Notas iniciais
Vou colocar o link daquele mapa do Japão de novo, pois como vou falar dos distritos, então vocês podem se guiar por aqui, caso queiram. https://japaoemfoco.com/wp-content/uploads/2013/12/Províncias-japonesas-mapa.gif

Os trigêmeos estavam em frente ao muro da mansão Tsukinami. Laito observava o lugar, tendo a esperança de que Rin estivesse ali para ele enfim resgatá-la. Foram longos os três meses de procura. Ao partirem, Laito levou os irmãos até Shizuoka, em Tokai, para a grande biblioteca nacional da sociedade vampira. Se havia alguma possibilidade de encontrarem uma informação, seria ali. Entrar não fora um problema, como filhos de Karlheinz, eles possuíam livre acesso.

Porém dentro da biblioteca havia inúmeros livros que continham diversas informações. O obstáculo naquele momento fora encontrar os livros ou pelo menos um livro que contivesse a informação que precisavam. Após uma semana e meia procurando nas longas e altas estantes, ainda não haviam encontrado nenhum sinal sobre os Primeiro Sangue. Isso era impossível, eles eram os Fundadores. Deveria ter algo sobre eles na biblioteca nacional.

Ayato suspirou, desistindo de procurar e fora até o bibliotecário. Um homem com cabelos escuros, aparentando ser muito mais velho que os três, mesmo com sua jovem aparência.

— Ei, velho.

Ele levantou o olhar.

— Ayato-sama.

— Hum. – sorriu maliciosamente – Onde estão os livros sobre os Fundadores?

— Os...? Ahm, quem?

Ele se irritou.

— Os Fundadores. Os Primeiro Sangue, idiota.

— Me desculpe, mas...

— Ayato-kun. – disse Laito, aproximando-se – Ele deve ter se livrado de tudo.

— Ele não faria.

— Ele faria. – disse Kanato – Onde está o que sobrou?- perguntou ao homem.

— Me perdoe, Kanato-sama, mas não sei do que...?

Kanato irritou-se, franzindo as sobrancelhas.

— Onde está o livro que Reiji enviou?! – exclamou.

O homem estremeceu. Kanato não se comportava mais daquela maneira explosiva, porém na situação em que se encontravam, precisava pressionar o homem.

— Que livro? – perguntou Ayato.

— Havia um livro sobre os Primeiro Sangue junto às coisas da mamãe. – disse ele – Reiji o achou quando trancou o quarto e o enviou para cá. Quando perguntei, ele me disse que era sobre eles.

— Por que ele enviaria pra cá?

— Onde esconder um livro? – perguntou Laito, olhando-o.

Ayato sorriu maliciosamente.

— Em meio há milhares de livros.

Laito voltou-se para o homem, semicerrando os olhos e dizendo:

— Diga onde ele está e permitirei que continue vivo.

O homem hesitou, porém pegou um pedaço de papel e escreveu a sessão e prateleira, dando-o a eles.

— Está aqui. Mas, por favor, não diga que fui eu quem lhes contou.

Kanato pegou o papel e virou-se, direcionando-se até a sessão. Caminhando entre um longo corredor de altas estantes, ele parou em frente à sessão de livros da história japonesa e subiu as escadas, pegando um grande e grosso livro. Levou-o até a área onde as grandes mesas de madeira ficavam e seus irmãos esperavam. Colocou-o sobre a mesa e os dois se aproximaram, observando o livro com capa de couro preto.

— Encontrou? – perguntou Ayato.

— Sim. – disse ele, abrindo-o e folheando as páginas amarelas – Parece conter toda a história deles. Desde o rei demônio até...

— Deixe-me ver. – disse Laito, puxando-o calmamente para si e folheando-o – Realmente há toda a história deles. Desde os primeiros até a última família.

— O que está escrito?

Laito virava as páginas, lendo o que para ele mais importava naquele momento.

— Eles possuíam todo o poder e o trono. – virou uma página – Karlheinz tomou o poder através de uma conspiração e os Fundadores deixaram de existir. A última família fora de Giesbach e Krone Tsukinami, e seus filhos, Carla e Shin.

Os três olharam uma foto.

— Os pais morreram e o paradeiro dos filhos é desconhecido. – Laito concluiu, virando a última página – Não há mais nada.

— Eles deixam bem claro o que nosso pai fez. – disse Ayato.

— Mas quem vai desafiá-lo? – perguntou Laito.

— Essa porcaria não ajudou em nada. – Kanato reclamou, enraivecido.

— Talvez tenha ajudado.

Ayato e Kanato o olharam, vendo-o voltar algumas páginas atentamente até achar o que procurava. Ao conseguir, estreitou os olhos verdes.

— Aqui. – apontou, tocando a linha desejada – “A família Tsukinami reside em Tohoku e possui duas grandes mansões de seu nome”.

