Diário de Um Nelliw - Crônicas da Luz

5 Um Demônio versus um Deus...


Por muitas vezes, acreditamos intensamente que tudo ficará bem. Que nada é para sempre, e que todo mundo tem um final feliz. Tolos seres humanos, aquele que pensar assim está acometido por um breve momento de felicidade, e uma era de tristeza e agonia. Eu obviamente sabia que nunca teria uma era de alegrias e emoções, mas não acreditava que tudo terminaria tão rápido.

Com aquela sensação estranha ao meu redor, e o desaparecimento repentino da criança e do alquimista, as coisas ficaram complicadas para eu entender. Generais das trevas, rituais para banimentos, pactos e filhos do demônio. Eu não estava velho demais para aquilo, mas certamente me sentia como um.

Corri o máximo que pode para dentro da abadia de Glast Heim, onde muitos druidas malignos me esperavam para roubarem minhas forças, pouco a pouco. Fui breve para eliminá-los com apenas alguns golpes de espada, então me dirigi até onde o foco de toda a energia maligna do local emanava. Desci um lance de escadas até o andar abaixo da abadia, onde ficavam os túmulos do povo antigo. Várias aparições alguma vezes vinham me saudar com o cheio acre da morte, mas eram rapidamente banidos.

Andando pela área, fui até o centro do local onde havia os túmulos, e lá Dereck me esperava.

Ele estava de costas, olhando para suas mãos, enquanto a criança estava em cima de uma pequena mesa de madeira gasta e podre, com apenas um manto servindo como toalha. Quanto mais eu me aproximava, mais eu sentia uma energia baixa e fria me rejeitando. Quando havia chegado a alguns passos apenas, uma voz fria, grave e estrondosa, sibilava por entre os lábios do alquimista.

- Magnífico. Simplesmente estupendo. – Eu não havia entendido por qual motivo aquele ser estava admirado ao ver as próprias mãos. Coisa de monstro.

- Então, grande Senhor das Trevas, era isso que realmente queria? – Sim, eu sabia que era ele incorporado no corpo do tapado Dereck. É típico, mas eu gostaria de saber mais a respeito desses tais generais.

- Raiga, aquele que obteve o conhecimento dos antigos guerreiros...

- Resposta errada. – Odeio papo furado. – Eu quero saber o que você quer com o Dereck e com a criança.

O ser virou-se para mim e pude encarar seus olhos vermelhos, sua face pálida e sua aura maligna. Estava com um sorriso malicioso estampado no rosto, e realmente era possível ver através de seus olhos que estava com limitações.

- Você me parece ainda mais fraco Gothan – Provoquei. Gothan era um dos nomes que eu tinha encontrado em resquícios antigos das civilizações passadas. Era muito mais fácil também chamá-lo por um nome, ainda que errado, do que toda vez que fizer menção à ele, chamar por Senhor das Trevas.

- Como ousa humano patético...

- Silêncio! – Ele ficou braço pelo como eu me dirigi, mas não gosto que retruquem o que eu falo. Gothan ficou nervoso. – Me diga o que fará com o corpo dele?

- Não é simples? – Ele voltou a ficar com aquele sorriso idiota na face. – Eu vou poder sair daqui. Com este corpo, eu posso burlar o selamento.

- Você é muito burro pra fazer algo assim. – Fala sério, tava na cara que ele faria isso. Realmente, uma vez monstros, sempre burros. Pelo menos era o que eu achava na época.

Gothan percebeu que eu não tinha receio, ou mesmo medo de enfrentá-lo, e ficava olhando de seu corpo para o da criança constantemente, nervoso. Ele não estava mais com a feição vitoriosa, e sim com um estupor terrível.

- Cale-se! — De repente, várias aparições e druidas malignos apareceram ao meu lado. Cada um mais faminto por uma alma que o outro. Ignorei os assombrados e comecei a dar passos lentos para frente, para alcançar Gothan, mesmo com os monstros tentando me segurar. – Fique onde está...Chuva de Meteoros!.

Enquanto eu parava para concentrar minhas forças, as assombrações tentavam sugar minha energia e me ferir sem sucesso, e então no alto várias bolas de fogo gigantescas caíram com violência em minha direção. Não me movi, pois não era necessário. A magia de Gothan me acertou, mas ela foi dispersa ao meu redor por um contra-ataque, uma técnica de escudo que desenvolvi a partir das minhas pesquisas dos guerreiros antigos de Glast Heim, capaz de refletir até mesmo as magias mais poderosas e os ataques mais devastadores, e devolver o ataque ao meu redor.

O princípio da reflexão partia de minha energia e era canalizada no escudo. Infelizmente ainda não dominava a técnica, mesmo que ela foi um dos motivos do meu apelido.

Gothan surpreendeu-se com a minha aparição em meio ao fogo, vendo que todos os monstros haviam sucumbido por sua própria magia, e eu estava ileso no meio das chamas. Eu vi uma gota de suor correr por entre sua pálida testa, e quando ele sacou uma faca do bolso, corri até ele e segurei o seu braço com minha mão direita, enquanto a outra segurava o escudo. Minha espada havia ficado para trás, cravada no chão.

Ele me olhou com terror, pois sabia que incorporado em um corpo fraco e não preparado, sua força diminuía drasticamente, ainda que seja muito forte mesmo assim, e o pior é fato de seu corpo ser mortal. Uma vez que o corpo é morto, o demônio incorporado é selado junto com o corpo, desaparecendo igual. Quando segurei seu braço com firmeza, encarei-o com vontade e vigor, e pude sentir a maldade em minha voz.

- Você acaba de descobrir o porquê da minha alcunha de Deus Dragão. – Quando eu disse isso, sorri malicioso, e vi medo nos olhos dele. – Eu tenho a resistência absoluta de suas escamas, e posso suportar qualquer coisa com facilidade. Levei anos para aprender e desenvolver o mínimo das técnicas esquecidas, mas eu as tenho, e me deram esse nome. Mas vou lhe mostrar os ataques que me fazem ter o nível de um deus. Prepare-se!