— Antes de ir embora eu preciso te explicar o que Jupi fez com a sua família, com a sua mãe, afinal é isso o que você busca – ela me chama e a Roberta para mais perto dela, sentamo-nos em um tronco ao seu lado – quando sua irmã decidiu tentar tomar um poder que não era dela, ela estava sobre a influência de Jupi, ele queria destruir todos os meus descendentes, assim como os de minhas irmãs. Entretanto eu vi um jeito de salvar minha linhagem, em sua mãe que nasceu naquele dia chuvoso.

— Foi então a senhora que decidiu que minha mãe deveria ter o dom?

— Sim, no inicio o Jupi não percebeu sobre sua mãe, ele estava focado em destruir a Roberta, porém nunca conseguiu seduzi-la, como desejava. Apenas quando sua mãe começou a frequentar a casa dos Almeidas que ele percebeu que ela também tinha poder, ele logo associou ao poder da Priscila, e com isso sua atenção desviou-se totalmente para sua mãe. Entretanto ela nunca foi tão fácil de seduzir como a antiga dona desse dom. Ele percebeu então a inveja na Joana, e decidiu conceder para ela o poder de sua mãe desde que para isso ela prometesse nunca ter filhos, e portanto não passar o poder para frente, e mais do que isso deu o Miguel para ela criar.

– Sua mãe sempre foi totalmente leal aos seus amigos, algo que você também herdou dela. Por isso, quando sua amiga Joana implorou chorando para ela ajuda-la a ter poder também, sua mãe contra toda a sua intuição decidiu ouvir a ideia da sal amiga, e foi atrás desse novo mestre. Mas o feitiço não durava mais do que um mês, portanto pelo menos uma vez ao mês elas sumiam, e vinham até aqui, onde sua mãe fazia um feitiço orientada pelo Jupi que transferia parte do seu dom para a Joana. O que ela não sabia era que cada vez que isso acontecia mais ela ficava mal após o ritual. A penúltima vez em que o feitiço foi realizado sua mãe cedeu tanto de seu dom que ficou desaparecida por muito mais tempo que o normal. Foi seu pai que ajudou ela a se recuperar, eles se apaixonaram e foi assim que mais uma vez o plano de Jupi saiu como ele não esperava, afinal havia uma nova criança.

— Você sabe quem é meu pai?

— Nós todas sabemos, meu amor, e logo você também descobrira – Inaiê senta-se ao meu lado e coloca seu braço em meu ombro, e sinto energia sendo transferida sobre mim, mesmo sem conseguir enxergar a energia da terra.

— O Jupi também não soube da sua existência no inicio, só quando sua mãe desistiu de doar seu dom para sua amiga por sua causa.

— Foi quando ele decidiu afasta-la de você, assim você nunca poderia saber sobre seu poder. Ele deu para a Joana o livro dele, onde estava o feitiço que daria todo o poder de sua mãe para ela. Quando Carla foi atrás da Roberta para confessar-se e pedir ajuda para deter o Jupi, Joana a sequestrou e trouxe direto para essa casa, ela fez o feitiço, entretanto para ela ter todo o dom de sua mãe de uma vez por toda ela precisou matar sua mãe. Ela enterrou o corpo ali do outro lado da casa, e tornou-se então a dona do poder de sua mãe.

— Minha mãe está morta então?

— Eu sinto muito querida. Seu pai nunca soube de sua existência querida, se ele soubesse ele teria ido atrás de você, a Joana o enganou fingindo que sua mãe estava namorando o Luiz Almeida. Por isso, você foi criada pela sua tia, assim como era o desejo de Jupi. Afinal seu pai também conhecia o poder de sua mãe, e poderia te influenciar.

— Mas no que esse feitiço de retirar o dom da Joana ajudou na derrota do Jupi?

— Em muita coisa, ele perdeu uma de suas maiores e mais leais seguidoras, sinto muito Miguel, mas temo que sua mãe não irá ser mais a mesma depois de hoje.

— Ela nunca foi minha uma mãe para mim – mesmo ele dizendo isso, eu sei que ele está sofrendo, apesar de tudo, ela ainda era a única pessoa que ele conheceu como mãe.

— Quando um espirito como nós perde um seguidor, começa a ser esquecido, portanto fica cada vez mais fraco, portanto cada vez mais fácil de ser derrotado. Você deu um primeiro passo na direção de derrotar Jupi, e no percurso ganhou ainda mais dom, o que a deixa ainda mais forte.

— Acho que já demos toda a ajuda que poderíamos aqui Yara, vamos para Umarama.

— Você está certa como sempre Inaiê.

— Por favor, não vão embora, eu imploro – escuto a voz da Sophia, que antes estava ao lado do Murilo, e agora está ajoelhada na frente de Inaiê.

— Eu faço qualquer coisa se a senhora ajudar a curar o meu amigo, eu vou ficar com uma divida éter na com a senhora... Por favor.

