Aos poucos, Carla passou a deixar o quarto de Mana destrancado. Percebeu enfim que ela não desejava mais ir embora e via que seu plano pouco a pouco funcionava. Ela estava mais próxima de entregar-se à ele do que antes. Porém ele precisava de mais tempo, o que não sabia se teria.

Mana mostrava-se para ele ser uma mulher interessante. Ela não era como as outras. O ouvia quando falava e apreciava seus assuntos sobre sua coleção de quadros, olhando-os de forma admirada quando ele a levava até a sala de sua coleção. Carla lhe mostrou a biblioteca e Mana percebeu enfim porque a irmã gostava tanto de ler. Como ela não tinha mais nada para fazer, a leitura se tornou seu principal e único hobby.

Durante uma tarde, ela estava no quarto de Carla. Como alguma hora iria dormir com ele como tanto diziam, ela gostaria de saber ao menos onde seria. E realmente admitiu que o quarto dele era belíssimo. As paredes eram escuras e o teto possuía detalhes magníficos. Havia uma grande janela com uma comprida cortina verde-escuro. A cama era grande, onde sua madeira era branca, a cabeceira preta e a colcha e travesseiros de cor preta e acinzentada. Havia um tapete escuro sob a cama e dois criados-mudos brancos com belos abajures. Além de um sofá e duas poltronas em frente à porta para o banheiro, próximo da cama.

Mana lia um livro, sentada em uma das poltronas com as pernas para cima. Carla a olhava do espelho de sua penteadeira.

— Abaixe as pernas. – disse rigorosamente.

Ele a permitiu ficar, porém deveria ao menos ter modos. Mana abaixou as pernas, sorrindo ao achar graça.

— Esse livro é ótimo. – ela comentou.

— Eu sei.

Achou graça mais uma vez. Ele abaixou o cachecol, esticando a mão para pegar a escova, porém não conseguindo. Franziu as sobrancelhas, isso não deveria acontecer naquele momento com ela presente. Carla abaixou a mão, fechando os olhos de maneira frustrada. Mana o olhou, notando sua expressão.

— O que houve? – perguntou.

Ele atentou-se, olhando-a pelo espelho e acalmando a expressão.

— Venha aqui.

Ela o fez, caminhando até ele e percebendo que havia algo errado.

— Escove meu cabelo, por favor. – disse ele sem olhá-la.

Mana assentiu, pegando a escova e tirando seu cabelo de dentro do sobretudo. Começou a escová-lo, vendo como o cabelo de Carla era macio e bonito. Suas pontas realmente eram roxas e isso o tornava ainda mais bonito. Mana semicerrou os olhos, apreciando tocá-lo.

— Né. – disse – Como está Rin?

— Viva.

Ela desviou o olhar por um momento, não era a resposta que desejava.

— Vocês são próximas? – ele perguntou.

— Não muito. – ela achou graça, lembrando-se do diário – Mas ficamos quando viemos para cá, eu acho.

— Ela parece querer proteger você.

— Sim. – sorriu – É um dos lados dela que não imaginei que existia. Mas...

Ele a olhou.

— Como eu que vou... Sabe. – franziu a testa – Ela pode ir embora?

Se Mana seria obrigada a isso, ao menos tentaria fazer com que Rin fosse para casa e voltasse para Laito. Carla voltou-se para o espelho, olhando-se.

— Ela não deveria ter vindo. – disse ele, aborrecido – Isso agora depende de Shin. Ele apenas piorou as coisas.

— Por quê?

— Porque o plano consistia em levarmos você e não uma garota com base impura. Se ele tiver filhos com ela, vai ser um problema para nosso plano.

— Não precisa se preocupar com isso.

— Por que não?

— Porque... – ela sorriu – Ela não vai desistir.

— Acredito que tenha razão. – ele desviou o olhar – Shin contou-me que ela o xinga e não permite que ele a toque. É tão insubordinável.

Mana deixou uma risada escapar, fazendo-o olhá-la mais uma vez.

— Você usa palavras tão difíceis.

— Eu falo corretamente.

Ela sorriu, contendo a risada e apenas assentindo.

— Rin é dessa forma, ela não abaixa a cabeça para ninguém e luta pelo o que quer. Não acredito que seu irmão vá conseguir algo com ela.

— E não deveria nem tentar. – disse ele – Ele irá dormir com você de toda forma.

Mana parou de escovar seu cabelo por um momento, abaixando o olhar de forma entristecida. Carla estreitou os olhos em sua direção.

— Você... Poderia não falar sobre isso? Ou dessa forma. – disse ela – Eu sei o que vai acontecer, mas quero me lembrar disso o mínimo possível até que realmente aconteça.

