— Sophia! Chegamos! – como sempre a porta da casa dela está aberta, por isso entramos como se a casa fosse nossa, afinal a Dona Marta sempre pede para nos sentirmos em casa mesmo.

— Estou no meu quarto meninos venham – a casa dela não é muito grande, afinal nela só vivem ela e a mãe desde que seu pai faleceu após um acidente de carro. Por isso rapidamente a encontramos em seu quarto, deitada na cama ainda.

— E eu achando que você já estava preparada para nossa ilustre visita, e você ainda nem saiu da cama, que menina mais folgada você é.

Eu e Murilo nos sentamos em sua cama, e escuto o som da cama estralar, não acho que esse seja o local mais indicado para ficarmos, afinal essa cama existe desde que éramos pequenos, na época ela aguentava nós três, atualmente duvido que ela suporte nosso peso por mais do que alguns minutos. Levanto-me, e ao mesmo tempo pego a mão da So e puxo.

— Vamos, Dona Sophia, já são 10 horas, e eu tenho muita coisa para contar.

— Além disso, as duas hoje tem a missão de evitar me fazer pensar em meus pais.

— Por que? Você brigou com eles novamente Murilo?

— Sempre... Não quero mais falar sobre isso. Vamos ouvir a história da Maria, esta sim tem grande importância.

— Você descobriu algo Ma? – Vejo nos olhos da Sophia a surpresa, até porque faz 1 ano que estamos tentando descobrir algo sobre minha mãe, e até agora nada de novo.

— Minha tia me contou um pouco sobre o que aconteceu após o sumiço da minha mãe, se fosse qualquer outra pessoa me contando eu não teria acreditado, mas foi a Dona Ana, a pessoa mais confiável que eu conheço. É estranho, e não sei direito como desvendar os eventos daquela noite, mas agora tive uma ideia para pelo menos tentar fazer algo, e vou precisar da sua ajuda So.

Conforme eu vou falando a história da minha tia, mais certeza eu tenho de que devo fazer algo, e vou vendo na cara dos meus amigos duvida, raiva, e até mesmo um pouco de medo. Provavelmente em condições normais, em famílias normais essa história já teria sido abordada há tempos pelas autoridades locais, entretanto em Tuiuti os culpados são as autoridades, e ninguém fiscaliza os poderosos.

— Então quer dizer que alguém dessa família mexe com drogas pesadas, não apenas o Miguelzinho.

— É obvio Murilo, minha mãe sempre comenta que gosta muito da sra. Roberta, mas que o resto da família da um pouco de medo nela, não que ela ache que eles estão envolvidos com coisas pesadas. Mas sabe, podemos perceber que tipo de pessoas eles são só pelo jeito que tratam seus funcionários. Minha mãe não tem uma folga digna há anos. Ela está se acabando por causa dessa família.

— É nesse exato ponto que eu quero sua ajuda Sophia, eu preciso entrar nessa casa, nem que seja como empregada da família.

— Mas como você vai conseguir isso Maria? Eles não estão exatamente com falta de empregados nesse momento não é mesmo So?

—Eu sei, e eu não preciso de um emprego em tempo integral, até porque já está para começar o ano letivo. Mas eu posso trabalhar de fim de semana, assim sua mãe consegue folgar um pouco, eu não preciso do salario, só quero o trabalho, o acesso a essa casa.

— Podemos conversar com minha mãe hoje, não acho que ela vai concordar facilmente, mas acho que podemos tentar Maria.

Ficamos juntos o resto da tarde, almoçamos, ficamos vendo séries, conversando e rindo, algo que tenho que admitir senti falta durante o mês de férias. O Murilo acabou dormindo no colo da Sophia, e estou quase dormindo também, quando escuto passos na cozinha, provavelmente da Dona Marta.

Eu salto em pé rapidamente, seguida pela Sophia que acaba acordando o Murilo no processo, assim estando os três já despertos vamos juntos até a cozinha.