— Tohoku? – disse Ayato em dúvida – É gigante!

— Não há uma referência melhor? – perguntou Kanato.

— Não. – disse ele – Pelo menos não precisamos procurar por todo o Japão.

— Mas como podemos ter certeza de que estarão mesmo em uma dessas mansões?

— Pelo pouco que Reiji disse, os dois estão há séculos trancados. Para onde iriam?

Eles se entreolharam, concordando.

— Vamos. – Laito fechou o livro e se afastou – Será uma longa procura.

Ayato e Kanato assentiram, pondo o livro no lugar e seguindo-o. Após partirem para Tohoku, uma a uma os três verificaram os distritos. Cada um parecia ser maior que a anterior, porém não pararam. Exceto quando necessitavam beber sangue. Porém mesmo parando por alguns minutos, Laito não os deixava ficar mais de meia hora descansando. Ele mal os deixava dormir, precisava continuar. Precisava resgatar Rin.

Ao terminarem de vasculhar Fukushima, Kanato e Ayato estavam sedentos por sangue. A última vez que Laito os deixara se alimentar fora há duas semanas e eles precisavam beber sangue. Poderiam aguentar um pouco mais, porém notaram que Laito também precisava se alimentar, mesmo não querendo parar.

Enquanto caminhavam à noite pelas calçadas da cidade, Kanato e Ayato observavam o irmão andando a frente deles.

— Laito, vamos comer. – disse Ayato com a mochila e espada nas costas.

— Não, falta pouco.

Ayato franziu a testa.

— Minha garganta está tão seca. – disse Kanato de maneira manhosa – Vamos parar um pouco.

— Não.

— Eu sei que você quer achá-la o quanto antes, mas se estiver morto, não vai conseguir.

Ele parou sem virar-se e assentiu. Os dois entraram em uma rua sem saída e Laito permaneceu escorado na parede de um dos vários prédios. Ao verem um casal se aproximar, Laito os fitou com os olhos semicerrados e viu os irmãos os puxando para a rua sem saída e tamparam suas bocas. Ele sentiu o cheiro de sangue e adentrou a rua, fitando-os. Kanato bebia o sangue da garota e tampava os olhos enquanto Ayato segurava o braço do rapaz por trás, bebendo seu sangue.

— Posso dividi-la com você. – disse Kanato ao cessar – O sangue dela é doce. – sorriu, semicerrando os olhos.

Laito fitou a garota, que chorava enquanto ele tampava sua boca, e desviou o olhar. Não sabia se Rin havia sido levada dessa maneira, porém lembrou-se dela e aproximou-se do rapaz de quem Ayato bebia o sangue, mordendo seu pescoço ao passo que Ayato cessou. Deixou-o para ele, que na última vez nem se alimentou. Quando cessou, sentindo a morte possuir o rapaz, assim como a garota que Kanato largou e caiu no chão, Laito se virou, dizendo:

— Vamos.

Os dois o fitaram e se entreolharam com os lábios sujos de sangue.

— Ele também surtou. – disse Ayato, limpando os lábios e caminhando – Não foi apenas Reiji.

Kanato assentiu, limpando os lábios e continuando, também tendo uma mochila em suas costas, assim como a espada. Mesmo percebendo que o irmão não estava bem, decidiram apenas continuar a procurar. Era compreensível a pressa de Laito já que não sabiam por que os Tsukinami haviam sequestrado as duas, principalmente por Rin ter ido acidentalmente.

Após algumas semanas, completando um mês desde a partida, os três terminaram de vasculhar Miyagi e não encontraram as mansões. Laito tornava-se ainda mais apreensivo e Ayato apenas observava seu comportamento. Ele era sempre sorridente e malicioso, porém agora estava mais rígido que Reiji e não desfazia a expressão irritada. Laito, porém, apenas desejava matar quem havia sequestrado Rin. Ela era sua noiva e ele se repreendia por tê-la deitado ir até Mana sozinha. O lobo o impediu, porém ele deveria ter ido com ela de qualquer maneira. Agora Rin estava em algum lugar e Laito apenas se enfurecia ao imaginar o que poderiam estar fazendo com ela.

Ao adentrarem no distrito de Yamagata, o festival de outono havia começado em meados de outubro. Ayato e Kanato observavam como a cidade estava movimentada, porém principalmente como Laito não se importava com isso. Havia festivais nas praças e pessoas animadas e arrumadas. Porém enquanto caminhava pela calçada, ele apenas olhava para frente.

— Laito, vamos descansar um pouco. – disse Ayato.

— Não. – disse ele, sem virar-se.

— Vamos ver um pouco o festival. – disse Kanato – Vai ser divertido.

— Não estamos aqui para nos divertir.

