A chegada da carruagem à mansão geralmente não atraía a atenção de mais de dois empregados na linda casa dos Liechtenstein, mas naquela noite um número notadamente maior de serviçais apareceu, dado o desespero evidente do cocheiro que gritava por ajuda. O veículo mal havia parado do lado de fora da casa quando a porta do mesmo se abriu, Ludwig descendo rapidamente pelos degraus antes de instruir os empregados ali por perto a removerem o corpo de Orpherus para o quarto mais próximo.

O futuro duque entrou rapidamente na mansão, limitando-se a um aceno quase imperceptível de cabeça para o mordomo que lhe havia aberto a porta principal. O barulho cadenciado da suas botas contra o piso e o movimento elegante do tecido da sua capa acompanharam o jovem até uma das salas da residência, onde ele abriu a porta cerimoniosamente e fez uma profunda mesura, encarando seus familiares a seguir sem qualquer alteração facial visível.

— Ludwig! Você voltou! — sua mãe exclamou da poltrona que ocupava, rapidamente colocando uma xícara de chá prateada de lado em uma mesa de mogno e levantando-se da sua posição, correndo para abraçar o filho — Achei que você não viria mais.

— Eu não deixaria de atender a um pedido de meu pai. — o futuro duque de Liechtenstein falou, cumprimentando sua mãe com um pequeno movimento de cabeça quando esta se afastou e em seguida fazendo uma reverência para os outros presentes — Meu pai, meu tio; fico grato por estar novamente em sua companhia.

— Ludwig, Ludwig... Faz tempo que não o vejo. Soube que se tornou o nome favorito para o Strahl, meus parabéns. — seu tio o felicitou, ganhando uma mesura cortês do aluno.

— Não faço mais que minha obrigação, meu tio. Aliás, aproveitando sua presença aqui, gostaria de pedir seu auxílio em uma questão delicada.

Os olhares que o jovem duque recebeu foram de estranheza, sua mãe apertando as próprias mãos com preocupação; ela conhecia Ludwig e sabia que aquele não era um sinal normal.

— Receio não ser de grande valia em questões políticas, Ludwig. Mas por favor, prossiga.

— É de fato uma questão política... — o candidato ao Strahl concordou com um pequeno aceno de cabeça, andando dois passos para o lado e encarando o seu tio firmemente — Mas antes disso, é uma questão literal de vida ou morte. Orpherus Fürst von Marmelade Nahe Gorz sofreu um atentado e precisa de atendimento médico imediatamente. Ele está no primeiro quarto de hóspedes no andar de cima, e eu apreciaria muito se o senhor pudesse vê-lo e tentasse salvar a sua vida.

A mãe de Ludwig imediatamente cobriu a boca com as duas mãos, visivelmente espantada e assustada com as notícias. Seu marido, no entanto, apenas encarou o filho com um olhar perspicaz, que indicava que uma conversa séria se seguiria mais tarde, quando a vida do jovem em questão estivesse a salvo.

— Mas é claro! Estou indo imediatamente lá! Mande alguém com meus instrumentos e medicamentos ao quarto, o mais rápido que conseguir. — dito isso, o irmão mais novo do duque de Liechtenstein saiu apressadamente da sala, seus passos ecoando no corredor até sumirem.

— Como você descobriu isso, Ludwig? Orpherus sofreu esse atentado na academia? — inquiriu o duque, receoso de seu filho estivesse também sob perigo iminente.

— Não, meu pai. — o aluno replicou com calma assustadora — Perto de um rio pela qual eu passava no caminho de volta para casa. Já estava ficando escuro, foi sorte dele que nós estávamos por ali.

— De fato, de fato... Mas tentar matar o herdeiro dos Gorz depois do acidente que levou a irmã dele... Isso sem dúvidas causaria um profundo desequilíbrio.

— Sim. Exatamente porque decidi salvá-lo. — o jovem de longos cabelos roxos replicou, ganhando dois acenos afirmativos de cabeça de seus pais.

— Ludwig... Por que não vai até o quarto onde seu tio está? Talvez ele precise da sua ajuda, já que conhece melhor Orpherus. — veio a sugestão na voz doce de sua mãe, que terminava de recolher as xícaras utilizadas no chá mais cedo e olhava para o eminente estudante com expectativa.

O rival do candidato ao Strahl ferido se manteve em silêncio por alguns momentos, sem olhar diretamente para sua mãe ou pai. A luz da lua começava a invadir aquela sala, espalhando-se sorrateiramente pelo chão, e a operação para remover a bala e estancar a hemorragia do estudante loiro que estava inconsciente no andar de cima provavelmente demoraria.

— Muito bem, eu irei. Gostaria que meus pertences estivessem no meu quarto o quanto antes também, minha mãe.

— Sem problemas, Ludwig. — a irmã do rei respondeu com um pequeno sorriso, vendo seu filho girar nos calcanhares e caminhar pelo corredor na direção em que seu cunhado havia ido mais cedo — Espero que... Corra tudo bem.

O futuro duque parou no corredor, lançando um último olhar para sua mãe.

— Eu também.

