Tudo bem, isso é um pouco estranho. Dias atrás eu saberia o que te escrever ou o que te falar, e agora me faltam palavras ou um estranho e nunca antes sentido frio na barriga me invade.
Seb, eu não sei como te falar. Você sempre me disse que nunca gostou de drama, mas meu único dom é saber as corretas palavras a usar e me expressar por um grande e expressivo texto. Precisamos conversar, não acha? Isso tudo é muito relativo, como assim não me ama mais? Nós vivemos anos juntos, é como se você jogasse tudo para o ar, você não quer isso, não é mesmo? E eu mandei meu cérebro diversas vezes se manter forte, para não te digitar essa mensagem, mas eu simplesmente não consigo. Você é tudo o que eu tenho, eu..."
– O que você tá escrevendo? — Blaine abriu os olhos sonolentos encontrando sua mãe dirigindo (ela havia trocado há alguns quilômetros com o pai pois estavam fazendo um rodízio), seu pai no último sono e Kurt com os olhos vermelhos sendo iluminado pela tela do celular. A noite era escura e sem estrelas, a estrada vazia.
– Nada. — Falou com a voz embargada e continuou a escrever.
– Você está escrevendo uma mensagem para o Sebastian...?
Kurt ficou em silêncio, apenas ouviam o motor do carro e os dedos de Kurt contra o vidro touchscreen.
– Você está escrevendo uma mensagem para o Sebastian. — Blaine revirou os olhos assim que chegou um pouco mais perto do amigo e pôde ver o destinatário. — Ah, Kurt... Você costumava ser mais forte.
– Só estou resolvendo algumas coisas pra quando chegar de volta em Ohio. — Dizia ainda com a voz machucada. Antes que pudesse pensar na próxima frase para escrever seu celular foi arrancado de sua mão e jogado pela janela do carro. — BLAINE! O que você fez?! — Gritou.
– O melhor pra você. — O moreno sorriu e voltou ao seu lugar, fechando os olhos e insinuando dormir.
– Você jogou meu celular na estrada, você é louco? — Kurt gritava, sem se importar com o Sr. Anderson acordando no banco da frente. — Eu tinha fotos naquele celular, meus contatos... E se meu pai me ligar? Você é idiota?
– Se seu pai tentar falar com você e não conseguir ele vai nos ligar. A única ligação que você estava esperando naquele celular era a de Sebastian, e graças a mim ele não vai te incomodar nessa viagem. — Blaine sorriu de olhos fechados. — Te dou o meu quando chegarmos à Lima, mas até lá, sem comunicação com o mundo exterior.
– Eu poderia te bater agora. — Kurt estava realmente irritado.
– Você pode tentar. — Blaine sorriu cafajeste, o que fez Kurt ficar mais irritado ainda. A mensagem estava ficando perfeita e provavelmente Sebastian acordaria e veria que Kurt era o seu amor. Ignorou o amigo gargalhar baixo ao seu lado e tentou dormir também... Estavam perto do Arizona e mais algumas horas chegariam ao deserto.
– Blaine, acorde. — A mãe do moreno o chamava.
Os olhos de Blaine se abriram lentamente e logo se fecharam de novo por conta dos raios de sol que acertavam seu rosto. Alguns segundos depois Blaine abria os olhos novamente. O carro estava parado no meio do deserto, era lindo. Blaine poderia ficar olhando para aquelas colinas de areia para sempre.
Lembrava-se de passar todas as férias de verão acampando com a família no deserto, antes de todos eles virarem ocupados demais com o casamento de sua irmã ou o nascimento de sua sobrinha... Blaine sentia falta daquilo.
– Continua lindo. — Sussurrou com a mão um pouco acima da testa para tapar o sol de irritar seus olhos. Kurt saiu do carro bocejando e ficou deslumbrado com a visão. Blaine virou para seus pais com os olhos brilhantes. — Vocês deveriam ficar também!
– Não, eu e sua mãe temos que chegar à cidade antes do anoitecer para pegarmos o vestido da sua irmã. Susan ainda acha uma ideia horrível deixar dois adolescentes acamparem aqui sozinhos por causa dos lobos... — Blaine sorriu. — Mas vocês vão ficar bem, não vão?
– Claro. — Blaine respondeu antes de Kurt.
– Já tirei do porta-malas as coisas que vocês precisarão para passar a noite. — A mulher abraçou o filho. — Eu volto assim que amanhecer, tudo bem?
– Mãe, você está me sufocando. — Blaine gargalhou.
– Oh, desculpe. — A mulher abaixou a cabeça.
– Ainda não acredito que vou dormir sob as estrelas do deserto depois de tanto tempo! — Aquele sorriso no rosto do amigo fazia Kurt agradecer pelo pé na bunda do namorado. Blaine estava perceptivelmente feliz. — Não acredito que vocês deixaram, que confiaram em mim.