Ayato franziu as sobrancelhas e Kanato abaixou o olhar. Eles sabiam que o que importava era procurarem pelas meninas, porém queriam relaxar por pelo menos dez minutos. Laito continuava, porém Ayato parou e persistiu.

— Eu vou ao festival relaxar. – disse ele.

Laito parou, encarando-o.

— O que?

— Por pelo menos alguns minutos. Não paramos de andar nem por um segundo. Você não se cansa? – perguntou ele – Vamos, Kanato.

Kanato o seguiu e direcionaram-se para uma das praças onde ocorria o festival. Laito franziu as sobrancelhas, aborrecido, porém os seguiu.

Havia várias barracas montadas na praça e lanternas de papel vermelhas e laranjas penduradas nas cordas que se cruzavam no caminho que as barracas faziam. Inúmeras pessoas caminhavam pela praça. Homens, mulheres e crianças, muitas vestidas em Yukatas. Kanato e Ayato olhavam de forma animada para as barracas de comidas, doces e brinquedos, e distraíam-se enquanto Laito os seguia em silêncio.

Kanato comprou algodão doce e Ayato desaparecera por um minuto, surgindo ao seu lado com um urso de pelúcia na mão, dizendo:

— Toma.

— Eh? – ele o olhou.

— Eu sei que não é nem um pouco parecido com Teddy, mas é estranho te ver sem aquele urso.

Kanato franziu a testa e o pegou. Ayato caminhou até Laito e Kanato deixou escapar um sorrido, tirando a mochila das costas e guardando o presente do irmão. Ao se aproximar, Ayato deu uma pequena caixa para Laito.

— O que é isso? – perguntou, abrindo-a e vendo brincos vermelhos.

— Quando achar Rin, ela deve gostar. Aquela garota só usa vermelho.

Laito semicerrou os olhos, lembrando mais uma vez de Rin. Não parava de pensar nela nem por um segundo. Não conseguia dormir, seus pensamentos resumiam-se a ela. Porém ele sentiu Ayato pôr algo em sua cabeça e o olhou, vendo-o sorrir largar. Pôs a mão na cabeça, sentindo um chapéu e tirando-o para olhá-lo, vendo sua cor preta.

— Você sem aquele chapéu é muito estranho.

Laito o fitou e franziu as sobrancelhas, cerrando o punho enquanto segurava o chapéu.

— Você acha que isso é uma viagem? – exclamou, enfurecido – Acha que por acaso estamos viajando como uma alegre e feliz família?

Ayato franziu a testa, olhando-o.

— Você não estaria assim se Sora quem tivesse sido sequestrada. Agora eu bem que queria que ela tivesse sido!

— Ei! – Ayato exclamou, irritado.

Laito passou por ele e se afastou. Kanato o olhou passar por si e virou-se, vendo-o sair da praça ao longe. Os dois se entreolharam e voltaram a andar, indo atrás de Laito. Procuraram por ele e o acharam parado em frente a uma faixa para pedestres. Porém quando o semáforo se tornou vermelho para os carros e as pessoas começaram a atravessar a rua, ele se manteve parado. Viram-no limpar o rosto e surpreenderam-se.

Os dois pararam logo atrás dele.

— Ei, vamos dormir em algum lugar. – disse Ayato.

Laito o olhou com a expressão entristecida e assentiu. Os trigêmeos se hospedaram em um quarto num hotel e deitaram nas camas. Laito, porém, sentou-se numa das cadeiras e tirou o mapa que usavam de dentro na mochila, abrindo-o e marcando com uma caneta por onde passaram, franzindo as sobrancelhas. Havia várias marcações no mapa de Tohoku, deixando-o apreensivo.

— Laito, pare de olhar isso. – disse Kanato – Vamos dormir um pouco.

— Estou olhando. – disse ele, olhando fixamente o mapa.

Ayato sentou-se na cama, encarando-o e levantando. Direcionou-se até ele e pegou o mapa, dobrando-o e enfiando-o dentro da mochila de Laito.

— Não vai achá-la pelo mapa. – disse ele com as sobrancelhas levemente franzidas.

— Não se intrometa, Ayato.

Ele surpreendeu-se por Laito não usar os honoríficos como sempre.

— Você é um falso, sabia? – disse ele.

Laito franziu a testa e Kanato se sentou na cama.

— O destino sempre manda as piores coisas pra você, mas você consegue sempre estar sorrindo, mesmo que maliciosamente. – continuou – Você é falso. Tudo isso é um personagem idiota que você inventou. E agora que a Rin foi levada, você está mostrando quem é.

Laito o encarava, irritado.

— Mostre quem você é de verdade! – exclamou Ayato – Rin foi levada e Subaru foi mordido. Não está com raiva?

