Dias de Chuvas
3 Capítulo 3
Sinto algo pular em minhas pernas, e infelizmente acabo acordado, para mais um dia chuvoso, que me faz ter ainda mais vontade de ficar deitada, odeio o verão, além de chuva temos também esse calor, que não me deixa dormir, o clima podia se decidir, ou só chuva e frio ou só calor, os dois juntos não tem condições. Fred sobe até minha barriga e se aconchega ainda mais, começando a ronronar. Minha vontade de faltar no meu compromisso com o Mu e a So aumenta ainda mais, mas dei minha palavra, e ultimamente essa é uma das únicas coisas que tenho, na verdade acho que desde meu nascimento essa é uma das únicas coisas mesmo. Após acomodar o Fred na cama, levanto-me, e vou em direção ao banheiro, me arrumar para ir para a casa da Sophia.
Quando apareço na cozinha, já encontro minha tia a todo vapor, lavando a louça. Não é um fato totalmente estranho, uma vez que a dona Ana é uma mulher de rotinas, acorda as 6 horas toma um banho, prepara o seu café da manhã, lava a louça, e depois começa a arrumar-se para o trabalho, onde fica até as 19 horas. Por isso, o fato de 8 horas eu já encontra-la totalmente acordada e pronta para o trabalho não me surpreende, mas obviamento o oposto não é verdade.
—- Jesus do céu! O que aconteceu para você acordar tão cedo em , dona Maria? Tá doente? -- então ela olha melhor para mim e percebe que estou com roupa de sair de casa, não que isso seja uma coisa que eu realmente tenha, afinal não ligo muito para moda, nem para maquiagem, nem para nada do tipo -- e onde você vai toda arrumada? Se fosse possível chover ainda mais do que anda chovendo nessa terra você com certeza seria a culpada.
—- Muito engraçada você tia. Nunca está satisfeita, eu fico em casa você reclama, eu me arrumo para sair você não me deixa quieta...
—- Longe de mim impedir você de sair dois dias seguidos de casa. Na verdade eu acho é bom, sua pele já tava ficando mais pálida do que os meus sorvetes de creme.
—- Para de exagerar tia, afinal com a chuva que está nem se eu ficasse pelada ao ar livre ia queimar.
—- Se isso acontecesse eu ia precisar te levar ao médico, porque certamente você teria endoidado. Para de falar besteira e senta para comer um pouco, e aproveita e me fala como o Murilo e a Sophia andam.
—- Eles são os de sempre, vivem brigando, depois dão risadas. Nada fora do mesmo padrão de sempre. E no fim até que foi bom sair de casa, mas não fique se achando a dona de toda a razão do mundo, só as vezes você está certa.
—- E na maioria das vezes você está errada, né minha filha? Eu te conheço dona Maria. Agora come todo esse mingau e me conta onde você vai hoje.
—- Eu vou na casa da So, a gente combinou de ficar um pouco lá hoje, pelo menos um encontro longe da chuva, já basta o quanto vou me molhar para chegar lá.
—- Maria, Maria, não vá se meter em problemas com os Almeidas, você sabe que você é muito novinha, e eles não são o tipo de pessoa que eu gosto de ver você envolvida...
—- Eu sei tia, eu já ouvi esse mesmo conselho umas cem vezes, eu sempre vou na casa da So, e nunca me meti em nenhuma confusão não é verdade? Por que agora seria diferente? Eu não sou minha mãe, além do mais não sou nem parecida com ela.
—- Minha querida, você está cada vez mais curiosa sobre sua mãe, acha que consegue disfarçar de mim? Justo de mim, eu cuido de você desde que era um bebê. E faz 1 ano pelo menos que a senhora não para de mexer nas coisas da sua mãe, pelo menos uma vez por semana a encontro fuçando nessa caixa. Eu também sinto falta da minha irmã, e quero descobrir onde ela foi, quem é o real culpado, mas nem eu consegui, imagina uma criança como você.
—- Mas tia eu não sou mais criança, você sabe disso.
