Diamond: A história de uma loba
35 Juntos novamente
Notas iniciais
Diamond
Estava caminhando sem rumo, como de costume. Um pouco distante do território, talvez. Ok, bem distante. Mas eu daria meu jeito para voltar, não sou estúpida.
Já era noite, e a Lua estava imponente no céu estrelado. Parei minha caminhada para observar – havia mais nuvens do que ontem, mas ainda era possível ver algumas estrelas, no entanto. Mas nenhuma nuvem sequer estava próxima à Lua, deixando-a brilhar solitária no céu.
Sinceramente, observar o céu me deixa mais feliz.
Após minhas atividades terem sido cumpridas, continuei andando. A noite estava fria e eu não via nenhuma lebre para atacar. Eu não enxergava nenhum sinal de vida, na verdade. Um coiote aqui ou acolá, um vulto ali, mas nada muito concreto ou comestível.
Então, ouvi passos. Rapidamente virei-me para trás e lá estava um lobo macho, de porte grande e pelos castanhos. Intrigada, funguei o ar e senti um cheiro que não queria sentir – marcação de território. Eu estava em uma área demarcada e nem percebi. Engoli em seco.
Talvez eu seja mesmo estúpida.
— Quem é você? Como se atreve a invadir meu território? – ele rosnou. Seu pelo estava arrepiado, e ele não parecia estar para conversa.
Meus músculos estavam prontíssimos para uma fuga, mas resolvi tentar explicar as coisas. Provavelmente seria impossível, mas não custava nada tentar.
— Ahn, eu sei que vai ser difícil de acreditar, mas eu entrei aqui sem querer. – me embolei com as palavras. O macho não tirava seus olhos de mim, e eu estava assustada. – Eu estava apenas vagando por aí e não senti o cheiro. Me desculpe.
Ele arqueou uma sobrancelha e se aproximou mais, contudo, seus pelos voltaram ao normal e suas feições demonstravam neutralidade. Mas eu sabia que ele poderia tentar um ataque surpresa, então estava entrando em pânico.
“Correr ou não correr? Correr ou não correr?” – podia sentir meu coração acelerando cada vez mais. Eu não havia sido treinada para lutas, então atacar não era uma opção. É claro, eu sabia como lutar, mas esse lobo parecia ser um alfa. Beta, no mínimo. Ele era bem mais experiente e forte do que eu, logo minhas chances não seriam as melhores.
— Não fuja. – permaneci estática. – Boa menina.
Ele me farejou para, então, se afastar e grunhir.
— Você não é dispersa.
Apenas assenti e ele rosnou.
— Assim você dificulta as coisas, branca. – o lobo riu baixo. Branca. A palavra me deu arrepios.
— Eu não sou uma ameaça! – deitei-me no chão de barriga para cima, demonstrando submissão. Eu estava com muito medo.
— Você não vai ficar aqui. – ele se preparou para me atacar, mas eu fui mais rápida e rolei para o lado. Rapidamente me levantei e comecei a correr. Estava longe demais de casa, e ir até lá seria burrice, já que eu automaticamente levaria um lobo estranho e furioso para lá também. E se ele resolvesse atacar nosso território também? Não podia correr o risco.
Decidi ir para a floresta. Com minha destreza, poderia despistá-lo pelas árvores. Era a melhor coisa que eu podia fazer.
— Volte aqui! – ouvi o macho. Ele parecia estar a uma distância considerável de mim, o que era bom, mas não tive a coragem de olhar para trás.
Após alguns minutos de perseguição frenética, comecei a adentrar na floresta. Ainda ouvia sua respiração ofegante e suas patadas pesadas, então apenas continuei correndo. Mas o medo, somado ao cansaço e à adrenalina, estava tomando conta de mim. Eu iria perder.
— Socorro! – gritei. Se houvesse algum bom lobo por essa floresta, ele iria me ajudar.
Eu acho.
— Socorro! – o segundo grito saiu mais desesperado. Senti a distância entre mim e o macho aumentar um pouco novamente.
Então ouvi um uivo. Um uivo baixo e familiar, que parecia dizer “Estou aqui, vou te ajudar!”. Resolvi segui-lo, mas também tinha que demonstrar não ter ouvido. Fiz diversas curvas por entre as árvores, e quando notei que a distância entre meu perseguidor e eu havia crescido mais, corri para uma região mais escura, onde a luz da Lua mal chegava. O uivo havia vindo de lá.
Me encolhi no meio das sombras, fechei os olhos e prendi minha respiração. Ouvi os passos do lobo, assim como uma lufada de ar.
— Hmph, melhor voltar para casa.
