No sábado seguinte, Minato e Haru estavam deitados na cama de Minato. Ouvindo música, os dois folheavam algumas revistas. Seu quarto era ligeiramente bagunçado, porém Haru sentia-se a vontade. Não se importava com arrumações, mesmo seu próprio quarto sendo impecável em relação à organização.

Ao virar mais uma página, ela suspirou.

— Né, o que vai fazer? Sabe, no futuro.

— Hum. – ele pensou – Me casar, ter filhos e viajar.

— Nessa ordem? – ela achou graça – Por que não viaja antes de se casar?

— Porque quero viajar com minha esposa. Acho mais legal viajar com alguém.

— Hum. – ela concordou.

— E você?

— Quero me casar e ter um filho.

— Um? – ele perguntou, virando a página de sua revista.

— É. – achou graça – Não que eu não goste de ter uma família grande, mas não sei se conseguiria sentir aquela dor várias vezes. Minha mãe é mesmo corajosa. – riu.

Minato sorriu.

— Você vai ser uma boa mãe. É meio maluca, mas acho que vai ser.

— Não sou maluca! – ela exclamou, deitando-se de lado e encarando-o.

Ele riu, abaixando a revista e olhando-a. Haru estreitou os olhos, emburrada. Minato sorriu, apertando levemente seu nariz e rindo ao vê-la exclamar e se encolher. Voltou a ler a revista enquanto Haru esfregava o nariz, olhando-o em seguida.

— Né, eu acho que Mai gosta de Shirou.

— Por quê?

— Shirou fez uma surpresa para Kaya no dia dos namorados.

— É. – riu, voltando a ler a revista – Eu estava lá, esqueceu?

Ela suspirou.

— Quando ele fez essa idiotice, Mai pareceu ter ficado triste. E depois que Kaya saiu, ela também saiu do refeitório. Eu fiquei observando Mai depois disso. Ela olha muito pra ele e quando ele sorri para Kaya ou para qualquer outra garota, ela desvia o olhar.

— Não sei dizer se ela gosta dele. – Minato virou mais uma página – Mai é bem reservada quanto a isso.

— Hum. – concordou, semicerrando os olhos – Foi a primeira vez que a vi assim.

Minato a olhou, virando o rosto em sua direção. Suspirou, fechando os olhos e deixando a revista de lado. Deitou-se de lado, olhando-a.

— Ei, não fique assim. Se ela não está pronta para se declarar, deixei-a. Cada pessoa tem o seu tempo.

— Ela não deve querer por ele gostar de Kaya. Além disso, Shirou é um idiota. Ele disse que gosta dela, mas fica dando atenção para qualquer garota.

Ele achou graça.

— Sente ciúmes do próprio primo?

— Não. Apenas não acho justo. Se ele gosta de Kaya, tem que provar. Parar de chamar atenção para si e falar sério com ela. Mesmo ela recusando, pelo menos vai saber.

— Acha que ela vai recusar se ele fizer isso?

— Kaya não gosta de Shirou. O máximo que ela sente por ele é amizade. Somos todos primos, é nojento!

Minato riu.

— Mas fico triste por Mai. – disse ela – Às vezes me coloco no lugar ela. Gostar de alguém que gosta de outra pessoa é doloroso.

— Você já passou por isso?

— Não. – fitou-o, deixando um sorriso escapar – Nunca nem beijei. – confessou.

Minato elevou as sobrancelhas, surpreso.

— Nunca?!

— Não precisa essa surpresa toda. – ela franziu as sobrancelhas – Quero que seja com alguém especial.

Ele conteve a risada. Haru socou seu ombro, fazendo-o rir.

— Pensei que já tinha beijado milhares de garotos!

— Está achando que sou o que? – ela exclamou – E você?

— Claro. – sorriu.

Haru semicerrou os olhos, emburrada.

— Já transei. – disse ele.

— Eh?! – ela enrubesceu, arregalando os olhos – Não diga algo assim pra mim!

— Ah, foi mal. Às vezes esqueço que você é uma garota.

Ela levantou o punho para soca-lo mais uma vez. Minato o segurou, rindo.

— Não estou falando que você parece um garoto. Apenas que não a vejo dessa forma. É diferente quando um garoto é amigo de uma garota, mesmo eu não acreditando muito nisso. Mesmo assim, seus irmãos e primos são meus amigos. Então eu tenho que te ver como uma irmã.

