Diabolismo

6 Uma noite quente como o inferno


o grande letreiro digital marcava 39°

na noite de Fortaleza

e as pessoas falavam alto demais

e os prédios se erguiam a cada passo que se dava e cresciam

e floresciam aos andares apressados

e desapareciam com a mesma velocidade do bater

das asas de um beija-flor.

as mulheres estavam em casa com os filhos,

ou soltas como leoas famintas em baladas VIP.

as mulheres ficavam em casa se masturbando com a ponta da escova de pentear

ou trepando com um (des)conhecido qualquer

enquanto os maridos trepavam com suas secretárias, suas assistentes,

alunas, filhas, enteadas...

os homens estavam todos presos, loucos e imundos.

não era de admirar que existissem tantos hospícios,

tantas prisões,

grades e cadeias

todos estavam jogados na sarjeta,

seja das ruas ou das prisões ou dos hospícios.

as pessoas imploravam para serem presas,

os enfermos sem alma morriam antes de conhecer

o inferno do xadrez.

e há homens demais

agindo como retardados psicopatas

e criando

dramas suicidas

e bebendo demais e fumando demais

e frequentemente há caralhos demais fudendo bucetas demais

mas não há poesia.

a poesia não existe no vácuo,

a poesia não existe por si só.

a poesia não nasce por causa da decadência,

nem por causa do odor fétido dos hotéis ou dos corpos empilhados

ou dos becos escuros que fediam à doença e morte

ou das prisões ou das crianças estupradas.

todos estavam presos no mesmo inferno

seja morrendo em prisões lotadas em meio às rebeliões carcerárias,

seja atirados nas ruas cheirando o vômito dos viciados

e bostas de cachorros vira-latas,

seja em hospícios imundos e mal cuidados,

onde os loucos não entram,

os loucos não existiam do lado de fora das paredes mas eram

criados

do lado de dentro.