Na verdade Laito se sentia culpado. Se ele tivesse visto o lobo e desviado, Subaru não precisaria se pôr entre os dois e não seria ferido.

— Você teve um caso com nossa mãe e nosso pai o trancou num calabouço. Não ficou com raiva dela? Não sente raiva dela?

— Ayato, não fale da mamãe. – disse Kanato, apreensivo.

— Aquela mulher nunca me amou. – Laito murmurou.

Ayato o olhou, sorrindo desafiadoramente.

— Finalmente você vê isso. Ela nunca amou nenhum de nós três. Aquela víbora só queria nosso pai e nos usava como podia. Quando não conseguiu o afeto dele, passou a usar você.

— Cale a boca! – exclamou Laito, levantando bruscamente e segurando na camisa do irmão.

Kanato levantou e rapidamente o empurrou, afastando-o de Ayato, que franziu as sobrancelhas.

— Estamos aqui pra descansar! – ele exclamou, enraivecido – Quanto antes descansarmos, mais rápido vamos voltar a procurá-las. E eu quero voltar pra casa e para Reiko-chan. Então parem!

Ayato estalou a língua e sentou em sua cama de costas para eles. Laito suspirou e deitou-se, fitando o teto e tentando dormir. Kanato cobriu-se ao deitar, fechando os olhos. Ayato abaixou a cabeça, pensando. Os três estavam há dois meses andando por Tohoku, apenas eles. Isso não acontecia desde que eram crianças e ele não parava de pensar nisso.

— Ela fez as cordas vocais do Kanato sangrarem naquela noite. – confessou.

Kanato abriu os olhos e Laito continuou a fitar o teto.

— Eu sei.

— Ela era má. – disse Kanato.

— Você saiu do calabouço naquela noite e eu descobri o que ela fazia com você. – disse Ayato – Por isso a ataquei.

Kanato franziu a testa, Ayato atacou Cordelia por causa dos dois. Laito fechou os olhos, dizendo:

— Rin me ajudou. – confessou – Me ensinou o que é amor de verdade e fez com que eu me apaixonasse por ela.

Kanato o fitou, semicerrando os olhos.

— Eu a amo. – disse Laito – Eu a quero de volta.

Ayato assentiu, ainda de costas.

— Desculpe por falar de Sora.

— Foi mal pelo chapéu. – disse Ayato.

— Hum. – Laito negou – Não faz meu estilo, mas você quase acertou.

Ayato sorriu levemente, a franja tampava seus olhos.

— Obrigado pelo urso, Ayato. – disse Kanato.

— Hum. – ele assentiu e suspirou, deitando e cobrindo-se.

Os três silenciaram-se, porém perceberam que naquele momento estavam mais próximos do que imaginavam. Kanato notou que os irmãos não eram tão distantes quanto ele pensou, mas precisavam de mais momentos como esse. E mesmo achando isso, sabia que teriam esses momentos tanto durante o resto da procura como em casa, quando voltassem. Ayato estava deitado de costas para os dois, porém semicerrava os olhos e pensava em Sora, desejando que voltassem logo para casa.

Após verificarem metade de Tohoku, completando três meses desde a partida, chegaram a Akita. Os três caminhavam pelas ruas, fazendo perguntas aos habitantes e vasculhando as poucas mansões que existiam. Mudaram um pouco seu modo de procura, alimentando-se e descansando quando precisavam. Laito relaxou um pouco, porém ainda apressava os irmãos quando queria voltar a procurar por Rin. Mesmo não ficando tanto com a expressão rígida como antes, ele ainda queria achá-la o mais rápido possível e os irmãos compreendiam. Se Sora ou Reiko tivessem sido levadas, eles também não iriam querer parar.

Ao saírem da cidade, os três se aproximaram de uma aldeia distante. Era pequena, na floresta e há quilômetros de distância da cidade mais próxima.

— Será que tem mansões por aqui? – perguntou Kanato – Estamos no meio da floresta.

— Eles provavelmente querem distância, faz sentido. – disse Laito – Isso se estiverem por aqui.

Aproximaram-se de um pequeno comércio de chá e ao adentrarem, avistaram uma senhora no balcão. Era uma mulher com olhos estreitos e cabelos brancos, presos em um coque.

— Com licença. – disse Laito – Somos mochileiros e estamos procurando por uma mansão para tirarmos fotos para nosso álbum de viagem. A senhora por acaso conhece alguma?

A mulher o olhou, observando sua imagem bela e jovem, e fitou seus irmãos, vendo como eram diferentes.

— Bem, não sei dizer, meu jovem. – disse ela – Há boatos de que há uma mansão no meio da floresta. Naquela direção. – apontou – Mas é perigoso, há lobos lá. O que é estranho, já que nunca houve antes.