— Como assim não acredita nisso?

— Ah, hum. – ele pensou – Uma das partes sempre está interessada. Tipo isso.

Ela abaixou o olhar, compreendendo.

— Né... Com quantas?

Ele a olhava e arregalou os olhos, corando e sentando-se após largar sua mão.

— E-Eu não vou te contar isso.

— Só um número. – ela riu, sentando-se.

Ele virou o rosto, semicerrando os olhos.

— Não sou Akashi, mas foram algumas.

Haru ruborizou, pondo as mãos na cabeça.

— Eca!

— O que foi?! – ele a olhou, assustado.

— Eu não precisava saber que Akashi fazia isso!

Minato achou graça, gargalhando.

— Você é muito inocente.

— Não sou não!

— Virgem.

Ela franziu as sobrancelhas, corando ainda mais.

— Pare de falar isso!

— Você nunca nem beijou! – ele riu.

Haru encolheu os ombros e desviou o olhar, envergonhada. Ao parar de rir, Minato a olhou e desfez o sorriso, vendo sua expressão. Ela não achou graça, parecia triste.

— Ei...

Haru abaixou o olhar.

— Não deboche de mim assim. Tem muitos garotos que querem alguém como eu.

— Não estou debochando. – ele sorriu – E... Eu sei disso.

Ela o olhou, abaixando o olhar mais uma vez. Minato semicerrou os olhos, vendo que a magoara. Ele se aproximou, inclinando-se e tocando seu rosto. Haru o olhou em dúvida, vendo-o aproximar o rosto. Não teve reação, apenas se viu sendo beijada. Minato movia os lábios e pôs sua língua dentro da boca de Haru, que apertou os olhos ao fechá-los de repente. Ela ouvia o pequeno som de seus lábios movendo-se um contra o outro, corando por estar sentindo prazer.

Ao cessar, Minato abaixou a mão e sorriu, dizendo:

— Agora não é mais tão inocente.

Haru o olhava, chocada e ruborizada. Ele franziu a testa, vendo sua expressão perturbadora. Sua boca se abriu, porém ela não conseguia dizer nada. Repentinamente ela levantou a perna e tentou chutar sua cabeça. Minato assustou-se e segurou sua perna. Ela tentou chutá-lo com a outra, que também fora segurada. Haru debateu as pernas, tentando acertá-lo, porém Minato ajoelhou-se na cama, segurando suas pernas contra seu peito ao colocar sua cabeça entre os calcanhares dela.

— Não precisa me bater!

— E-Eu não pedi para você me beijar! A-Agora sempre que eu pensar no meu primeiro beijo, vou pensar em você! Eu disse que queria alguém especial!

— Quem é mais especial que seu amigo? – ele sorriu.

Ela estreitou os olhos, virando o rosto.

— Idiota...

Ele suspirou, abaixando suas pernas. Inclinou-se sobre ela, apoiando as mãos na cama e observando sua expressão. Mais uma vez Haru parecia triste.

— Qual o problema? Foi apenas um beijo.

Ela o olhou, seus olhos marejaram, deixando-o surpreso.

— Não quero pensar em você assim. – disse ela – Isso complica tudo.

— Por quê?

Haru virou o rosto mais uma vez, contendo as lágrimas.

— Porque se por acaso começarmos a namorar e terminarmos, não vamos nos falar como antes.

— É isso o que acha quando pensa em namorar alguém? No término? – ele achou graça – Tudo bem. – suspirou – Haru... Não vou te pedir em namoro. Só quis fazer com que se sentisse melhor. E você tem que parar de pensar logo no término do namoro, se não seus relacionamentos vão ser fracassados.

Ela o olhou, franzindo levemente as sobrancelhas com os olhos ainda marejados.

— Idiota!

— O que? – ele franziu a testa em dúvida – Por quê?

— Agora vou ser apenas mais uma garota de quem você não lembra o nome. – fechou os olhos, apertando-os – “A loira do cabelo comprido”!

Minato elevou as sobrancelhas, pondo a mão na testa ao rir.

— Haru... Você é única.

Ela virou o rosto de novo, emburrada. Ele a olhou, semicerrando os olhos e sorrindo suavemente. Aproximou o rosto de seu pescoço, beijando-o. Haru encolheu os ombros, olhando-o.

