Dias de Chuvas
19 Capítulo 20
Sexta foi o primeiro dia da semana que o clima ficou mais frio, ainda sem chuva, mas o céu encontrasse mais cinza do que nos últimos dias.
Desde quarta feira eu tenho andado meio estranha, sinto algo me dizendo que algo de ruim irá acontecer. E essa madrugada sonhei com um mulher linda, seu cabelo cumprido e quase branco, seu vestido cumprido e verde, mas o que mais me deixou inquieta no sonho foi a presença da Joana na mesma casa da foto que encontrei em seu quarto. Ela estava falando algo, mas eu não conseguia ouvir, porque o grito de alguém era a única coisa possível de escutar naquele lugar, no sonho o grito vinha do lago, mas não conseguia ver ninguém.
Eu acordei suada e muito assustada, quero acreditar que foi apenas um sonho, mas como a Roberta já disse muitas vezes, a Deusa conversa com a gente de diversas maneiras, temo que esse seja bem mais do que um sonho.
Na escola hoje eu não conseguia me concentrar nas aulas. Nem quando o Miguel veio no intervalo eu não conseguia parar meus pensamentos obsessivos para dar atenção para ele. Acho que ele entendeu que eu estava preocupada com algo, porque não cobrou minha atenção, apenas me abraçou, beijou minha caça e ficou conversando com meus amigos.
Nos demais intervalos entre as aulas eu me concentrei em ler o livro da Roberta, o Murilo também continuava lendo os livros sobre os Deuses. Eu já consegui memorizar um feitiço, o de cura, que foi o que mais me chamou atenção desde que iniciei a leitura do livro, ainda encontrei um feitiços de proteção, que sei mais ou menos. Muitos outros parecem interessantes, como o de fortalecimento, e de tirar da chuva a limpeza da alma, e muitos outros.
— Você já sabe qual feitiço você deseja começar treinando querida?
— Acho que sim Roberta, te dois que eu sinto que tenho que aprender. O de cura e o de proteção.
— Você precisa entender que o feitiço de cura não ressuscita ninguém, e cura apenas ferimentos mais superficiais quando feito por uma descendente da água. Os descendentes da terra possuem maior aptidão para esse ritual, eles conseguem recuperar feridas mais profundas. Mas é um feitiço útil mesmo. Miguel preciso de você aqui.
Ele caminha até a gente e fica entre mim e sua avó.
— O que posso fazer por vocês?
— O corte que você fez em sua mão após quebrar um copo, por favor – ele estende sua mão que tem um corte na palma, ainda vermelho, porém não aberto mais – Você sabe as palavras querida?
— Yara, Deusa que sempre ilumina meu caminho
Que me deu a vida
Que fez meus antepassados passarem por momentos difíceis
Eu desejo que tudo a ser como era antes,
Que a pele feche,
Que o sangue não saia mais
Que assim seja Yara querida.
— Minha mão está novinha em folha, obrigada meu amor.
— Você foi muito bem mesmo Maria. O mais legal desses feitiços é que pode ser utilizado por todos os filhos de todas as Deusas, cada um precisa apenas substituir o nome da Deusa que o guia e do seu elemento... Agora vamos para o de proteção.
— Esse eu não sei muito bem.
— Miguel fica segurando esse livro aberto nessa página para ela. Pronto pode recitar, o mais importante desse feitiço é mentalizar todas as pessoas que você deseja proteger.
— Água que serve de lar para seres vivos,
Que banha o nosso corpo
Tira todas as nossas impurezas
Desvie a rota das maldades que existam no caminho
E se a pedra nos atingir que seja através da sua proteção
Que assim seja.
— Muito bem, agora antes de terminarmos vamos precisar recuperar nossa energia. Liga a música novamente Miguel. Vamos dançar um pouco.
Eu e Roberta ficamos meditando até escurecer. E quando estou indo embora para minha casa, olho para casa grande e vejo Joana na janela de seu quarto observando o carro se afastando. Eu sinto um arrepio estranho, e me aconchego no mimado buscando conforto e seu calor.
— Você está bem, chatinha? Você tem estado mais calada.
— Eu não sei explicar, mas sinto algo se aproximando. Eu estou com medo.
— Você quer que eu durma na sua casa hoje?
— Eu quero, vou ver se minha tia vai deixar.
