Com um mês e uma semana residindo na casa Sakamaki, algo inesperado aconteceu. Ao entrar em seu quarto numa tarde de sábado, Mana se sentou na cama e suspirou. Fazia uma semana desde o evento do diário e apenas agora conseguia falar o necessário com Reiji. Sendo o necessário algo como “Sua aula será adiada”, “Sim” ou “Não se atrase”, “Sim, não vou”. Era tudo o que ele dizia à ela. Porém ao olhar para sua penteadeira, percebeu um papel sobre ela.

Levantou e se aproximou, pegando-o e lendo. A letra era belíssima e desenhada, estando escrito: “Jantar às sete com vestimenta adequada.”. Mana franziu a testa, em dúvida.

Ao procurar por sua irmã, encontrou-a na sala de estar com um livro nas mãos. Sentou-se ao seu lado, logo perguntando:

— O que isso significa? – mostrou o papel.

— Que ele quer que se arrume melhor.

— Eh? – ela gaguejou – Não entendi.

— Reiko e Kanato estavam conversando sobre isso, passando pelo corredor. – disse ela – Eu ouvi e pelo visto o jantar de hoje possui um ar diferente, mais importante.

— Por quê?

— Isso eu não sei.

— Então é um jantar importante. – Mana pensou.

— Pelo visto.

— Por que será? – pensou em voz alta.

À noite, todos estavam bem arrumados. Havia velas na mesa, que estava mais arrumada que o normal. A refeição também estava fora do comum, algo mais refinado. Ninguém conversava, apenas se ouvia o tilintar dos talheres. Mana olhava de relance para todos à mesa, as meninas comiam em silêncio assim como os seis. Eles pareciam estar acostumados com o incomum jantar, não comentavam nada sobre a ocasião.

O peixe estava ótimo, ela aproveitava a refeição. Porém de repente Shu se levantou e saiu da sala de jantar. Masami o olhou de relance, continuando a comer. Reiji parecia incomodado, dizendo:

— Ele não vai nem se esforçar para vir ao nosso jantar mensal. – falou – Isso é tudo por hoje.

Os irmãos se levantaram e pouco a pouco se retiraram da sala, assim como as meninas. Mana se levantou para ir também, porém Reiji, ainda sentado, disse:

— Espere um momento.

Ela estremeceu. Ele finalmente tocaria no assunto do diário?

— S-Sim. – Mana gaguejou.

— Vá até meu quarto em uma hora. Pretendo ter uma conversa com você.

— Sim.

Uma hora depois, após trocar de roupa e prender metade de seu cabelo, Mana foi até o quarto de Reiji. Vestida em uma saia preta de cintura alta e uma blusa de mangas compridas com a clavícula à mostra, como gostava, bateu em sua porta.

— Entre.

Ao abrir a porta, logo sentiu o aroma de chá. Deparou-se com um quarto que refletia a personalidade de Reiji, como seu laboratório da outra vez. Havia uma lareira com um espelho emoldurado logo acima, uma cristaleira com uma coleção de conjuntos de chá, outras duas cristaleiras embutidas na parede, ao lado a janela, sua cama devidamente arrumada na parede oposta, um sofá ao lado da lareira e no centro do quarto uma pequena mesa com suas cadeiras. Tudo sob um belo tapete que cobria quase toda a extensão do quarto.

Mana fechou a porta e o viu com as pernas educadamente cruzadas, sentado na cadeira ao lado da mesa, onde havia uma xícara de chá e um bule. Ele não usava seu blazer como de costume e nem gravata, apenas o colete e sua camisa branca estava ligeiramente desabotoada.

— Sente-se. – disse ele.

— S-Sim. – gaguejou.

Sentou-se ao seu lado, esperando.

— Seus modos à mesa são deploráveis. – disse ele.

— Eh?

Sua mãe a ensinou de forma impecável a como se comportar à mesa, porém pelo visto não era o suficiente para Reiji.

— Um dia desses, eu vou te dar uma aula. – continuou ele – Mas não é por isso que a chamei.

— Hum.

Por um momento, ela olhou para o chá, vendo como era a bela xícara. Porém antes de elogiar o conjunto que Reiji possuía, ele disse repentinamente:

— Você realmente acreditou que eu faria chá para você? Por favor, pare de ser tão pretenciosa. É muita presunção.

— Ahm... Eu não...

— Eu tenho negligenciado completamente informá-la de sua posição. – disse ele, bebendo o chá – Entretanto, não imaginava que seria necessário explicar.

— Isso é sobre...

— O evento do diário, sim. – assentiu – Nosso noivado, como disse após sua chegada, é puramente um arranjo. Quando disse que não me importava com o que fizesse, acreditei que estaria de acordo com as normas de conduta do noivado.