Por nada no mundo Ludwig permitiria que um plano seu fracassasse, e não seria diferente agora com Orpherus e a sua recuperação.

A noite já ia alta quando todos os cuidados possíveis haviam sido dispensados a Orpherus, que agora jazia na espaçosa cama de um dos vários quartos de hóspedes da mansão dos Liechtenstein. A maioria dos empregados que havia ajudado carregando bacias com água quente, toalhas e passando instrumentos ao tio de Ludwig já havia se retirado, restando somente o médico e o rival do aluno inconsciente no aposento.

— Ele teve sorte. — murmurou o homem mais velho, erguendo o rosto para fitar Ludwig — Mais alguns momentos e ele não teria resistido à hemorragia. Ele provavelmente terá de ficar sob rigorosa observação até recuperar a consciência. E mesmo depois disso, os cuidados não poderão diminuir.

— Perfeitamente. — o futuro duque concordou, levantando-se da poltrona que havia clamado para si e agradecendo os esforços de seu tio com uma grande mesura — Em nome de Orpherus, eu agradeço pelos seus serviços.

— Não foi nada, Ludwig. É apenas o meu trabalho... Fiz um juramento e prometi salvar vidas, e espero que a deste garoto seja poupada. Ainda não está na hora dele.

O barulho de uma cadeira se arrastando foi ouvido, e o irmão mais novo do duque de Liechtenstein se levantou, enxugando as mãos em um pedaço de pano branco já meio manchado de sangue. Ele fechou a mala rapidamente, colocando-a do lado da mesa de cabeceira da cama de Orpherus, dando uma última olhada no estudante.

— Ludwig. Alguém terá de fazer vigília. Importa-se de procurar alguém para o serviço? Eu preciso discutir algumas coisas com seu pai sobre o meu regresso à Alemanha... E se qualquer coisa acontecer, não hesite em me chamar, mesmo que eu esteja dormindo.

— Sim, meu tio. Obrigado novamente.

Sorrindo, o médico deixou o quarto, fechando a porta do cômodo suavemente atrás de si. Ludwig suspirou, caminhando até bem próximo da cama a fim de examinar melhor as condições em que se encontrava o seu maior rival na academia.

Orpherus nunca havia sido muito moreno, mas ele definitivamente estava mais pálido do que de costume depois de perder tanto sangue. O seu uniforme havia sido despido e trocado por uma longa camisa branca de mangas compridas, uma das muitas que o próprio Ludwig possuía. Embora não pudesse ver abaixo da cintura do outro garoto por causa do lençol, o futuro duque sabia que as calças e roupas de baixo haviam sido substituídas por peças suas também, já que o uniforme do outro estava encharcado de água e, em alguns outros pontos, sangue.

Os botões superiores da camisa do aluno inconsciente estavam abertos, mostrando aos olhos de quem estivesse por perto as faixas que protegiam o local que antes abrigara uma bala de revólver. O projétil, por sua vez, repousava num copo de vidro próximo a mala de instrumentos e medicamentos do tio de Ludwig, totalmente limpa do sangue; o futuro duque havia decidido guardá-la como evidência do atentado.

O jovem de cabelos roxos franziu as sobrancelhas quando notou uma contração facial em Orpherus, seguida de um gemido quase inaudível. A mão esquerda deste caiu para fora da cama, e parecia querer agarrar algo inconscientemente, os dedos flexionando-se para logo depois se abrirem por várias vezes.

De repente, os lábios do aluno loiro se abriram e pronunciaram um nome que era conhecido por todos os amigos e convivas do eminente candidato ao Strahl, a voz de Orpherus tão baixa que o nome jamais teria sido ouvida se Ludwig não estivesse tão próximo da cama:

— Robertine...

O futuro duque piscou algumas vezes, inclinando seu corpo para baixo e ouvindo o nome mais uma vez ser pronunciado na voz débil e cansada de Orpherus. Provavelmente seu rival estava sonhando com a irmã ou até mesmo delirando com ela, e provavelmente não pararia até conseguir atingir o que ele tanto queria tomar em suas mãos.

Sério, Ludwig caminhou até o outro lado da cama, erguendo a cadeira que havia sido utilizada por seu tio e colocando-a próxima à cama de Orpherus, onde ele se sentou. Quando o jovem loiro remexeu-se ligeiramente mais uma vez na cama, pronto para murmurar qualquer coisa novamente, o herdeiro do ducado de Liechtenstein segurou a mão esquerda do aluno enfermo nas suas gentilmente.

Em segundos, a agitação que havia se apoderado do outro adolescente passou, o semblante normalmente calmo de Orpherus retornando ao seu rosto como sempre. Ludwig observou a mudança com interesse velado, mudando de posição apenas o suficiente para poder descansar suas costas contra o encosto da cadeira.

Virando a cabeça ligeiramente para a direita, ele viu o livro que estivera lendo durante a operação de Orpherus repousando sobre uma cômoda do outro lado do aposento. Olhando novamente para o outro aluno, ele decidiu ignorar o livro por ora, mantendo a mão esquerda do estudante loiro entre as suas.

Iria ser uma longa noite... Tanto para Orpherus em seus sonhos quanto para Ludwig na sua vigília.

Continua...