Dias de Chuvas
2 Capítulo 2
—- Agora Maria, me diz uma coisa -- depois de finalmente pararmos de rir, ficamos os três deitados, olhando o topo das árvores, como fazemos desde o início da nossa amizade, enquanto escuto a So fazer a pergunta já sei exatamente sobre o que é, afinal eles são os únicos, além da minha tia, que conhecem os meus segredos mais profundos -- Esse tempo de reclusão na sua casa durante esse mês serviu pelo menos para você descobrir mais informações sobre sua mãe? Conseguiu encontrar algo na caixa de coisas da sua mãe?
—- Você sabem que não, eu teria contado para vocês. As coisas continuam na mesma, minha tia não gosta muito de conversar sobre esse assunto, mas o fato é que ela provavelmente não sabe muito mais do que já me contou, e vocês também já conhecem muito bem essa história, já contei mil vezes para vocês, e já analisamos de mil ângulos diferentes.
—- Então conta novamente -- pede o Murilo, enquanto segura minha mão e a da Sophia -- Você sabe que queremos ajudar você a encontrar sua mãe, não nos importamos de ouvir mais mil vezes a mesma história, se no final conseguirmos deixar você feliz.
—- Tudo bem... Bem segundo minha tia, minha mãe era amiga da Joana desde muito nova, mais ou menos como a gente, ela confiava mais na amiga do que na própria irmã, a única que conhecia os seus problemas e inseguranças, mas a Joana sempre foi de outro mundo, ela era rica, independente, uma vez que seus pai faleceram e a deixaram aos cuidados de seus empregados, ela nunca precisou guardar dinheiro para fazer nada, nunca passou nenhuma vontade, e todo mundo sabia que ela tinha muita conexão com a família Almeida, afinal ela sempre foi muito próxima dos dois irmãos, o João e o Luiz, afinal seus pais eram os melhores amigos do sr. Marcel, e da sra. Roberta. Minha mãe nunca foi de ficar sério com apenas um menino, ela era livre, totalmente ligada com a natureza, provavelmente mais do que qualquer pessoa que já existiu nessa cidade, portanto ela era a menina mais divertida da amizade, enquanto a Joana era independente, porem séria, minha mãe era a leve do grupo, tinha vários outros amigos, no inicio minha mãe não tinha muito contato com a família Almeida, apenas quando as duas tinham 16 anos, a Joana e minha mãe desapareciam, ficavam dias fora de casa, sem dar noticias para ninguém, na época meus avós já haviam falecido, portanto sobrou para minha tia Ana a preocupação de criar uma adolescente rebelde, livre.
Faço uma pausa, quando sinto uma gota cair sobre meu braço, então me lembro o motivo de eu querer ficar longe da rua em dias de chuva, ela sempre teve esse efeito sobre mim, sinto uma eletricidade subir pelo meu braço e chegar em meu coração, e novamente fico inquieta, querendo me esconder. Mas por mim, pela minha tia, e pelos meus amigos me esforço a continuar deitada, contando a história.
—- Quando minha mãe completou 19 anos ela continuava desaparecendo, principalmente em dias de chuva, junto com sua amiga Joana, portanto acabou sendo algo que minha tia se acostumou, e simplesmente parou de se importar, afinal ela sempre voltava. Uma das últimas vezes em que minha mãe sumiu, ela ficou 1 semana fora, e quando retornou estava totalmente transtornada, triste, algo diferente do que ela realmente era. Minha tia tentou conversar com ela, mas ela se fechou para qualquer dialogo, a Joana era a única que consegui tirar minha mãe de casa, até um dia ela assumir para todos que estava grávida. Isso foi um baque para minha tia, mas não totalmente surpresa, mas em momento nenhum ela foi julgada por minha tia, a Ana fez de tudo por minha mãe, comprou berço, montou meu quarto, e minha mãe aos poucos foi ficando um pouco mais como era antes, nunca 100%.
Conforme as palavras saem de minha boca a chuva vai ficando cada vez mais densa, e de uma simples garoa vai cada vez mais se assemelhando com um temporal, mas eu sinto que tenho que terminar a minha história, antes de poder me esconder, sinto ao mesmo tempo medo, tristeza e força vindo por meio da água.
—- Eu nasci, e minha mãe finalmente tornou-se a mulher de antes, voltou a cantar pela casa, dançar enquanto me segurava no colo, me levava para ver a chuva, para ver a natureza, esse lago. Quando eu completei 3 meses minha mãe recebeu a visita da sua amiga em casa, e as duas se trancaram em um quarto enquanto a tia Ana ficou comigo, me fazendo dormir. Foi nesse dia que minha mãe brigou com a Joana, minha tia disse que ouvir gritos, sobre uma noite no lago, sobre os Almeidas, e sobre minha mãe querer largar tudo, só porque agora ela tem uma filha, Joana ainda chamou minha mãe de nomes baixos, deixando claro que só se aproximou de minha mãe por pena, e então saiu de casa deixando para trás minha mãe destruída, chorando. Minha mãe ficou uns dias em casa ainda, comigo e com minha tia,até um dia ela pedir para Ana ficar comigo, enquanto ela ia resolver um negocio, ela prometeu que iria voltar, e como sempre ela sumiu em um dia de chuva, minha tia ficou preocupada, mas como esse já era um costume de minha mãe, ela não estranhou esse desaparecimento, até ele durar mais do que 1 semana, foi quando ela procurou a delegacia, mas todos sabiam como minha mãe sempre gostou de sumir por um tempo, então ninguém estanhou, e portanto, ninguém nunca abriu nenhum processo de investigação.
