Dia 2

‘Que sono bom eu tive... Aquele sonho que eu era um demônio foi muito estranho, mas agora que eu acordei...’

E eu acordei. E não, não era um sonho.

Querido diário, se isso for um sonho me acorde.

Eu ainda era um demônio do sexo feminino, se é que demônios possuem sexo. Tudo o que eu sabia era que eu estava em um corpo que não era o meu, em um lugar que eu não conhecia e agora eu estava sendo observado de perto por algo que parecia ser um morcego. Parecia porque morcegos não tem barba, eu acho...

— Bom dia mestra. Você dormiu demais, já é hora de tomar café da manhã.

— Humm, bom dia? – E a voz que saiu da minha boca era muito suave, a voz de uma garota de dezesseis anos... Aquilo me deixou arrepiado por dentro. – Que horas são?

— Já é meio dia, acho que o stress do ritual foi muito grande pra você e você acabou dormindo. Do que você se lembra? – O morcego, que por algum motivo eu não me sentia nem um pouco desconfortável ao falar, perguntou.

Quando eu tentei me lembrar o que havia acontecido antes era como uma neblina densa na minha cabeça, onde eu estava acostumado a ver tudo claramente, mas agora eu conseguia ver algumas coisas. Eram lembranças que não eram minhas, uma segunda biblioteca ainda mais complexa e cheia de coisas, mas essa era terrivelmente bagunçada, não conseguia acessas as informações de forma alguma porque nenhuma delas fazia sentido.

As informações mais recentes, no entanto, foram fáceis de achar. Foi nesse momento que caiu a ficha de quem eu realmente era então eu vou colocar aqui tudo o que eu sei até então.

Nome: Asura

Idade: Nem ela sabe mais quantos anos tem

Espécie: Demônio

Ocupação: Mestre

Ranking dos demônios: Septuagésimo segundo lugar.

A última memória de Asura era a de muita apreensão. Ela era um demônio menor, fraco, sem família, preocupada por ter acabado de ingressar em um mundo de lutas sem fim, mas com muito orgulho, um orgulho demoníaco.

Ela tinha acabado de ingressar nesse mundo e o primeiro ritual, que era o ritual de troca de corpo (onde um demônio mostra que amadureceu e que está pronto pra lutar com os demais demônios pela posição de superioridade nesse mundo) deu errado.

O único motivo de o ritual ter dado errado era que o humano que ela escolheu, eu, tinha uma mentalidade mais forte que a dela. Ela podia ser superior a mim em todos os outros aspectos, mas a minha cabeça pra ela era um grande labirinto cheio de informações e armadilhas que eu, como um passatempo, criava. Sim, eu criava armadilhas na minha cabeça para caso alguém tentasse invadir os meus sonhos que nem aquele filme “Inception”.

Ela se perdeu na minha cabeça, ficou presa nas minhas armadilhas, e quando ela tentou voltar ao mundo dos demônios algo deu errado e quem voltou fui eu.

“Humano inferior, deixe-me voltar ao meu corpo! Você vai ficar lendo as minhas memórias e controlando o meu corpo com essa sua mente suja e impura? Se você fizer isso eu vou condenar você ao inferno!”

Eu ouvi essa voz na minha cabeça e finalmente entendi. Ela tinha voltado para o corpo dela, mas quem estava no comando do corpo era eu. Porque?

— Eu me lembro de pouco... Você poderia trazer a minha comida aqui, eu gostaria de ficar sozinha por um tempo. – Eu respondi para o morcego falante.

— Claro minha mestra, eu agradeço por sua benevolência. – O morcego se curvou e saiu voando com muita alegria, o que pra mim foi muito estranho, quase assustador.

“Ok, você está aqui na minha cabeça, quem é você, porque eu estou no seu corpo, o que é esse lugar?”

Fechei meus olhos e comecei a mentalizar a minha biblioteca. Para minha surpresa quem eu vi foi Asura, sentada de pernas cruzadas em cima de uma das estantes.

“Você acha que eu vou te responder alguma pergunta humano? Eu sou uma mestra de dungeon respeitável, posso ser iniciante e estar em último lugar entre os demônios, mas eu sou de uma família de demônios de milhares de anos!”

Ela não tinha respeito nenhum por mim, provavelmente não tinha entendido ainda a situação.