— O que está...? – voltou-se para ele.

Minato a beijou mais uma vez, fazendo-a arregalar os olhos. Ela tentou afastá-lo, pondo as mãos em seu peito e tentando empurrá-lo com os pés, porém ele apenas se pôs entre suas pernas. Ao cessar, olhou-a.

— Diga que não quer e eu paro.

Haru o olhava, ofegante e apertava sua camisa. Não sabia mais se não queria. Tinha algo em Minato que a fazia querer.

— Sim ou não. Quer ou não quer?

— Q-Quer...

Ele voltou a beijá-la imediatamente, fazendo-a corar. Enquanto a beijava, acariciava sua cintura, porém subiu sua mão até a parte de cima de sua blusa. Abaixou-a sem hesitar, cessando o beijo e vendo seu seio, lambendo seu mamilo. Haru encolheu-se, exclamando pelo toque. Ao tentar dizer algo, ele voltou a beijá-la, tocando seu mamilo e apertando-o suavemente entre os dedos. Ela se mantinha encolhida, envergonhada. E ele notou.

Minato cessou o beijo, achando graça e cobrindo-a.

— Você não quer.

Ela o olhou, confusa.

— E-Eu nunca fiz isso.

Ele sorriu.

— Isso torna mais legal, se é essa a palavra. Mas parece que estou violando você. – riu, abaixando o olhar – E isso não é legal.

Haru sentou-se, olhando-o.

— Já tirou a virgindade de alguém? – perguntou.

Ele a olhou, negando com a cabeça. Ela enrubesceu, sorrindo timidamente.

— Acho que não tem uma expressão melhor que essa na primeira vez.

— Então vocês ficam com essa cara?

— Não sei as outras... Mas ninguém nunca me tocou assim. Então, sim.

Ele desviou o olhar.

— Desculpe. Melhor me deixar apenas como seu primeiro beijo.

— Por quê?

— Não vai ser legal. Não quero namorar você, então... Vai ser como estar me aproveitando.

Haru elevou levemente as sobrancelhas, admirada.

— Obrigada. – sorriu.

Minato viu sua expressão e sorriu, deitando na cama e lhe dando uma revista. Haru deitou ao seu lado, pegando-a e voltando a ler. Voltaram a ouvir música e ler as revistas, porém Haru percebeu que se ele continuasse, ela realmente iria dormir com Minato. Se ele quisesse usá-la, ela cederia. Porém viu que ele não era esse tipo de rapaz. Era mais maduro e mais íntegro do que imaginou. E ela gostou disso.

Ao anoitecer, os visitantes foram para casa e num dos banheiros, Kokoro se encontrava dentro da banheira. Era circular e a espuma a cobria até os seios. Seu cabelo estava preso em um coque, ela recostava as costas na banheira, fitando o teto. Havia se passado um mês desde o dia dos namorados e ela não conseguia esquecer. Kokoro nem ao menos conseguiu chegar perto de Matsu para lhe dar os chocolates. Ela hesitou e paralisou, indo embora quando se aproximou dele no corredor da escola.

Fechou os olhos, suspirando e abrindo-os lentamente.

— Tão frustrante... – falou docemente.

Ela se assustou com uma batida repentina na porta.

Kokoro?— chamou Kaori – Posso entrar? Os outros banheiros estão ocupados.

— Pode. – disse, endireitando-se.

Kaori entrou no banheiro, fechando a porta.

— Obrigada. – sorriu, começando a tirar a roupa – Passei o dia com Ren. Foi ótimo.

— Hum. – Kokoro sorriu, contente.

Ela observava sua irmã tirar o sutiã e desviou o olhar. Kaori tinha os seios tão grandes quanto a mãe delas e Kokoro tinha um pouco de inveja, mesmo seus próprios também serem grandes para sua estatura e idade. Kaori entrou na banheira e sentou frente à irmã, suspirando e relaxando. Ela a fitou. Agora sua irmã tinha até um namorado. Mas, claro, quem não iria querer namorá-la?

— Kaori...

— Hum. – ela sorriu, fitando-a.

— Né... – corou – Você e Ren estão juntos há um mês. Como você se declarou para ele?

