Eu ainda tento uma ultima vez me soltar, e dessa vez eu felizmente, ou não, consigo me livrar de seu aperto.

— Vamos menina, eu vou pagar a sua tia.

— Mas não precisa, ela normalmente não cobra dos meus amigos.

— Então quer dizer que eu já sou seu amigo?

— Não, quer dizer que como você almoçou comigo não precisa pagar.

— Mas eu faço questão.

Eu não tento convence-lo do contrario, e faço minha ultima tentativa de fugir dele, vou rapidamente em direção a porta, entretanto já do lado de fora Miguel consegue me alcançar e segura minha mãe.

— Você hoje está gostando de ficar me segurando, né? Gostaria de saber o que mudou em você, de manhã nem queria me ver, agora não desgruda.

— Querida, falei com sua tia que vamos dar uma volta, e ela deixou, mas eu tenho que cuidar de você, então você tem que me obedecer.

— Em primeiro lugar mimado, eu sei me cuidar muito bem sozinha, e em segundo eu só recebo ordens da minha tia, além disso, o que sua namorada vai ac... – ele me da um rápido beijo na boca me deixando imóvel, e me calando totalmente.

— Acho que agora você não tem mais nada para falar, não é? – ele pega minha mão e começa me arrastar pela rua – Vamos.

No fim ele me trouxe para o lago, eu fiquei ainda um bom tempo tentando aceitar que as coisas não estão acontecendo conforme os meus planos. Em uma semana, eu descobri que tenho um dom ligado a um dos meus maiores medos, descobri que herdei isso da minha mãe, e talvez esteja começando a ter uma espécie de relacionamento com o Miguel.

— Você vai ficar o resto da tarde quieta?

— Eu não sei muito bem o que você quer escutar de mim.

— Eu só quero que você seja você mesma, sem tirar nem por.

— Se eu não soubesse que estou falando com o egocêntrico do Miguel Almeida eu acharia essa frase até fofa.

— Ainda bem que não achou fofo. Eu prefiro mais os adjetivos, gato, sexy, gostoso para se referir a mim.

— Chato, mimado, mal humorado...

— Eu tenho adjetivos perfeitos para você também, chata, mandona, explosiva, linda, sexy, fofa – ele termina essa frase me puxando para o chão e me beijando. Depois de um tempo nos afastamos um pouco e eu estou completamente sem ar e quase sentada em seu colo.

— Sabe esse lugar é o meu cantinho especial com meus amigos.

— Agora é nosso cantinho especial também chatinha – ele dá um beijo em meu pescoço, fazendo-me arrepiar inteira. E deita na grama e eu deito ao seu lado.

— Agora que eu já tirei o beijo que eu queria te dar desde sábado passado do caminho, me responde uma coisa. O que você estava fazendo com a vó Roberta lá fora hoje?

— Eu não posso falar, é um segredo muito importante para mim, espero que você possa entender.

— Tudo bem, não vou forçar nada. Mas pelo menos me diz uma coisa? O que ela falou sobre mim?

— Nada demais – de repente ele esta em cima de mim, fazendo cocegas até eu ficar sem folego. E quando ele me beija perco o resto de folego que ainda existia em mim.

— Você vai falar ou eu tenho que continuar?

— Por mim você pode continuar o beijo, eu sou bem resistente sabe.

— Eu não vou continuar o beijo bobinha, mas sim as cocegas.

— Está bom, eu me rendo... Mas isso é uma ideia da sua vó, não minha.

— Ela está achando que você está meio que apaixonado por mim, só porque você ficou olhando nós duas lá da varanda. Ela também não acha que a Larissa seja a pessoa certa para você. Pronto falei.

— E você concorda com ela?

— A respeito do que?

— Das duas coisas.

— Eu não acho que você esteja apaixonado por mim, afinal você nem me conhece ainda. E eu não conheço você o suficiente para saber quem é a pessoa certa para você.

