Acordei no sábado às 6 horas com a chuva ainda batendo na janela, e um raio pintando o seu lá fora. Mais um dia de chuva me aguarda, mas pelo menos dessa vez eu vou estar na mansão, vou conversar com a sra. Roberta.

Quando chego na casa da Sophia, provavelmente porque não cheguei tão cedo quanto da ultima vez, ela já se encontra acordada e pronta, e ao seu lado se encontra o Murilo, que dessa vez não veio de carona com seu pai.

— Bom dia flor do dia! Finalmente chegou, em Ma.

— Bom dia seus chatinhos, vamos que eu já quero procurar...

— Oi Maria, como você tá hoje? – sou interrompida pela mãe da Sophia, que já está com uma roupa de sair, algo que não estou acostumada a ver.

— Oi Marta, estou bem e você? Aonde a senhora vai toda bonita?

— Deixa disso menina, eu estou normal, você sabe, eu só vou visitar algumas amigas, acho que vou passar na sua casa também, faz tempo que não vejo minha amiga.

— A minha tia vai gostar da sua companhia.

— Eu vou indo então, e vocês se cuidem! E juízo em?

— Pode deixar tia Marta, eu cuido delas.

— Esse garoto é demais. – ela dá um abraço nele, depois manda um beijo para mim e para Sophia, e vai embora.

— Às vezes Murilo parece que minha mãe é mais apaixonada por você do que pela própria filha.

— Para de ser ciumenta Sophia, e vamos indo, antes que a Maria morra de saudades do Miguelzinho.

— Ah não! Logo pela manhã essa conversa.

Eu saio caminhando na frente dos dois e os escuto rindo nas minhas costas.

— Meu Deus a gente vai chegar encharcados na casa grande. Ai que a lady Joana vai querer matar a gente mesmo.

— Relaxa, ela nunca vai querer me matar, afinal a ultima coisa que ela deseja é desagradar meu pai, ainda mais agora que o Luiz e ele estão fazendo uma aliança para abrir um novo banco aqui na cidade.

— Sabe Mu, você anda comigo e com a So há tanto tempo, que as vezes eu esqueço o quanto você é diferente da gente... Em questão financeira pelo menos.

— Mas no resto eu pareço bem mais com vocês do que com meus pais, e o resto dos riquinhos dessa cidade, não é?

Como da outra vez somos recebidos pela dona Joana, que para apenas um minuto para nos olhar dos pés à cabeça, ela faz uma obvia expressão de desgosto, mas não comenta nada, e acho que realmente a presença do Murilo tem seus benefícios como ele mesmo sempre diz.

— Vocês já sabem o que fazer não é mesmo, não quero vocês em meu quarto hoje também, o Luiz gosta de descansar até mais tarde nos sábados. Não quero que o atrapalhem. Depois podem dar uma geral na cozinha também. Agora eu vou sair, não vou chegar a tempo de fiscalizar o trabalho de vocês, mas não quero nada fora do lugar, e tudo muito limpo.

— Realmente a sua presença faz diferença Mu.

— Mas ela continua sendo uma chata, isso ninguém consegue mudar, nem mesmo você Murilinho? – A Sophia vai para cima do Mu tentando apertar sua bochecha, ele para escapar dela fica atrás de mim. Às vezes acho que esses dois possuem a idade mental de uma criancinha ainda.

— E ai vocês vão ficar apenas brincado? Ou vão começar a obedecer minha mãe? – o Miguel aparece na ponta da escada, ele realmente não é um menino que tem um humor muito agradável ao acorda, aliás, somente uma vez eu o vi rindo, isso diz muito sobre ele.

— Estamos indo senhor Miguel. E bom dia viu, mal educado? Até que hoje acordou cedo. Não deu uma das suas festinhas ontem?

— Obviamente que eu dei, mas foi uma festa particular, sabe? – ele pisca seus olhos para mim, e eu tento me convencer que a raiva dentro de mim é apenas pela presença dele, e suas falas tão mal educadas – Ah, deixei uma surpresinha igual da outra vez para você.