Ele desviou o olhar, não respondendo. Mana voltou a escovar seu cabelo, tentando distrair-se.

— Hum, bem. – sorriu – Pelo menos estou conhecendo você. Não vai ser tão estranho.

Carla olhou-a uma última vez, percebendo que por trás daquele sorriso, ela escondia a tristeza. Ficou curioso quanto a isso, Mana realmente era uma mulher diferente e um pouco estranha.

Após pentear o cabelo de Carla, deixou-o em seu quarto e fora para a biblioteca. Pôs o livro que ele indicou no lugar e pegou outro, vendo se talvez aquele a distraísse melhor. Semicerrou os olhos, Carla era parecido com Reiji em relação à ferir pessoas com suas palavras. Ele não parecia pensar duas vezes ao dizer aquelas coisas à ela. Pôs o livro no lugar, respirando fundo e fechando os olhos. Se ela teria que dormir com ele, ele poderia ao menos ser mais amigável e afável. Porém em vista a quem eram e ao seu plano, claro que não seria tão agradável.

Ao se retirar da biblioteca e direcionar-se para seu quarto, caminhava por um dos corredores. Ao levantar o olhar, viu Shin caminhando pelo mesmo corredor.

— Shin-san. – cumprimentou-o, sem jeito – Como Rin está?

— Ainda não a vi. Mas ontem ela jogou um abajur em mim. – disse ele, aborrecido.

— Eh... Sinto muito.

— Hum.

Ele semicerrou seu olho, sorrindo de forma maliciosa em sua direção e aproximando-se.

— Mana, né?

— E-Eh, sim.

— Você é mesmo bonita.

Mana franziu a testa, receosa.

— E-Eu... Vou para o meu quarto. Com licença.

Ao passar por ele, Shin a agarrou pelo braço e a segurou. Mana estremeceu, ele aproximou-se de sua cabeça e cheirou seu cabelo. Ao aproximar-se de sua orelha, sussurrou de forma sedutora:

— Eu vou amar tocá-la... Você vai gemer como nunca o fez na vida.

Os olhos de Mana marejaram. Ao pensar que ele a tocaria, seu coração apertou. Shin soltou-a, pondo as mãos em seus ombros e correndo-as gentilmente até seus braços, olhando em seus olhos.

— Seu corpo deve ser lindo... – sorriu de forma maliciosa – Só de imaginá-lo já fico excitado... Mal posso esperar.

Uma das lágrimas escorreu enquanto o olhava, estática. Ela sentiu alguém segurar seu braço e puxá-la, vendo Carla ao seu lado. Ele fitou o irmão, franzindo as sobrancelhas.

— Impaciência é um dos seus piores defeitos, Shin.

— Está tudo bem. – ele sorriu calmamente – Estava apenas dizendo à ela como será bom tê-la como mãe dos nossos filhos.

— Suas palavras são desnecessárias. – disse ele, rígido – Vá.

Shin semicerrou os olhos, aborrecido, porém se retirou. Carla levou Mana para seu quarto, adentrando com ela e fechando a porta. Ela aproximou-se da penteadeira, apoiando as mãos e tentando se acalmar. Não queria Shin sobre ela, nem dentro dela e nem mesmo próximo dela. Ela queria não ter que fazer isso. Carla apenas a olhou por poucos segundos e a deixou sozinha.

Após ser mando embora do corredor pelo irmão, Shin direcionou-se até o quarto onde Rin estava trancada. Ela, por sua vez, estava sobre a cama e fitava a parede oposta, suspirando. Perguntava-se como Mana estava e se Carla já havia feito algo com ela. Ao franzir as sobrancelhas, lembrou-se de que ele havia dito que não eram selvagens. Mas sua palavra valia algo? Em vista a como chegaram lá, sua palavra não era confiável e Rin temia que ele estivesse fazendo Mana sofrer para ter o que desejava.

Ao ver a porta se abrir, viu Shin e franziu as sobrancelhas mais uma vez. Ela dobrou os joelhos e cruzou os braços, emburrada.

— O que você quer?

— Você sabe o que quero. – ele sorriu maliciosamente.

Rin o encarou, fitando sua roupa. Ele usava uma calça escura e camisa estampada desabotoada por baixo do blazer preto fechado.

— Vá embora.

Ele suspirou de forma impaciente, aproximando-se e deitando na cama ao lado dela. Ao pôr o antebraço atrás da cabeça, ele disse:

— Hoje todos estão me expulsando.

Ela o olhou, desconfiada.

— O que quer dizer?

— Nii-san me mandou ir embora quando me viu com Mana no corredor e a levou com ele.

Rin estremeceu, contendo sua reação.

— Para onde ele a levou?

— E te interessa? – fitou-a, sorrindo em seguida – Ah... Está preocupada?

