Dias de Chuvas
12 Capítulo 12
Estamos andando em direção a casa, quando eu olho para cima vejo o Miguel na varanda que deve ser do quarto dele, mesmo de longe consigo ver o sorriso dele e a piscada que ele dá para mim, eu reviro os olhos involuntariamente.
— Meu neto é muito bonito não é? Eu não acho que ele goste de verdade daquela Larissa.
— Eu e ele não temos nada em comum, pode ir tirando essa ideia da sua cabeça Roberta... Com todo respeito é claro.
Ela dá uma risada melodiosa e coloca seu braço ao redor do meu ombro.
— Vamos ver querida, eu não costumo me enganar sobre isso... Ah outra coisa pode ficar tranquila em falar com seus amigos sobre nossa conversa, eu sei que você não vai conseguir esconder deles mesmo, e impedir você de contar vai só deixa-la sentindo-se culpada por conversar com eles.
— Obrigada, Roberta. Assim eles me ajudam a ter uma desculpa para vir aqui toda sexta. Minha tia já fica preocupada demais só de eu estar aqui todo sábado. Não acho que ela iria gostar de me ver aqui ainda mais um dia da semana.
— Eu entendo sua tia, afinal a Carla sumiu depois que conheceu minha família, mas espero que você saiba que eu não tive nada a ver com isso, eu juro pela força da Yara.
— Eu confio na senhora, desde o inicio eu senti uma conexão diferente com você. Eu só vejo verdade e empatia em seus olhos.
— Obrigada, querida, você é um amor, igual sua mãe.
A Roberta é uma das únicas pessoas que sempre me compara com minha mãe, e sempre no bom sentido. E cada segundo a mais que eu passo conversando com ela, mais eu começo a ver essas semelhanças através dos olhos dela.
— Maria nós terminamos de limpar a parte de cima, e acabamos limpando a cozinha para você também.
— Desculpe crianças por prender a Maria por tanto tempo, depois ela vai contar para vocês tudo, eu tenho certeza.
— Obrigada Mu, So. Vocês merecem mais do que nunca um sorvete.
— Vocês vão para a sorveteria da sua tia, Maria? Antônio, leve as crianças até a cidade, eles não precisam pegar o ônibus depois de terem trabalhado tanto.
— Obrigada Dona Roberta, mas não precisa se preocupar com a gente, não é Sophia? – o Murilo da um cutucão nela.
— Claro que não, estamos acostumados a ir de ônibus para todos os lugares.
— Mas eu insisto, eu também estou com vontade de tomar um sorvete, e afinal estou devendo essa para vocês, depois do meu comportamento de hoje cedo.
Eu levo um susto quando escuto a voz do Miguel atrás da gente, e vejo o choque na cara de meus amigos quando percebem que essa pessoa se oferecendo a ir à sorveteria com a gente é o mimado, o mesmo que horas antes estava brigando e sendo mal educado.
— Vocês não podem negar um pedido meu, Maria, e lembra o que eu falei sobre esse menino.
— Vó o que você anda falando sobre mim com ela?
— Não importa, mas nada ruim garanto.
— Duvido que ela acredite em qualquer coisa boa a meu respeito.
— E isso é culpa de quem, em mimadinho? Você não tem sido a pessoa mais agradável ultimamente, tem?
— Não mesmo, desculpa – quase caiu para trás ao escutar essa palavra saindo de sua boca. Nunca o imaginei admitindo estar errado, ainda mais acompanhado de um pedido de desculpas – Deixa eu me redimir, eu prometo que vou tentar melhor meu mal humor.
Ele dá um sorriso de canto de boca que me deixa com as pernas bambas novamente. Ele dá um passo e segura minhas mão me puxando em direção a porta.
— Espera Miguel, eu nem me despedi da sua vó – ele continua me puxando em direção ao carro, só me resta mandar um tchau para Roberta de longe mesmo. Meus amigos vêm atrás da gente, ainda em choque com a cena, o Murilo quase se esquece de se despedir da Roberta, mas Sophia o para, e ele se despede rapidamente.
