Como Asuka era uma famosa cantora e fazia parte de uma banda, o grupo ensaiava algumas vezes durante a semana. Eles possuíam um cômodo exclusivo na mansão Mukami apenas para ensaiarem. O quarto possuía paredes de tom azul-escuro, sendo ocupado pela bateria de Hyuuga, dois sofás e mesas. Como todos estudavam a noite, costumavam encontrar-se na mansão Mukami após o almoço e irem para a escola juntos. Porém como aquele dia era um sábado, as meninas foram para a mansão no meio da tarde.

Março já estava próximo do fim e chegara o aniversário de Ryuuji. Porém ele não gostava muito de fazer festas para si, então optou por simplesmente deixar o dia passar como um dia comum. Porém assim como Masumi e Megumi, Haru também fora para a mansão Mukami. E com certeza ela não deixaria aquele dia passar em branco.

Asuka atendeu a porta e as três entraram. Masumi carregava seu violino dentro do estojo e usava um vestido rosado com curtas mangas de babados e sapatilhas de mesma cor. Ela possuía as mesmas mechas em espiral que sua mãe, porém diferente dela, Masumi deixava o cabelo solto o tempo todo. Haru usava um short e uma blusa que deixava suas clavículas à mostra, além de botas marrons de cano curto. Muito do seu estilo ela herdara de sua mãe, principalmente o gosto por fazer penteados já que naquele dia usava uma longa trança posta sobre seu ombro esquerdo. E assim como as duas, Megumi herdara o gosto de seu pai pela cor preta. Ela carregava sua guitarra, estando com a alça ao redor de seu corpo e usava calça preta, uma camisa de mangas compridas que mostrava um de seus ombros e botas pretas de cano curto, além de sempre deixar o cabelo solto.

— Megu, você poderia colorir mais seu guarda-roupa. – sorriu Asuka.

— Não, obrigada. – disse ela com os olhos semicerrados, indo para a escada – Vou subir.

— Oi, Haru.

—Oi. – ela sorriu alegremente – Posso ver o ensaio hoje?

— Claro.

Enquanto elas encaminhavam-se tranquilamente para o andar de cima, Megumi acabara de adentrar o cômodo. Ela avistou Hyuuga e franziu levemente as sobrancelhas, vendo-o ajeitar um dos pratos da bateria e sentando-se num dos sofás após tirar a guitarra do redor de seu corpo. Hyuuga a notou ali e cumprimentou-a.

— Oi, Megu.

— Oi. – disse ela, aborrecida.

— Tudo bem?

— Sim.

— Ainda usa bastante preto. Às vezes esqueço por causa do uniforme escolar.

Ela o olhou, franzindo as sobrancelhas.

— Eu sempre uso roupa preta. E há dois dias você me viu, eu vim até aqui. Não tem motivo pra comentar isso.

Ele franziu a testa em dúvida, franzindo as sobrancelhas e voltando a fazer o que fazia. Megumi era sempre assim, sua personalidade era séria e aborrecida. Porém ela era mais aborrecida com Hyuuga. E ele não imaginava qual seria o motivo para tanta hostilidade. Sua hostilidade com Hyuuga começara há dois anos e repentinamente, porém agora ele desejava saber o motivo.

— Megu. – voltou-se para ela ao se sentar no banco da bateria.

— O que? – ela perguntou, mexendo nas clavijas de sua guitarra.

Ele suspirou, franzindo as sobrancelhas de maneira impaciente.

— Né, por que você é assim comigo?

— Assim como?

— Fica irritada e aborrecida comigo.

— Eu sou assim com todo mundo.

— Mas é mais comigo.

Ela parou, hesitando. Suas bochechas rosaram repentinamente e ela abaixou a cabeça, cobrindo os olhos com a franja.

— Eu sou assim com todo mundo. – repetiu.

Ele franziu a testa em dúvida, pronto para perguntar mais uma vez. Porém as meninas entraram no cômodo, fazendo-o esquecer do assunto por um momento. Masumi tirou seu violino de dentro do estojo e eles começaram a ensaiar. O quarto era a prova de som, e antes de fechar a porta Ryuuji e Minato adentraram o cômodo e sentaram-se ao lado de Haru, querendo ver o ensaio naquele dia. O grupo tocava e parava algumas vezes, vendo o que precisavam melhorar nas músicas e notas, e voltando a tocar. Nos intervalos enquanto falavam sobre as músicas, os três expectadores conversavam.

— Parabéns, aniversariante! – exclamou Haru, animada – Tem certeza de que não quer uma festa? Podemos fazer uma assim! – estalou os dedos.

— Haru... – ele reclamou – Não quero festa. Me deixe em paz.

— Você é tão ranzinza, Ryuuji.

— E você às vezes é chata.

— Ah, vamos! Vai ser legal! Você está fazendo 17 anos!

