Diary of a Savior
13 Confusões Amorosas
Notas iniciais
“Eu sei que sou só uma amiga pra você
Que eu nunca vou chegar a te chamar de meu
Mas eu continuo te amando
Desculpe, desculpe, eu te amo
Eu não quis dizer o que eu disse
Sinto sua falta, estou sendo sincera, tentei não sentir
Mas não consigo te tirar da minha cabeça...”
(Your Type, Carly Rae Jepsen)
Eu me sentia fraca por fora e vazia por dentro, mesmo que acordasse todos os dias, matasse errantes e procurasse suprimentos e lugares seguros. Fechar os olhos significava ter a visão do inferno na forma dos meus piores pesadelos, aqueles próximos demais da realidade.
Sem esperanças de que as coisas mudassem, sem ter no que me agarrar para acreditar que continuar vivendo não era em vão. Mas, no final das contas, a vida se resumia apenas a viver para sobreviver e respirar para não morrer.
Sem razão, sem motivo, sem sentido.
Até que um dia voltei a vizinhança das melhores lembranças da infância numa crise de preciso relembrar o passado e me afogar num oceano de lágrimas em melancolia e por sorte, parei no lugar certo, na hora certa, sem desconfiar que a minha vida mudaria de formas inimagináveis dali em diante.
E então fui resgatada pelo parente que nunca nutrira afeto algum e que nunca, nem por uma fração de segundos, acreditei que estivesse vivo. Mas estava e pertencia a um grupo forte com residência fixa em um lugar seguro. Seguro o bastante para ser chamado de lar. Algo comum no velho mundo, mas uma raridade quase inexistente no novo em que vivemos. E lá estava eu sendo acolhida por pessoas boas e gentis numa prisão cercada por muros, separada dos perigos do lado de fora, com uma nova melhor amiga e um garoto que me causava sensações intensas e sentimentos indescritíveis além de prolapsos nervosos e cardíacos. Aquela era a melhor vida que eu poderia ter no mundo pós apocalíptico.
Se fosse verdade. E, infelizmente, acabei descobrindo que a única verdade real e concreta era que, não importava se estava dentro ou fora da prisão, sozinha ou acompanhada por outras pessoas, os problemas continuavam a existir e nunca seríamos capazes de dizer que estávamos bem, obrigado, porque nunca estaríamos bem de verdade. Isso ficou ainda mais evidente nos dias seguintes quando as coisas começaram a ficar tensas e difíceis no lar chamado prisão.
Com o insucesso da última missão, os estoques e armários começaram a ficar vazios e empoeirados, as refeições cada vez mais racionadas e simples; a proximidade do inverno era mais um problema que indicava o quanto precisávamos de suprimentos alimentícios armazenados e roupas de frio ou estaríamos congelados dentro de poucas semanas. E não podemos nos esquecer do drama que é a convivência humana de tantas pessoas diferentes concentradas em um lugar só.
Descobri naquele café da manhã que a novela estava longe de terminar e as fortes emoções estavam apenas começando para a sorte ou o profundo azar da protagonista.
— Tudo?
— Nada.
— Qual é, Mia. Você sabia desde o início que o Patrick tinha uma queda por você. Queda não, um baque. Ele é um doce com todo mundo, gosta de ser prestativo e acolher aos novatos, mas com você foi bem diferente do que com os outros que chegaram por aqui — Beth Greene deu uma colherada na gororoba de arroz, ervilhas e nozes que estava sendo servida e cuja consistência me causava falta de apetite. É, eu tô cuspindo no prato que já comi, porque vale mais um estômago vazio do que um embrulhado por porcaria. Desculpa pela sinceridade, Carol— Tem certeza de que ninguém viu você e o Carl na enfermaria?
Soltei um suspiro e olhei na direção do garoto esguio e de óculos fundo de garrafa que comia cabisbaixo do outro lado do refeitório, sem a alegria e tagarelice matinal. A última vez que ele olhara pra mim tinha me assustado com tamanha indiferença e frieza vinda de alguém como Pat. E, por mais que eu desejasse o contrário, dessa vez a treta era mesmo comigo, por que Carl não estava perto dele e nem em lugar nenhum do refeitório.
— Eu não sei nem se nós estamos namorando e não é justo, Beth — Desviei o olhar. Céus, como vou encher o meu estômago com isso? — Mas que merda. Quando não é uma coisa, é outra. Quanto mais vou me ferrar nessa vida até que a minha boca encha de formigas?