“Assim não da né tia, você ainda não entendeu, mas eu estou no seu corpo controlando ele... Eu posso fazer o que eu quiser, você só pode gritar na minha cabeça. Você realmente vai querer falar assim comigo?” Eu respondi enquanto eu comecei a apalpar o meu próprio corpo como uma forma de provocação.

“Pare com isso!!!” ela gritou desesperada “O meu corpo é puro, sou um demônio nobre, como você pode tocar o meu corpo dessa forma obscena?”

“Se você pudesse me impedir já teria feito, não é?” E eu continuei a tocar o meu próprio corpo provocando um calor suave e intenso.

A raiva que ela emanava se dissipou e uma tristeza profunda começou a ser emitida pela consciência de Asura. Ela não queria admitir, mas ela não podia mais controlar o seu próprio corpo e dependia apenas de Gabriel. Quase uma ironia do destino a pessoa que acabou tomando conta de seu corpo ter o nome de um anjo.

“Ok, eu vou responder suas perguntas, se você prometer parar de fazer essas coisas obscenas com o meu corpo...”

“Ok” E eu parei no mesmo instante. Eu estava interessado na anatomia de um demônio, mas as informações que Asura tinha eram mais importantes pra eu sobreviver nesse momento.

“Meu nome é Asura, sou um demônio que participa da grande guerra. Não sei por que você está no meu corpo, isso nunca aconteceu antes, que eu saiba. Você está no mundo dos demônios no momento, na minha casa”

“Então isso realmente não é um sonho...”

“Não, infelizmente” Ela respondeu com um grande suspiro e um ar de tristeza que me fez perceber como eu era um incômodo pra ela.

“Eu sei como você está se sentindo, mas você sabe como podemos reverter essa situação? Eu também gostaria de voltar para o meu mundo e o meu corpo o quanto antes...”

“Então... Não sei como. Aliás, você provavelmente já está morto no seu mundo, você não teria como voltar”

Um minuto de silêncio seguiu essa resposta.

"Como assim eu estou morto?"

"Você acha que você conseguiria sobreviver sem a sua própria consciência, sua alma, em seu corpo?"

A resposta dela fez sentido e foi como um grande balde de gelo. Eu estou morto. Eu não existo mais no meu mundo, eu não posso mais jogar os meus jogos, não posso mais fazer as coisas que eu amo, não posso mais ser quem eu era.

“Isso não é bom” eu respondi com um grande suspiro e um ar de tristeza ainda maior que o de Asura. “Isso é tudo culpa sua... Você tem que tomar a responsabilidade disso”

Eu acho isso engraçado, mas o que Asura sente eu também sinto em mim e nesse momento ela sentiu um grande desprezo por mim. Eu era o ser humano, um ser inferior, e tinha prendido ela em minha cabeça.

“Que grande absurdo você está falando, humano. Eu sou um demônio respeitável e você está exigindo que eu tome responsabilidade pelas coisas que eu faço? Eu sou superior a você”

Eu não ameacei a garota demônio, apesar de ter sentido muita raiva em sua resposta. A natureza dela é essa e não ia trazer o meu corpo de volta. Fazer algo com o corpo dela só prejudicava a mim no momento.

“Então, o que você faz nesse mundo dos demônios? Como funciona essa grande guerra? Você está em perigo de vida? Eu não tenho vontade nenhuma de te ajudar, mas eu também não quero ficar parado sem fazer nada...”

A minha resposta surpreendeu ela. Asura achava que a briga ia durar mais tempo, mas como eu tenho o hábito de ver as coisas de forma lógica, eu já estava me acostumando com essa situação.

— Mestra, eu trouxe o seu café da manhã como ordenou. – O morcego falante voltou.

“Rubeus é sempre muito prestativo, apesar de ser extremamente desajeitado...”

Na hora em que ela falou isso o morcego. que voava com a travessa de comida, tropeçou no ar como que confirmando o que Asura tinha acabado de dizer.

Meu corpo se moveu antes de eu pensar a respeito, em um segundo eu peguei as coisas que estavam caindo sem derramar nem uma gota do suco que estava no copo.

‘Isso sim é surpreendente’ Pensei. ‘Um demônio realmente é incrível’

“Com esse corpo eu poderia ser o rei do mundo, essa velocidade é incrível, imagino o que mais eu consigo fazer...”