— Lobos? – perguntou Kanato, desconfiado – Duas amigas nossas se separaram de nós em Yamagata, dizendo que viriam para cá. – tirou duas fotos de dentro da mochila – Você por acaso as viu? Seria perigoso.

Laito o fitou discretamente e olhou para Ayato, que assentiu. Kanato era mais esperto do que pensavam.

— Ah... – a senhora pegou as fotos – Não sei dizer se passaram por aqui, mas meu neto disse que viu uma garota na floresta correndo dos lobos, pobrezinha. Tatsuo! – chamou-o.

— Sim!

O neto da senhora saiu da parte de trás da loja, passando por uma cortina e viu os três rapazes, fitando a avó em seguida.

— Vovó?

— Querido, aquela moça que você viu na floresta por acaso era uma dessas garotas das fotos? Esses meninos são amigos delas.

Ela lhe entregou as fotos e ele olhou uma garota ruiva e uma loira.

— Essa aqui, a loira.

— Jura? – perguntou Ayato, surpreso – Onde ela está?

— Não sei, sinto muito. – disse ele – Há poucos meses eu estava pegando algumas maçãs na floresta.

— Eu sempre digo para não se afastar tanto. – disse sua avó, cruzando os braços e balançando a cabeça.

— Vovó. – disse ele, fitando-a e voltando-se para os três em seguida – Quando terminei de colher as maças, me virei para ir e vi uma garota loira e bonita correndo pela floresta. Ela parecia fugir de alguém, mas então vi alguns lobos correndo atrás dela e rosnando. Me escondi atrás de uma árvore e tudo ficou silencioso.

— O que houve com ela? – perguntou Ayato.

— Não sei. Mas não ouvi falar de ninguém que tenha achado um corpo. Geralmente quando alguém é atacado por algum animal, logo descobrem.

— Para que direção era isso? – perguntou Laito.

— Noroeste. – apontou – Há três quilômetros e meio daqui mais ou menos.

— Muito obrigada.

— Espero que achem as meninas. – disse a senhora.

Eles assentiram e partiram. Ao se distanciarem da aldeia, caminhavam na direção que o neto da senhora indicou, acreditando que enfim uma das mansões Tsukinami estava próxima.

— Acha que Mana está viva? – perguntou Ayato.

— Eles precisam dela para algo. Não a matariam. – disse Laito, pensando – Ela deve ter escapado e eles foram atrás dela com aqueles lobos.

— Mana não deve ter conseguido ir muito longe, então a mansão é próxima de onde o garoto estava. – disse Kanato.

Os dois assentiram e adentraram ainda mais a floresta, percebendo que a mansão era no meio do nada. Não havia mais nenhuma pessoa ou aldeia próximas. Eles realmente sabiam se esconder. O anoitecer chegara e a lua cheia subiu ao céu. Ao passarem por onde provavelmente o garoto viu Mana, chegaram até a lateral de uma mansão. Naquele momento, os três encaravam os muros.

— Será que elas estão mesmo aí? Eram duas mansões, não é? – Kanato perguntou – É mesmo longe.

— É inteligente que seja. – disse Laito – Se não for aqui, continuamos a procurar. Mas pelo o que o garoto disse, deve ser aqui.

— Não há dúvidas. – Ayato os olhou.

Assentiram.

— Como vamos fazer? – Kanato perguntou – Será que há mais?

— Provavelmente apenas os dois. – disse Ayato – Foram os únicos que sobraram. Mesmo se houver empregados ou servos, não vão se intrometer.

Laito deu o primeiro passo.

— Vamos. É lua cheia.

Assentiram mais uma vez, saltando e voando, tendo essa capacidade na lua cheia.

Enquanto isso, dentro da mansão Tsukinami, Mana caminhava pelo corredor. Tocou sua barriga, lembrando-se mais uma vez que tinha alguém em seu ventre e sorriu. Ela fitou por um momento um dos candelabros na parede e ao voltar-se para frente, percebeu Shin passar por ela. Pela sua expressão frustrada e irritada, ele deve ter ido até Rin. Ela abaixou o olhar por um momento, já não a vi há um mês. Como será que ela estava? Agora que não poderia mesmo partir, Mana se preocupava ainda mais com ela.

Direcionou-se para seu quarto, não deveria ter medo de Rin dizer a verdade na sua frente. Ela fora realmente fraca e desistira. Rin não estava dizendo bobagens. Ao se aproximar da porta, abriu-a e a viu sentada na cama. Ela levantou o olhar, fitando-a.

— Rin? – adentrou o quarto – Como está?

— Trancada.

Mana desviou o olhar por um momento.

— Os olhos de cobra conseguiu te engravidar? – Rin perguntou, desconfiada – Você parece diferente.

Ela hesitou, porém assentiu com a cabeça.

— Por favor, não diga nada. – pediu.

