Dias sem Sol
3 Capítulo 2
A luz do sol entrou devagar no quarto, iluminando o piso do cômodo com pregüiça enquanto as cortinas balançavam suavemente, fruto da brisa leve que soprava naquela hora da manhã. Ludwig mexeu-se na cadeira que ocupava, sentindo uma dor localizada na base do seu pescoço; provavelmente havia adormecido em uma posição ingrata para sua coluna e agora seu corpo protestava.
Piscando, o jovem estudante precisou abrir e fechar os seus olhos mais de uma vez para ter certeza de que realmente via as imagens que estavam sendo enviadas ao seu cérebro. Em silêncio, a mão que tinha presa entre as suas deslizou para fora do confortável lugar onde ela repousara durante a noite, voltando para o lado do corpo do outro estudante sobre a cama.
— Ludwig.
Não havia qualquer nota de questionamento na voz do loiro, embora seus olhos claros procurassem pistas para entender o quê exatamente havia acontecido no rosto do seu colega de classe. Ludwig então respirou mais profundamente, passando uma das suas mãos pelo seu longo cabelo e enrolando-o por fim, colocando do lado esquerdo do seu corpo.
— Orpherus. — a voz do futuro duque de Liechtenstein saiu neutra, sem expressar qualquer emoção como era de costume — Como está se sentindo?
-...Fraco. — o outro respondeu com um suspiro que de fato parecia ter exigido todo o ar que se acumulara dentro dos seus pulmões. O rapaz mais novo fechou os olhos por um momento, seu rosto mostrando indícios de dor por breves instantes até retomaram os traços calmos de antes — O quê... Aconteceu, exatamente?
— Qual é a sua última recordação?
Ludwig entrelaçou os dedos e deixou suas mãos repousarem sobre o seu colo. Ele notou com um interesse velado que a sensação de calor e conforto que a mão de Orpherus havia irradiado para as suas próprias estava bem mais fraca agora, mas havia sido mais potente do que a de qualquer par de luvas elegantes que ele já havia experimentado.
O outro candidato ao Strahl deslocou seu olhar para uma das paredes do quarto, parecendo imerso nas suas lembranças. Ludwig observou as rugas de concentração que apareceram na testa do estudante loiro, ocasionalmente cobertas por fios dourados do seu cabelo.
— Eu lembro... De uma visita de Albert.
O futuro duque não fez qualquer barulho, continuando a observar Orpherus enquanto o sopro do vento matinal ficava mais forte, a ponto de ser sentido nas extremidades do cabelo de Ludwig e nas ricas cobertas da cama.
— Nós estávamos conversando quando ele foi embora... E eu fui atingido por um tiro.
Os olhos azuis do estudante ferido pareciam brilhar com a realização do que havia ocorrido com ele. Antes que ele pudesse tentar qualquer coisa, o futuro duque ergueu a mão direita espalmada na direção do colega, sua postura irradiando autoridade:
— Não se mova.
Todos os músculos do corpo do herdeiro dos Görz relaxaram contra o leito macio da cama, Ludwig fazendo um pequeno aceno com a cabeça logo a seguir. Olhando para o outro candidato ao Strahl na cama, ele cruzou novamente as mãos sobre seu colo antes de começar a falar:
— Você está na minha casa.
— A mansão... Dos Liechtenstein?
— Precisamente. — o futuro duque replicou com algo que parecia o fantasma de um sorriso nos lábios; Orpherus não costumava fazer perguntas retóricas daquela maneira, mas ele atribuiu esse sintoma ao acidente sofrido pelo outro — No dia em que você deixou a academia e foi baleado, meu pai me chamou de volta para casa. Foi uma mera coincidência eu ter passado sobre a ponte onde você foi atacado e ter visto seu corpo na água.
O outro homem se manteve em silêncio, esperando a continuação do relato de Ludwig que agora havia se erguido da cadeira que ocupava e rondava a cama, seus dedos pálidos e sem luvas envolvendo o recipiente de vidro onde o projétil que havia atingido Orpherus repousava. Ele então voltou ao seu assento, ocupando a ponta do mesmo a fim de permitir que o outro adolescente examinasse a bala visualmente.