— Calma, Mia. Entenda que o Patrick gosta de você e estava sendo legal, e você estava correspondendo a amizade dele, enquanto brigava com Carl feito cão e gato. E no final das contas está com Carl e não com o Pat — Fiz uma careta, por que a história contada desse ângulo me tornava a vilã da trama e Patrick o mocinho sofredor e injustiçado — Não me olhe com essa cara, mocinha. Estamos falando de garotos e garotos são natamente complicados, garotos são sinônimos de problemas. Ele era um bom amigo, mas se quer ficar com o Carl não pode estar acompanhada o dia todo por Patrick.
— Está querendo me dizer que eu tenho que escolher entre os dois? — Achei a ideia absurda demais pra ser verdade. Sim, eu não entendo as regras e minha inteligência é nível trasgo saudades do Potter quando se trata de garotos.
Beth arqueoou as sobrancelhas.
— Você já fez a sua escolha mesmo que inconscientemente. Não pode ser namorada do Carl e amiga do Patrick. Mas o Patrick não quer só a sua amizade, Mia — Ela levantou do banco e recolheu os nossos pratos — E nem o Carl não vai querer você perto demais do Patrick.
— Os dois são amigos, ou pelo menos eram, e tá parecendo que eu cheguei e acabei com tudo, Beth. Que eu dei mole pra um e peguei o outro — Eu e minha linguagem largadona demais — E o Carl está agindo como...
— ... Como um panaca, mas se quiser ter um relacionamente com ele vai ter que se habituar ao jeito dele. Ele ainda não aprendeu a conviver com a série de traumas pelos quais passou e a maior parte da frieza dele vem disso — explicou minha psicóloga pós apocalíptica— Eu tenho que ir cuidar da Judy. Mia, o Pat vai superar. Apenas se preocupe em beijar o Carl como se o mundo fosse acabar amanhã ou agora mesmo.
Ela piscou e me deixou com cara de idiota por estar conhecendo o lado mais despojado um tanto quanto bitch da minha nova melhor amiga. Ela tinha razão como sempre, é verdade, mas era algo surpreendente de se ouvir da parte de Beth Greene. Não adiantava ficar parada supondo como as coisas deveriam estar entre Carl e Patrick ou se eu, Milena Dixon Marshall, estava mesmo namorando Carl Grimes. Eu tinha que admitir a minha parte como o pivô da história mesmo que não fosse a culpada ou a vilã da trama inteira e aceitar que o universo sempre seria um lugar complicado demais quando se tratava do projeto de cowboy e a sua garota bruta-sentimental.
Contra a minha vontade e pela dos outros, tinha residido na enfermaria nos últimos dias sendo declarada incapacitada e inútil para as tarefas da prisão, exceto aquelas em que comia e bebia sem dar maiores contribuições para a sobrevivência do restante da humanidade. Nesse meio tempo, Beth alternava com Maggie entre cuidar da Judith e de mim, enquanto Carl trabalhava como um robô na horta de dia e a noite passava na enfermaria para perguntar como eu estava quando a garota dele já dormia profundo o bastante pra não responder pessoalmente.
— Queria que alguém no universo me explicasse a bipolaridade do filho do Rick — comentei com Maggie num monótono dia enquanto ela refazia os meus curativos. Fato era que Mr. Grimes não podia ser definido como um Edward Cullen no Crepúsculo do fim do mundo, mas se eu era a sua garota, custava ele ser mais o meu garoto também?
— Dê um tempo a ele, Mia. O Carl ainda está se acostumando a ceder aos próprios sentimentos e se permitir amar alguém — disse Maggie. Ouvir o verbo amar me deixou cabreira e de cabelo em pé. Amor? Você disse amor?— Ele tem medo da perda, mas quer ficar com você. Ele quer ficar com você e tem medo de te perder. Não sabe como agir, o que pode ou o que não pode fazer.
— Eu estava bem sem um namorado e não sabia, e mesmo assim ainda quero o panaca perto de mim — Franzi as sobrancelhas ao notar a confissão que acabara de fazer em voz alta — E olha só no que me transformei pra estar admitindo isso pro mundo!
Ela deu risada com a minha percepção melodramática e irônica. Sério, minha vida se tornou uma novela cômica sem fim.