— Não direi. Você sabe bem o que penso. – Rin suspirou, abaixando o olhar.

Mana a fitava.

— Sabe... – disse Rin, pensando – Eu admirava você.

Ela arregalou os olhos, surpresa.

— Você... – continuou – Era correta, educada e bonita. Não importava quantas vezes Reiji lhe desse uma resposta ou fosse indiferente a você. Você sempre dava a volta por cima e continuava, tentando conquistá-lo. Quando finalmente consegue e se casa com ele, somos sequestradas e... Você desiste. – olhou-a – Por que foi tão fraca? Deixou de amá-lo?

Mana abaixou o olhar, envergonhada. Caminhou até a cama e sentou-se a frente de Rin, olhando-a nos olhos e dizendo:

— Nunca deixei de amá-lo. Mas desisti por tudo o que disse.

— Como assim?

— Ele é difícil como todos sabem. – dizia ela – Sabia que ele me drogou uma vez? – sorriu ao lembrar-se.

Rin arregalou os olhos.

— O que?

— Por causa da história do diário. – disse ela – Ele me convidou para seu quarto e me recriminou, dizendo que a culpa era minha por não ter guardado o diário corretamente. Eu disse que você quem deveria ser recriminada, mas ele apenas falou que você não era sua noiva. Me convidou para beber chá, mas havia posto uma droga que ele havia feito. Eu fiquei tonta e meu corpo parecia mole. Quando tentei levantar, caí e ele se aproximou, bebendo meu sangue.

— Nunca pensei que ele fosse fazer isso com você. – disse ela, ainda surpresa.

— Eu dei o troco naquele dia. Fiz com que ficasse constrangido, mas... Eu não queria isso. Queria um relacionamento de verdade. Continuei tentando e consegui que nos aproximássemos. Mas Cordelia chegou e descobri depois que Reiji havia mandado um caçador matar a própria mãe.

— Matar...?

— É. – assentiu – Ela era uma pessoa tão difícil quanto ele. Reiji tem ódio dela e de Shuu, que recebia mais atenção da mãe. Mas... No casamento de Ruki e Arizu... Senti como se houvesse sido a última gota.

— Ele ateou fogo na aldeia de Yuma. – Rin lembrou-se – Quando era humano.

— Eu pedi no natal para ele mudar, mas... A maneira como ele disse aquilo à Yuma... Me decepcionou.

— Mas você tinha o perdoado.

— E perdoei. – ela disse – Mas quando chegamos aqui e fomos trancadas naquelas celas... Voltei a pensar nisso e em quantas coisas ruins ele dissera para mim. Então... Desisti.

Rin semicerrou os olhos, abaixando-os.

— É possível amar duas pessoas, Rin? – perguntou – Ainda amo Reiji, mas... Também amo Carla.

— Não sei. – olhou-a – Talvez.

Ela assentiu.

— Carla ama você. – disse Rin repentinamente.

— Eh?

— O pirata me disse que você engravidou e que Carla dissera para ele se concentrar em mim. Ele sabe que não vai conseguir nada, mas... Pensei nisso. O plano deles era usar você, mas agora Carla não quer que ele durma com você. Se não se importasse, ele a daria de bom grado após o bebê nascer. Mas decidiu isso.

Mana enrubesceu, desviando o olhar.

— Rin... – olhou-a com os olhos marejados – Carla vai morrer.

Ela arregalou os olhos, confusa.

— O que...?

— Ele está doente... – Mana abaixou o olhar, chorando – Karlheinz fez um soro que potencializou um vírus que os Primeiro Sangue já tem e Carla foi ferido pelo pai, que estava infectado. Ele... – lembrava-se – Tem um grande hematoma no corpo e tosse sangue... Ele não vai vê-lo nascer.

Rin a olhava, estática. Assistia Mana chorar e pôr uma das mãos em frente à boca, abafando o choro. Ela podia ter feito o que fez e desistido, porém Rin ajoelhou-se na cama e a abraçou. As lágrimas de Mana caíam enquanto ela sentia a dor imensa de estar prestes a perder Carla. Era uma dor que atingia seu peito e refletia em todo seu corpo. A única pessoa que conseguia naquele momento fazê-la se sentir um pouco melhor, era Rin.

Após chorar e se acalmar, tendo Rin ao seu lado, Mana fora para o quarto. Depois de tantas tentativas e a recente concepção, ela havia mudado para o quarto de Carla. Ao chegar, abriu a porta e arregalou os olhos. Carla estava ajoelhado no chão ao lado da cama, tossindo com um lenço contra a boca e tentando abafar os gemidos. À sua frente havia uma pequena poça de sangue que ele havia cuspido e tossido. Ele viu Mana e semicerrou os olhos, envergonhado.

— Carla! – ela exclamou, correndo até ele – O que está havendo? – perguntou enquanto o ajudava a levantar.