— Você foi operado ontem à noite e a bala foi extraída. No entanto... — a voz de Ludwig aumentou ligeiramente o seu volume e o estudante loiro entendeu que um aviso se seguiria — As suas condições ainda são bastante delicadas.
Uma rápida contração de dor nas feições no bonito rosto do herdeiro dos Görz trouxe um sorriso breve de simpatia ao rosto do anfitrião.
— Estou... Vendo.
— Muito bem. — Ludwig se levantou, deixando o copo de vidro com a bala na mão esquerda de Orpherus; era o lado do corpo do outro estudante que não havia sido atingido pelo disparo — Alguém logo virá com o seu café da manhã e com roupas limpas, se assim quiser.
A mão direita do futuro duque daquelas terras mal havia tocado a maçaneta quando a voz clara do outro adolescente ecoou no cômodo espaçoso, mais cheio de luz do que há meia hora atrás quando ambos haviam iniciado a conversa:
— Obrigado, Lui.
O homem de longos cabelos roxos se virou na direção do seu colega enfermo, fazendo uma mesura elegante com a cabeça e então saindo do quarto. Experiente em ler as emoções de Ludwig depois de tantos anos estudando com ele, Orpherus sabia que aquela era a maneira peculiar e austera do outro garantir que ele só havia feito o que era estritamente necessário, mesmo que ambos soubessem que o futuro duque de Liechtenstein havia ido um pouco além do que era essencial.
A entrada de Ludwig no quarto havia sido tão silenciosa que o pequeno pássaro que Orpherus observava da sua cama não voôu com a intromissão, continuando a cantar graciosamente do seu lugar sobre a grade da ampla sacada do quarto. A simpática criaturinha deu alguns pulos leves para o lado, abrindo novamente o delicado bico para cantar novamente.
O rosto do bonito garoto loiro parecia diferente; Ludwig não se lembrava de ter observado feições tão serenas e despreocupadas como aquelas. Otimismo, determinação e angústia eram emoções claras e constantes para o aluno de olhos azuis, mas serenidade era algo que o futuro duque estava acostumado a ver nos traços elegantes e orientais de Naoji.
O encanto pareceu se quebrar quando o pássaro abriu suas asas e foi em direção ao grande jardim que enfeitava a parte frontal da mansão. Naquele mesmo instante o jovem sobre a cama virou a cabeça, seus olhos claros parando na figura do outro adolescente que havia permanecido junto a cama até então. Finalmente se movendo e permitindo que suas botas fizessem um ruído particular contra o piso do cômodo, o alto moreno colocou uma bandeja sobre uma das mesas de cabeceira de Orpherus e depositou o que parecia ser uma maleta de madeira no chão.
Ludwig agora trajava roupas diferentes: suas calças eram de um cinza escuro, quase chumbo, encobertas no final pelas suas botas negras e impecavelmente engraxadas. O tecido parecia maleável e confortável, combinando de forma elegante com a sua camisa, em um tom de roxo mais claro do que o uniforme que ele costumeiramente usava na academia. O punho da camisa estava aberto e as mangas enroladas até a altura do seu cotovelo de um jeito cuidadosamente displicente. Seu longo cabelo escuro estava preso na altura do pescoço com uma fita preta, formando um laço perfeito sobre as suas mechas sedosas.
— Acredito que já tomou sua primeira refeição?
— Sim. Uma senhora muito gentil veio até aqui. Madaleine, eu creio. — Orpherus fez uma expressão pensativa logo depois, por fim balançando a cabeça e concordando consigo mesmo — Era esse mesmo o nome dela.
O atual hóspede dos Liechtenstein também havia trocado de roupas, provavelmente com ajuda da mesma senhora mencionada segundos antes por ele: o estudante loiro tinha agora uma camisa azul clara, perfeitamente passada e engomada que havia sido deixada aberta a partir da metade do seu abdômen para cima, de forma a facilitar as constantes verificações do seu ferimento que várias pessoas na mansão faziam. O lençol branco da cama estava novamente sobre a parte inferior do corpo de Orpherus, mas Ludwig imaginava que fossem calças pretas que o seu colega estivesse usando; era a cor que ele mais tinha no seu armário.