— Eu concordo em partes com você. Eu estou apaixonado por você, afinal você é uma pessoa totalmente apaixonável, você me enquanto desde a primeira vez que você foi contra mim, as pessoas não costumam me tratar do mesmo jeito que você. Nem meus pais falam comigo assim. Mas também sei que a gente não se conhece o suficiente para falar em algo mais sério do que paixão, amor precisa de confiança, de respeito, de conhecimento. Mas é somente isso que eu peço por enquanto, uma chance para nos conhecermos.

Ele termina essa frase e coloca meu cabelo que está totalmente bagunçado atrás da minha orelha, depois desce sua mão por minha face, meu pescoço meus braços até segurar minha mão. Depois de um segundo eu fecho minha mão sobre a sua. E por enquanto decido esquecer que ele é da família Almeida, assim como na Roberta, no Miguel eu também enxergo verdade em seus olhos, verdade e desejo. Eu tomo a iniciativa dessa vez e dou um leve beijo nele, que rapidamente transforma o beijo terno em algo mais carnal, sensual.

— Eu vou te dar uma chance de me conhecer melhor. Espero não me arrepender.

— Você não vai, pode confiar.

— Agora começa me falando o que fez você mudar de atitude.

— Não foi nada especifico, sábado passado quando você me enfrentou tocou em mim algo que há muito tempo só meus avós conseguiam, você me fez sentir uma coisa, eu estava meio anestesiado antes de você aparecer em meu quarto sábado passado. No início você só me irritou, pelo menos era o que eu pensava, mas você me fez ficar pensando apenas em você todos os dias, quando eu te encontrava na escola eu ficava satisfeito, mesmo a gente só brigando, e o dia que eu não te via parecia que algo estava faltando no meu dia, eu comecei a contar os minutos para você cumprir sua promessa e voltar sábado para arrumar meu quarto. E quando você foi lá hoje, e eu te vi com seus amigo te tratei da única maneira que eu tinha confiança de chegar em você, mas quando o Murilo veio e te defendeu, eu senti algo mais, acho que fiquei com um pouco de ciúmes.

— Você com ciúmes? Do Murilo ainda por cima, quando eu contar para ele vamos rir muito, que gracinha... Não precisa ficar vermelho, fofinho.

— Fofinho não, mocinha, quero sexy para caralho.

— Melhor ainda mimado para caralho.

— Vai rindo que eu paro de contar minha trajetória de autoconhecimento.

— Pare, senhor autoconhecimento, pode continuar sua jornada.

— Engraçadinha... Enfim, eu não deixei meu quarto bagunçado como você supôs, eu queria te surpreender, ele estava totalmente no lugar, por isso o Murilo não teve muito trabalho, e eu percebi mais tarde quando vi o Murilo e a Sophia limpando juntos a cozinha e o jeito como ele a olha, que na verdade ele não gosta de você, ele gosta da outra amiga.

— Acho que você está cego mesmo, os dois não tem nada a ver, eles se conhecem desde pequena.

— Você que obviamente não entende nada do assunto... Além disso, todo mundo aqui em Tuiuti se conhece desde pequeno, e sempre surgem novos casais.

— Você pode estar certo, mas ainda não acho que eles têm alguma coisa.

— Ainda não mesmo porque parece que a Sophia é mais cega que você... Mas vê-lo olhando daquele jeito me tranquilizou, porque ele é muito certinho para ficar com uma garota e gostar de outra. Eu soube então que você não estava com ele, eu fui para meu quarto, eu não pretendia ficar te olhando na varanda, mas fui lá apenas tomar um ar, e quando vi vocês duas juntas primeiro eu fiquei curioso depois fiquei apenas observando a distancia.

— Então sua vó estava certa, você não conseguia tirar seus lindos olhos azuis de mim.

— Meus olhos são lindos, é?

— Você sabe que sim, para de ficar buscando elogios.