— Normas de... Conduta?

— Deveria saber, já havia explicado. Você é minha noiva. Logo, a etiqueta diz que deve ser impecável seu comportamento em todos os sentidos, seja aqui ou no colégio. Isso levando em consideração para qual família você brevemente fará parte.

— Sim. – lembrou-se – Me disse isso naquela vez, mas...

— Você é ingênua ou simplesmente burra? – Reiji franziu as sobrancelhas, impaciente – Seus pensamentos mais profundos foram expostos para todos nessa casa e isso não posso admitir.

— E-Eh. – Mana gaguejou, confusa – Mas... Foi Rin quem o leu! Ela pegou o diário do meu quarto, ele estava guardado!

— Correto. Porém Rin não é minha noiva. – ele juntou as mãos, cruzando os dedos – Tendo aceitado se comprometer, deveria saber que viveria com tipos diferentes de indivíduos. E trazendo aquele diário, deveria tê-lo guardado adequadamente.

— Está dizendo... Que a culpa é minha?

— Sim.

— Mas...!

— Novamente. – disse ele, duramente – Rin não é minha noiva. Espero que a partir de agora você cumpra com as normas de conduta.

Mana abaixou o olhar, engolindo de forma seca a injustiça.

— Sim, eu vou.

— Ótimo.

Mana se levantou e curvou-se brevemente, virando-se para ir. Reiji a observou avidamente através dos óculos.

— Espere.

Ela voltou-se para ele em dúvida.

— Vou abrir uma exceção e dividir meu chá com você. – disse ele, levantando.

Reiji fora até a cristaleira e abriu sua porta, pegando mais um conjunto de xícara e pires. Serviu chá para Mana, que se sentou mais uma vez, e sentou-se novamente.

— Devo dizer que aprecio sua educação. – disse ele – Não caiu sequer uma lágrima de seus olhos.

— Você...?

— Sim, eu a vi chorando naquela vez.

Mana desviou o olhar, ele a deixava confusa com cada palavra dita. Após servi-la, pôs o bule sobre a mesa e deu-lhe a xícara, observando-a beber o chá. Após fazê-lo, Mana a colocou sobre a mesa.

— Obrigada.

— Hum. – ele assentiu com as mãos juntas e dedos cruzados mais uma vez.

De forma lenta, Mana percebia sua visão ondular, deixando-a tonta. Pôs a mão na cabeça, não compreendia porque isso estava acontecendo.

— Reiji-san... Eu...

— Realmente achou que iria embora facilmente?

— O que? – olhou-o, tonta.

Reiji levantou, aproximando-se e dizendo:

— Eu disse que esperaria que cumprisse com as normas de conduta. Mas não disse que não a castigaria pelo seu erro.

Mana não compreendia, apenas o via se aproximar e curva-se diante dela, segurando seu rosto.

— Reiji-san... O que...?

— Admito que meu pai saiba escolher pela beleza. – disse ele, tocando o cabelo loiro de Mana e tirando-o da frente de seu pescoço – Porém claramente um dos empregados o informou como você é irritante.

— Irritante?

— Sim. Sua conversa e até sua presença eram incômodas para mim no baile. Ele soube realmente como me atingir. Porém aprecio olhá-la quando está com sua boca fechada.

Mana semicerrou os olhos, entristecida.

— O que tinha no chá? – perguntou, ainda tonta.

— Uma droga que preparei. Não se preocupe, já havia testado antes.

Reiji segurou seu rosto mais uma vez e o levantou, olhando-a. Ao aproximar os lábios de seu pescoço, Mana o empurrou e tentou levantar, porém caiu ao cambalear. Reiji endireitou-se, observando-a calmamente.

— O que... – disse ela, confusa – Não consigo levantar.

— Essa droga incapacita o indivíduo por algum tempo. – Reiji se aproximou – É excelente para interrogatórios, se preferir usar dessa forma.

Mana tentou rastejar, porém Reiji se ajoelhou e segurou em seu pulso, virando-a e prendendo-a no chão.

— Reiji-san...

— Por mais que queira castigá-la, desejo lhe dar o prazer que provavelmente nunca tenha experimentado.

Mana encolheu-se, virando o rosto. Reiji aproximou os lábios de seu pescoço, abrindo sua boca e mordendo-a sem hesitação. Mana apertou os olhos, sentindo as presas dele em sua pele. Ao abri-los, os manteve semicerrados, prestando atenção no som que Reiji emitia enquanto bebia seu sangue. Mana começou a sentir prazer, porém não por ele mordê-la ou beber seu sangue. Mas por ele sentir prazer enquanto o fazia.