– Bom, confiamos no Kurt. — O pai sorriu. — Vocês vão ficar bem?
– Sim. — Blaine sorriu feito criança.
– Venha, Kurt. Vou lhe mostrar o lugar onde costumávamos acampar... Tem a areia um pouco mais macia para colocar os sacos de dormir. — A mulher passou os braços pelo ombro do castanho e caminhou com ele até uma parte do deserto aberto.
Blaine ainda tinha os olhos fascinados na cor da areia quando o sol batia. — Blaine? — O moreno não respondeu. — Blaine?!
– D-desculpa, pai. Mas é que eu sinto tanta falta daqui.
– Tudo bem, só me escute. — Blaine se virou e encarou o pai que não tinha mais uma feição muito amigável. — Estamos confiando nos dois, você e Kurt sempre foram melhores amigos... Só isso, amigos, certo?
– O quê? Eu e Kurt? Sim! — Afirmou como se fosse óbvio. — Ele é como se fosse meu irmão, pai. — Tentou ignorar o nojo que sentiu quando pensou em se envolver com Kurt, era como se fosse incesto. Conhecia o amigo há anos.
– Sua mãe estava meio desconfiada de vocês. — Sorriu. — E o fato de você não querer que Sebastian fosse ao casamento. Não que eu tenha alguma coisa contra à garotos que... Gostam de garotos... Só que... — Andrew se atrapalhava.
– Pai, eu entendi. — Blaine sorriu.
– Você nunca levou uma garota lá em casa.
– Pai.
– Ou um garoto...
– Pai!
– Tudo bem. — Gargalhou. — Me dê um abraço agora, temos que partir.
Kurt e Blaine passaram a parte da manhã inteira arrumando o lugar onde acampariam por algumas horas. Armaram a pequena barraca com os sacos de dormir dentro, o pequeno fogão improvisado com "lenha" que encontraram aos arredores do acampamento, a caixa de isopor com as bebidas, as cadeiras de praia para aproveitarem o calor de um inverno... Tudo estava ajeitado, menos o fato de que Kurt não trocou uma palavra com o moreno.
O Hummel estava sentado em sua cadeira lendo um livro por cima de seus óculos de sol, ignorando a paisagem linda ao seu redor. Blaine se aproximou de fininho e logo se sentou ao lado do castanho.
– Ainda bravo comigo?
– Você jogou meu celular no meio da rodovia. — Kurt cuspiu as palavras, virando a página do livro com um tanto de raiva. — Bem quando eu estava prestes a voltar com Sebastian.
– Estava?
– Bom... E-eu ainda não tinha mandado a mensagem...
– Kurt.
– Blaine, vá cuidar da sua vida. — Kurt fechou o livro, finalmente assumindo que não estava lendo, apenas fazendo mais um rito do seu estimado drama de ignorar o amigo. — Aliás, vá cuidar do almoço. Estou morrendo de fome.
– Como você fica chato no deserto, hein? — Blaine brincou e saiu, deixando Kurt tentar segurar um sorriso.
A tarde estava passando dolorosamente lenta. Desde o almoço Blaine e Kurt não trocavam uma palavra e por mais que Blaine adorasse ver o amigo irritado, começou a odiar essa distância entre os dois. Havia jogado o celular dele pela janela do carro, e daí? É isso que amigos fazem quando tentam afastar ex-namorados.
Kurt estava apoiado em um cacto velho sem espinhos olhando para o horizonte, Blaine poderia jurar que ele estava chorando. O Hummel jogava algumas pedras longe e esse clima de faroeste não agradava Blaine. Suspirou antes de fazer alguma bobagem e caminhou com passos firmes até o amigo, ficando em sua frente e cruzando os braços.
– É melhor você sair daí, ao menos que queira ser acertado por uma pedra. — Falou seco.
– Pronto, é isso. — Blaine falou com um tom de voz irritado que assustou Kurt. O moreno pegou o amigo pelo braço e o arrastou de volta ao acampamento, sem se importar em estar ou não machucando o castanho.
– O que foi isso?! — Perguntou assustado com a brutalidade de Blaine.
– Kurt, você precisa acordar! — Colocou os braços no ombro do Hummel como se fosse chacoalhá-lo. — Sebastian é um merda perto de qualquer outro cara desse mundo, por que você ainda insiste nele? Você está percebendo que estamos brigando por causa dele, logo a gente que nunca nem discute? Ele não te ama mais, e daí? Mostra pra ele que você não precisa do amor dele.
– Mas eu... — Blaine o interrompeu.
