Na terça eu realmente consegui não encontrar com o Miguel, e ela passou muito mais lentamente do que a segunda-feira. No fundo posso ter até sentido uma coisa estranha, que prefiro morrer a admitir ser saudades, pelo menos por enquanto ele não está na minha lista de prioridades. Por isso desviei minha atenção para outras coisas, como por exemplo, para o fato do ano nem ter começado direito e eu já ter um trabalho de história para entregar. Eu passei a tarde da terça inteira fazendo o trabalho, porque sei que hoje vou ficar a tarde inteira com meus amigos, me dedicando a outra das minhas preocupações, minha objetivo principal.

Além disso, esse momento vai ser bem utilizado, afinal não consigo ter muita privacidade para conversar com meus amigos na escola, na segunda o mimadinho interrompeu, e ontem a chuva não permitiu que os demais alunos da minha turma saíssem da sala na hora do intervalo. O intervalo de hoje está sendo exatamente como o de ontem, lotado e barulhento.

— Eu não aguento mais sair da escola e ir para outra aula, só que em casa. Isso que estamos apenas no segundo dia de aula.

— Relaxa Murilo, você só tem que aguentar até o nosso vestibular... Bem pouco, não acha Maria? Só mais três longos anos pela frente.

— Para de atormentar o menino, ele não precisa de você aqui lembrando ele disso... Tadinho – dou um abraço no Murilo olhando feio para a Sophia, mas ao mesmo tempo segurando a vontade de rir, afinal esse é exatamente um dia normal com meus amigos, que me fazem esquecer tudo e todos. Mas a pessoa que aparece atrás da Sophia, me olhando com uma cara de raiva tem o efeito totalmente o oposto. O Miguel me lembra da realidade, da simples existência da família dele.

— Vocês viram a Larissa? – quando eu e meus amigos não respondemos ele torna a perguntar, só então eu percebo que ele está perguntando para mim.

— Está falando comigo?

— Não imagina, estou apenas aqui parado, olhando para você porque gosto muito.

— Podia ser mesmo seu mal educado, afinal ultimamente você tem feito muito isso.

— Muito o quê? Te olhar, querida, até alguns dias atrás eu nem sabia da sua existência.

— Bem, e agora que conhece não perde uma oportunidade para puxar assunto comigo... Assim vou achar que você está se apaixonando em – meus amigos riem da minha fala, e sinto na pele o fuzilamento que os olhos azuis estão me sujeitando.

— Querida, só nos seus sonhos, e talvez nem neles.

— Talvez não, com certeza nem neles.

— E afinal me responde ou está se fazendo de surda?

— Eu não tenho um GPS para saber onde sua querida Larissa está. Eu nem costumo conversar com ela. Se você não sabe onde ela está, imagina eu. Será que sua cabeça não está ganhando um presentinho, em? Acho que um par de chifres ia combinar muito com seus olhos.

Dessa vez eu não consigo me segurar, ainda mais vendo a cara de bravo do Miguel, acabo me juntando ao riso com meus amigos, e percebo que algumas pessoas ao redor, estão ouvindo também, e me olham com uma expressão que mistura surpresa e graça. A maioria das pessoas estão percebendo minha existência pela primeira vez, obrigada Miguel, só que não.

— Acho que você deveria pensar um pouco mais antes de falar, garotinha – quando me dou conta já estou em pé próxima ao Miguel que me puxou da cadeira onde estava sentada até então. Com a força que ele me puxa dou de encontro contra o seu peito, e eu fico momentaneamente sem ar – Não é porque eu te dei carona que eu sou seu amigo. Falando nisso nem meus amigos tem essa intimidade toda comigo.

— Então eu realmente estava certa no sábado, você não tem mesmo bons amigos. Mas longe de mim querer ter esse papel na sua vida, se é dessa maneira que você os trata. Agora pode me soltar, por favor, afinal eu também nunca te dei essa intimidade toda.

Ele me solta repentinamente, e eu estava tão colada no seu corpo, que no momento que me encontro sem apoio quase caio, sou impedida pelos braços do Miguel novamente ao meu redor, entretanto dessa vez menos agressivos, mas ainda assim firmes.

— Parece que você não quer tanta distancia assim de mim, mocinha. Se você queria meu abraço era só pedir – é incrível o poder que ele tem de em um minuto estar zangado, matando- me com os olhos, e no minuto seguinte me olhar com risada nos olhos, e um sorriso de canto de boca.

— Talvez você que não queira me largar, não é mesmo – falo praticamente sem folego, com uma voz que nem reconheço como a minha.

— Eu vou te soltar novamente viu, mocinha? Vê se não cai novamente.

— Eu não vou cair, pode me soltar.

Nesse momento o sinal do fim do recreio, e eu levo um susto e me livro dos braços do insuportável, tinha esquecido completamente do local onde eu estou, e quando olho para meus amigos percebo uma expressão maliciosa em seus olhares, eu não sou o tipo de pessoa que costuma corar, principalmente com os meus amigos, mas nesse momento sinto um calor em meu rosto. Sento rapidamente na cadeira, e quando a professora de português inicia sua aula sinto uma felicidade que não senti ontem. Fico satisfeita de ter tido minha briga diária com um Almeida, mas especificamente com o Miguel Almeida.