“Não fique muito animado, essas são as capacidades mínimas de todos os demônios. Todos os outros que estão em um nível maior que o meu tem capacidades ainda maiores”

Destruindo o meu sonho de curta duração, ela realmente é um demônio.

— Mil perdões mestra, eu não tive a intenção de derrubar, por favor me de a punição que achar mais justa! – O morcego se prostrou colocando a cabeça no chão e não se levantou enquanto Gabriel analisava a situação.

“O que você faria em meu lugar?” Perguntei.

“Está pedindo ajuda? Humanos realmente não são lá essas coisas...”

“Só não quero parecer com outra pessoa, se perceberem que você não é você então você realmente vai estar em perigo, não é? Se isso nunca aconteceu com um demônio antes então você pode virar motivo de piada nesse mundo se descobrirem que um humano está controlando o seu corpo...”

Asura ficou impressionada por um instante. Foi o que eu senti. Ela não esperava que eu tivesse a consciência de proteger a integridade dela.

“A punição deveria ser...”

— Você vai ficar amarrado no calabouço sem comida por uma semana Rubeus, essa é a sua punição.

— Sim mestra – Rubeus se retirou como se isso fosse normal, ele estava feliz pela punição ser só essa e triste por não ter conseguido trazer o café da manhã como ordenado.

“Ele vai ficar bem?”

“Rubeus é um vampiro, ele não vai morrer por ficar sem comer ou amarrado em uma cela por uma semana, ele está com a consciência pesada, mas isso vai aliviar. Ele é prestativo, por isso não o substitui ainda”

A resposta de Asura me fez ver que ela também não era pouca coisa. Ela sabia o que podia e não podia fazer e assumia as responsabilidades que ela tinha.

“Asura, me fale mais sobre você, qual o objetivo dessa guerra, como ela funciona?”

“A sua curiosidade me perturba um pouco, ficou com pena de mim por ter um empregado tão desajeitado e está pensando em me ajudar?”

“Pelo contrário, acho que pode ser divertido ser um demônio e estou querendo fazer algo pra passar o tempo”

Um minuto de silêncio. Ela não sabia se eu estava falando sério.

“Passar o tempo? Você acha que isso é brincadeira? Eu coloco a minha vida e a vida de meus subordinados em jogo todo dia para ter os melhores resultados e você acha que eu estou passando o tempo?”

“Você me entendeu errado novamente, eu fiquei impressionado com como você é perspicaz e se importa com eles... Eu só quero continuar aqui por mais algum tempo, só isso.”

“Inaceitável, me devolva o meu corpo agora mesmo!”

“Quando você descobrir como e se você ainda quiser que eu vá embora eu te devolvo. Enquanto isso eu vou continuar aqui, porque não me conta mais sobre as coisas?”

Eu senti que ela desistiu. Não tinha como discutir com essa lógica, ela realmente não sabia como desfazer o que foi feito, ela não podia perguntar pra ninguém por medo de ser julgada como um demônio fraco e ela não podia abrir mão de seus compromissos como demônio enquanto procurava uma resposta.

“Ok. Primeiro, não é realmente uma guerra, nós competimos entre nós com Dungeons. São labirintos cheios de monstros...”

“Vocês usam Dungeons em suas competições?" Eu interrompi ela porque eu fiquei muito animado subitamente "Isso é realmente incrível, mas acho que faz sentido, vocês não querem perder os demônios que são a sua principal força, não é?”

Ela ficou impressionada por um segundo, um ser humano sabia o que eram Dungeons?

“Sim, exatamente, o demônio que possui a maior, mais poderosa e mais amedrontadora Dungeon vai ser o rei dos demônios. Essa é a grande guerra.”

“Entendo...”

“Nós podemos invadir outras dungeons e desafiar o mestre, mas isso é algo que só acontece entre as melhores dungeons, porque dungeons pequenas como a minha não teriam chances contra invasões de monstros”

‘Isso está cada vez mais parecendo como uma história de D&D’ Eu pensei.

“Eu acho que eu posso te ajudar com alguma coisa então... No meu mundo eu era conhecido por criar os melhores labirintos, os maiores desafios e ser um estrategista nato” eu menti. Eu não era lá essas coisas porque eu não dava nem 10% da minha capacidade nos meus jogos, mas agora era diferente. Eu queria ver isso até o fim.