Eu sento enquanto termino minha história, e fico olhando as gostas de chuvas caírem no lago, e percebo que cada gota parece emitir um tipo de energia, um tipo de cor própria, como sempre prefiro ignorar essa sensação, afinal não sou mais uma criança que acredita em contos de fadas e de bruxas.
—- Minha mão nunca voltou, foi passando dias, semanas, meses. Minha tia ainda tentou entrar em contato com a Joana, mas nunca teve grande sucesso. Afinal elas nunca foram exatamente amigas, elas só conviviam enquanto minha mãe tinha contato com ela. Além disso, a Joana estava muito atarefada, depois de 2 meses do desaparecimento da minha mãe, Joana e Luiz apareceram casados, e 1 mês depois já haviam adotado o Miguel, um menino de 1 ano, que surgiu na vida deles sem ninguém da cidade saber sobre nenhum processo de adoção, eles apenas assumiram ele como filho, sem dar mais nenhuma informação sobre seus verdadeiros pais, e como ele iluminou a vida de seus avós ninguém de fato questionou muito, afinal todos gostam muito da família Almeida feliz, assim eles dão mais festas na cidade, mais lojas para a nossa querida cidade.
—- E então, você cresceu, com 5 anos ficou nossa amiga, e desde então continuamos a buscar informações sobre sua mãe. Não que tenhamos feito um grande trabalho a esse respeito né? -- Sophia senta-se ao meu lado e sinto a cabeça dela sobre o meu ombro, enquanto Murilo senta do outro lado, e coloca seu braço ao nosso redor. Nesse momento enquanto a chuva cai, me sinto feliz, e percebo que a energia que antes estava apenas no lago, está sobre nos, como uma grande forte de cor verde clarinha, que sai de nos três, e vai em direção ao lago.
—- Você está errada Sophia, a gente até que fez algo bem, a gente tem se protegido contra o resto de estúpidos que existem nesta cidade. A gente protege a Maria, e também já descobrimos a caixa da Carla.
—- Mas isso nunca foi um grande mistério né Maria? Sua tia nunca fez muita questão de esconde-la de você.
—- Verdade, mas só agora que tenho 15 anos que pude finalmente abrir, acho que minha tia tinha um pouco de medo de eu ser um pouco mais parecida com minha mãe, e um pouco menos parecida com a dona Ana. --dou uma leve risada, quando escuto Murilo rir ao meu lado, afinal nos somos os únicos que não sofremos por eu não ser igual minha mãe, enquanto os outros sentem pena por eu ser totalmente sem-graça, eu e meu amigos agradecemos por eu ser muito mais parecida com minha tia, afinal se eu fosse de outra maneira provavelmente não os teria como amigos -- Mas no fim a caixa só tinha roupas velhas, e uma foto dela ao lado da Joana, e dos irmãos Almeida. Portanto, não estou nem um pouco mais perto de revelar esse grande mistério.
Finalmente canso de ficar na chuva, acho que dessa vez até aguentei mais do que o normal, livro-me do abraço dos dois, levanto e olho para meu celular vendo que já está quase no horário da minha tia chegar em casa. O celular da Sophia toca, e a escuto falar com a mãe, explicando que já está voltando para casa, dona Marta é a mãe mais preocupada que eu conheço, chega ser um pouco mais controladora do que o normal, mas é um amor bem no fundo.
—- Infelizmente meus queridos vou voltar para casa, aquele antro de metidos a besta. -- Sophia não gosta muito do fato da mãe ser empregada dos Almeidas, e por isso ter que viver numa casinha na propriedade deles, talvez seja por isso que ela é bem mais disposta a sair de casa em dias de chuva.
—- Maria promete para nós dois que nessa nossa última semana de ferias pelo menos vamos nos ver todos os dias, temos que aproveitar enquanto ainda estou livre, antes dos meus pais começarem a me obrigar a estudar todo dia, toda hora para passar no vestibular daqui 3 benditos anos
—- Tudo bem! Eu prometo, mas da próxima vez vamos em algum lugar um pouco mais abrigado, vocês sabem que eu não sou a maior fã de tomar um banho de chuva -- olho para os dois com a minha cara mais de pena que sei fazer, e vejo os dois se olhando e rindo em silencio.
—- Tudo bem, amanhã os dois podem aparecer em casa, tenho certeza que a Dona Marta não vai se importar nenhum pouco com isso, afinal as vezes acho que minha mãe gosta mais de vocês do que de mim.
—- Também isso não é a missão mais difícil, eu tenho certeza que sou bem mais adorável do que você, So -- vejo minha amiga dar um beliscão no Murilo, mando um beijo para eles e corro para tentar fugir o mais rápido possível da chuva, em direção a segurança que existe em minha casa.
Fale com o autor