Uma música intensa porém de tom tristonho enchia a mansão, tocada com maestria por um par de mãos hábeis. Orpherus não sabia quem era o pianista naquela noite, mas desejava poder ver e ouvir a apresentação de quem estava à frente do instrumento. Respirando profundamente, o garoto loiro sentiu uma grande falta de Ed, seu companheiro inseparável e dono de um talento musical encontrado em poucos.

A luz bruxuleante do castiçal que ficava ao seu lado sobre o criado-mudo iluminava apenas o entorno da sua cama, fornecendo pouca diversão para as longas horas que o jovem estudante passava confinado ao seu leito. Fechando os olhos e concentrando-se na música que vinha do piso inferior da construção, Orpherus desejou que Ludwig voltasse ou que alguma coisa acontecesse na casa; a calmaria noturna provocava-lhe uma inquietude física que não seria benéfica para a sua recuperação.

A entrada do futuro duque de Liechtenstein no quarto foi como uma prece atendida para o outro candidato ao Strahl, rapidamente pousando seus olhos azuis na figura aristocrática do colega. O mais alto dos dois jovens não pareceu notar de imediato que era o alvo do olhar do outro estudante, ocupado com um papel nas mãos que havia sido vincado em lugares estratégicos, marcas características de uma carta.

— Quem está tocando?

O jovem de longos cabelos roxos ergueu o rosto do texto que lia, fitando o outro ocupante do quarto com uma expressão indecifrável. Deixando o papel que segurava sobre uma cômoda e puxando novamente a cadeira que utilizara mais cedo novamente para perto da cama, Ludwig ainda ajeitou o cabelo de forma a cair pelo lado esquerdo do seu corpo antes de responder:

— Minha mãe. É um dos passatempos dela.

— Ela toca muito bem.

O futuro duque concordou com a cabeça.

— Sim, de fato. Todos na família aprenderam desde cedo... Ela nutre uma paixão especial por Liszt e Chopin, no entanto.

Orpherus não suprimiu um sorriso; a expressão de contrariedade no rosto do colega poderia ser praticamente invisível para muitos, mas para ele era clara como a luz do sol. Sacudindo devagar a cabeça, o aluno de olhos azuis se permitiu uma risada leve antes de encarar o outro candidato ao Strahl:

— Arrisco dizer que seus compositores favoritos não estão entre os românticos.

— É muito perigoso presumir qualquer coisa durante um debate, Orpherus. — o outro aluno replicou, apesar de continuar em uma posição relaxada e deixar transparecer a mais leve nota de diversão na voz; Ludwig não estava verdadeiramente discutindo naquele momento e ambos sabiam disso — Prefiro Beethoven e Haydn.

— Ed adora Beethoven... — Orpherus murmurou mais para si mesmo do que em concordância com o outro aluno, sentindo novamente uma onda de tristeza misturada à saudade dentro do seu peito. A lembrança do amigo, porém, trouxe um sorriso genuíno ao seu rosto — Você deveria vê-lo tocar, Lui. Especialmente a Sonata ao Luar! Ed sempre toca os movimentos com uma dedicação e intensidade...

Preso em meio as suas reminiscências do colega, o herdeiro dos Görz não viu seu anfitrião ficar mais sério repentinamente, levantando-se da sua cadeira e recuperando o papel que havia deixado sobre o móvel momentos antes. Somente quando a carta já havia voltado às suas mãos é que Orpherus focou os olhos no outro jovem, mais precisamente no objeto preso entre seus dedos, arregalando os mesmos quando identificou o brasão ali presente.

— Mas é o selo dos Braunschweig!

— Precisamente. — veio a confirmação na voz pausada de Ludwig — Eduard me escreveu hoje pela manhã, mas a carta só chegou pouco antes do jantar. Ele me pergunta se tenho notícias suas, já que você não voltou à Academia desde a sua saída repentina de ontem.

Os olhos azuis do jovem loiro se encheram de preocupação, seu corpo inteiro sendo invadido por uma inquietude que só poderia ter sido provocada pela notícia trazida pelo seu anfitrião.

— Precisamos responder! Precisamos contar tudo a Ed, Lui! — o estudante machucado fez menção de se levantar para tentar pegar a carta, provocando uma reação mais enérgica por parte do futuro duque: o estudante mais velho se levantou da cadeira e pressionou a mão livre contra o lado imaculado do corpo de Orpherus, empurrando-o de volta para a cama com delicadeza e imponência ao mesmo tempo.