— Você sabe que não estou de verdade, né?

Ela semicerrou os olhos, impaciente.

— Ryuuji!

— Haru!

Eles franziram as sobrancelhas, encarando um ao outro. Minato estava no meio e semicerrou os olhos de maneira tediosa, levantando em seguida.

— Isso vai durar até o final do ensaio. – suspirou – Haru, vem.

— Eh?

Minato a pegou no colo, fazendo-a exclamar e a pôs sobre seu ombro.

— Minato! – ela exclamou, reclamando e batendo em suas costas.

— Fique quieta, vamos ouvir música em outro lugar!

— Argh!

Ele saiu com ela, fechando a porta e Ryuuji suspirou, aliviado. Masumi achou graça, sorrindo e o grupo voltou ao ensaio. Enquanto ela tocava violino, Ryuuji prestava atenção. Masumi fechava os olhos e tocava suavemente o arco nas cordas, emitindo o belo som e sua harmonia, que o fazia admirá-la.

Asuka cantava, Megumi tocava a guitarra e Hyuuga, a bateria. Ryuuji arregalou ligeiramente os olhos ao ver Masumi acelerar o toque no violino quando a música acelerou. Ela franzia levemente as sobrancelhas, concentrada e às vezes inclinava-se para trás ou para frente quando a harmonia da música a envolvia. Desde quando eram crianças, ele sempre gostou de vê-la tocar.

Ao terminarem o ensaio, uma hora depois, guardaram alguns dos instrumentos.

— Acho que agora está perfeito. – Asuka sorriu.

— Concordo. – falou Megumi.

— Preciso acertar algumas batidas ainda. – disse Hyuuga – Não está bom.

Após guardar o violino, Masumi fitou Ryuuji e aproximou-se, parando a sua frente enquanto segurava o estojo.

— Ryuuji, pode vir comigo?

— Tudo bem.

Os dois saíram do cômodo enquanto os outros conversavam. Masumi o levou até o quarto dele e Ryuuji entrou em dúvida.

— Por que viemos pra cá? – perguntou, achando graça.

— Sente-se na cama, quero tocar pra você.

— Por quê?

— Você vai ver. – ela sorriu.

Ele deixou uma risada leve escapar e a observou tirar o violino de dentro do estojo. Masumi começou a tocar cautelosamente uma harmonia lenta e agradável aos ouvidos. Ryuuji a observava, sentado em sua cama e via sua delicada expressão demonstrando tranquilidade enquanto tocava. Ele tracejou um sorriso leve, assistindo-a. Quando cessou, ela abriu os olhos e o fitou.

— Gostou?

— Sempre gosto. – ele sorriu – É nova?

— Sim. – ela sorriu, contente por ele notar – É o seu presente.

— O que? – ele franziu a testa em dúvida.

— Você havia me pedido para fazer uma música especialmente pra você. – sorriu, lembrando-se – Então fiz para o seu aniversário.

Ryuuji a olhava, vendo seu sorriso feliz em sua direção.

— Eu estava brincando, Masu-chan.

Masumi enrubesceu e desviou o olhar, desfazendo o sorriso timidamente. Ryuuji às vezes a chamava dessa forma, fazendo-a corar sempre.

— Obrigada.

Ela o olhou, surpresa.

— Eu gostei mais ainda agora. – ele achou graça.

Masumi acalmou o olhar, sorrindo de maneira contente e guardando o violino. Após fazê-la, sentou-se ao lado de Ryuuji na cama e abaixou o olhar, fitando os pés.

— Né, o que vai fazer depois que se formar?

— Hum. – ele pensou – Não sei. Ainda vamos para o terceiro ano...

— Hum. – concordou – Acho que vou continuar na banda. É divertido. – sorriu.

— Você é ótima.

— Obrigada. Muitos rapazes falam isso.

Ela sorriu timidamente.

— Alguns são idiotas, não gosto deles.

— Por quê?

— Hum. – ela pensou – Por exemplo, os meninos da escola. – suspirou – Eles sempre me pedem para tocar apenas para eles, mas... Não sei... Há algo no tom de voz deles. Como se quisessem ficar a sós comigo.

— É porque querem. – ele achou graça – Esse é um jeito idiota de abordar uma garota, mas é o que querem.

— Acho que sim. – sorriu sem jeito – Mas... Parece é lascivo.

— Ah.

— Eu nunca nem beijei um garoto, então fazer é... Impensável.

Ele achou graça de sua polidez ao falar e a fitou, lembrando-se da época do primeiro ano. Ela o olhou e sorriu, desviando o olhar.

— Pare de me olhar assim.

— Assim como? – ele riu.

— Você sabe.

— Não sei.

— Não se faça de bobo. A sala de música.

— Ah, sim. – disse ele, debochadamente – A sala de música.

