Diário de um Astronauta
1 Preparando-se para o porvir
[...] Toda a Terra estará desmoronando dentro de poucos dias. Não haverá lugar seguro. Na data, abracem suas famílias, encorajem seus filhos, acalme-os. Orem a seu Deus, só Ele poderá livra-los. Essa é a minha última transmissão, a última vez que eu me dirijo a vocês como “O Locutor das Cavernas”. Me refugiarei, e é isso que eu aconselho-vos a fazer. Tentem ficar em paz.
― Acabou o sinal do rádio, pai? ― O pequeno Ryan perguntou, com medo da velocidade em que o pai dirigia.
― Não, querido, ele terminou de falar mesmo. ― Respondeu-lhe Kate, sua mãe.
― E por que a Claire não para de chorar?
― Ela só está com medo. Por que você não abraça sua nana?
A mãe tentava se manter forte, para que Ryan ficasse forte também. O menino abraçou a irmã mais velha. Essa, por sua vez, não tirou os olhos da janela e muito menos os fones de ouvido que usava. Ela não chorava desesperadamente, mas também não reprimia as lágrimas que insistiam em cair. Sua feição era de tristeza, desânimo ― eles estavam abandonando tudo.
― Ela está triste, não está?
― Está sim, filho. Mas pense que nós estamos indo para um lugar muito mais bonito que esse. ― O pai o encorajou.
― Você ouviu isso, nana? Estamos indo pra um lugar melhor!
Ele se animou e tentou fazer o mesmo com a irmã. A garota não desviou o olhar para ele por um segundo sequer, estava sofrendo demais em pensar que tudo ficara para trás.
O pai, Mike Taylor, é um grande cientista. A mãe, Katelyn, é a enfermeira mais bem paga do hospital mais conceituado dos Estados Unidos, o Johnny White. Os filhos, Claire e Ryan Taylor, são ótimos alunos. Clarence tem quinze anos, é ótima em inglês e matemática. Ryan, de seis anos, é um prodígio em educação física. A família é conhecida, de posses, mas não rica. Apenas bem de vida. Correndo com a Doblô, Mike tenta chegar o mais rápido possível até o Laboratório Secreto de Pesquisas Espaciais, lugar onde ele e a família embarcarão numa nave direto para a Estação Espacial dos Estados Unidos da América, fora do planeta ― claro. O trânsito colaborava com eles, as pessoas já estavam em alerta para seus últimos dias na Terra, então somente aqueles que realmente precisavam ― ou que não acreditavam no fim do mundo ― saíam de suas casas. Logo chegaram. Kate foi na frente com as crianças e Mike foi retirando as malas do carro.
― Por favor, para onde devemos ir? ― Kate perguntou ofegante.
Um dos seguranças foi lhes indicando o caminho e Mike os alcançou rapidamente.
― Wow... ― O pequeno Ryan estava deslumbrado com o tamanho das naves. ― Em qual delas nós vamos?
― Naquela ali.
O pai lhe indicou a maior. O garoto saiu correndo da plataforma onde estavam e foi em direção às naves. A mãe, com medo de que alguma coisa pudesse acontecer, mandou que Claire fosse atrás dele. A menina saiu correndo atrás do irmão, contra vontade, e acabou trombando com alguém no meio do caminho.
― Oh, mil desculpas. ― Uma voz grave ecoou na cabeça dela, mas sua curiosidade não foi atiçada. Ele a segurou pelos braços, assustado com o choque.
― Tudo bem. Agora me solte, por favor. ― Respondeu nem sequer olha-lo no rosto.
― Mas... você está bem mesmo? ― Insistente, o jovem conseguiu que ela erguesse a cabeça. Claire esqueceu-se do irmão assim que seus olhos foram de encontro aos belos olhos azuis do rapaz a sua frente.
― Si... Sim, estou. ― Disse, sem desviar o olhar e sorriu sem perceber.
― É, acho que está sim ― ele sorriu de volta e a soltou. ― Tente não trombar em mais ninguém, bonitinha, você pode acabar se machucando.