— Madaleine é muito experiente. Ela cuidou de muitos dos nossos empregados quando eles se feriram e também de alguns dos Liechtenstein. — Ludwig murmurou a informação sem olhar no rosto do seu colega, ocupando a cadeira onde estivera mais cedo e transferindo a bandeja de prata do pequeno criado-mudo para o seu colo.
— Remédios?
— Sim. Meu tio deixou alguns aqui antes de voltar para a Alemanha.
— Não sabia que tinha parentes fora do país.
— A família de meu pai é numerosa... Nem todos ficaram em Küchen, ainda mais com a crescente instabilidade.
Embora o futuro duque não tivesse fornecido mais informações ou colocado qualquer opinião pessoal sobre aqueles fatos, Orpherus viu as distintas linhas de desaprovação no rosto do seu colega; Ludwig provavelmente não nutria grandes amores pela idéia de que parentes do próprio rei tivessem abandonado o país em tempos de turbulência, justamente quando o reino de Küchen mais precisava deles.
O estudante moreno deixou os vidros dos remédios de lado novamente, após ter medido o conteúdo de três diferentes garrafas com cuidado. Inclinando-se na direção de Orpherus, ele partiu os lábios para murmurar uma ordem:
— Não tente mexer seu braço e abra a boca.
O herdeiro dos Görz seguiu o comando, estranhando a gentileza das palavras do outro. Elas não haviam sido calorosas mas também não possuíam qualquer tom de sarcasmo, coisa que Orpherus havia presumido como inevitável durante a sua estada com os Liechtenstein. Afinal, Ludwig sempre detestara o jeito impulsivo e emocional com o qual agia em várias ocasiões, e as suas atuais condições eram resultado de mais uma atitude impensada.
Depois que a última gota da substância de gosto intragável havia sido finalmente engolida, o adolescente loiro aceitou com um olhar de gratidão o copo de água das mãos pálidas do seu anfitrião. Dessa vez o outro estudante permitiu que ele tomasse sozinho o líquido cristalino, devolvendo o copo para o moreno e observando-o colocar tudo sobre a mesma bandeja de prata, forrada com uma pequena toalha de renda que evitava o contato das garrafas e copos com a sua superfície diretamente.
Ludwig se levantou com a bandeja nas duas mãos, depositando-a sobre a cômoda que havia abrigado seu livro na noite anterior. Olhando ao redor por alguns segundos, ele finalmente se dirigiu até a grande janela do quarto, puxando as cortinas longas e brancas para os lados, de forma a ampliar a visão do outro garoto dos arredores da mansão e do horizonte mais ao fundo.
Por fim ele retornou com passos decididos até o lado do leito ocupado pelo outro garoto, sentando-se mais uma vez próximo ao seu colega. Ainda em silêncio, ele pegou então com cuidado a maleta de madeira que estivera esquecida no chão, abrindo a mesma sobre seu colo e surpreendendo Orpherus com o seu conteúdo.
Era um tabuleiro de xadrez portátil. Com movimentos precisos com seus dedos longos e finos, Ludwig moveu uma das metades quadriculada para a esquerda, revelando um compartimento cravado na madeira onde belas peças brancas estavam guardadas; fazendo o mesmo do outro lado, ele retirou as peças pretas e começou a montar o jogo, seus olhos focando a mão esquerda do seu colega quando este passou a ajudá-lo em silêncio.
Uma sobrancelha dourada se ergueu no rosto do herdeiro dos Görz quando o tabuleiro foi girado sobre o colo de Ludwig e as peças brancas lhe foram dadas.
— Vai me deixar começar, Ludwig?
— Obviamente. É um jeito de tornar a minha vitória mais interessante.
Os lábios do anfitrião estavam levemente torcidos para cima de forma prepotente, seus olhos brilhando com uma confiança a qual Orpherus já havia se acostumado. Sorrindo de volta, ele moveu o peão que ocupava o espaço em frente a um de seus cavalos, observando o rosto aristocrático do seu colega assumir um ar de intensa concentração antes de dar início ao primeiro de muitos movimentos daquela manhã.
Continua...
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