— Ridículo. – ela riu – Não falamos disso desde aquela época, então pare.

— Por quê? Não parece desconfortável pra você. – cutucou suas costelas, fazendo-a encolher-se – Sente cócegas?

— Claro que não. Você me pegou de surpresa.

— Sente, sim. – ele sorriu, cutucando-a mais uma vez.

— Pare com isso! – ela exclamou, rindo e levantando.

Ryuuji levantou, aproximando-se e pondo-a contra a parede, fazendo cócegas na altura de suas costelas. Masumi tentava conter as risadas, porém ele atingia seu ponto fraco. Ao ver suas bochechas ficarem rosadas por tanto rir, ele cessou.

— Isso é muito infantil! – ela exclamou, ainda rindo.

Ryuuji ria. Masumi desviou o olhar, envergonhada. Ela ainda estava contra a parede e ele ainda estava com as mãos na altura de suas costelas, próximo à ela.

— Pode...? Hum...

— Ah. – assentiu, abaixando as mãos. – Desculpe. – sorriu.

— Tudo bem. – ela sorriu timidamente.

Masumi o olhou e enrubesceu. Ela nunca havia pensando em Ryuuji como homem até aquele momento. O beijo quando estavam no primeiro ano havia sido algo inocente para os dois, porém naquele momento eles estavam próximos e ela percebia como ele mudara. Estava mais alto, mais forte e mais maduro, mesmo tendo feito essa brincadeira.

— Né... – sorriu timidamente, desviando o olhar – Posso... Dar outro presente a você?

— Outro? – ele sorriu – Outra música?

— N-Não. – olhou-o.

Ryuuji não compreendeu, apenas a olhava em dúvida.

— Feche os olhos. – ela pediu.

Ele o fez, ainda sem entender. Por um momento achou graça, pensando que ela faria cócegas nele para se vingar. Porém sentiu-a segurar uma de suas mãos e aproximar-se. Ryuuji sentiu um toque suave em seus lábios. Ao abriu levemente os olhos, viu-a o beijando. Masumi corava delicadamente e ao cessar, olhou-o e largou sua mão.

— Por que...?

Ela desviou o olhar, sorrindo suavemente.

— Não sei.

— Esse não foi acidental.

Ela negou com a cabeça, confirmando.

— Por que fez isso? – ele perguntou.

— Porque eu quis. – disse, docemente.

Masumi não o olhava, não conseguia mais. Desejou fazer isso, porém agora se sentia envergonhada. Ryuuji semicerrou os olhos enquanto a olhava. Quando se beijaram no primeiro ano, ele decidiu esquecer, pois havia sido um acidente. Mas ele tinha sentimentos por ela. Haviam crescido juntos e Ryuuji assistiu durante vários anos Masumi mudar e se tornar uma linda garota. Era esbelta, com rosto bonito e personalidade gentil. Decidiu se esquecer, mas agora não conseguia mais. Haviam se beijado de novo.

Ryuuji tocou gentilmente seu rosto, fazendo-a olhá-lo e vendo-a com as bochechas rosadas. Masumi fitou seus olhos cor de mel, semicerrando os olhos de maneira admirada. Ele aproximou o rosto, parando há poucos centímetros de seus lábios. Ela o olhava, vendo-o hesitar. Ele abaixou a mão, afastando-se e sorrindo suavemente.

— Obrigado pelo presente. Os dois.

Masumi arregalou os olhos, surpresa.

— Eh, mas...

— Foi gentil, obrigado.

Ela abaixou o olhar enquanto ele sorria. Ryuuji não compreendeu sua expressão, parecia entristecida.

— Masumi?

— Eu nunca beijei ninguém além de você. – disse ela, mantendo o olhar baixo.

Ele elevou as sobrancelhas. Demorou a compreender, porém percebeu que não era um simples presente. Não conseguiria esquecer esse segundo beijo e com a expressão de Masumi, ela não queria esquecer. Ela levantou o olhar, fitando-o. Suas bochechas ainda estavam coradas. Ryuuji engoliu em seco, aquele sentimento estava voltando.

— Não me olhe assim...

— Por quê?

— Porque... Quero fazer com você coisas que não deveria.

— Pode começar apenas com um beijo. – ela sorriu timidamente.

Ryuuji semicerrou os olhos, aproximando-se e tocando mais uma vez seu rosto. Não houve hesitação, ele a beijou. Masumi fechou os olhos, sentindo seus lábios e corando mais ao sentir sua língua dentro de sua boca. Ryuuji a envolveu com os braços, aproximando-a de si e sentindo seu corpo contra o dele. O beijo tornou-se intenso, ambos estavam ofegantes. Ao cessarem, olharam-se. Masumi perguntava-se o que ele pensava naquele momento, pois ela não sabia beijar daquela maneira. Porém Ryuuji apenas pensava em não querer largá-la nunca mais.