― Ok. ― Respondeu, ainda meio boba.
O rapaz passou por ela, deixando-a com cara de idiota na frente de todos. Ela sacolejou a cabeça, tentando se livrar da hipnose que os olhos dele causaram, e gritou:
― Você faz o que aqui?
Ele se virou, com um sorriso divertido no rosto.
― Sou astronauta. ― Ela sorriu para ele, mesmo sem saber o motivo ainda. Ele caminhou novamente até ela e lhe estendeu a mão. ― Prazer, Jack Williams, astronauta recrutado pela nave mãe para acompanha-los até a Estação Espacial dos Estados Unidos da América. E você, quem é?
― Prazer ― apertou-lhe a mão –, sou Clarence Taylor, mas me chame de Claire. Sou filha do cientista ali. ― Maneou com a cabeça em direção ao outro lado da plataforma, onde seus pais conversavam com um homem que ela não soube identificar.
― Você é filha do Taylor, O Grande?
― Jura que ele é chamado assim? ― Os dois riram do apelido do pai de Claire.
― Sim, é assim que ele é chamado, mocinha. Quantos anos você tem?
― Quinze.
― É a filha mais velha? Filha única?
― Sim e não. Tenho um pirralhinho... ― Cortou a própria fala ao lembrar-se do irmão. ― Deus! Esqueci do meu irmão!
Levou uma das mãos à cabeça e saiu correndo na última direção em que se lembrava de ter visto Ryan seguir, atropelando novamente o astronauta.
― Até mais, Claire.
Ele acenou em forma de continência e virou-se para seguir seu rumo. Claire nem ao menos olhou pra trás, coisa que lamentou segundos depois. Perdeu a chance de olhar para aquele belo par de olhos azuis uma última vez.
Claire encontrou Ryan perto da nave. Para sua surpresa, ela o encontrou a tempo de impedir que ele chegasse tão perto a ponto de tocar a mãozinha nela. Tomou-o pela mão com cuidado e foram em direção a seus pais. O Sr. e a Sra. Taylor os conduziram aos novos aposentos da família. No caminho, viram muitas outras pessoas. O pai explicou ao casal de irmãos que eles se mudariam para um “novo planeta”. O menino ficou empolgado, mas ela não. Claire sabia o estaria por vir, ela entendia isso.
***
― Todos os recrutados deverão embarcar imediatamente, a estação espacial está pronta a recebê-los. A viagem demorará um pouco, então aconselhamos que tenham algum plano de divertimento na manga. Pedimos que deixem qualquer aparelho eletrônico aqui. A comunicação será feita por meio de aparelhos especiais que serão distribuídos assim que cada um for desembarcando da nave. Façam uma boa viagem, e nos encontramos lá.
― Pai, eu não vou deixar meu celular aqui!
Claire praticamente gritou em meio àquela multidão.
― Filha, nós não temos escolha, eles que fazem as regras por aqui.
― Não perguntei quem faz as regras, disse que eu não vou largar meu celular aqui!
Kate se virou irada na direção dela.
― Clarence, não fale nesse tom com seu pai!
― Mas mãe...
― Não tem mais nem menos. Você não tem o direito de falar assim conosco. Vamos logo.
Katelyn pegou Ryan no colo e foi em direção ao quarto onde ficariam durante a noite de viagem. Mike deu dois tapinhas nas costas da filha, que bufou e deu de ombros. Os dois seguiram o mesmo caminho de Kate.
O quarto não era muito grande, mas era suficiente para a família toda. Em uma noite eles chegariam na estação espacial.
Notas finais
"Na estação espacial, todos assistiam ao fim do mundo, completamente impressionados com a destruição. De repente, todos ficaram pasmos ao ouvir de uma criança que, de uma das janelas da nave mãe, podia-se ver a Terra. Todos correram na direção da tal janela. O menino tinha razão, dava para vê-la de lá. O menino era Ryan."
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