Acordar cedo de fim de semana também não era algo normal em minha vida antiga. Agora já estou até mesmo acostumando a acordar mais cedo. Pelo menos é o que eu tento me convencer quando saio da cama mais um sábado de manhã.

Eu vou para o banheiro começar me arrumar, eu não sou uma pessoa muito vaidosa. Mas não gosto de sair sem estar no mínimo apresentável.

— Filha eu ainda estranho ver você de pé em um sábado antes do meio dia.

— Você viu mãe. Estou cada dia mais parecida com você.

— Apenas na aparência mesmo, o resto você é seu pai inteira.

— Mãe se a gente fosse um pouco mais parecidas a gente viveria brigando. Afinal os semelhantes brigam não é? Eu sendo parecida com meu pai faz você me amar ainda mais.

— Querida eu te amaria de qualquer maneira. Agora que ninguém merece duas de mim você está certa.

— Mãe eu nunca falei, nem sequer insinuei algo assim. Você é uma mulher incrível, eu seria muito feliz sendo igual você. Mas sendo diferente de você eu consigo te apreciar ainda mais, apenas isso.

— Sua puxa saco. Por favor, senta e começa a comer. Eu sei que daqui a pouco você vai sair para o hospital.

Enquanto tomo meu café da manhã mando uma mensagem para a Maria primeiro avisando que vou sair de casa daqui a pouco. Mando também uma para o Miguel, para ele avisar o Antônio, como sei que ele não costuma acordar cedo dou um toque em seu celular na tentativa de acorda-lo. Quando estou terminando de escovar os dentes escuto recebo a resposta do mimadinho.

Eu vou caminhando até a casa grande, pela senhora Roberta, uma vez que de fim de semana os funcionários não trabalham, apenas o Antônio que faz questão de trabalhar todos os dias, ele diz que não gosta de ficar sozinho em casa, e prefere a companhia da família que sempre o ajudou.

— Querida. Bom dia.

— Bom dia, senhora Roberta

— Eu já pedi para você não me chamar de senhora, não é? Você é parte da minha família, além de ser filha da Martinha, taabém é amiga dos meus netos.

— Eu juro que eu tento, mas é força do habito.

— Hábitos mudam. O Miguel falou que você precisa de carona até o hospital, certo?

— Sim, desculpe o incomodo.

— Não é incomodo nenhum. Afinal você só está indo ao hospital por causa da louca da minha antiga nora.

— E vocês andam tendo noticias dela?

— Ela foi transferida para cumprir sua pena em um hospital psiquiátrico. Mas e seu amigo como está? Fiquei sabendo que ele não estava conseguindo lembrar.

— Sim, ontem ele começou a melhorar um pouco, mas acabou tendo uma crise de ausência.

— Não vou mais te atrasar. O Antônio está na garagem esperando você.

— Obrigada, Roberta.

Paramos no caminho apenas para pegar a Maria, que já estava pronta. O resto do caminho até o hospital foi rápido. Mas ficamos esperando na porta do quarto até os pais do Murilo saírem. Quando entramos o Murilo não estava em sua cama. Ele saiu do banheiro.

— Bom dia meninas. Não esperava vocês tão cedo.

— Nós não podíamos esperar para ver como você está hoje, Mu.

— Eu estou bem. Ontem os médicos falaram que foi consequência do trauma na cabeça.

— Você não parece acreditar muito nisso.

— Eu não acredito mesmo. Eu me lembro de algumas coisas que aconteceram durante a crise.

— Como assim Murilo? O que você lembra?

— Tinha uma mulher aqui ontem, uma mulher linda. Não você Sophia – quando ele percebe minha expressão ele cora e corrige – Não que você não seja bonita também. Mas era outra mulher.

— A descreve, por favor.

— Ela era alta, com o cabelo bem castanho e comprido, até abaixo da cintura, ela usava um vestido verde – ele estende seu caderno de desenhos em nossa direção – Eu fiz um desenho dela.

Na ultima pagina desenhada nós encontramos a imagem da Deusa Inaiê desenhada. O talento do Murilo é tão enorme que a imagem parece uma foto dela.

— O que ela falou para você?

— Que eu precisava recuperar minha memória, porque apenas assim eu poderia ajudar você a cumprir a promessa.

— O que mais?

— Ela sentou na cama comigo, e começou a falar algumas coisas que eu não entendi muito bem. No final ela falou que eu aos poucos vou conseguir recuperar tudo que eu perdi. Os médicos me deram um remédio, e eu parei de vê-la.

Ele senta em sua cama de frente para nós duas. E começa a sorrir.