— Se for sempre as mil maravilhas, acredite, não é verdadeiro e real. O amor é a união de duas pessoas imperfeitas com personalidades e histórias diferentes que decidiram amar os defeitos e as qualidades um do outro e escreverem uma história em conjunto — explicou Maggie sonhadoramente. Prestei atenção em cada palavra que a irmã da Beth me falava, quem sabe, não encontrava a chave para montar o quebra-cabeças chamado Carl? — Carl se tornou uma pessoa bem diferente desde a sua chegada. Você o mudou quando ninguém mais foi capaz de fazer isso.
— Por que eu?
— Não importa o caminho, Mia. Às vezes a gente só precisa é de alguém que segure a nossa mão. De outros pés que acompanhe os nossos passos. De um coração batendo ao lado. No mesmo compasso.
E ficou definitivamente comprovado que a filosofia romântica pós apocalíptica era um mal de Greene. Beth e Maggie teriam se dado bem no velho mundo como poetas, filósofas ou psicólogas. Quanto tempo demoraria até que as barreiras entre Carl e eu fossem quebradas e nos entendêssemos completamente?
Depois de responder a todos os que me perguntavam no caminho que estava bem e que recusaram a minha ajuda me deixando sem ter o que fazer, pensava nisso tão distraídamente ao voltar para a minha cela aleluia, finalmente que deveria ter desviado no trajeto ao vê-lo vindo na direção oposta. Parece que a vida gosta particularmente de nos bater de frente com as pessoas que menos gostaríamos de nos encontrar em determinados momentos só pra ferrar mesmo.
Tentei não encará-lo, mas quando cruzamos os nossos olhares foi perceptível a mistura de raiva, mágoa e indiferença no olhar de Patrick dirigido a mim. Aquilo me incomodou profundamente por que (1) fazia me sentir culpada quando não era a culpada, (2) me tornava a bruxa má do conto de fadas e (3) é injusto, injusto comigo, injusto com Carl e injusto com ele mesmo. Dei meia volta e o chamei pelo nome disposta acabar com aquilo, por que eu enfrento problemas e não fujo deles como uma patricinha com medo do serial killer do filme. Ele simplesmente me ignorou o que só serviu pra me deixar irritada e continuar seguindo-o para fora do bloco C.
— Será que dá pra parar de agir como uma criança?
— Tenho que trabalhar na horta e não posso perder tempo conversando com você. Acho que ainda não percebeu, mas as coisas por aqui não estão muito boas — Ele tentou manter o tom normalizado, mas a frieza estava ali, presente — Para de me seguir e vai procurar alguma coisa pra fazer.
— Não está sendo justo comigo, Patrick. Eu não fiz nada com você.
— Eu estou bem, obrigado — Ele adiantou as passadas e eu tentei manter o mesmo ritmo. Ridículo.
— Mentir é feio.
— Fingir que se importa também.
— Qual é o seu problema? O que você acha que está sabendo sobre mim que eu mesma não sei? — gritei — Deveria parar de se esconder atrás dos livros e resolver os problemas como um homem de verdade!
Ele parou e virou pra mim com uma ira ardente nos olhos, algo inédito desde a psicopata com a metralhadora que queria me matar. Droga, pensei, arrependida. Fundo demais.
— Patrick...
— Cala a boca. Não precisa falar nada, por que eu vi tudo, Mia. Eu estava preocupado com você e quando a Karen contou... Vi vocês dois. Você e o Carl se agarrando como... — gritou, alto demais. Algumas pessoas à distância e entretidas nos seus afazeres começaram a nos observar. Senti o meu rosto empalidecer ao mesmo tempo em que avistei Carl parado de onde trabalhava na horta, olhando na nossa direção. Engoli seco — O Carl não gosta de você. Ele só quer se distrair dos traumas incuráveis dele e depois vai sofrer quando enjoar desse seu jeito mandão e tão arrogante quanto o dele, e no fundo não passa de uma garotinha que grita com os pesadelos de noite. Eu achava que você era diferente das outras, mas a verdade é que não passa de uma vadia. A vadia do Carl.
Como num filme triste chorei ao ouvir aquelas palavras que tiveram o impacto de facadas no meu peito. Não sei por quais motivos ou razões, mas a tristeza quando me vem tem o efeito reverso ao esperado. O meu instinto de autodefesa é ativado e ela se transforma em raiva, instantaneamente. Patrick tinha sido amável desde o início, um amigo cuja amizade esperava conservar pelo tempo que durasse a minha estadia na prisão e agora tinha se referido a mim com a palavra mais sobrepujante e cruel que se pode usar com uma garota. Era a minha vez de descarregar a fúria que estava sentindo e estourar como uma bomba relógio cronometrada prestes a explodir no fim da contagem.