— Eu vou fazer querida, mas em troca eu preciso de um favor seu. Minha linhagem está perdida de mim. Eu estou sendo esquecida e sumindo aos poucos, eu preciso que você me prometa ir atrás dos meus descendentes, e ajuda-los a recuperar o dom há muito esquecido.

— Eu prometo, senhora Inaiê. Só ajude meu amigo.

Inaiê caminha até o Murilo, agacha-se ao seu lado tocando seu peito e fala algo em seu ouvido. Mesmo à distancia consigo perceber o peito dele voltar a realizar movimentos respiratórios. A Sophia começa a chorar, e eu a braço chorando também.

— Agora acho que devemos ir, outros humanos estão chegando, irmãs ­– Yara se aproxima de mim, e eu me levanto para conseguir ficar mais próximo possível da sua altura.

— Obrigada por tudo minhas Deusas.

— Você tem um dom incrível, e maior do que você imagina, quando você conhecer o seu pai vai entender... Roberta fique sempre do lado dessas crianças, elas ainda vão precisar muito da senhora.

— Eu vou ficar minha Deusa. Obrigada por sua ajuda, pela ajuda de todas vocês.

— Sigam firmes e iluminados... Até a próxima – com essa frase da Potira todas desaparecem. Simultaneamente escuto um carro de policia aproximando.

— Alguém daqui chamou a policia? – o Miguel pergunta, mas ninguém responde, eu já estou ao lado do Murilo, junto com a Sophia, eu curo os ferimentos mais superficiais que ele possui com o feitiço que aprendi ontem. Enquanto isso a Joana acorda, e Roberta vai ao seu lado, e tira as amarras de sua boca.

— O eu vocês fizeram comigo? Onde eu estou? Cadê a Carla? Eu matei ela? Foi apenas um sonho, não é? – quando a policia chega vem acompanhada do Antônio, que foi quem chamou, e de outro homem, o da foto que estava na cômoda da Joana, ele deve ser o João.

A Roberta conta para a policia que a Joana sequestrou meus amigos, e admitiu ter matado minha mãe. Eles encontram o corpo no lugar onde a Yara nos indicou.

— Você a matou? Como pode fazer isso? Ela era sua melhor amiga. Ela confiava em você – o filho da Roberta, surpreendendo todos, parte para cima da Joana, que está completamente louca e começa a rir da cara dele.

— Você é um tolo mesmo, sempre foi um tolo apaixonado. Ela nunca traiu você. No final a culpa da morte dela pode ser sua, não é? Afinal você decidiu abandona-la e ir para São Paulo estudar, você achou mesmo que a mosquinha morta poderia ter te traído. Ela foi procurar sua mãe no dia em que morreu. Ela queria saber onde você estava, queria a ajuda da Roberta para me deter, mas sua mãe e seu pai estavam em São Paulo com você. Isso é tudo sua culpa, consegue perceber? E além de tudo abandonou sua amada grávida, a Maria ali olha, é sua filha, mas ela não reconhece você porque você preferiu fugir.

— Sua idiota, estupida, vai passar o resto da vida na cadeia.

— Mas por que eu vou ser presa? Eu não fiz nada. Cadê a Carla? Eu preciso da ajuda dela – a sanidade da Joana seguiu variando em todo o percurso até a viatura da policia, e pelo que a Deusa falou nunca mais iria recuperar totalmente. O Miguel está chorando, eu o abraço, e ficamos parados no meio de toda a loucura, um apoiando o outro.

— Desculpe interromper, mas eu acho que precisamos... Eu acho que eu sou seu pai.

— Eu também acho. Mas no momento não estou com muita cabeça para conversar sobre isso.

— Eu sei disso, mas eu quero conversar com você, a qualquer momento, em qualquer lugar. Você mora com a Ana, não é?

— Sim, você pode aparecer lá, eu só preciso de um dia para colocar as coisas no lugar.

— Posso apenas te abraçar?

— Claro – é diferente abraçar alguém que eu sei que é meu pai, e enquanto o corpo da minha mãe é levado embora, eu sigo abraçada ao meu pai, e dou vasão a todas as lagrimas que estavam acumuladas dentro de mim.

— Sabe o que eu parei para pensar agora, chatinha? – estamos eu, Miguel, e Roberta no carro com o Antônio, que está seguindo a ambulância que leva o Murilo e a Sophia que se recusou a deixa-lo.

— O que, mimadinho?

— Você meio que é minha prima, não é estranho?

— Um pouco... E você meio que é minha vó, Roberta?

— Sou sim querida – nos abraçamos fortemente e sinto as lagrimas da Roberta molhando meu ombro – Você não herdou seu dom apenas da sua mãe, você também herdou da parte do seu pai, eu sempre achei você muito forte, agora eu sei por que, você possui o dom mais forte que eu já vi em alguém.

— E eu tenho a mentora mais incrível que eu poderia ter, e também é minha vó.

— Já vi que agora perdi de vez a vó Roberta.

— Nunca Miguelzinho, você segue sendo o meu menino dos olhos. Eu amo vocês dois.