Dias de Chuvas
20 Capítulo 21
Eu procuro dentro da caixa a foto da Joana com aquele homem. Ela é a última coisa que encontro na gaveta.
— Roberta você sabe aonde é esse lugar? Tenho quase certeza que é onde ela os levou.
— Reconheço sim, é uma casa abandonada perto da onde meu filho João mora hoje em dia. Vamos Antônio nos leve para lá imediatamente.
Eu passei o percurso todo em um misto de insegurança, medo e lagrimas. O Miguel tentava me acalmar, mas eu mal dava atenção a suas palavras. Nesse momento a última coisa que eu quero ouvir é que tudo vai acabar bem, porque eu sei que ninguém pode me dar essa certeza. Para piorar ainda mais chegar até a casa do João demorava meia hora, mas na minha mente parecia mais de uma hora.
Eu avisto então uma casa pequena e velha, igualzinha a da foto e ao lado dela uma casa maior, mas com um aspecto velho, provavelmente a casa do João.
– Pode parar Antônio nós chegamos – antes mesmo da Roberta terminar de falar eu já estava abrindo a porta do carro, como o carro estava em uma velocidade mínima eu saltei para fora, e fui na direção da casa abandonada, ouvi os passos dos dois atrás de mim.
Eu entrei por onde antes havia uma porta, dentro encontrei uma sala vazia, fui então de cômodo por cômodo, tentando acha qualquer pista do paradeiro da Joana. Mas nada a casa estava vazia. Sai pela porta do fundo, e percebi que a foto foi tirada exatamente desse ângulo da casa, então provavelmente o lago encontra-se do lado direito da casa, caminho até o lago, desse ponto de vista avisto a Joana em pé na parte do lago que vai para uma floresta. Eu começo a correr contornando o lago.
— Olha só, até que você não demorou tanto para nos encontrar. Mas eu já estava ficando meio entediada – atrás dela meus amigos estavam no chão, amarrados por uma linha de energia verde e impedidos de falar também pela áurea ao redor de suas bocas – Como isso é possível?
— A áurea? Você e essa velha são tão inocentes. Eu sou uma bruxa também. Eu sempre fui. E essa velha nunca percebeu nada, mesmo morando na mesma casa que eu.
— Como é possível, eu conheci seus pais, nenhum deles tinham relação com a linhagem da Yara.
— Isso porque eu nunca precisei servir essas Deusas para ser tão poderosa, meu mestre é muito mais forte do que vocês pensam e muito mais leal.
— Se ele é tão leal assim porque ele não está aqui, ao seu lado?
— Maria não seja tola, esse ainda não é o momento dele aparecer para vocês, ele ainda tem alguns planos muito importantes para vocês.
— Você não pode se apoiar no Jupi para sempre.
— Não ouse falar o nome dele, sua garota tola., mas aproveitando que você está aqui vou começar a parte boa da festa. Quem eu devo matar primeiro? A sua amiga ou seu amigo?
— Mãe para com isso. Ainda dá tempo para você desistir, seja uma pessoa boa, seja minha mãe pela primeira vez.
— Seu garoto tolo eu só adotei você porque o meu mestre pediu.
— O Jupi pediu para você me adotar? Por que?
— Eu não precisei perguntar, ele me deu tudo que eu precisava, em troca eu precisei ficar com você... Agora chega de conversar, acho que vou começar pela menina – em um segundo um tronco de arvore parte em direção a Sophia, porém antes de atingi-la mesmo preso pela áurea, Murilo consegue se posicionar de uma forma que o impacto foi todo nele.
Em meio ao meu desespero e o da Sophia, não percebo que o Miguel que ainda estava com a gaveta na mão deixou a cair, e tudo caiu no chão. Roberta avançou sobre a Joana e prendeu-a com a áurea também.
— Querida eu posso não ter percebido antes a vaca que você é. Mas se tem uma coisa que eu nunca fui é tola, muito menos fraca. E agora eu não quero mais ouvir sua voz – com isso prende sua boca também.
— Maria eu encontrei uma coisa, vem ver – O Miguel está agachado ao lado das coisas que caíram de dentro da caixa, e segura um papel em suas mãos.