—- Realmente, você não é mais criança, mas também não é uma adulta com as vezes acha ser -- ela para de mexer nas panelas da pia, senta-se ao meu lado e segura minha mão, percebo na sua expressão toda a preocupação e a tristeza de uma vida toda, primeiro ela foi uma segunda mãe para minha irmã, apesar de ser apenas 3 anos mais velha do que a mesma, e logo depois foi obrigada novamente a ser minha mãe. E é por esse motivo que preciso descobrir o que aconteceu com minha mãe, não só por mim, como filha, não só pela minha mãe, mas também pela minha tia, minha mãe de criação que ainda sofre por ter perdido uma filha, uma irmã.
—- Tia Ana não precisa se preocupar, nada vai acontecer comigo, eu só não posso prometer viver o resto da minha vida sem saber a verdade sobre a minha mãe.
—- Eu sei disso menina, isso me apavora. Mas no fundo sei que não posso te impedir, e na verdade nem mesmo desejo isso. Você pode não ser a copia da sua mãe, mas uma coisa vocês sempre se pareceram muito, as duas são livres, eu nunca pudi controla-la, e também não posso e não quero controlar você minha menina -- ela suspira fundo enquanto eu a abraço, e sinto uma imensa vontade de chorar, pelas três mulheres da minha família -- Mas se eu não consigo te impedir, posso apenas dar um conselho, não faça nada imprudente, você ainda não está para enfrenta-los. Quando sua mãe desapareceu, eu achei que seria capaz de resolver tudo sozinha, mas mesmo sendo adulta e querendo resolver não consegui atingir a família Almeida, na época coisas estranhas começaram a acontecer...
—- Que coisas tia? Por favor, conta, qualquer coisa pode me ajudar a descobrir algo.
—- Bem acho que já está na idade de você saber mesmo, ainda mais sabendo que você vai tentar achar sua mãe... Quando eu fui a primeira vez na casa dos Almeidas era uma noite chuvosa, e a casa estava inteira escura, logico que antes, já havia tentado conversar com a Joana, mas ela nunca me recebia,portanto logo após ela se casar, eu tentei visita-la na sua nova casa. Ao chegar lá eu ouvi uma música, mas não uma música exatamente alegre, parecia na verdade uma música triste, se eu acreditasse nessas coisas diria que quase beirava ao lirico, ao mágico, eu entrei praticamente em um transe, não me lembro muito bem o que aconteceu depois, só sei que acordei no dia seguinte no meio da floresta, e já não chovia mais, eu não me lembro até hoje o que aconteceu, alguém deve ter me levado lá, talvez tenha alguma relação com drogas, afinal nunca foi algo muito secreto as reuniões que o Luiz e João faziam regadas a álcool e drogas. Quando cheguei em casa encontrei na porta de casa uma carta pedindo para eu não me meter mais nesses assuntos, afinal eu ainda tinha uma criança para criar, você tinha ficado a noite com a nossa vizinha que já estava preocupada achando que eu tinha abandonado você, igual sua mãe. Você estava chorando, com febre, e totalmente inquieta, só acalmou-se novamente de noite quando a chuva começou novamente. Eu pensei em ir novamente atrás de respostas, mas você era o mais importante naquele momento, e na verdade eu fiquei apavorada.
—- Tia você foi na delegacia? Eles não fizeram nada?
—- Eu procurei a policia, só que o delegado sempre foi muito próximo do sr. Marcel, ele jurou que iria investigar, mas até hoje nunca ouve nenhum sinal de investigação do caso por parte da policia.
Eu abraço minha tia, enquanto escuto o som da chuva batendo na janela da cozinha, e o som do trovão que parece estar a quilômetros de casa. Conforme o som da chuva aumenta e eu continuo a abraçando, eu percebo que o meu medo diminuiu, e no lugar sinto raiva, e um desejo de justiça por tudo que essa cidade, essa família já fez conosco. Eu sei que sou apenas uma adolescente, mas isso não significa que eu sempre vou ser assim, além disso, o Miguel Almeida também é só um adolescente, ele sim pode ser uma porta de entrada para essa família, pelo menos não custa nada tentar.
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