Depois de mais alguns segundos, voltei a respirar e abri meus olhos vagarosamente. Ele havia mesmo ido embora. Senti algumas lágrimas escorrerem pelo meu focinho. Quem diria que uma noite de exploração levaria a tudo isso? Pela Deusa.
— Você está bem? – uma voz masculina me perguntou. Enfim me lembrei de que alguém havia me ajudado. Olhei para o lobo, que possuía pelos alaranjados, que estavam eriçados. Seu olhar estava quase perdido. Ele parecia quase tão assustado quanto eu.
— Sim... Graças a você. – sorri. – Muito obrigada. Mesmo. Eu poderia estar... morta, se não fosse você.
— Sem problemas. – suas orelhas se encolheram. Ele me fitou por alguns segundos e então desviou seu olhar. Resolvi farejá-lo.
Ele se afastou rapidamente quando me aproximei.
— Calma, eu não vou te morder! – ri baixo e ele me encarou novamente, quase incrédulo com a minha fala. Seu cheiro também era muito familiar. Parecia até cheiro de pinhas. Pinhas e... terra molhada.
Não.
Não podia ser.
— R-Radius, é... v-você? – gaguejei enquanto mais lágrimas ameaçavam sair.
Parte de mim continuava dizendo que era impossível, mas outra parte só queria que fosse verdade, para o abraçar e dizer o quanto o amava.
— É... sou eu mesmo, Princesa. – ele suspirou e sorriu.
Minha mente quase entrou em colapso. Radius estava vivo. Ele esteve vivo todo esse tempo. Abracei-o e comecei a chorar.
— O-onde você esteve? Eu senti tanto a sua falta! – eu revelei entre soluços. Ainda não conseguia acreditar que ele estava ali, na minha frente. – Meu pai... ele disse... que você tinha morrido.
— Eu também senti a sua falta. – ele fungou. – Mais do que você imagina. Mas eu tive que ir embora. Seu pai e eu, nós...
— Vocês brigaram. Feio. Eu sei.
Radius engoliu em seco.
— É. Eu fiquei com medo de que ele realmente fosse me matar, então me fingi de morto. – ele contou. – Assim, quando tive a oportunidade, fugi. Eu passei esse tempo todo em Slough Creek.
— Slough Creek?! – eu estava surpresa. – Por que foi pra lá?
— Eu estava com muito medo, Diamond. Eu não sabia o que seu pai queria comigo, ou o que ele faria se me encontrasse.
Finalmente tirei meu focinho do ombro de Radius e o encarei.
— Bem, ele... ele se arrependeu amargamente do que fez. – soltei um suspiro. – Ser um assassino era algo que ele realmente não queria ser.
Radius apenas assentiu e lambeu minha bochecha.
— Mas você voltou. Você ia me procurar? – perguntei.
— Não...
— Oh. – franzi o cenho.
— Eu imaginei que você talvez já tivesse seguido com sua vida. – ele disse. – Eu iria voltar e talvez nós nunca mais nos veríamos. As coisas continuariam do jeito que estavam. Mas acho que a Deusa Loba gosta mesmo de nós dois.
Dei um sorriso e me deitei.
— Isso é bom.
— Sim, é. – o lobo alaranjado se deitou ao meu lado, e eu encostei minha cabeça em seu ombro.
Era tão bom tê-lo de volta. Sentir seu cheiro novamente, ouvir sua doce voz. Ele estava vivo.
— Amanhã eu irei te apresentar para a alcateia. – falei em meio ao nosso silêncio.
— O quê?
— Nós ainda somos companheiros, certo?
— Claro! – ele lambeu meu focinho. Senti um calor aconchegante.
— Você poderia ficar comigo, na alcateia. – diminui meu tom de voz, temendo que ele não se interessasse pela ideia. – Você sabe... se tornar parte dela.
— Me parece bom. Poderei acordar com você ao meu lado.
— Se Mike não se enfiar no meio antes. – ri com a imagem formada em minha mente. Parecia perfeito.
Radius apenas continuava me olhando. Eu quase havia me esquecido do quão lindos eram seus olhos castanho-esverdeados.
— Eu preciso dormir. – anunciei.
— Pode descansar. – ele falou. – Eu acabei de acordar de um cochilo, então vou durar mais um tempo.
— Tudo bem. Eu te amo.
— Eu também te amo, Princesa.
Era tão bom poder ouvir isso de novo. Eu não estava sonhando. Radius realmente estava ali, comigo. Apenas eu e ele. A Deusa Loba havia nos dado mais uma chance, e eu não iria desperdiçá-la.
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