Dies Illa
33 Capítulo XXXI - Da Sorte das Flores -
Notas iniciais
Norman tinha chamado seu aluno favorito para sua sala.
– Rihito — Disse, puxando as mangas de seu terno muito à maneira como Simon fazia com seu uniforme — Estes papéis são todos relatórios de sua classe que devem ser entregues até as duas horas na mesa do diretor Collins.
O garoto o observava atentamente, seus olhos seguindo todos movimentos do coordenador como se aquilo também fosse sua responsabilidade. Ele ajeitou os óculos, ansioso.
– Por ser o presidente, confio que você possa me fazer esse favor — Norman deixou a pilha de folhas em frente ao menino — Fui chamado de última hora pra uma reunião que não pode ser adiada.
– Claro, sr. Norman — Respondeu cordialmente — Vou agora mesmo, com licença.
– Espere — Chamou ele novamente.
Rihito já havia aberto a porta mas, mal pôde perceber, a mão de Norman a fechou novamente. Como o homem chegara lá tão rápido não saberia explicar, mas aquela proximidade exagerada o colocou apreensivo.
– Como meu sobrinho está te tratando? — Perguntou numa voz bem mais baixa.
Rihito corou.
– Como assim... Como ele... Como assim..?
"Ah, que ingênuo..." o nobre vampiro pensou, deleitado, seu lábio superior repuxando-se levemente sobre o canino esquerdo.
– Digo dessas feridinhas malevolentes que ele deixa em sua pele... — Norman se abaixou com o pretexto de examiná-las somente para puxar para dentro de seus pulmões uma lufada do aroma humano e mortal que dele emanava — Huhuhu... Se algum dia ele te fizer mal, venha até mim.
E sorriu. Rihito, desesperado para sair, apenas concordou e pediu licença mais uma vez. O homem enfim o libertou e encarou os outros funcionários no corredor com a mais séria das faces.
Nosso menino apertou o passo e logo se via fora do prédio. Manteve-se andando sempre em linha reta, nervoso, apenas para depois se lembrar que o escritório do diretor Collins ficava para o outro lado. Rihito detestava prestar esses favores.
Reparou nalguns garotos que discutiam ao longe.
– Eh, o meu já está acabando...
– Você ouviu, dá esse pro Morgan.
– Ehhh!? Mas eu nem fumei ainda!
– Quem te perguntou alguma coisa? Ele falou que o dele acabou, então dá o seu pra ele.
– Mas já não basta isso com o Adam, agora com esse Morgan também??
O louro cheio de moral e empáfia simplesmente arrancou o cigarro da mão do outro e disse,
– Sua voz me irrita.
Pousou o cigarro nos lábios e aproximou-o do de Adam para acendê-lo. Era similar a um beijo, mas com as brasas de seus cigarettes. Já se acostumara também com suas fumaças.
Rihito, incrédulo, olhava boquiaberto para a direção deles. De início duvidara até do grau de suas lentes, mas agora entendia plenamente: Morgan estava em má companhia, e além disso, cometia um dos delitos mais execrados em Kensington Academy, que era o de fumar. Olhando mais de perto, conseguiu reconhecer entre o grupo os garotos que quebraram seus óculos e que costumavam aborrecer seu amigo.
O nissei já havia notado a sua mudança de comportamento, parecia mais distante e antipático... Mas nunca imaginaria ele em tal situação, quiçá seus motivos para estar ali.
– Oi, Morgan... Aquele babaca parado ali não é seu amigo?
Assustado, o louro se virou para onde o colega apontava, o pavor e o nojo de ter sido pego em flagrante crescendo e excruciando seu peito.
– Tch, imbecil... — Ele fingiu um tom irritado para impressionar o grupelho — Já volto...
Morgan atirou o cigarro no chão e pisou em cima.
– Meu cigarro!! — O seu dono original lamentou, e obteve como resposta o dedo do meio do menino que se afastava pelo descampado.
– E aí? — Perguntou quando se encontraram.
– Morgan! O que houve? Você estava mesmo... Fumando!?
Meio sem jeito, o louro respondeu que sim, tentando disfarçar o embaraço.
– Mas Morgan, isso é proibido aqui! Você sabe!
A papelada nas mãos de Rihito ameaçava ser carregada junto do vento.
– E daí? O que você vai fazer? Vai me dedurar?
O menino ficou em silêncio. Aquele Morgan não era o Morgan.
– Morgan... O que aconteceu, Morgan?
Tanto ele como Simon sabiam que Rihito tinha o péssimo hábito de repetir nomes quando enfrentava uma situação desagradável. E ambos beiravam a loucura com essa característica aparentemente inócua dele.
– Você está até andando com essa gente de má índole... Antes você era tão legal! — Desabafou, finalmente dizendo o que menos devia naquele momento.
O louro se irritou.
– Escuta, você não acha que está se metendo demais não? Vai cuidar do seu rabo que você não tem nada a ver com isso...
– Morgan! Espera... E o seu pai? O que você acha que ele ia pensar disso se descobrisse? — Erroneamente e indevidamente, o moreno mencionou o que o afligiria se estivesse na situação do outro.
– Hahahahahaha! O meu pai! — Morgan exclamou amplamente e com repugnância — Que vá para o inferno o diabo do meu pai! Velho maldito que merecia estar morto e não imerso em prestígio como está!
Rihito arregalou os olhos celestiais mediante à explosão de raiva de seu amigo.
– Depois que a mãe morreu — Contou — meu pai se casou comigo. Pois é, meu querido amigo! Faça a cara que quiser! Ele me tratou como sua nova mulher. Desgraçado que eu não consigo esquecer, porque todas as vezes que me olho no espelho vejo esses olhos escuros iguais aos dele! Ele manchou meu rosto para que eu nunca me esquecesse...
O surpreso Rihito nem sabia como reagir. Um caminhão de informações fora despejado sobre ele, coisas das quais ele não fazia nem ideia. "O pai dele... Transava com ele?" Chegou à conclusão de que não conhecia nada sobre quem ele se dava o direito de chamar de amigo.
– Me... Deixe te ajudar! — Ele quase gritou — Me conte o que está havendo!
– Tch... Sai fora... Você não sabe de nada.
Com olhos avermelhados de um choro iminente que Morgan engolia, ele rejeitou o menino com olhos tão azuis quanto os de sua falecida mãe e o empurrou para longe. Sua tentativa de consolá-lo falhara ali. Se sentindo impotente ao assistir as costas de Morgan voltando para os rapazes, Rihito correu.
Correu para o lado oposto, abraçado nos papéis que devia entregar. Teria muito em que pensar naquela noite em que dormiria sozinho, porque Morgan certamente não viria mais.

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