O domingo passou rápido, e infelizmente ainda não consegui conversar muito bem com meus amigos sobre os eventos de sábado. Minha esperança é conseguir ter um tempo durante a aula de hoje para ficar sozinhos com eles. Normalmente a gente sempre tem esses momentos sozinhos, uma vez que ninguém presta muita atenção no nosso trio. Estamos acostumados a ficar durante os intervalos na sala de aula, enquanto as pessoas costumam ir ao pátio socializar com as outras turmas.

Mas esse está sendo um primeiro dia de aula bem atípico, eu estou perdida como a maioria das pessoas ficam nos primeiros dias, entretanto essa é uma cidade pequena, só existe essas escola, portanto conheço todos os corredores, quase como se aqui fosse minha segunda casa. No térreo fica o fundamental 1, no primeiro andar fundamental 2, e por ultimo no terceiro andar o ensino médico. Os horários de intervalos são diferentes para cada andar, portanto ano passado eu era de horário e a turma do Miguel outro horário, agora eu estando no 1° ano e ele no 2° ano do ensino médio nossos horários coincidem. Não achei de forma alguma que isso iria causar alguma diferença na minha rotina, entretanto deveria ter imaginado que o Miguel não ia esquecer nossa pequena conversa de sábado.

— Maria o que você tem?

— Realmente Ma, eu estou preocupada, depois que saímos da casa dos Almeidas no sábado e chegamos a minha casa você não falou nada. Está distante, estranha. Até minha mãe achou você preocupada, tive que inventar alguma desculpa para distrai-la, afinal ela está atrás de qualquer motivo para sábado que vem a gente não voltar naquele lugar.

— Obrigada So. Eu não acabei contando para vocês, mas um dos quartos que eu limpei foi o do Miguel, e aquele insuportável acabou aparecendo quando eu estava mexendo no seu closet.

— Ele fez alguma coisa com você, Ma? – o Murilo pega em minha mão todo preocupado, eu estou pronta para tranquiliza-lo, mas nessa hora alguém entra na sala.

— Olha quem está aqui! A empregadinha atrevida. Realmente não dá para notar muito você, ainda mais com essas roupas todas pretas, e esse cabelo então, achei que não poderia piorar do que estava no sábado, mas aparentemente estava totalmente enganado. Qual seu nome mesmo?

— E você? Eu achei que não poderia ficar ainda mais mal educado do que sábado, mas obviamente eu estava enganada. Conseguiu achar o lixo da sua casa para jogar fora as... Besteiras que estavam no seu quarto. Mas uma coisa você realmente melhorou desde sábado. Pelo menos você tomou um banho e trocou de roupa. E não que te importe, eu sou a MARIA, vê se não esquece, afinal vai me ver todos os sábados na sua cassa, fofinho.

— O que aconteceu sábado na sua casa, em Miguel? Por que essa daí foi na sua casa, em?

— Me deixa Larissa, para de ficar me controlando, você sabe que eu não gosto de ninguém me sufocando.

— Meu Deus, se é assim que você trata as suas meninas, agradeço imensamente por ser tão sem-graça assim. Ainda não sei como você pode ter me confundido com uma dessas garotas do seu fã clube particular. Eu não tenho nada a ver com elas.

— Realmente você não tem – pela primeira vez percebo que sua voz não possui nenhum tom de deboche, nem de raiva enquanto conversa comigo. E parece até mesmo expressão uma concordância tímida, talvez até mesmo uma admiração. Longe de mim querer ser alvo de algum sentimento bom por parte desse garoto, mas pelo menos seria bem útil para os meus planos.

— Maria, ignora esses idiotas a gente tinha coisas bem mais importantes para conversar – escuto a voz da Sophia atrás de mim, e sinto a mão do Murilo me puxando para a minha cadeira. Nem percebi, mas durante nosso pequeno confronto eu acabei me levantando.

— Vocês estão certos, meus amores, não vale a pena perder nosso tempo com essa pessoa.

Escuto o passo dos dois se afastando, e ainda escuto a voz da Larissa pedindo explicações para o namoradinho em um tom choroso, e isso me faz ter uma imensa vontade de rir, principalmente ao ouvir a resposta pouco educada do Miguel.

— Mas o que aconteceu no sábado dentro do quarto do Miguel? Ele parece não ter gostado nenhum pouco em.

— Ele chegou quando eu estava mexendo na ultima gaveta do closet, a de cuecas, ai como um bom narcisista que ele é logo ficou imaginando que eu era uma dessas mocinhas loucamente apaixonada, que invadi seu quarto apenas para roubar uma cueca.

Meus amigos começam a rir, e eu finalmente consigo rir de verdade dessa situação ridícula, logo após os eventos de sábado eu fiquei muito tempo pensando na conversa final que tive com a sra. Roberta, e por isso acabei esquecendo do insuportável.