— Mas você também é linda. Eu adoro seu cabelo rebelde, ele tem o mesmo temperamento que você. E seus olhos são tão escuros que eu me perco nele. E, aliás, você até que beija bem, para uma primeira vez.

— E quem disse que eu nunca beijei antes. Está pensando o que? Eu fiquei meus 15 anos só esperando você vir me beijar? – sua expressão que estava brincalhona se transforma em um segundo em séria – Você está com ciúmes? Que fofinho.

— Nem vem querendo me apertar. Quem foi?

— Quem foi o que?

— O menino do primeiro beijo?

— Para que você precisa saber disso? Eu estou te perguntando sobre suas primeiras vezes por acaso?

— A minha foi com a Larissa, todas as minhas primeiras vezes.

— Ah isso realmente me deixa muito mais tranquila.

— Acho que quem está com ciúmes agora é você em fofinha.

— Me deixa – tento escapar quando ele me puxa para seu lado, e novamente ele acaba em cima de mim me beijando.

— Eu não preciso saber quem foi, afinal, ele não deve beijar tão bem quanto eu.

— O Rafael até que beijava bem sim, viu?

— O Rafael da minha sala?

— Sim, senhor, ele mesmo. Está bravinho de novo?

— Aonde foi? Quando?

— No final do ano passado, na festa de encerramento da escola. Agora chega, para de pensar nisso.

— Fácil para você falar. Segunda eu vou chegar na minha sala e vou ver o idiota o Rafael.

— E eu vou ver a idiota da Larissa, estamos quites – eu puxo sua cabeça em minha direção e começo a beija-lo novamente. Não sei quanto tempo ficamos ali, mas quando começa a chover me afasto dele e vejo uma luz verde em minhas mãos que estão em seu rosto, ou melhor, a áurea verde. Eu lembro então do meu dom– Sexta eu marquei de encontrar sua vó na sua casa, eu vou de carona com você, ok?

— Por que você precisa ir...? Ok, eu não vou forçar a barra, mas um dia você precisa me contar, no seu tempo é claro.

— Eu vou te contar, por enquanto só posso dizer que é muito importante para mim, sua avó está me ajudando a descobrir um lado meu que eu nem sabia que existia, provavelmente se eu ainda tivesse minha mãe essa seria sua função.

— Você sente muita falta da sua mãe?

— Muita. Mesmo sem nem saber de fato como ela era. Eu não lembro nada, mas queria ter tido a oportunidade de conhecê-la. É tão injusto a cidade toda saber mais a respeito dela do que eu, sua filha.

Ele me abraça e pela primeira vez em muito tempo sinto vontade de chorar, por estar crescendo sem a minha mãe. Eu tenho sorte de ter minha tia, mas não posso evitar desejar ter minha mãe também.

— Sabe? Eu tenho a Joana e o Luiz, mas eu sinto que falta algo também. Eu não sei da onde eu vim, qual o meu passado? Quando eu era pequeno e a Joana e o Luiz me deixavam sozinho para viajar, trabalhar, cuidar da casa, ou qualquer outra coisa mais importante para eles do que seu filho, eu parava para imaginar da onde em vim, às vezes eu chorava também, só meus avós conseguiam me entender, até hoje só eles sabiam esse meu lado.

— Eu fico honrada de ser uma das poucas pessoas que você confia. Obrigada – eu beijo seu rosto. O celular dele toca, e escuto ele conversando com o Antônio, que quer saber se já pode busca-lo, como está começando a escurecer e estamos completamente molhados da chuva ele responde que sim, e somos obrigados a sair da nossa bolha pessoal.

Nós caminhamos até minha casa, nesse momento seria bem útil saber o truque para secar as roupas que a Roberta usou hoje cedo. Nossa! Hoje cedo, parece que esse dia durou semanas. Ele me deixa na porta da minha casa, e quando o carro chega, ele me beija intensamente, fica esperando eu entrar em casa e vai embora.