— Claro que estou!

Ele deixou uma risada escapar e fitou o teto, fechando seu olho.

— Relaxe... Eles não estão fazendo nada. Ainda.

— Mana não deixaria, idiota.

— Ah, jura? Nii-san não a violentaria, mas não acredito que ela resista por muito mais tempo.

— Seu irmão realmente acredita ser tudo isso, né?

Shin a fitou, sorrindo maliciosamente.

— Nii-san tem maneiras próprias de convencê-la.

— Tsc.

Rin virou o rosto, aliviada por pelo menos Carla não estar fazendo Mana sofrer.

— Mas... – Shin, deitou-se de lado, sorrindo para ela – Não quer se divertir?

— Sai pra lá, tapa-olho. – ela o encarou.

Ele semicerrou o olho de maneira tediosa.

Mana permaneceu no quarto por algumas horas. Aquela súbita angústia lhe deixou exausta e entristecida. Pensava em como os dois a tratariam e se ao menos seriam gentis. Carla lhe dissera que não eram selvagens, o que significava que eles não a obrigariam. Porém como a tratariam na cama? E como ela se sentiria depois? A princípio achava que se sentiria suja por ter se entregado aos dois dessa forma, desistindo completamente de tudo. Porém sabia bem que não conseguiria sair dali. Com isso, pensou o que aconteceria com ela após ter os filhos deles.

Depois de pensar e esquecer o ocorrido com Shin, Mana saiu do quarto e direcionou-se até o quarto de Carla. Perguntaria o que aconteceria com ela depois de ter feito parte do plano deles, mas também desejava agradecer por ele tê-la tirado de perto de Shin. Ao chegar, bateu na porta, porém ninguém respondeu. Ela a abriu cautelosamente, entrando e percebendo que o quarto estava vazio. Virou-se para sair, talvez ele estivesse em outro lugar. Porém ao fazê-lo e segurar a maçaneta, ouviu alguém tossir no banheiro.

Ela olhou para a porta, que estava entreaberta. Percebeu que a luz estava acesa e ouviu mais uma vez alguém tossir, porém de maneira forte e doente. Em seguida ouviu gemidos e fechou a porta do quarto, caminhando e aproximando-se do banheiro. Olhou pela fresta e viu a pia com sangue, como se houvessem tossido e o cuspido. Arregalou os olhos e abriu a porta, vendo Carla curvado e apoiando uma das mãos no mármore preto da pia, tocando a lateral de seu torso. Ele usava apenas calças, que não estavam abotoadas. Provavelmente estava se vestindo após o banho. Mana olhou para seu torso, vendo que havia um grande hematoma e que ele respirava de forma dolorida. Ela franziu a testa, preocupada.

— Ugh... – ofegava.

— Carla-san...?

Ele a olhou, franzindo as sobrancelhas e indo até ela de repente, agarrando seu cabelo e ameaçando-a com uma faca que rapidamente pegara debaixo da pia. Mana exclamou, sentindo a faca próxima de seu pescoço. Ele a olhava de forma enraivecida.

— O que está fazendo aqui? – perguntou, ofegante – O que está planejando?

Ela arregalou os olhos.

— Diga! – ele exclamou, enfurecido.

— Eh...! – ela o olhava, apreensiva – Vim apenas agradecer e perguntar algo... Escutei você gemendo. – seus olhos marejaram.

Ele franziu o cenho, porém abaixou o olhar ao torcer a expressão. Deixou a faca cair no chão e tombou para o lado. Mana exclamou, abraçando-o para segurá-lo e mantendo-o em pé.

— Carla-san...!

Ele segurou em seus ombros com dificuldade, franzindo a testa de forma frustrada. Mana pôs seu braço em volta de seu pescoço e caminhou até a banheira com ele, fazendo-o se sentar na beira, ainda apoiando-o. Ele respirava de forma ofegante, porém aos poucos sua respiração voltava ao normal. Ela o olhava, preocupada.

— O que... O que quer que eu faça? – Mana perguntou.

Ele a olhou calmamente, desviando o olhar.

— Pegue minha camisa...

Ela atentou-se e olhou ao redor, vendo sua camisa preta no chão. Pegou-a e a deu à ele, que a segurou e franziu as sobrancelhas, irritado.

— O que foi? – ela perguntou, preocupada.

Carla não respondeu, então Mana compreendeu que ele não conseguia levantar os braços, provavelmente por causa da dor. Ela abaixou o olhar por um momento, ajoelhando-se a sua frente e abotoando sua calça, que ainda estava aberta. Levantou e pegou a camisa de sua mão, levantando seus braços cuidadosamente e passando as longas mangas por eles, fazendo o mesmo com sua cabeça, vendo o hematoma ser escondido. Ela desviava o olhar às vezes, envergonhada por vesti-lo enquanto Carla semicerrou os olhos ao assisti-la.