— O que é isso?
— Estava dentro do livro do Murilo.
— Acho que é um feitiço, está escrito “ritual para revelar o livro” como assim?– eu também não entendo isso, mas quando olho para o chão encontro o livro em branco.
— Acho que eu já sei o que fazer, Miguel segure o feitiço para eu ler.
— Em nome de todas as forças da natureza
Eu como filha da água imploro sua presença aqui
Só você e suas irmãs podem retomar o que estava escrito
Refazer o que não foi feito
Yara, impetuosa, fria e quente, sorrateira e grandiosa
Escute meu chamado
Potira, indecisa e certeira, cortante e delicada
Escute meu chamado
Inaiê firme e quebradiça, leal á todos que necessitam de ti
Escute meu chamado
Araci rebelde e certa, ardilosa e doce
Escute meu chama
Ao contrario do que eu esperava, quando eu termino o ritual o livro continua em branco. Entretanto escuto um barulho atrás de mim. Quando olho para trás sou surpreendida pela presença de 4 mulheres, mais do que isso 4 Deusas.
— Bem dita seja, Deusas. – Roberta faz uma reverencia para elas.
— Você chamou por nós minha filha? – eu reconheço ela pelo seu vestido verde, Yara.
— Sim, obrigada por me atender minhas Deusas.
— Fazia tempos que não precisávamos vir até os humanos, decidimos nos afastar, mas acho que agora você precisa da nossa presença para revelar o livro de Jupi, não é?
— Sim minha senhora.
— Esse feitiço que seu amigo descobriu é muito antigo. Logo após de termos expulsado o Jupi de Umarama ele criou esse livro com feitiços perversos, nós decidimos então criar um feitiço que o revele para quando alguém precisasse interferir em seus planos – fala uma das Deusas que possui um vestido marrom, e imediatamente sei que é Inaiê.
— Eu acho que tem alguma coisa nesse livro que pode me ajudar a derrotar o Jupi, e curar meu amigo.
— Infelizmente para o seu amigo não existe mais nada a fazer – diz a Deusa que possui que usa um vestido laranja, lembrando o fogo, Araci.
— Não posso acreditar nisso, deve ter algo, me ajude, por favor.
— Infelizmente ela está certa, querida – fala à única que sobrou, portanto a Potira.
— Minha descendente, você não pode fazer nada pelo seu amigo, mas nós vamos juntas revelar o livro, porque precisamos fazer algo contra o Jupi ainda.
Juntas as Deusas colocam suas mãos sobre o livro branco, e quando eu o abro novamente está cheio de feitiços.
— Por que esse livro não está na linguagem indígena?
— Porque esse livro não foi escrito por nenhum dos nossos descendentes, e sim por Jupi, por isso ele colocou um encantamento para ficar na língua de quem o está lendo.
— Qual feitiço eu devo fazer?
— Olhe que você vai achar querida.
Conforme eu vou folheando o livro encontro o que acho ser o ritual certo, ritual de retirar o dom.
— Isso mesmo querida, pode recita-lo.
— Tudo que foi dado sem permissão deve ser tirado
Tudo deve ser esquecido
Assim tudo voltará a ser como era antes
Que a água limpe ela
Que a terra fortaleza meu desejo
Que o fogo queime qualquer vestígio de poder presente no corpo de quem não merece
E que o vento leve para onde este dom nunca deveria ter saído
Que assim seja
— Que assim seja – Roberta, Miguel e todas as Deusas repetem. E com isso uma energia intensa saí de dentro da Joana e vem em minha direção, entra pelo meu peito em um choque de eletricidade forte. Com isso meus amigos ficam livres de suas amarras, a Sophia corre em direção ao Murilo que está totalmente imóvel, eu sinto uma lagrima escorrer sobre meu rosto, mas me recuso a chorar ainda.
Joana encontra-se desmaiada e jogada no chão. Eu corro na direção do Miguel e o abraço, tentando manter o controle sobre mim ainda, mas não sinto que vou manter a posse por muito tempo.
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