Ele mal conseguia se manter de pé, a dor era intensa e angustiante. Mana o deitou na cama, vendo-o torcer a expressão e temendo que o pior acontecesse.

— Por favor, por favor! – exclamou – Vou chamar Shin!

Ele segurou sua mão, impedindo-a.

— Não! – gemeu, tossindo e soltando sua mão.

Os olhos de Mana marejaram, ela se sentou ao seu lado.

— Por que...?

— No último mês... Piorou. – ele ofegava.

— Por que não me disse? – perguntou, segurando sua mão – Por favor... Fique bem, por favor...

Carla a olhava e tossiu mais uma vez, curvando-se. Ao cessar, as dores cessaram por um momento, porém ele as sentia leve e continuamente.

— Mana...

Ela se aproximou mais, olhando-o.

— Vai ficar tudo bem... – disse ele, olhando-a – Não se esqueça...

— De que?

Carla tocou seu rosto, acariciando-o gentilmente com o dedo e sorrindo de forma suave. Mana o olhava, chorando e vendo seu sorriso.

— Mesmo por pouco tempo... Você me fez feliz. – disse ele – Me fez amar... Eu não sabia que era possível.

Ela tocou sua mão, estreitando os olhos enquanto chorava e pondo a mão em seu peito, apertando sua roupa.

— Não morra... – pediu – Eu nunca vou perdoá-lo se morrer!

Ele tossiu mais uma vez, porém sorrindo levemente em seguida.

— Me perdoe...

— Não, não...

Deitou a cabeça em seu peito, chorando ainda mais. Mana rangeu os dentes, sentindo a dor intensa em seu peito.

— Eu amo você... Por favor, não quero perdê-lo!

Carla fitou o teto, sorrindo e permitindo-se deixar uma lágrima cair, tossindo de maneira fraca. Mana endireitou-se, inclinando-se e tocando seu rosto.

— Por favor, por favor... Não morra. – implorava – Você vai ver vê-lo nascer! Por favor!

Carla segurou gentilmente sua mão, que tocava seu rosto, e com a outra, tocou sua barriga.

— Obrigado por ter me feito pai.

Mana engoliu em seco, segurando firmemente sua mão.

— Mana... – disse ele, ainda sorrindo – Eu amo você.

As lágrimas de Mana escorriam por seu rosto, vendo seu sorriso se desfazer e os olhos de Carla deixaram de brilhar enquanto semicerravam-se. Ela abriu a boca, chorando de forma ofegante, vendo que ele não segurava mais sua mão. Deitou em seu peito, rangendo os dentes enquanto chorava. A dor era intensa, a própria respiração doía.

No andar de baixo, os trigêmeos percorriam os corredores. Surpreenderam-se pelo lugar luxuoso, a decoração e os diversos quadros que viam. Os Tsukinami realmente possuíam o dinheiro da família. Eles subiram mais um lance de escadas e adentraram outro corredor, perguntando-se onde estariam as duas. Ao virarem, avistaram um rapaz de cabelos enferrujados. Ayato e Kanato empunharam suas espadas enquanto Shin arregalava os olhos, surpreso.

— Tsc, miseráveis! – exclamou ele, atacando-os.

Shin tornou-se lobo e correu em direção aos três. Laito e Kanato franziram as sobrancelhas, saindo repentinamente da frente e deixando o lobo ir em direção à Ayato, que lhe desferiu um golpe e cortou seu ombro. Ele rosnou, ganindo e o olhou de maneira furiosa após ver o grande corte.

— Vão! – Ayato exclamou.

Eles hesitaram, porém correram. Ayato voltou-se para o lobo, que rosnava em sua direção e percebia que o corto não cicatrizava. Ayato sorriu maliciosamente, dizendo:

— Prata... Otário.

— Vou te cortar em pedaços... – Shin rosnou.

Ele correu repentinamente e saltou, abrindo a boca em sua direção. Ayato arregalou os olhos, desferindo outro golpe.

Laito e Kanato percorreram rapidamente os corredores, porém em um dado momento, Laito arregalou os olhos ao passar por uma das portas. Parou repentinamente, fazendo Kanato parar e se aproximaram da porta. Ele respirou fundo e abriu os olhos, afastando-se e chutando a porta. Como não abriu, pediu a espada de Kanato e enfiou a ponta da fechadura, quebrando-a e abrindo a porta.

Ao fazê-lo, abriu a porta brutamente e avistou Rin na cama. Ela estava ajoelhada e surpresa, havia se assustado com o chute na porta. Porém ao ver Laito, seus olhos marejaram.

— Rin!

— Lai...to? – levantou da cama e correu – Laito!

Ele correu e a abraçou, acolhendo-a. Rin começou a chorar, abraçando-o fortemente.