— Esse menino realmente não existe, mas tenho que acreditar nisso, afinal quem o criou foi aquela insuportável da mãe dele.

— Mas ele não fez nada com você, né Maria?

— Murilo, você conseguiu perceber pela nossa mais recente conversa com o Miguel que eu sei me livrar muito bem dele. Mas relaxa amigo, você ainda é o protetor do grupo – eu e a Sophia caímos mais uma vez na risada, ainda mais quando vimos a cara de bravo que o Murilo fez, mas ele também não resiste muito tempo e nós três acabamos rindo juntos.

Nesse momento o sinal toca, e com isso acabou o final do nosso único momento juntos, e mais uma vez o premio de menino mais inconveniente do dia foi do Miguel Almeida, que não só me atrapalhou sábado, como impediu que eu descobrisse qualquer coisa sobre o que meus amigos acharam nos outros quartos da mansão.

— Aqui vai ser difícil a gente conversar – para marcar ainda mais essa minha fala, a sala já fica totalmente lotada, e barulhenta como só um grupo de jovens conseguem torna-la.

— Podemos nos encontrar mais tarde no lago, no nosso lugar?

— Podemos, mas não hoje, Sophia, vocês sabem que de segunda, terça e quinta tenho aula particular em casa, ordens do meu velho – o Mu revira os ao falar sobre as aulas que seus pais o obrigam a fazer desde o ano passado.

— Podemos então nos encontrar quarta, logo depois do almoço vocês dois podem ir almoçar em casa e depois vamos para o lago, assim a Sophia não precisa ir para casa dela e depois voltar.

— Combinado

Nesse momento a professora de matemática entra na sala, e por mais 50 minutos tento esquecer o Miguel, minha mãe, a sra Roberta, o Miguel e o Miguel de novo, esse menino realmente me tira do sério.

Quando estou saindo da escola acompanho a Sophia até o ponto de ônibus que é no sentido da minha casa, mas após deixa-la continuo andando, minha casa não é muito longe, só tenho que andar uns 20 minutos, mas só havia andado 5 minutos quando começou a chover. Escuto uma buzina de carro atrás de mim, e finjo não escutar, afinal ninguém que eu conheça tem carro, talvez só o pai do Murilo, mas esse não é o caminho para a casa dele. Continuo andando, mas escuto a buzina novamente.

— Além de sem graça, é surda!

— E você além de mal educado é perseguidor. O que é isso estou começando a achar que na verdade é você que não consegue me tirar da cabeça.

— Tudo bem, se você não quer carona podemos ir, afinal nem tá chovendo tanto assim... Vamos Antônio, ela não quer nossa ajuda – bem nesse momento eu escuto um trovão, e a chuva se torna ainda mais forte, e sinto toda a eletricidade que ela gera dentro do meu corpo, e com isso o medo que sempre a acompanha. E isso me faz vencer a raiva pelo Miguel.

— Eu aceito Miguel. Afinal vai ser a primeira boa ação que você está tentando fazer na vida. Não posso negar isso a ninguém.

— Ótimo, pede, por favor, que eu abro a porta.

— Mudei de ideia vou andando mesmo – começo a caminhar novamente, quando sinto uma mão sobre meu braço, e novamente a eletricidade está presente, mas dessa vez diferente, mas como um calor, que deixa tudo quente.

— Estou brincando menina irritada, pode entrar no carro.

— Acho que eu vou molhar o banco do seu carro, desculpa.

— Não tem importância, sábado você pode dar um jeito nisso não é?

— Muito engraçado você. E você deve ser o Antônio não é?

— Isso mesmo moça, eu sou o motorista da família há anos.

— Jesus, me conta um segredo... Como você consegue aguentar esse menino durante todo esse tempo?

— Olha não sabia que a moça sabia fazer piadas, mas engraçadinha se você não falar onde você mora não podemos te levar. Ou você quer ficar aqui no meu carro comigo para sempre? Depois fala que não gosta de mim.

— Deus me livre desse castigo. – e pela primeira vez escuto e vejo o Miguel rindo, de verdade, e o rosto dele se transforma com o riso, fica ainda mais bonito, e o som me deixa um pouco orgulhosa, trazendo-me um estranho desejo de ouvir isso outras mil vezes. Pura idiotice.

— Antônio, faz o caminho para pegar a estrada que leva para a casa dos Almeidas, mas vira uma rua antes, à direita, minha casa é bem na esquina.

Rapidamente chegamos à minha casa, vejo que está tudo fechado, mostrando que minha tia já está trabalhando na sorveteria.

— Obrigada pela carona... Antônio. Você também, Miguel – ele bate seu ombro contra o meu, enquanto se estica para abrir a porta para mim.

— De nada Maria, vejo você amanhã.

— Não se eu puder evitar, não é?

Saio do carro, bato a porta e corro em direção a minha casa, longe do tumulto de sensações que esse menino causa em mim.