– Se você me falar que precisa eu te jogo em um cacto com espinhos que fará o maior estrago. — Blaine falava seriamente, mas Kurt tinha vontade de rir do rosto sério do amigo. — Você precisa de um cara que faça por você o mesmo que você faz por Sebastian, e cá entre nós, esse namoro acabou há anos.
– Você não entende. — Kurt cuspiu as palavras sem medir as consequências. — Você nunca teve uma namorada, ou um namorado, você não entende como é o mundo de um namoro!
– Você está certo, eu nunca namorei, mas se isso que você estava fazendo com aquele cara era namorar, eu não quero mesmo. — Blaine agora estava mais calmo. — Você quer mesmo saber por que eu nunca gostei do Sebastian? Ou você acreditava naquela história de "não fui com a cara dele"?
– O quê você está falando...? — Kurt perguntou um pouco magoado. Blaine soltou o ombro do amigo e caminhou pra longe. Ele não podia falar isso para o amigo. Havia jurado que não falaria. — O que foi, Blaine? — Kurt não facilitava e caminhava atrás do amigo até uma cerca improvisada de madeira podre onde Blaine não teria saída. Estava encurralado. — O que ele te fez?
– Ele me enfrentou um dia. — Blaine colocou as mãos na cinturam e virou para encarar Kurt. — Era o primeiro ano do ensino médio, você lembra aquela semana que me afastei de você perto das atividades extracurriculares?. — Kurt assentiu sem entender onde isso iria chegar. — Eu estava pegando alguns materiais no meu armário e Sebastian provavelmente passou por lá e viu nossas fotos espalhadas por todo o lugar. — Blaine tinha muitas fotos de Kurt espalhadas pelo armário, do mesmo jeito que Kurt tinha dezenas de fotos do amigo em seu armário que ao tempo foram sendo substituídas por fotos de Sebastian. — Ele me enfrentou, era final das aulas então não tinha ninguém nos corredores. Ele disse que não gostava de mim e que por ele eu morreria, que eu era um atraso no namoro de vocês e que não passava de um cachorrinho que te seguia pelos corredores.
– Blaine...
– Eu senti medo, qual é, Kurt. O cara tem quase o dobro da minha altura. Eu entendi, tentei explicar que éramos como irmãos mas ele não quis saber. Me fez jurar que nunca te contaria que ele havia ido atrás de mim, e que eu deveria me afastar de você aos poucos ou eu veria a fúria de um namorado ciumento.
– Você não se afastou. — Kurt deu alguns passos para perto do amigo.
– Como eu poderia? Você é meu melhor amigo, é a única pessoal na qual eu conversava. Então eu me afastei uma semana, mas não consegui mais. Então ao invés de me afastar de você, me afastei dele. — Blaine dizia sincero. — Eu nunca queria que você descobrisse o idiota que ele era por mim, mas ele mesmo te mostrou isso. Por isso que eu tenho raiva dele, por isso que joguei seu celular fora... Você não pode voltar com esse cara.
– Blaine... — Kurt sorriu. — Eu admiro você por ter escondido isso de mim, mas como eu disse, namoros são complicados. Eu ainda amo Sebastian, e é obvio que ele também me ama. Vamos nos entender, você não pode ter raiva dele pra sempre.
– Tudo bem... Só que... — Blaine hesitou. — Esquece.
– O que foi?
– Você estava bravo comigo por causa dele, isso é ridículo. — O moreno encarava o chão e se escondia nos casacos que vestia. — Eu não quero ser o tipo de amigo que te coloca contra outras pessoas, mas eu precisava tirar o seu celular. Me desculpa.
– Blaine, você é a unica pessoa que consegue ser totalmente chata e adorável ao mesmo tempo, sabia? — Kurt gargalhou e deu um cafuné rápido em Blaine antes que o amigo pudesse reclamar sobre isso estragar seu gel. — Uau.
– O quê?
– O pôr-do-sol daqui é lindo. — Kurt apontou com a cabeça para o norte, onde o sol se punha atrás das montanhas de areia. Blaine sorriu ao ver o encanto nos olhos do amigo, lembrava de admirar o pôr-do-sol várias vezes quando acampava ali.
– Vem, senta aqui. — Blaine chamou Kurt para se sentar na cerca junto com ele.
Ficaram admirando o sol descer lentamente pelo céu alaranjado do deserto.
– Obrigado por me trazer nessa viagem com você. — Kurt assumiu.
– Obrigado por ser meu amigo, e por estar aqui comigo.
– Melhor amigo. — Kurt corrigiu.
– Você está estragado o momento!
– Oh, desculpe. — Kurt fingiu que estava ofendido, mas Blaine nem deu bola. Apenas passou seu braço por volta de Kurt e puxou o amigo para perto, admirando o sol indo embora naquele lindo cenário.
Melhores amigos.
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