Ana o deixou passar a noite, desde que a porta do meu quarto ficasse a noite toda aberta. Como eu não planejava fazer nada demais hoje aceitei.
— Miguel é a primeira vez que você dorme comigo. É meio estranho não é?
— Um pouco, mas é bom. Agora desliga essa televisão e deita ao meu lado, você não parece ter dormido bem nos últimos dias.
— Está falando que eu estou com aparência de cansada?
— Sim, mas nem mesmo o sono te deixa feia.
— É bom mesmo – eu bocejo, e assim que deito ao seu lado caio no sono.
Eu dormi muito bem hoje, melhor o que em muito tempo, provavelmente por isso eu acordei quando o despertador tocou, e desliguei sem nem mesmo perceber, e voltei a dormir logo em seguida. Eu acordo novamente com o meu celular tocando.
— Maria? Onde você está? Eu e o Murilo estamos aqui em casa te esperando.
— Que horas são?
— Oito horas.
— Desculpe, eu acabei perdendo a hora. Vão indo os dois para a casa grande. Eu os encontro lá.
Eu pulo da cama e começo a me trocar rapidamente.
— Acorda Miguel, estamos atrasados.
— Está cedo ainda, me deixa dormir chatinha.
— Liga para o Antônio e pede para ele vir buscar a gente. Enquanto eu termino de me trocar – vou para o banheiro escovar os dentes, e de lá ainda grito para o Miguel sair da cama.
O Antônio não costuma demorar muito para chegar até em casa, mas hoje está chovendo muito, por isso o carro vai mais devagar na estrada de terra. Quando chego na casa do Miguel já passa das nove horas. Eu começo a procurar meus amigos pelos quartos, porém eles não estão aqui.
— Miguel? Você encontrou a Sophia e o Murilo em algum lugar? – eu ligo para ele que está na parte de baixo da casa procurando os também.
— Não. Você tem certeza que eles falaram que iam te esperar aqui?
— Sim, eu tenho... Espera que tem alguém me ligando.
— Você está procurando por algo, empregadinha?
— Quem é? Joana?
— Acertou de primeira. Eu sei onde seus amigos estão. Bem aqui, ao meu lado. Eu ainda não decidi o que fazer com eles eu queria mata-los, mas o meu mestre me impediu, ele disse que você é mais importante no momento, acho que ele tem razão vai ser mais legal fazer algo com você aqui olhando, para depois eu poder mata-la.
— Onde vocês estão? Se você tocar neles eu te mato sua vaca.
— Nossa a empregadinha também tem garras. Eu sempre soube que você só se fazia de sonsa, igualzinho sua mãe, aquela ingrata... Se você quer recuperar seus amigos vai ter que me achar, fazia tempo que eu não vinha aqui, acho que você vai conseguir me encontrar. Tick tack o relógio está correndo – ela desliga o telefone, e eu sinto as lagrimas escorrendo em meu rosto.
— Eu preciso achar a Roberta, Miguel, urgentemente – ele havia chegado no início da minha conversa com sua mãe, portanto ele ouviu tudo.
— Minha vó está na cozinha, vai encontra-la que preciso fazer algo, a gente se encontra na garagem, o Antônio vai nos levar até seus amigos.
Eu desço a escada sem nem ver os degraus, encontro a Roberta na cozinha junto com outros funcionários, eu a arrasto até a sala, onde ficamos sozinhas.
— O que você tem Maria?
— Ela pegou meus amigos.
— A Joana?
— Sim. Você viu alguma coisa?
— Não querida eu acabei de acordar, mas fique tranquila me fale o que ela falou.
— Ela os levou para algum lugar, ela falou que quer mata-los. Mas seu mestre não deixou.
— Nós vamos encontra-los. Ela deu mais alguma pista sobre esse lugar?
— Não, e ela não falou mais nada. O Miguel pediu para a gente esperar por ele na garagem, mas eu nem mesmo sei para onde vamos, não sei como acha-los.
— Vamos para a garagem, nem que a gente rode a cidade inteira nós vamos encontrar seus amigos.
O Miguel demora um tempo para chegar na garagem, mas chega com uma caixa na mão, reconheço como sendo a gaveta falsa do quarto da sua mãe. Ele entra no carro me da a caixa, e na sua outra mão está o livro da Roberta que o Murilo estava lendo. E então fica claro para mim.
— Acho que sei onde ela foi.
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