Eu me sento ao seu lado, e ficamos em silencio olhando apenas para o lago. Ouvindo o som da chuva sobre ele.

— Gostou da minha meditação? Acho que não já que acabou dormindo no meio.

— Muito pelo contrario, eu acho a senhora incrível, tudo isso entrou na minha mente, me tranquilizou, principalmente quando a luz... – eu rapidamente me interrompo, eu nunca falei sobre isso com ninguém, até porque nem eu mesmo consigo acreditar nisso, imagine outras pessoas.

— A luz verde? Eu sabia que vocês conseguia ver também.

— Como você sabia? Quer dizer, o que é essa luz?

— Para você conseguir entender isso precisa conhecer uma história, que tem muito a ver com os livros que seu amigo viu em meu quarto.

— Como você sabe sobre isso?

— Querida com o tempo você vai descobrir que eu sei muitas coisas, e nada ao mesmo tempo, essa é a melhor parte de envelhecer.

— Desculpa por ficarmos mexendo em suas coisas, mas é muito estranho sabe, ele falou que os livros estavam escritos em outra língua.

— Vocês não precisam se desculpar, a curiosidade é algo natural da humanidade, vocês só precisam aprender a ter cuidado, nem todas as pessoas pensam como eu.

— Não mesmo, principalmente a...

— Você ia falar Joana, estou certa? – quando eu concordo com a cabeça ela apenas da uma risada e pega em minha mão, novamente uma energia atravessa meu corpo todo.

— E a sua história, senhora Roberta?

— Pode me chamar apenas de Roberta, eu não gosto muito dessas formalidades.

Ela solta minha mão e passa o olhar sobre o lago, e então vira sua cabeça em direção ao céu, tomando a chuva diretamente em sua face, e respira bem fundo antes de começar a falar.

— Essa terra nem sempre foi do homem branco, anos atrás aqui vivia uma tribo indígena, eles acreditavam na natureza, e com isso eles percebiam que tudo era formado por elementos básicos. Para ter planta eles precisavam do vento para trazer a semente, da terra para servir de berço para ela, e então da água juntamente com o sol para crescer, para nutrir uma tribo inteira. Mas isso não funciona apenas para plantas, tudo se baseia nisso, todas as coisas vivas e não vivas. Por esse motivo eles acreditavam em espíritos que regiam cada um dos elementos, como uma espécie de Deus, mas na verdade eram 4 Deusas, 4 Mãe da Natureza.

Ela faz uma pausa prolongada, enquanto isso eu tento entender o que essa história tem de relação comigo, chego até a me perguntar se a Roberta não é um pouco maluca como o Murilo pensa mesmo.

— Essa tribo fazia rituais para elas, e com isso elas foram criando ainda mais força, mais raiz na terra. Nunca vamos saber se a crença criou as deusas ou as deusas criaram essas tribos e como consequência criaram as crenças. Mas isso não importa o que de fato importa é a lenda que foi passada para mim pela minha mãe, e para minha mãe pela minha avó e sempre assim de mãe para filha em todas as outras gerações anteriores. Essa lenda diz que as 4 Deusas usaram cada uma delas um pouco de seus elementos para criar um quarto espirito, a Alma.

Estou totalmente concentrada na história que nem percebo que a chuva continua caindo forte sobre mim e sobre a Roberta.