— Eu já lhe disse para não fazer esforços, Orpherus.

A voz do adolescente mais velho saíra baixa e perigosa, quase soando como uma ameaça. O longo cabelo roxo do futuro duque havia caído para a frente, bloqueando a claridade do castiçal e contribuindo para uma atmosfera ainda mais sombria ao redor dos dois jovens, permitindo, porém, um brilho assustador nos olhos de Ludwig.

— Lui...?

— Não vamos responder nada a seu respeito para Eduard. — replicou o mais velho dos dois ocupantes do quarto, tão próximo de Orpherus que seria possível conversar por meio de palavras suspiradas — Você corre perigo de vida, Orpherus. Uma informação a mais sobre o seu estado de saúde que escape daqui e você poderá ser efetivamente assassinado.

A declaração do dono da casa aliada à seriedade das suas palavras foram suficientes para aplacar a agitação física e mental do estudante loiro, que desistiu de tentar fazer qualquer movimento brusco pela carta do seu amigo. Satisfeito, Ludwig sentou-se novamente com os lábios pressionados em uma linha fina, ainda parecendo contrariado.

— Me desculpe... Pelas minhas atitudes impulsivas.

— Você é um caso perdido, Orpherus. — o futuro duque declarou quase imediatamente ao pedido de perdão vindo do outro garoto. O seu rosto elegante tinha o mais pálido dos sorrisos, no entanto — Continue assim e eu não vou precisar fazer o mínimo esforço para derrotá-lo.

— Você não vai me vencer tão fácil, Lui. — o outro replicou com uma curva larga nos lábios, sentindo-se estranhamente cansado; apenas falar com o estudante de cabelos roxos era suficiente para fatigá-lo daquela maneira? — O quê vai responder?

— O que todos pensam: que eu não tenho qualquer notícia sua. — enquanto falava, Ludwig dobrou a correspondência novamente nos vincos e deixou-a no seu colo, encarando seu hóspede em seguida — Orpherus, não se engane: alguém quer você morto. Você ter escapado foi um puro golpe de sorte.

— Eu sei. — o outro respondeu em voz baixa, com os olhos cerrados em um semblante pensativo — Eu sei...

Apenas alguns momentos foram necessários para o estudante loiro cair em um sono profundo, seu tórax subindo e descendo num ritmo calmo e contínuo. O futuro duque de Liechtenstein ficou mais alguns minutos no quarto, observando a figura do colega: Orpherus tinha tanta energia dentro de si; parecia que confiná-lo a uma cama era mais cruel do que sua própria morte.

Deixando a carta sobre a mesa de cabeceira do herdeiro dos Görz, o jovem anfitrião saiu do cômodo sem fazer qualquer ruído. Arrumando seu cabelo novamente no laço preto que prendia suas longas mechas próximas ao seu pescoço, o jovem se dirigiu para o escritório do pai.

— Nosso informante sofreu um acidente.

— O quê? — Ludwig se levantou da poltrona confortável que ocupava em frente à mesa do pai, apoiando as mãos no móvel — O quê aconteceu?

— Um dos nossos cocheiros estava voltando da cidade com uma encomenda para sua mãe quando passou pelo carro acidentado na estrada. O marquês de Schreier foi gravemente ferido, mas conseguimos resgatá-lo. Ele está internado sob os cuidados do seu tio.

Ludwig assentiu com a cabeça devagar, sentando-se novamente. Cruzando as mãos sobre o colo, o adolescente ficou alguns momentos em silêncio, absorvendo as informações enquanto seu pai andava pelo amplo escritório, encarando a janela que dava para os jardins da frente da mansão. Naquela hora, as belas flores e os desenhos artísticos feitos pelos jardineiros nos arbustos não eram visíveis sem a luz do sol.

— Faz quanto tempo, meu pai?

— Tempo, Ludwig?

— Quando o marquês de Schreier passou a ser nosso informante?

— Pouco mais de um ano. Foi quando os esquemas de Halbert começaram a ser detectados pelos prefeitos e por nós.

— Começo a acreditar que a tentativa de assassinato de Orpherus, o acidente do marquês e a visita de Sua Majestade estão ligados.