— Ah. – ela achou graça – Eu o chamei até a sala de aula e disse que gostava dele. Mas quis fugir depois. Acho que ele quem acabou me ajudando a me declarar. – riu – Não é engraçado?

Kokoro sorriu.

— Eu quero me declarar para alguém. – confessou – Mas não consegui nem dar chocolates para ele no dia dos namorados.

— Quem?

— Matsu.

— Jura? – ela sorriu – Ele tem o pavio curto.

Ela achou graça.

— Mas ele me ajudou com um menino que me incomodava. – desviou o olhar, pensando – Se eu fosse bonita como você com certeza iria conseguir falar com ele.

Kaori franziu a testa.

— Kokoro, você é linda. – disse, surpresa.

— Eu não sou tão alta e nem tenho seios grandes.

— Isso não importa. – ela achou graça – Se ele gostar de você, ele não vai se importar com essas coisas. E olha, você tem seios grandes sim.

— Não são como os seus.

Kaori riu.

— Você é engraçada. Eu os acho bonitos.

Ela ruborizou mais, cobrindo os seios com os braços.

— Não olhe para eles! – exclamou.

Sua irmã riu.

— Mas... – fitou-a em seguida – Apenas converse com ele. Tente ter um pouco de coragem. Eu não tive e Ren acabou me ajudando. Mas não sei se vai acontecer o mesmo com você. – sorriu – Boa sorte.

Kokoro estremeceu, porém assentiu. Desejava imensamente se declarar, mesmo que a resposta de Matsu fosse um sonoro não.

No dia seguinte, Kaya fora até a mansão Mukami. Saki a atendeu na porta e sorriu ao vê-la. Ela gostava de todos os filhos dos Sakamaki, porém possuía um carinho especial por Kaya. Tinha esperança de que ela namorasse Yuuzo, pois achava que eles fariam um lindo casal.

— Oi, tia Saki. – Kaya sorriu.

Desde criança ela a chamava dessa maneira e não conseguia chamá-la de outro jeito. Ela era sua tia, assim como seus tios de sangue.

— Kaya. – ela sorriu, feliz – Yuuzo está na horta.

— E-Eh. – sorriu sem jeito – Hum. – assentiu – Obrigada.

Na verdade ela pretendia falar com Kaori sobre o festival de boas-vindas da volta às aulas, no próximo mês. Mas se Saki lhe deu essa informação, não viu mal algum em ver Yuuzo primeiro.

Ao direcionar-se para a entrada do jardim, imediatamente o viu de costas enquanto estava abaixado, mexendo na horta. Ao passo que Kaya usava uma calça jeans de comprimento até as canelas, blusa azul de mangas curtas e tênis, Yuuzo usava uma calça escura com uma camisa acinzentada e sapatos pretos. Ao se aproximar silenciosamente, parou ao seu lado e cantarolou:

— Yuuzo.

Ele estremeceu, deixando a cesta cair e olhando-a.

— N-Não me assuste assim!

Ela riu.

— Desculpe. Pensei que tinha me ouvido.

— Não. – desviou o olhar – Você sempre chega em silêncio. Faça algum barulho.

Kaya achou graça, abaixando e pegando a cesta, pondo-a sobre as coxas e ajudando-o.

— Sempre gostei desses tomates. – comentou – Eles são tão pequenos. – sorriu.

— Hum. – ele concordou, pegando um e analisando-o – Eu que plantei esses.

— Jura? – perguntou, abrindo levemente a boca.

Yuuzo a olhou, enrubescendo suavemente. Sempre que Kaya estava presente quando ele colhia da horta, ele lhe dava na boca tomates e algumas verduras. Reparou em seu cabelo, que estava preso em um rabo de cavalo. Fitou sua franja, as pontas eram arroxeadas como as pontas de todo seu cabelo. Ele sempre achou esse traço incomum, já que mais ninguém de sua família possuía cabelos assim. Porém ele também sempre admirou esse traço. Deixava-a mais bonita e com o passar dos anos, acabou tornando-se um atrativo particular de Kaya.

Yuuzo engoliu em seco, pondo o pequeno tomate dentro de sua boca. Ela o mastigou, apreciando o gosto e sorrindo.

— Está ótimo.