— Uma das Deusas era a Yara, ela era responsável pelos lagos, chuvas, oceanos, e tudo ligado ao seu elemento, a água. Ela estava cansada de somente observar os rituais em sua homenagem de longe, e um dia em que estavam cantando e dançando por ela decidiu sair do seu lar em Umarama, e desceu para assistir de perto o ritual. Mas ela acabou sendo vista, e adorada ainda mais de perto, ela acabou se encantando por essa tribo, mas principalmente por um homem da tribo, ela tornou a visita-lo diversas vezes, e a cada vez ela se apaixonava um pouco mais. As outras 3 Deusas decidiram então acompanha-la um dia e no final todas acabaram apaixonadas por homens diferentes, mas todos da mesma tribo. Elas acabaram engravidando desses homens, e todas as três tiveram filhas, cada uma de suas filhas tinha um poder ligado com o da sua mãe, a filha de Yara conseguia enxergar a energia verde da água e usar essa energia para grandes feitos, a filha da Potira usava a energia rosa do vento que estava presente apenas para ela e sua mãe verem no ar, e com isso conseguia mudar muitas coisas, a filha da Inaiê tinha o poder mais humilde e discreto, mas provavelmente o mais importante, ela conseguia tirar a energia marrom da terra, ela enxergava essa energia em plantas, em pedras, e com isso consegui dominar a arte de cuidar, de produzir poções como ninguém, e por ultimo a filha da Araci, era tão inquieta como sua mãe, e enxergava a energia laranja no fogo, nas fogueiras, no sol, em tudo que queima, que arde, mas que no fim gera vida.

Enquanto ela utiliza essa pausa para respirar um pouco, eu continuo a observar o lago, a tal energia que ela costuma falar tantas vezes nessa história, que saí do lago, verde.

­– Sabe todo dom tem um limite, cada uma dependia da energia do elemento para conseguir realizar seus feitos. Portanto a filha da Yara dependia da chuva, do lago, ou seja, estar perto ou em contato com o seu elemento, sem a água ela não é nada. A filha da Potira é a que possui o poder mais livres de amarras, porque o ar existe em todos os lugares, mas essa é a energia mais difícil de controlar, ela foge muito mais do que as outas. A filha da Inaiê precisa da terra, da planta, do contato com a natureza para ter o seu dom, enquanto o ar é o mais difícil de controlar, a terra é a mais fácil, entretanto mais discreta, ela não realiza feitos enormes, mas ela é a base firme para as outras, por isso ela é a mais fácil de ser esquecida pelos seus descendentes. E a filha da Araci, precisa do contato com a energia do fogo, seja por fogueiras, velas, ou a principal fonte, o sol.

— Eu não entendo direito o que essa história tem a ver com a minha mãe, senho... Roberta?

— Eu já vou chegar lá... Quando o quinto espirito, Jupi descobriu sobre a gravidez das Deusas ele deu vazão a todo seu ódio acumulado, afinal ele era o irmão menos lembrado pela tribo, e portanto, menos adorado. E ser esquecido tem um efeito muito prejudicial sobre os deuses, eles passam a desaparecer, sumindo aos poucos, eles tiram sua força dos rituais, das orações. O jeito que Jupi achou para ser lembrado foi se aproximar dos humanos e usar seu dom de ter um contato com a alma das pessoas para assim contamina-las, a primeira pessoa que foi totalmente contaminada por ele foi o amado da Potira, com isso ele acabou se suicidando, deixando-a extremamente desolada. A partir da tristeza do vento, as irmãs se uniram e expulsaram Jupi de Umarama, esperando que assim ele perdesse um pouco do seu poder sobre os humanos, porque na Terra, seu poder de influencia sobre eles é bem menor do que de Umarama. Durante muito tempo Jupi tem se mantido em silencio, agindo de pessoa em pessoa, levando as a cometer atos terríveis, mas sem nunca se revelar, e por isso ele continua existindo, porque muitos humanos ainda são leais a esse espirito.

Ela levanta de repente e começa a andar em direção ao quiosque, eu rapidamente me levanto e começo a segui-la.

— Cada filha das Deusas tiveram suas próprias filhas, com isso o poder foi passando de geração por geração, e assim as tradições foram passando, os rituais, para nunca elas serem esquecidas por seus devotos. O dom sempre passa da mãe para seus filhos, mas apenas as mulheres conseguem utilizar esse dom, os homens apenas passam a diante para as futuras gerações. Entretanto não é tão simples assim sabe, quando alguém morre tendo o dom dentro de si o poder não pode se perder, ele vai para o seu parente mais próximo, como uma herança, e então a pessoa que já possui o poder de nascença ganha como se fosse um bônus.

