Há muito tempo Uriu me tomou como um aprendiz de guerreiro, e desde então me tratou não só como filho, mas como um aluno e amigo. Estranho, não é mesmo? Mas se parar para pensar, veja bem, as coisas deveriam ser assim entre pais e filhos. Desde que pelo menos o seu pai não force você a fazer trezentas e cinqüenta flexões com uma rocha nas costas, ou treinar exaustivamente o ataque com espada e escudo usando replicas feitas de elunium puro, mais ainda se você tiver que enfrentar ele várias e várias vezes e tiver que escutar que “você precisa se tornar tão resistente quanto o aço, tão flexível quanto a borracha, tão forte quanto o monstro Seyren. Você precisa ser melhor que eu!”

Muitos acham que a razão de eu ter o apelido de Deus Dragão é por ter um pacto com algum demônio, ou ter derrotado algum dragão por aí. Ledo engano. Na verdade foi tudo graças ao meu pai, que me jogava em covas de monstros quando eu ainda era pequeno, treinava comigo dia e noite, e me fez ficar tão ou mais resistente que a própria escama de dragão, quase impenetrável. Além do fato também de que ele fez alguns bruxos e sábios encantarem meu corpo com uma proteção poderosa. Não sou um deus, muito menos um dragão, mas possuo uma resistência e força comparável. Vai entender meu pai não é mesmo?

Eram épocas duras, de muitos acidentes e situações de risco, mas eram tempos felizes. Meu pai me amava, minha mãe também, e eu sempre dei valor ao amor de um pai para o filho, mesmo que ele te trate como alguém que vai se tornar o maior guerreiro de todos os tempos. Eu acredito que não alcancei essa expectativa, mas certamente seu treinamento deu resultados assombrosos para mim. E nada me deixa tão irritado quanto a falta de respeito com os valores familiares.

Lembro-me muito bem daquele final de tarde. Meu escudo fora arremessado no instante que percebi a morte descendo na lâmina do louco. “Não vai dar tempo” eu tinha pensado, mas felizmente o escudo foi mais rápido e acertou o homem por entre as costelas, derrubando-o desajeitadamente para longe da criança que ainda chorava. O céu começou a escurecer, nuvens se formavam ao alto e uma fina garoa começou a cair, alisando meu rosto com suas gélidas gotas.

Os gemidos daquele homem acuado pela dor quebravam o silêncio da noite que se aproximava, enquanto eu o encarava sem emoção. Não sentia nada em relação a ele e a criança, mas a minha missão tinha. Na carta que eu havia recebido da Ordem, dizia que um estranho ritual estava sendo realizado em Glast Heim, e que minha missão era investigar e impedir o ritual, mas eu não sabia que era tão crítico assim.

- O que pensa que está fazendo, seu inseto? – Fui simples, rápido e direto. Meu humor estava muito bom naquela noite e enquanto me aproximava dele, o escudo voltava para minha mão esquerda. O homem tinha não mais que trinta verões de idade, cabelos verdes e pele macilenta, parecia ter envelhecido demais mesmo com idade relativamente baixa. Com um olhar arregalado, me encarava com pavor e medo, gaguejando.

- Es-essa...tenho de...co-concluir...- Eu estava me irritando com aquele ser patético.

- Você tem é que morrer. O que pensava fazer Dereck? – Eu sabia seu nome, afinal era um renomado alquimista de Juno que havia desaparecido há alguns dias. Agora parece que desistiu da alquimia para praticar magia negra.

- Essa criança...ela precisa morrer...

- Não me faça de idiota. – Me agachei ao lado dele, que ainda tinha o medo estampado na face. Agarrei-o pelo pescoço. – Que porcaria de ritual você está fazendo?

- Tenho...que impedir...os...generais...

- Que papo é esse? — Eu fiquei curioso. Havia uma lenda de que todos os seres caóticos, embora vindos de lugares diferentes, foram gerados da mesma força das trevas ou foram-lhe concedidos tais forças. Mas nunca soube que havia uma hierarquia entre eles.

- Essa criança... foi gerada em um demônio... – Ele ainda falava ofegante.

- E eu com isso? – Ergui pelo pescoço, seu corpo suspenso no ar e balançando enquanto eu o encarava tenso. – Você vai me dar mais explicações.

Ele me olhava cheio de medo. Suas mãos tremiam incessantemente enquanto tentava se desvencilhar do meu aperto. Olhava constantemente da Bazerald caída no chão até a criança que chorava.

- Você não entende. – Ele falava cansado. Seus cabelos verdes e molhados escorriam pelo seu rosto e o dava uma aparência mais velha. – Ele está me forçando a isto. É meu dever como intercessor do bem...

- Você? Pelo bem? – Eu interrompi. – Não é o que está parecendo. – Eu esperei um pouco, até que recuperasse o fôlego e ele parasse de tremer. Como só um de nós ficou mais calmo, recomecei. – Diga o que essa criança tem a ver com o sacrifício?

- Ele é o filho de um demônio. Ele deve morrer ou trará desgraça para todos nós. – Suas palavras soavam como um clichê para mim. É tão papo furado quanto dizer que um Poring é um monstro terrivelmente poderoso. – Acredite em mim, eu devo oferecer ele a um dos generais para que poupem a nossa vida.

- Generais? Que generais? — Eu fiquei perplexo. O que significava tudo aquilo? Estava me deixando tão confuso que não conseguia sequer pensar em outra solução. Queria levar o bebê para casa e o alquimista até a Ordem para interrogá-lo, mas sempre acontece algo de ruim quando nós queremos fazer algo desse gênero.

Não houve tempo. O que eu vi foi rápido demais, e não tive tempo de reação. Sombras envolveram a criança e a sugou para dentro da terra, e quando fui perguntar ao Dereck o que houve, mãos negras agarraram seu corpo e puxaram ele com força. Tentei impedir, mas a força que o puxava era forte. Tudo o que pude quando caí sentado foi o pobre coitado ser arrastado para dentro da velha igreja abandonada de Glast Heim. Uma aura sombria pairava no ar, e a chuva começou a ficar cada vez mais forte.

Alguma coisa me dizia que tudo aquilo era algo pré-destinado, e que precisava ser eu a impedir que algo acontecesse. Coisa heróica não? Mas minha vontade era continuar minhas pesquisas, portanto entrei relutante na igreja. Sabia que só havia uma força tão sombria e pesada que pudesse ter feito isso, além de ter certa tara para sacrifícios.

- Senhor das Trevas! – Não poderia ter sido mais ninguém. E com raiva, e certo prazer em reencontrar a criatura, eu iria até as profundezas mais sombrias daquela construção, e descobrir mais sobre aquela estranha cena. Coitado de mim por não saber que a situação era milhares de vezes mais críticos do que eu pensava, mas como meu pai dizia, eu era jovem, sem qualquer perspectiva da vida e cheio de juventude. Os tempos de trevas nunca estiveram tão próximos.