— Eu sabia! Eu sabia que viria!

— Finalmente te achei... – beijou-a – Eu amo você. – disse ao cessar, tocando seu rosto.

Rin sorriu, emocionada. Enfim ele havia chegado para salvá-la.

— Laito, vamos. – disse Kanato.

— Certo. – olhou-o e voltou-se para ela – Rin, onde está Mana?

— Mana...?

— Ela está aqui, não é?

— Sim. Ela deve estar no outro quarto. – disse ela.

Os três voltaram aos corredores e correram, abrindo a porta do quarto onde as duas acordaram e não encontrando Mana. Rin desconfiou que ela estaria com Carla, porém não sabia onde ficava seu quarto. Voltaram a percorrer os corredores e no andar de cima, ouviram alguém chorando. Ao aproximarem-se da porta, abriram-na e avistaram Mana chorando com a cabeça deitada no peito de Carla, que estava morto. Laito e Kanato franziram a testa e Rin pôs a mão sobre a boca, ele realmente morrera.

— Mana! – ela disse, surpresa.

Ela levantou a cabeça, olhando-a e chorando desesperadamente.

— Ele morreu... Ele morreu!

Ayato surgiu repentinamente, chegando de forma ofegante e vendo Mana chorar ao lado de um cadáver.

— O que aconteceu? – perguntou logo atrás de Kanato.

Os três viraram-se para ele.

— Cadê aquele cara? – Laito perguntou.

— Fugiu. Agora com certeza tem um X no ombro.

Rin voltou-se para Mana, dando um passo para se aproximar e ajudá-la, porém Laito exclamou:

— Rin, espera! – segurou sua mão, impedindo-a.

Ela não compreendeu, porém logo viu Shin do outro lado do quarto. Seu ombro sangrava, a roupa estava cortada e tinha dois grandes cortes na pele. Provavelmente fora procurar Carla para avisar que os Sakamaki invadiram a casa e pedir ajuda para lutar por ter subestimado mais uma vez o inimigo, porém arregalou os olhos ao vê-lo na cama. Ele estremeceu, fitando a cena.

— Nii-san... – seus olhos marejaram – Nii-san! – fitou-os – O que vocês fizeram! – gritou.

Mana o olhou.

— Shin... Ele estava doente. Endzeit...

Ele arregalou os olhos em sua direção, rangendo os dentes. Correu em direção à cama, pulando sobre ela para se aproximar. Ayato correu e puxou Mana para longe dele, segurando seu ombro e ameaçando-o com a espada.

— Pára! – ela exclamou, tentando se aproximar.

Shin a olhou, vendo como chorava e pegou o corpo do irmão nos braços, olhando para os outros de forma furiosa. Ele correu e pulou pela janela, que estava aberta. Mana exclamou, ajoelhando no chão e chorando. Os trigêmeos não compreenderam. Ela não havia sido levada à força? Por que teve essa reação?

Rin aproximou-se, ajoelhando-se ao seu lado e abraçando-a. Mana abraçou-a, chorando desesperadamente. Ela pôs a mão em sua cabeça e a afagou de forma que a consolava. Eles ainda não compreendiam, apenas a olhavam em dúvida.

— Melhor irmos logo. – disse Kanato.

Eles assentiram. Rin ajudou Mana a se levantar e levou-a com eles. Ao saírem da mansão e afastarem-se dos muros, as duas perceberam por um momento que enfim estavam livres. Nunca mais veriam aquele lugar.

Após resgatá-las, eles voltaram para a cidade mais próxima e compraram passagens para o trem. Precisaram pegar dois para voltarem para casa, porém o fizeram e estavam dentro do segundo trem naquele momento. Laito e Rin estavam sentados em um banco. Ele lhe dera seu casado, que ficava grande em seu corpo. Porém Rin sorria em sua direção, sendo acolhida por seu braço. Laito abriu a mão a sua frente e lhe deu uma pequena caixa. Ela sorriu em dúvida e quando a abriu, viu pequenos brincos vermelhos. Rin sorriu em sua direção, fazendo-o sorrir. Ayato, Kanato e Mana estavam no banco em frente ao deles. Mana observava a paisagem ao lado, sentindo às vezes uma lágrima escorrer e limpando-a rapidamente. Os dois a observavam, confusos. Laito fitou Rin, também confuso e ela sussurrou, dizendo que depois explicaria.

Uma hora e meia após subirem no trem, observaram através da janela que aos poucos a paisagem mudava e a cidade surgia. Os cinco olhavam para os prédios e para as inúmeras pessoas na rua, que caminhavam tranquilamente. Alguns semicerraram os olhos, enfim estavam em casa.

Notas finais
Vocês não fazem ideia do quanto eu chorei! Por isso postei tão tarde 'kkkkkkk