Acertei um soco no nariz de Patrick que cambaleeou com o impacto, tombando no chão, e mesmo assim ainda não era suficiente para descontar a raiva, a decepção, o desprezo, tudo que estava sentindo. Várias pessoas correram em auxílio de Patrick, cujas narinas sangravam abruptamente, ou acompanhar mais de perto a confusão, enquanto eu tomava consciência do que tinha acabado de ter feito. Senti uma mão agarrar violentamente o meu braço e enterrar as ruas como se enterra uma pá num terro, e me arrastar aos trancos e barrancos de volta ao bloco-casa.
— Me solta! Me solta, seu idiota! — Tentei me soltar das mãos de Daryl, mas ele era mais forte do que eu e parecia tão furioso quanto. Adentramos no bloco C e o meu tio me arrastou até a sala de reuniões do conselho, me empurrando com tanta força que despenquei no chão. Mas não se me dar um tapa no rosto que só não foi mais violento por causa dos meus cabelos.
— Sua fedelha estúpida, o que acha que está fazendo? Por acaso pensa que pode fazer tudo o que quer por aqui? — vociferou Daryl. Soltei um gemido de dor ao sentir o rosto esquentar com a batida e estupefata demais para formar palavras, insultos ou xingamentos.
Ele me bateu. O Daryl me bateu, pensei sem acreditar.
— O que está acontecendo aqui?
Levantei o rosto apenas para ver Rick, Glenn e Maggie entrando pra sala de tortura familiar. Beth chegou alguns segundos depois, sem Judith no colo, e se aproximou de mim com os olhos arregalados.
— Mia, o que deu em você? Você parece que vai explodir — Ela me ajudou a levantar ao tempo em que a porcaria das lágrimas escorriam silenciosamente pelo meu rosto — O que aconteceu entre você e o Pat? Calma, vai ficar tudo bem.
— O garoto xingou ela por causa do Carl e a fedelha resolveu dar uma lição nele. É uma Dixon que não engole desaforo de jeito nenhum — disse Daryl. É impressão minha ou esse não foi exatamente um ataque?— Eu teria feito coisas bem piores com aquele moleque ousado.
E saiu como se nada tivesse acontecido. Primeiro prova o quanto me odeia e depois me salva duma orda de zumbis. Depois, me bate e me xinga e logo em seguida me defende dizendo que teria feito coisa bem pior do que ter dado um soco. Alguém pode me explicar que raios de família maluca é essa em que eu nasci?
— Alguém chama o Carl aqui pra resolvermos isso de uma vez. Se ele não vier de boa vontade, podem arrastá-lo a força pra cá. Quero saber exatamente o que aconteceu para punir o culpado por essa confusão — Ele colocou as mãos na cintura daquele jeito autoritário que costumava fazer e apertou os olhos ao olhar pra mim. Estranhamente, ele parecia zangada, mas não zangado o suficiente para estar zangado de verdade. Vocês são inteligentes e entendem-me— Temos milhares de preocupações nesse momento e não ajuda em nada vocês três ficarem se estapeando por aí.
Fudeu, pensei. Mas que merda. Suspirei esfregando o rosto com a mão numa tentativa frustada de amenizar o ardor do tapa que tinha levado totalmente de graça. Agora a minha vida passou de uma maravilhosa novela das nove a um filme digno de trezes Oscars.
Não demorou para que Carl chegasse com uma expressão mista de preocupação e confusão, completamente vermelho e suado por trabalhar na horta no sol quente da manhã ou quem sabe pelos últimos acontecimentos do nosso drama de um quase triângulo amoroso. Ele se aproximou de onde estávamos sem saber o que dizer, apenas tentando encontraram as palavras que pareciam ter lhe fugido repentinamente.
— Ele viu — avisei-o.
— Quem viu o quê? — perguntou Beth.
— Eu e o Carl. Patrick.
Carl soltou um suspiro.
— Mia, quando tudo isso acabar, vamos colocar uma compressa no seu rosto, tudo bem? — Assenti e as testemunhas do meu crime caíram fora, deixando apenas nós três pro julgamento. O juiz Rick encostou a porta e cruzou os braços com o olhar reprovador alternando entre eu e o filho.
— Quem vai ser o primeiro a começar a me explicar o que está acontecendo? Eu não sou idiota e já tinha reparado que você e o Patrick não se falam mais e não sentam mais juntos no refeitório — disse Rick Grimes — O que foi que você fez, Carl?