Levantou vagarosamente os braços, pondo a mão por dentro de seu cabelo e a outra em seu ombro, apertando levemente sua roupa. Reiji abriu os olhos e a olhou, vendo-a ofegar enquanto ele a usava. Ao cessar, segurou sua mão e olhou-a mais uma vez. Ela ainda estava tonta e aos poucos, fechou seus olhos.

Vendo que Mana adormecera, pegou-a no colo e a pôs em sua cama. Reiji observou-a dormindo, perguntando-se por qual razão ela lhe ofereceu carinho. Virou-se, indo em direção à mesa.

Poucas horas depois, Mana despertou. Abriu os olhos e viu o teto, ficando em dúvida. Lembrou-se vagarosamente de onde estava e se sentou, vendo Reiji sentado no sofá, lendo um livro. Ele percebeu que ela despertara e disse:

— Ah, então finalmente acordou.

— O que?

— Não se lembra de nada? Preciso anotar isso.

Mana pensou em dúvida, lembrando-se logo do que se passara.

— Você... Me mordeu. – ruborizou.

— Então se lembra. Ótimo, tudo está de acordo.

— Você me drogou! – exclamou – Como pôde fazer isso? Não poderia apenas parar quando pretendia ir embora?

— Meus motivos não lhe interessam. – disse ele – Até quando pretende ocupar minha cama? Isso é terrivelmente rude.

Mana viu onde estava e o olhou.

— Você me pôs aqui?

— Sim.

Ela desviou o olhar, enrubescendo.

— Obrigada.

— Eu quis de certa forma lhe castigar e você me agradece? De fato é ingênua. Agora, ande logo e saia da minha cama.

Mana franziu a testa, porém ficou com raiva. Reiji poderia ter as qualidades que já enxergara, porém agora percebia como ele era orgulhoso, arrogante e usava de palavras para ferir. Ela pulou da cama e foi em direção à porta.

— Eu já pretendia sair. – disse rudemente.

— Não se esqueça das normas de conduta.

— E você poderia aprender como tratar uma garota. Você é grosseiro.

Reiji franziu as sobrancelhas e levantou. Mana abriu a porta para sair, porém ela foi forçadamente fechada. Ao virar, o viu próximo de si.

— O que está fazendo? – perguntou, nervosa.

— Nunca falei para sair do meu quarto.

Mana arregalou os olhos e o viu se aproximar mais, mostrando-se mais alto e imponente que ela.

— Agir sem minha permissão é um ato descuidado. – disse ele – Parece que você ainda precisa ser educada.

Mana engoliu em seco, porém franziu as sobrancelhas.

— Não sou seu animal de estimação! – exclamou.

Reiji franziu suas sobrancelhas, agora irritado.

— Esses olhos... Essa rebeldia precisa ser disciplinada. – disse ele, pondo a mão na parede.

Mana empurrou seu braço, tentando se afastar, porém Reiji bateu sua mão na parede, assustando-a e prendendo-a entre seus braços.

— Saiba seu lugar. – disse severamente – Não vou tolerar desobediência! Aprenda a me obedecer! – segurou sua mão contra a parede.

Reiji apertava cada vez mais a mão de Mana, fazendo com que ela fechasse e apertasse os olhos pela dor.

— Reiji-san... Dói...!

Ele a levou pela mão até a cama, forçando-a a se deitar e pondo-se sobre ela, dizendo:

— Você é minha noiva, pertence a mim. Então possuo o direito de educá-la como bem entender e até onde eu quiser discipliná-la. – concluiu, mordendo sua mão.

Mana rangeu os dentes, ofegando em seguida.

— Mesmo fazendo isso... – dizia ela – Eu estou feliz.

Reiji olhou-a, surpreendendo-se e parando de beber seu sangue.

— O que? Por que está feliz?! – largou-a, levantando.

Mana sentou-se, sorrindo por seu breve plano ter funcionado. Apoiando o corpo com as mãos, sorriu maliciosamente em sua direção.

— O fato sobre querer me morder e beber tanto meu sangue não é apenas por desejar me castigar ou me oferecer prazer. Você por si só está sentindo prazer com meu sangue.

Reiji franziu a testa, incômodo.

— Retire-se, por favor.

— Não quer mais meu sangue? – Mana perguntou, levantando.

Ele a olhou, abrindo a porta para ela. Mana saiu, vendo a porta se fechar logo atrás de si. Caminhou pelo corredor, sorrindo e tendo certeza de que ele esqueceria por um tempo o assunto sobre discipliná-la.

Mana acreditou que se comportando de maneira que ele apreciaria, teria sua atenção. Porém isso não aconteceu e graças a Rin, levou a culpa por tudo o que houve e descobrira como Reiji era arrogante. Enquanto andava, indo para seu quarto, semicerrou os olhos de forma entristecida. Não queria que as coisas fossem dessa forma. Esse não era o relacionamento que desejava.