A chuva começa finalmente a diminuir, e eu começo a sentir muito frio, começo então a tremer dentro da minha roupa encharcada. A Roberta coloca então sua mão em minha faze, e aos poucos eu sinto as gotas saírem da mim e vejo a energia verde indo em direção ao lago. Quando olho para minha roupa ela se encontra totalmente seca, eu pisco varias vezes, tentando me convencer de que estou acordada e que o que vejo é real.

— Mas algumas vezes essa energia não vai para seu parente mais próximo, principalmente quando você morre fazendo algo errado. Eu tenho certeza que seu amigo viu uma foto minha e da minha irmã, não é?

— Sim, o Murilo viu, desculpe.

— Ela se chamava Priscila, e assim como eu ela herdou o dom da minha mãe, nós somos descendentes da Yara, podemos usar a energia da água. Porém não podemos controlar a água, esse é um dom que apenas a Deusa possui, por isso quando chove, quando estamos perto da água o utilizamos, mas nunca fazemos chover, nunca conseguimos mudar o curso de um rio, ou impedir o mar de ter uma maré alta. Minha irmã era ambiciosa, e não se contentava apenas com o que a nossa Deusa nos deu, queria ocupar o lugar da Deusa eu desconfio, esse talvez seja um dos meios que Jupi encontrou de influencias as descendentes de uma das Deusas , não sei ao certo. O que importa é que o poder que ela estava tentando utilizar era maior do que ela, a Priscila acabou falecendo, e como punição o poder dela não veio para mim, ele ficou perdido na chuva que estava tendo aquele dia, 34 anos atrás, bem no dia em que a Carla, sua mãe, nasceu em um dia de chuva, e na época eu não sabia, afinal estava preocupada com meus próprios filhos, mas o dom da minha irmã escolheu sua mãe para tomar conta dele, eu não sei o porquê, provavelmente só a Deusa tenha a resposta para essa questão.

— Minha mãe também conseguia ver essa luz?

— Aurea.É assim que chama essa luz que está presente em cada um dos elementos. E sim, sua mãe conseguia ver. Eu percebi isso quando ela começou a frequentar a nossa casa junto com a Joana, ela consegui me entender melhor até do que meus próprios filhos, e quando descobri que ela nasceu no dia em que minha irmã morreu entendi o porquê, ela tinha o dom também, mesmo sem ser uma descendente direta... E querida, aparentemente você tem mais coisas em comum com a sua mãe do que imagina. Você também tem esse dom dentro de você, e eu vou ajuda-la a conseguir controla-lo, por que aparentemente eu não vou ter minha geração aqui por muito mais tempo. Meu filho João vive sozinho, sem ter contato com outras pessoas, meu filho Luiz é casado com a Joana, eles me deram um neto maravilhoso, mas não é de sangue, então não tenho certeza se quando eu morrer meu dom irá para ele, a esperança da existência da linhagem da Yara é você.

— Nossa! É muita coisa para eu digerir sabe? Eu vi a senhora... você utilizando esse dom para me secar, mas ainda não consigo acreditar que eu possa fazer isso. Afinal eu sempre tive medo da chuva, da água.

— É normal a gente ter medo daquilo que a gente não reconhece, não consegue controlar, nem entender, mas eu vou ajuda-la.

— No próximo sábado podemos começar?

— Sábado não, afinal a Joana vai ficar em cima de vocês fiscalizando o serviço. Mas você pode me encontrar aqui nesse quiosque toda sexta feira, depois que você sair da escola, eu vou pedir para o Antônio trazer você junto com o Miguel.

— Eu acho que ele não vai gostar muito dessa ideia.

— Quem o Miguel? – aceno com a cabeça concordando – Muito pelo contrario, eu diria, afinal faz uma meia hora que ele está parado na varanda de casa observando nós duas, e eu não acho que seja por minha causa.

Quando Roberta começa a rir eu sinto minhas bochechas esquentarem, infelizmente tudo que tem relação com esse garoto tem me feito corar ultimamente. Idiota.