Ele tracejou um meio sorriso, feliz. Sua mão continuava próxima dos lábios dela e ele os tocou com seu dedão, sentindo como eram macios. Kaya o olhou em dúvida, não compreendendo.

— O que está fazendo?

— E-Eh...?! Nada! – recuou a mão, voltando-se para a horta – Ahm... Né, como você está com Shirou?

Ela desviou o olhar, franzindo as sobrancelhas e ficando emburrada.

— Ainda não estou falando com ele. – resmungou.

— Eu nunca vi vocês ficarem sem se falar assim.

— Ele mereceu. – olhou-o – Merece um castigo.

Ele achou graça e abaixou o olhar.

— Né... Kaya.

Ela o olhou, vendo sua expressão. Seus olhos estavam semicerrados e Yuuzo sorria de maneira suave.

— Você... Não gosta mesmo dele assim?

Kaya elevou as sobrancelhas e abaixou o olhar em seguida.

— Poderíamos mesmo ficar juntos. – pensou, achando graça – Mesmo que eu ache isso muito estranho.

Yuuzo a olhou.

— Mas... – ela o fitou – Não gosto dele assim. E não entendo por que ele não aceita isso.

Ele suspirou, levantando.

— Shirou é um pouco convencido às vezes.

— Às vezes? – ela sorriu, levantando.

Ele riu, pegando a cesta das mãos dela. Após guardá-la dentro de casa, Yuuzo caminhou com Kaya até o jardim, sentando-se debaixo de uma árvore com ela. Ele mantinha o olhar baixo enquanto Kaya olhava para o céu através dos galhos e folhas verdes da árvore. Repentinamente ela inclinou-se para o lado e deitou a cabeça no ombro de Yuuzo, que enrubesceu e manteve-se imóvel. Ele engoliu em seco, nervoso.

— K-Kaya.

— Hum. – disse ela, pondo o braço em volta do dele e abraçando-o.

Ele abriu a boca para tentar dizer algo, mesmo sabendo que iria gaguejar. Porém ela disse de repente:

— Né, Yuuzo. Você já se sentiu diferente alguma vez?

— Como assim?

Kaya pensou, abaixando o olhar.

— Eu... Não me sinto normal.

Ele a olhou, franzindo a testa em dúvida.

— Às vezes parece que estou no lugar errado, que não pertenço à minha casa e nem à minha família. – ela dizia – Não sou nada parecida com meus irmãos e nem com meus pais. Ren herdou a maior parte da personalidade do papai, assim como sua aparência. Haru herdou os olhos dele e o cabelo loiro da mamãe. E Riichi herdou a aparência dele. O que eu herdei?

— Você é inteligente, gosta de ler, é bonita e tem os olhos da sua mãe.

Ela sorriu, achando graça.

— Não sou inteligente como eles. É diferente. E a maior parte disso vem dos livros. O dom do papai são as poções e os livros são apenas um meio de ele chegar até os objetivos dele. E meus olhos... – estreitou os olhos, que marejaram – Eles são dourados como os olhos dela, mas... São muito diferentes. Não pertencem a nenhum deles. Nem ao meu avô.

— Você já o viu?

— Não. Mas vi pinturas dele guardadas em um quarto. Meu pai e tio Shuu com ele e minha avó. Ela era linda.

— E seus outros tios?

— Ah. – lembrou-se – Meu avô era casado com três mulheres. Minha avó era a segunda esposa. A primeira era mãe dos meus tios Ayato, Kanato e Laito. A terceira era mãe do tio Subaru. Ela era linda também. – sorriu – E ninguém tinha esses olhos.

Yuuzo franziu levemente as sobrancelhas.

— Pare de falar dos seus olhos. Eu gosto deles.

Ela o olhou, surpresa e sorriu, desviando o olhar.

— Quando me formar... Quero ir embora.

— O que? – ele elevou as sobrancelhas, voltando-se para ela – Pra onde?

— Não sei. Viajar pelo mundo. Ir para algum lugar em que me encaixe. Não sei se quero ficar aqui.

— Sua família toda está aqui. Assim como... Eu.

Kaya o olhou, fitando seus olhos que pareciam implorar. Ela tracejou um sorriso carinhoso e disse:

— Vou visitá-los.

— Não quero visitas.

— Eh? – franziu a testa em dúvida, entristecida – Não quer me ver?