O percurso até a sorveteria foi cheia de um silencio constrangedor no carro, eu e meus amigos no banco de trás, e o Miguel na frente, todos sem saber o que falar.
— Oi tia. Nós três ainda não almoçamos, trás para a gente um lanche da casa, por favor.
— Quatro lanches, por favor, eu também estou morrendo de fome.
Nós sentamos na ultima mesa da sorveteia livre, ela fica perto da janela, Sophia e o Murilo rapidamente se sentam um do lado do outro, sobrando para mim o lugar ao lado do Miguel, como é um banco pequeno, sinto o corpo todo dele encostado ao meu.
— Você não vai conversar comigo, Maria? E vocês dois? Desse jeito vou pensar que você preferiam quando eu grito com vocês... Se vocês quiserem eu ainda posso gritar – essa ultima frase sai em um tom bem mais alto que o normal, e várias pessoas olham para nossa mesa, e percebem que o menino ao meu lado é o Miguel Almeida.
— Quer parar de ser louco – eu dou um cutucam nele com meu braço, e acerta bem sua costela, ele dá um gemido, me gerando imediatamente um leve sentimento de culpa – Desculpa, não foi minha intensão machucar você, mas é que amanha já vou ser alvo de fofoca só de você estar sentado na mesma mesa que a gente, não preciso de você gritando igual um louco também.
— Doeu viu, menina... Só vai melhorar com um beijo.
— Pode parar com essas brincadeiras.
— TÁ BOM SE VOCÊ NÃO QUER ME BEI...
— Fica quero menino – eu dou um beijo rápido em sua bochecha antes que ele volte a gritar – Satisfeito?
— Não era exatamente o tipo de beijo que eu tinha em mente, mas por enquanto está bom.
“Por enquanto”, essa frase fica ecoando na minha cabeça, até minha tia chegar com nosso pedido.
— E ai Murilo como foi a experiência de limpar o quarto desse mimadinho?
— Até que estava bem limpo, acho que ele ficou com vergonha de me deixar ver o resto das suas porcarias.
— A única que pode ver minhas “sujeiras” a partir de agora é a Maria – como sei que ele está falando da camisinha que encontrei lá da ultima vez, e das suas cuecas que eu fiquei mexendo, e provavelmente meus amigos também sabem sinto novamente minha bochecha ficar vermelha.
— Não precisa ficar tímida, mocinha. Eu prometi me comportar, não foi?
— Se esse é seu jeito comportado não quero nem ver seu jeito não comportado.
— Pode deixar que mais tarde eu te mostro, se você quiser é claro – eu novamente dou uma cotovelada nele, e escuto a risada dos meus amigos.
— Sabe Miguel você é a única pessoa que eu já vi fazer a Ma ficar corada. Acho que você tem um dom.
— Se você quiser Sophia, eu estou aqui a seu dispor para dar conselhos sobre como consigo fazer isso.
— Obrigada, meu caro mimadinho – os dois começam a rir, e eu vejo pela expressão do Murilo que ele não gosta muito dessa harmonia entre os dois – Sabe quando você não está com seus amigos você é quase um ser humano normal.
— Esse é um efeito que a Maria tem sobre mim – sinto seus braços sobre meu ombro, e minha coluna fica inteira rígida.
— Sabe Miguel, eu achava que eu era muito sem graça para ter qualquer efeito sobre você.
— Sabe Maria, até que de perto você não é tão sem graça assim. Chega a ser até uma gracinha – ele aperta minhas bochechas e eu tento escapar, mas ele imediatamente me segura pela cintura. E ficamos nos fitando, por alguns segundos, os olhos dele são lindos, azuis e intensos.
— Nossa Murilo, estou sentindo que a gente está sobrando aqui.
— Verdade Sophia, nunca me senti mais vela na vida.