— Olha quem ainda está aqui? Maria, quanto tempo! Como sua tia está? E vocês dois?

— Minha tia está ótima, mandou um beijo para senhora, e pediu para você um dia passar lá na sorveteria, ou em casa para conversar um pouco com ela.

— Com certeza irei algum dia, estou com saudades da minha amiga.

— Mãe nós temos um pedido para senhora, promete que vai me escutar antes de recusar.

— Ai ai ai, não gosto nem um pouco de conversas que começam com essas frases, e com essas carinhas que vocês estão me olhando bem agora. O que vocês estão aprontando?

— Mãe você sabe o quanto eu te amo, e o quanto me dói ver você trabalhando de domingo à domingo, sem tempo para você, sem poder sair com suas amigas.

— Querida você sabe que eu tenho que fazer isso, eu ganho para isso, nós só temos essa casa, nossa comida por causa dessa família, do meu trabalho.

— Eu sei mãe, mas eu tenho uma proposta. Eu e a Maria podemos trabalhar no lugar da senhora de fim de semana, assim você consegue um tempo para se cuidar pelo menos.

— Nada disso, eu não confio em vocês perto dessa família, você sabe que lá não é um lugar onde desejo você enfiada.

— Dona Marta, eu prometo que vamos entrar lá, fazer o que tem para fazer e sair. Sem desvios no caminho, o mais seguro possível. Além disso, eu e a Sophia nunca tivemos muito contato com o Miguel, então não vamos ficar nem próximas dele.

— Querida, esse menino é a menor das minhas preocupações naquela casa. Na verdade ele só é assim pela mãe dele, Deus me desculpe por estar falando assim, mas aquela mulher não nasceu para ser mãe, não sei por que ela foi adota-lo se ela não dá nem um pouco de atenção para ele, ela acha que só o dinheiro e as coisas que ela compra para o menino são o suficiente. Por isso ele cresceu assim, mimado, rebelde. Eu não gosto dessa Joana.

— Mãe, prometo ficar o mais distante possível dela...

— Ela que não vai ficar distante de vocês, ela gosta de tudo certinho, do jeito dela, mesmo trabalhando há anos para eles, eu ainda percebo a fiscalização da patroa, sempre em cima de mim, me dando ordens, como se eu fosse a barata indesejável da casa.

– E você não é Marta, por isso queremos a senhora tenha um pouco de folga dessa família. Por favor nos de uma chance.

— Além disso, eu prometo acompanha-las todos os fins de semanas, a Dona Joana não vai me destratar, afinal eu sou o filho de um dos parceiros de negócios de seu marido. E meus pais vão até gostar, porque finalmente eu vou estar criando laços com pessoas importantes de verdade. Eu vou protegê-las.

Ouvir o Murilo falando que irá proteger eu e a So me faz querer rir, não porque não confio no potencial de proteção do Murilo, mas no nosso trio ele realmente nunca foi o que tem o papel de protetor, essa sempre foi mais a função da Sophia, ela sempre foi a mais corajosa de nós três. Mas seguro o riso, porque consigo perceber que a mãe da Sophia finalmente está cedendo um pouco, ela sempre gostou muito do Murilo.

— Tudo bem, eu vou deixar vocês irem no próximo fim de semana como teste, mas antes vou conversar com a sra. Roberta, ela sempre foi um amor comigo, e tem sugerido que eu comece a folgar pelo menos um fim de semana por mês. Acho que ela vai gostar de saber que consegui uns bons substitutos.

Nós três a abraçamos ao mesmo tempo, e sinto dentro de mim um energia de vitória finalmente, enquanto estou aqui curtindo essa sensação escuto no fundo o som da música na casa Almeida, e um trovão mostrando que a temporada de chuvas ainda não acabou, mas finalmente isso não m incomoda, na verdade me sinto mais feliz do que já estive em muito tempo. Hoje é quarta, e sábado estarei dentro da mansão, talvez não descubra nada, mas pelo menos vou estar fazendo algo, mais do que eu já tenho feito em toda a minha vida.