— Eu poderia achar que era uma ilusão, mas hoje de manhã eu acordei com algumas lembranças da nossa infância. Eu sei quem vocês são. Eu sei que você Maria vive com a tia Ana, que eu te conheci no primeiro dia de aula, que sei maior sonho é saber o que aconteceu com a sua mãe, eu ainda não sei como descobrimos que ela está morta, eu lamento não ter estado ao seu lado para te apoiar após essa descoberta. E Sophia eu me lembrei de você com cinco anos, brigando comigo, e eu lembro de você com 10 anos ainda brigando comigo, eu acho que isso é algo particularmente nosso não é? Como está a tia Marta? Ela continua me mimando mais do que a você?

— Sempre Mutilo, ela gosta muito mais de você e do Miguelzinho do que deveria ser o normal.

— Eu ainda não me lembro dos nossos últimos meses juntos, mas eu acho que essa mulher estava certa, eu vou lembrar.

— Vai sim, Mu.

— Vocês conhecem a mulher desse desenho?

— Conhecemos, mas eu acho que o mais saudável é você descobrir quem ela é naturalmente, sem eu ou a Sophia forçarmos qualquer coisa.

— A Ma está certa, você precisa confiar na gente.

— Eu vou confiar. Mas me prometam uma coisa?

— O que Murilo?

— Se eu não conseguir recuperar minha memoria até o próximo sábado vocês vão me contar tudo.

— Murilo não acho que seja o m... – a Maria segura meu braço, impedindo-me de continuar falando.

— Eu acho que o Mu está certo, e se ele não lembrar a De... Ela vai querer que a gente conte, eu sinto isso, minha intuição não costuma errar ultimamente.

— Quem é a De...? De o quê?

— Nós prometemos Murilo. Mas sem mais pergunta hoje.

— Certo, me desculpem por ter esquecendo-me de vocês.

— Você precisa se desculpar mesmo, primeiro da um susto desses na gente, depois ainda fica sem saber quem nós somos.

— Sophia eu nunca poderia ficar tanto tempo sem saber quem você é. Você é muito inesquecível. Vocês duas são.

— Vocês são fofos quando não estão brigando sabe Mu e So?

Ficamos ainda algum tempo recordando de momentos juntos nesses quinze anos. Eu consigo ficar sem fingir felicidade, porque hoje eu realmente estou feliz.

— Eu não entendi uma coisa ainda.

— O que Murilo?

— Como a nossa Maria começou a namorar o mimado do Miguel? Acho que isso pelo menos vocês podem me falar.

— É uma longa história. Mas você lembra do que a So te contou sobre nós começarmos a trabalhar de fim de semana na casa grande.

— Sim. Faz mais ou menos um mês isso.

— Eu continuo a contar. Se eu deixar ela fica o resto do dia falando desse mimado, e ninguém merece isso.

— Não exagera So. Eu e o mimado somos um casal bem controlado.

— Se você chama isso de controle não quer nem ver o que é descontrole para você. Enfim, desde o primeiro sábado que fomos lá eles começaram a brigar, e de repente sem nenhum de nós dois percebermos os dois já estavam se agarrando pelos cantos, quando a gente não estava perto. Mas sabe? Eles também costumam ficarem agarrados mesmo com outras pessoas perto, eles não tem um pingo de vergonha.

— Isso é pura inveja Mu. Ignore a Sophia.

— Inveja de que sua maluca? Eu sou bem feliz do jeito que estou.

— Senhorita Sophia Tibiriçá, você não me engana com essa marra toda. Você não quer falar sobre isso agora – eu sei bem o que ela está insinuando com isso, e realmente não quero falar com o Murilo sobre isso.

— Por que você não quer falar sobre isso agora Sophia?

— É mesmo em So, por que eu não deveria falar sobre isso agora?

— Fica quieta Maria. Ela está apenas me provocando Murilo. Agora me conta como está a relação com seus pais?

— Eu não consigo os reconhecer. Eu não sei quem são esses pais tão preocupados comigo.

— Eles sempre existiram, apenas era egoístas demais para perceberem o que você precisava deles, não apenas o dinheiro e o estudo que eles sempre forneceram.

—– Acho que sim. Eles nem estão brigando mais perto de mim.

— Também se eles brigassem, com você internado em um hospital eu ia achar que eles merecem o premio de piores pais do ano.

— Fica quieta, So.

— Ela só está sendo sincera Maria, deixa. Mas sabe? Eu estava pensando em aproveitar esse momento para conversar com eles sobre a faculdade.

— Você não acha que isso pode gerar alguma briga, e prejudicar ainda mais seu estado Mu?

— Não, eu quero conversar com eles sobre minha música. Eles até mesmo trouxeram o meu caderno de desenho sem eu precisar pedir. Acho que estão mais abertos.

— Não custa nada tentar.

Ficamos até o horário do almoço com o Murilo quando sua mãe chegou, amanhã não vou poder vir porque só são permitidas duas visitas de domingo. Eu poderia ficar bem mais tempo. Nunca imaginei o dia que eu gostaria mais de estar dentro do hospital do que fora, mas acho que o que me importa é estar com ele.