Eu tento me soltar dos braços do Miguel, mas ele me puxa ainda mais forte contra o corpo dele, eu consigo me virar para os meus amigos, mas o braço dele ainda me prende contra seu tronco.
— Me solta, mimado.
— Nunca, você vai ficar o resto do nosso almoço colado em mim.
— Ótima ideia. Mas como eu você vai conseguir comer e me segurar ao mesmo tempo?
— Eu só preciso de uma mão para segurar meu lanche, com a outra eu posso segurar outra coisa tão gostosa quanto meu lanche.
— Para de dizer besteiras, Miguel... Você bebeu hoje?
— Normalmente eu diria que sim, ainda mais em um sábado. Mas nunca estive tão sóbrio em toda a minha vida, mocinha. Eu falei que você me inspirou a mudar.
— Eu só acredito vendo.
— Vai ver.
Quando terminamos de comer, minha tia trás um sorvete para um de nós de brinde. E o Miguel segue me segurando contra seu corpo, minha tia Ana olha para nós dois, mas não fala nada, mas sei que vou escutar um sermão quando estivermos em casa.
— Tá satisfeito, Miguel? Agora minha tia e toda a cidade acham que a gente tem alguma coisa.
— Na verdade estou bem satisfeito. Você acha que eu não tenho motivo para isso, Sophia?
— Acho que você tem todo o motivo para isso no seu braço.
— Ninguém merece ter que aguentar vocês dois como amigos. Um me irritando já é castigo demais, Murilo você precisa me ajudar – olho para o Mu com um pedido de socorro nos olhos.
— Querida, você sabe que eu não tenho controle nenhum sobre esses dois.
— Seu inútil, nem para ajudar sua melhor amiga.
— Opa que a posição de melhor amiga do Mu é minha.
— Deus me livre ser melhor amigo de uma menina tão insuportável assim. Ai! E que vive me batendo, a Maria não me bate pelo menos, ela só bate no Miguel.
— Infelizmente, irmão, mas tenho certeza que o jeito dela de expressar amor.
— Sendo assim a Sophia deve me amar muito.
— Só que não, né Murilo?
O Miguel começa a rir dos meus amigos, eu me junto a ele, e sinto uma cumplicidade no meu grupo, como se finalmente estivéssemos completos como um grupo.
— Olha quem está ali, sua mãe Sophia. Oi Martinha, como você está bonita hoje.
— Oi Miguelzinho, que surpresa ver você aqui com meus amores.
— Eu achava que eu era o seu único amor Martinha.
— Para com isso, Miguelzinho – ela vem até nossa mesa e da um beijo em cada um de nós – Eu vim aqui para me despedir da Ana, estou voltando para casa, vamos juntas filha?
— Vamos sim. Tchau gente, vejo vocês segunda na escola, e Maria a gente precisa conversar sobre aquilo. Melhor na quarta no nosso cantinho, certo?
— Certo. Beijos amiga.
— Espera um pouco Martinha, eu vou pedir para o Antônio leva-las até a casa de vocês, ele está estacionado ali na frente.
— Não precisa Miguelzinho.
— Não é incomodo nenhum, se você quiser Murilo ele te deixa em casa também.
— Já que você insiste nós aceitamos, não é mãe, Murilo? Parece que o nosso mimadinho quer ficar um pouco sozinho com a Ma. Estou certa?
— Completamente.
— Nem um pouco.
Eu e o Miguel falamos ao mesmo tempo, e eu tento mais uma vez me livrar de seu braço, ainda mais quando a Marta fica olhando para a gente com uma expressão de surpresa.
— Sophia faz um favor para o seu novo melhor amigo. Pede para o Antônio levar vocês e só voltar para me buscar quando eu ligar para ele.
— Claro, mimadinho. Vamos indo meu povo.
E antes que eu perceba estou sozinha na mesa, com o mimadinho. E ainda com o braço dele em minha cintura.
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