Ele vai em direção a porta que da para a sala de jogos da casa rindo alto.

— Ai que pena vou ter que dar essa surpresinha para outra pessoa hoje – O Miguel para repentinamente, e olha para trás – Viu Murilo? Você já sabe o que está te esperando no quarto do mimadinho, né? Sinto muito por você, Mu?

— Então quer dizer que o filho de um dos homens mais importantes dessa cidade se sujeita a ser um empregadinho? Você deve estar muito apaixonadinho por essa garota ai? Você não deve ser tão sem graça assim, não é mesmo? – ele termina essa frase olhando meu corpo inteiro, e eu estremeço, e tenho uma vontade de me afastar ainda mais dele – Não acho que você não interessante mesmo.

— E eu acho que você tem mais dinheiro do que caráter, seu idiota, para de desrespeitar a Maria, e vai fazer algo de bom da sua vida, além de dormir, comer, e ficar atrás de mulheres como um idiota. Mas acho isso meio difícil, afinal você é assim desde pequeno. E da próxima vez que você falar algo que desagradar uma das meninas, você vai ter que me enfrentar como um homem, lá fora.

— Nossa você quase me assustou Murilo, mas pelo bem do seu ego vou deixar você se sentindo fodão, pelo menos dessa vez. Eu vejo você depois Maria!

— Eu realmente espero que não – O Miguel sai e fecha a porta com força, deixando nós três na sala em silencio.

— Nossa Murilinho, dessa vez você quase conquistou meu coração.

— Não começa Sophia. Como vamos fazer para dividir os cômodos? Você vai agora atrás da sra. Roberta?

— Vou sim, mas eu posso ficar com a limpeza da cozinha, vocês se dividem e limpam os quatro quartos?

— Lógico, Ma, pode ir.

Os dois vão subindo a escada e ainda escuto o Murilo tentando a convencer a Sophia a trocar de ala com ele, para ele não precisar limpar o quarto do Miguel.

Eu vou ao sentido oposto ao que o mimadinho foi. E entro pela porta que dá para cozinha, nela se encontram o Antônio, e a cozinheira.

— Bom dia Maria. Não sabia que a senhorita ia vir aqui hoje, eu teria ido até sua casa busca-la.

— Bom dia Antônio. Eu não estou aqui como convidada, eu sou a empregada de sábado, no lugar da Marta.

— Nossa! Nunca imaginaria isso, tão nova e trabalhando.

— É só um favor que estou fazendo para Marta e para sra Roberta, aliás, você sabe onde ela está?

— Não sei não, e você Laura sabe?

— Eu a vi indo para o lago, querida, ela sempre costuma ir lá esse horário.

— Obrigada Laura, eu vou precisar limpar a cozinha depois, tudo bem?

— Claro, Maria, nenhum problema.

Eu me despeço dos dois e saio pela porta da cozinha que da para o quinta do fundo, eu contorno a casa indo no sentido da casa da Sophia, onde sei que fica o lago em que vi a sra. Roberta da última vez.

Quando vou me aproximando do lago já começo a escutar a música suave e mística que ela usa para meditar. Eu corro em direção a um quiosque que fica alguns metros de distancia do lago, e pelo menos eu não fico na chuva. Eu sento em um banco e fico olhando a senhora Roberta, dançando exatamente como no ultimo sábado. E aos poucos a música entra em minha mente, e se mistura com o som da chuva caindo, por um momento tenho a impressão de que os passos dela nem mesmo tocam o chão de tão suaves que são, e ao redor dela tudo é verde claro, e essa energia aos pouco vem em minha direção, seduzindo-me.

Eu acabei dormindo sentada no banco e encostada na mesa, uma posição totalmente desconfortável. Eu acordo não sei quanto tempo depois, em um sobressalto com o som de um trovão, eu fico em pé rapidamente, e percebo que a música que antes havia não está mais tocando. E a sra. Roberta olha em minha direção, me chamando com a mão, convidando-me para sentar-me na beira do lago junto com ela, no meio da chuva.