Mana apoiou seu braço em volta de seu pescoço novamente e o levou com cuidado, levando-o para o quarto. Ele segurava sua cintura, apertando sua roupa enquanto andava calmamente com ela. Mana o sentou cautelosamente na cama, vendo-o torcer levemente a expressão ao se sentar. Ele fechou os olhos, pondo a mão sobre onde estaria o hematoma e respirando calmamente, parando de sentir dor. Ela o olhava, não sabia o que fazer ou o que ele tinha de errado.

— O que... O que aconteceu agora a pouco? – perguntou.

Ele virou o rosto, franzindo as sobrancelhas.

— Vá embora.

— Eh? – ela franziu a testa, confusa – Você tossiu sangue e esta gemendo.

— Cale a boca...

— O que há com você?

— Vá! – ele alterou a voz, olhando-a de forma severa.

Mana estremeceu, franzindo a testa. Ele não estava bem e sabia disso, e agora ela também.

— Eu... Estou preocupada com você. – confessou.

— Preocupada? – ele franziu o cenho – Coisas desnecessárias... Por que estaria preocupada comigo?

— E-Eh... – ela gaguejou, hesitando – Não há razão. Você estava gemendo, com dor e eu quis ajudar!

— Isso é um pensamento humano. – disse ele – Mas não me admiro... Você não é como eu...

Mana franziu as sobrancelhas, ele tentou ofendê-la com isso e ela irritou-se.

— Não sou mesmo! – exclamou, dando um passo e ajoelhando à sua frente, pondo a mão sobre o peito – Eu sinto! Me preocupo se você está bem, me preocupo quando tosse sangue e tem hematomas pelo corpo! Eu pelo menos me preocupo com o que está sentindo!

Carla a olhava, surpreso mesmo com as sobrancelhas franzidas. Os olhos de Mana marejaram, ela abaixou o olhar e respirou fundo, olhando-o novamente. Perguntava-se por que ele não compreendia, porém lembrou-se por um momento que Reiji e ela já haviam conversado sobre os Fundadores. Foi algo rápido e curioso, mas ele havia comentado algo uma vez e ela pediu para explicar, ouvindo sobre um tal de “Mundo demoníaco”. Ao lembrar-se, olhou-o.

— O lugar onde ficaram trancados... – olhava em seus olhos – Foi o Mundo Demoníaco?

— Como sabe disso?

— Já ouvi falar. – disse ela – Por isso é dessa forma?

— Do que está falando, mulher?

Ela franziu as sobrancelhas.

— Não acredita em mim. É por isso?

Ele não respondeu. Mana abaixou o olhar e levantou, virando-se e dizendo:

— Vou chamar Shin-san para ver como está.

Carla a olhou de repente, segurando sua mão e puxando-a. Mana arquejou, sendo deitada na cama. Ele se pôs com dificuldade sobre ela, apoiando as mãos no colchão.

— Não se intrometa. – disse, olhando em seus olhos.

Mana surpreendeu-se, olhando de perto aqueles olhos amarelos como ouro. Eram diferentes e assustadores quando ele se comportava dessa forma. Ela franziu a testa, olhando-o.

— Shin-san... Sabe?

Ele franziu as sobrancelhas, semicerrando os olhos.

— Por que você tem um hematoma? – disse ela, levantando a mão para tocar onde estava o hematoma.

Carla segurou seu pulso e o pôs contra a cama, segurando-a. Mana o olhava, abrindo a boca e sabendo que iria gaguejar. Porém ele aproximou o rosto de repente e a beijou. Ela arregalou os olhos, sentindo seus lábios. Encolheu os ombros, dobrando levemente os joelhos. Carla cessou, olhando-a e semicerrando os olhos ao se afastar, ainda segurando-a.

— Você fala demais. – disse ele.

Mana o olhava de forma surpresa, estática. Carla viu suas bochechas levemente coradas e a largou, levantando. Achou estupidez ela estar dessa forma, algo ridículo e desnecessário.

— Saia do meu quarto.

Mana sentou-se, olhando-o. Ele andou até a poltrona, sentando-se e pegando as botas ao lado. Abaixando o olhar, ela levantou e se retirou do seu quarto. Ao fechar a porta e girar a maçaneta, largou-a e virou-se. Levantou a mão, tocando suavemente os lábios com seus dedos e semicerrando os olhos, recordando o toque há pouco. Enrubesceu mais uma vez, perguntando-se se realmente poderia sentir afeição por Carla.

Notas finais
Eita que esse beijinho insosso já já vai mudar 'kkkkkkkk