Quando terminamos a aula fomos direto para minha casa, como o esperado minha tia deixou o almoço pronto para nós três, entretanto ela já está na sorveteria. Provavelmente ela chegue tarde, mas nunca podemos ter certeza, afinal ela sendo dona da sorveteria pode decidir fecha-la mais cedo, algo que não acontece com muita frequência, mas não posso ter certeza.

Por isso assim que comemos e lavamos a louça para minha tia, pegamos nossas coisas e vamos em direção ao lago, eu moro perto do lago, por isso não demoramos mais do que 5 minutos para chegar lá, na verdade demoramos mais para contornar o lago e chegarmos em nosso cantinho do que no percurso de casa até aqui.

— Finalmente estamos só nós três. E eu já meio que contei que da minha parte o sábado foi totalmente improdutivo, só acabei conhecendo o mimado do Miguel.

— E aparentemente conheceu bem demais, em?

— Pode ir tirando essa cara maliciosa Sophia, eu e ele não temos nada a ver.

— Sei não em Maria, não foi muito o que pareceu hoje, não é Sophia?

— Podem parar de rir, seus engraçadinhos, a gente não está aqui para vocês ficarem me zoando.

— Ah, mas assim fica tão mais sem graça... Mas tudo bem, eu conto primeiro o que eu vi lá na casa grande... Basicamente o mesmo que você... Nada, só que não tive a honra de me atracar... quer dizer brigar com o Miguelzinho. Eu fiquei com o outro quarto de hospedes. E você Murilo? Viu algo de interessante?

— Como vocês devem imaginar, eu fiquei com o quarto dos avós do Miguel, do Marcel, e da Roberta. E tenho certeza que essa mulher é completamente maluca.

— Por que? Você viu algo?

— Maria nós três vimos ela lá dançando com aquele monte de roupa extravagante, isso já seria o suficiente para eu ter essa conclusão.

— Eu a achei adorável, além de maluca também.

— Mas é obvio né Sophia? Uma maluca reconhece a outra – a Sophia da um tapa no braço Do Murilo, sempre a mesma coisa quando os dois estão juntos – Mas eu vi outra coisa sim, o quarto do casal tem muitos livros estranhos, eu não sei direito, mas não é nenhuma língua que eu já tenha visto antes. Além disso, no closet deles a parte do Marcel estava com bem menos roupa, eu perguntei discretamente para o meu pai se ele sabia onde o Marcel tem andado, ele falou que ele foi resolver um acordo de negócios em São Paulo. Na parte da sra. Roberta encontrei uma caixa de madeira, cheia de símbolos, que procurei na internet, e representam os elementos em alguma linguagem indígena, talvez seja essa a língua dos livros dela, mas não sei... Eu consegui abrir a caixa, ela não estava trancada, nem nada, dentro só encontrei mais livros, alguns cds, provavelmente com aquelas musicas que ela escuta para “meditar”, além disso encontrei varias velas azuis como as que estavam na beira do lago, encontrei ainda uma foto antiga, eu reconheci a dona Roberta na foto, mas tinha outra mulher com ela na foto, desconfiei que era irmã dela, eu perguntei para o meu pai também, ele falou que ela realmente tinha uma irmã, que faleceu há uns 35 anos.

— Mais ou menos a idade que minha mãe teria hoje em dia. Mas enfim tinha algo mais na caixa?

— Não, e fora isso não encontrei nada mais de suspeito nesse quarto. Não duvido nada que a dona Roberta se ache uma bruxa, ela tem um jeito pelo maluco mesmo, mas não acho que isso tem alguma coisa a ver com a sua mãe, desculpa Maria, mas também não fui de grande ajuda.

— Vocês são incríveis amores, eu não esperava encontrar nada mesmo, ainda mais no primeiro dia. Mas pelo menos estamos mais próximos do que estávamos até sexta passada. Além disso, a conversa no final que a gente teve com a dona Roberta deve significar algo, afinal ela parecia querer me contar algo, sábado a primeira coisa que irei fazer quando chegar na mansão vai ser ir atrás dela, vocês podem me cobrir no serviço enquanto eu converso com ela?

— Claro né Ma? Você nem precisa perguntar, afinal você depois vai levar a gente na sorveteria da sua tia como forma de pagamento, gostou da ideia Murilo?

— Pela primeira vez eu concordo com você Sophia.

— Seus bobos, mas podemos ir sim à sorveteria da minha tia depois de acabarmos a limpeza de sábado.

Nós ficamos deitados olhando para o lago mais uns 20 minutos, e por só quando chego em casa sem estar molhada, que percebo que não choveu nem um pouco durante a tarde de hoje, mas isso não se manteve muito tempo. Assim que escureceu escuto os trovões lá fora, e quando me deito fico encolhida, até cair no sono, e em todos os dias seguintes apenas choveu.