— N-Não é isso! – ele gaguejou, abaixando o olhar – Quero ir com você.

— E-Eh... Yuuzo...?

— Não quero ficar longe de você. Quero ir para onde você for.

— Y-Yuuzo... – ruborizou – Mas...

Ele olhava em seus olhos e segurou seus ombros, hesitante. Kaya não compreendia, apenas o olhava.

— Quero que fique comigo, Kaya.

Ela arregalou lentamente os olhos, enrubescendo. Yuuzo era seu melhor amigo, assim como Shirou. Porém nunca havia pensando nele dessa maneira. Se é que ele estava querendo dizer o que ela imaginava.

— Não estou entendendo...

— E-Eh... – gaguejou, hesitante.

Yuuzo queria desmentir tudo e dizer que estava brincando, porém ao mesmo tempo queria deixar claro o que sentia por ela. Se Kaya deixou claro que não gostava de Shirou romanticamente, então não havia mais por que ele esconder. Algum dia ela se apaixonaria por alguém e ele desejava ser esse alguém. Kaori conseguiu se declarar, então ele também queria.

— E-Eu... E-Eu...

— Você...? – Kaya enrubesceu, imaginando o que ele desejava dizer.

O vento suave acariciou os cabelos de ambos, Yuuzo tentava dizer, porém as palavras estavam presas em sua garganta.

— E-Eu... Gosto de você.

Kaya arregalou os olhos, paralisada.

— Kaya...

— Eu não esperava...

Yuuzo abaixou as mãos e o olhar, frustrado. Kaya não gostava de ninguém. Com certeza recusaria sua declaração da forma mais educada possível. Porém para ela, aquilo era apenas uma surpresa. Kaya não pensou que ele gostasse dela dessa forma. Com isso, ela sentiu um gélido frio cortar seu corpo enquanto o olhava. E não era uma sensação ruim.

Ela ruborizou ao pensar em Yuuzo como homem, porém sorriu sem jeito. Ele por sua vez, corou exageradamente. Esperava uma rejeição ao invés de um sorriso.

— Por que está sorrindo?

— Eu... Gostei. – confessou, desviando o olhar.

Ele franziu a testa em dúvida.

— Sério?

Ela riu.

— Claro. Não esperava, mas... – encolheu os ombros, sem jeito – Gostei.

Yuuzo sentiu a felicidade o possuir e segurou os ombros dela, aproximando o rosto e a beijando de repente. Kaya arregalou os olhos, sentindo seus lábios. Ao cessar, ele afastou-se calmamente e viu sua expressão, assim como suas bochechas coradas.

— Essa eu não esperava mesmo. – disse ela, chocada.

— Desculpe! – recuou as mãos, nervoso – Pensei que...!

— Yuuzo! – ela exclamou, segurando suas mãos – Acalme-se! Nossa, nunca o vi assim.

Ele desviou o olhar, envergonhado.

— Nunca disse isso a ninguém. – confessou.

Ela enrubesceu mais uma vez.

— Então...

— Você foi a primeira. Agora me rejeita logo.

— Eh?

Ele a olhou, franzindo a testa.

— Pensei que...

— Eu ia te rejeitar?

— É. – falou em tom óbvio.

— Bem, não sei o que pensar ainda, mas... Não vou te rejeitar.

Yuuzo dividiu-se entre ficar feliz ou triste.

— Então... Quero saber. Quer ficar comigo? Namorar comigo?

Kaya queria pensar melhor, porém naquele momento ela já havia aceitado mentalmente. Sem hesitar, assentiu com a cabeça.

— Sério?

— Sim. – sorriu.

Yuuzo tracejou um largo sorriso e puxou-a para si, beijando-a mais uma vez. Kaya arregalou os olhos novamente, porém semicerrou os olhos, ruborizando ao sentir seus lábios mais uma vez. Ele cessou, afastando o rosto e olhando-a. Ela sorria sem jeito, envergonhada. Acabara de beijar seu melhor amigo pela segunda vez.

— Que estranho... – achou graça.

— É?

Ela assentiu com a cabeça.

— Mas é bom. – sorriu.

Ele achou graça.

— Que bom.

Kaya inclinou-se, apoiando as mãos na grama e beijando-o. Yuuzo envolveu-a com os braços, abraçando-a e fechando os olhos.