— Eu não fiz nada. Por que a culpa tem que ser necessariamente minha?
— Como assim você não fez nada?
— Ele simplesmente parou de falar comigo de uma hora pra outra e...
— A culpa disso tudo é minha, Rick. Eu sou uma pessoa impulsiva e o Pat me disse algo que não gostei nada e... — Assumi a carga de responsabilidade apenas para não contar os reais motivos da confusão. Sabe, sobre o que Patrick viu e não deveria ter visto— Eu bati nele com mais força do que deveria.
— Por que bateu nele?
Silêncio parecido com o de um funeral. A minha cara voltou a arder, mas dessa vez por que causa da vergonha de se colocada contra a parede pra contar uma coisa daquelas. E foi assim que perdi toda a moral com o homem que seria o meu sogro.
— Eu vou fazer uma pergunta e quero que me respondam sinceramente ou não pisam mais os pés do lado de fora da prisão e serão mandados cada um para um bloco — ameaçou ele. Céus, como foi que me meti nisso?— Vocês dois estão juntos?
Eu e Carl nos entreolhamos, envergonhados e em silêncio modo sepucral, por que as revelações começariam a vir a tona. De que adianta tentar esconder o que está mais do que na cara? Em uma outra vida poderia enflamar o meu ego por ser o pivô de um relacionamento no meio do apocalipse zumbi.
— Pai, sério mesmo?
— Apenas respondam a minha pergunta.
Já chega, pensei. Deixa eu dar meu jeito antes que a merda fique mais bosta ainda.
— O Carl foi me visitar na enfermaria e eu dei um beijo de agradecimento nele. O Patrick viu e ficou com ciúmes, por que... — Sua covarde, vai culpar mesmo a vítima? — Por que ele é muito amigo meu. Ou pelo menos era, mas isso não importa. Eu vou pedir desculpas pelo soco que dei nele, ele vai se desculpar por ter me xingado e vamos ficar todos bem.
Rick apertou os olhos como se detectasse o conto da carocinha na minha história fajuta de meia tigela.
— Pai, eu gosto da Mia. Gosto da Mia de verdade, mas o Patrick gosta dela também — Abaixei a cabeça querendo cavar um buraco e enterrar minha cara dentro. Droga, a culpa é minha — Na verdade, gostava dela bem antes de mim e...
— Eu nasci ontem, filho. É claro que você gosta dela, mas e aí? Você vai namorar com ela ou vai ser o Patrick que vai fazer isso? — E a minha dignidade rolava como uma bola de gude de um lado pro outro. Eu tinha certeza que não olharia para ninguém nunca mais — Por que eu estou começando a pensar que as armas brancas deveriam ser confiscadas de vocês, pro caso de algum dos dois tentar eliminar o outro da jogada.
— Pai, para com isso.
— Vai ou não, garoto?
— Pai...
— Não seja idiota, filho. A garota está bem ao seu lado apenas esperando você fazer o pedido. Vai perder mesmo essa grande oportunidade?
Reuni toda a coragem que me restava e levantei a cabeça apenas para confirmar que tudo não passava de uma brincadeira do Mr. Grimes-pai. Rick estava com a expressão mais divertida que eu já tinha visto nele e parecia achar graça nas nossas reações que variavam de vergonha (eu) à profunda irritação por vergonha (cowboy). Não pude deixar de soltar um suspiro aliviado por não estar tão ferrada quanto pensava.
— Tudo bem, vou deixar que vocês dois resolvam isso, mas aviso de antemão que se o Carl não for rápido vai acabar perdendo pra concorrência — Ele pigarreou como se se sinalizasse que começaria a falar realmente sério dessa vez — O Patrick está magoado com vocês dois e é quase saudável essa confusão toda, por que prova que estão vivendo, mesmo que seja para brigarem pela garota nova do pedaço. Mia, você deve um pedido de desculpas ao Patrick por quase ter rachado o crânio dele. Tenho certeza que ele vai pedir a você também por tudo o que disse sem pensar. Caso isso não aconteça, me avise.
Ele já iria sair, mas voltou e acrescentou:
— E Carl, eu não quero nem saber, você vai pedir desculpas a ele também. Furou indiretamente o olho do seu amigo e isso não se faz, filho — intimou o filho que revirou os olhos — Espero que nada parecido se repita outra vez. Daqui a pouco o conselho vai se reunir e quero os dois presentes na reunião. Precisamos tomar algumas decisões importantes.
— E nós definitivamente precisamos conversar – Olhei para Carl com cara feia.
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