O atual duque de Liechtenstein se virou da sua posição frente à janela, sentando-se novamente atrás da mesa e serviu chá para ambos, incentivando seu filho a continuar falando com um gesto rápido da sua mão esquerda.

— É simples, meu pai. Primeiro alguém tenta se livrar de Orpherus, justamente a última pessoa a ter se encontrado com o marquês.

— Orpherus conhece o marquês?

— Eu não tinha reparado nesse detalhe até hoje de manhã... E agora faz todo o sentido. — o jovem ergueu a cabeça, seus olhos perspicazes fitando a figura do pai — O marquês era o noivo de Robertine, irmã de Orpherus. Faz dois anos que ela foi morta em um suposto acidente também... E desde então, Orpherus não havia mais visto Albert, o marquês de Schreier. Quando os dois finalmente saem para conversar, fora da Academia, são atacados.

— Entendo. Justamente quando Sua Majestade está para visitar Rosenstolz.

— Sua Majestade sabe que não estamos seguros, meu pai. — Ludwig comentou ao tomar um gole do seu chá, aprovando a temperatura e o gosto do mesmo com um pequeno murmúrio de satisfação — Há intriga dentro de Küchen. É questão de tempo até Halbert obter apoio estrangeiro para destronar Sua Majestade.

— Se é que ele já não obteve alianças assim. — o atual duque completou, batendo na mesa de leve com o punho fechado — Justo hoje teríamos os nomes dos envolvidos nos planos de Halbert. Mas com o acidente do marquês...

— Não estamos totalmente no escuro.

Por um longo momento, apenas a brisa noturna soprando as cortinas da janela do escritório foi ouvida. Ludwig se ajeitou na cadeira, cruzando uma perna por cima da outra antes de prosseguir com seu raciocínio:

— Acredito que ninguém tenha previsto o encontro de Orpherus com Albert. A troca de informações entre eles deve ter se provado perigosa demais para deixar qualquer um dos dois vivos, tanto que ambos sofreram atentados. Mas as duas tentativas foram mal executadas, o quê denota pressa e falta de planejamento. Tudo isso foi feito de forma repentina... E para alguém ter conseguido preparar tudo em tão pouco tempo, eu penso que apenas alguém que soube da visita de Albert à Academia e da sua posterior saída com Orpherus de lá teria condições de realizar os ataques.

Um longo minuto de silêncio se seguiu entre pai e filho. A conclusão da linha de pensamento do futuro duque era precisa, mas a realidade era tão negra que nenhum dos dois se sentia tentado a completá-la em voz alta.

— Alguém da própria Rosenstolz está envolvido. — a voz de Ludwig soou solitária no escritório por fim, enchendo o rosto do pai de preocupação.

— E essa pessoa só deve ter parado de agir porque não obteve maiores notícias do jovem Görz ou do marquês.

— Certamente.

— Amanhã de manhã vou escrever para seu tio... E instruí-lo a guardar segredo sobre a identidade do marquês. Já pedi para que ele tomasse cuidado, mas agora a situação é mais séria do que pensava. Talvez devêssemos encorajar rumores da morte de Orpherus.

— Não. Rumores não. — Ludwig negou com a cabeça — Isso causaria pânico na Academia e atrairia atenção indesejada para Halbert. Eu duvido que ele tenha autorizado medidas tão drásticas, neste ponto. Ele colocaria tudo a perder.

— Faz sentido. Eles devem estar agindo sem qualquer sincronia, então. É melhor nos prepararmos, Ludwig. Nosso prazo final é a visita de Sua Majestade.

— São cinco dias até lá, meu pai. Tenho confiança de que Orpherus poderá comparecer... Sua presença é fundamental. Acredito que só ele terá condições de relatar o que ouviu do marquês.

O futuro duque se levantou, consultando o relógio preso à parede e constatando que já passava das onze horas da noite. Após despedir-se de seu pai, ele ficou repensando as palavras e conclusões trocadas aquela noite, sabendo que a vida de muitos estava em jogo e que cabia a ele salvá-las.

Era a missão dele restaurar não só a saúde do estudante loiro como a ordem em Küchen. E como em qualquer outra tarefa designada a ele, Ludwig não seria menos que perfeito dessa vez.

Continua...