Se eu pudesse lhes contar a minha história com calma e paciência, seria uma eternidade para que pudessem apreciar as minhas aventuras. Porém, como estou um pouco longe de casa não posso ter esse momento com ninguém. Deveras audacioso seria se eu tentasse voltar, mas forças descomunais me impedem. Por tanto escrevo nesse diário passado de meu pai para mim e pretendo revelar ao menos o necessário para as gerações futuras.

Muitos me chamavam de lenda, outros me consideravam um líder, e até me colocavam como um nobre que possuía muito poder nas mãos. De fato eu tinha alguma ligação com um dos mais imponentes heróis de Rune-Midgard, mas agora sua imagem não passava de mera lembrança de um passado distante, turva pela sua nova perspectiva. Ainda que meu pai de criação fosse também de fato um grande guerreiro, padecia cada vez mais em uma cama de hospital, vítima de um golpe do destino.

Vamos voltar de onde eu parei. Não irei lhes infortunar com minha infância como disse anteriormente. Mas começarei de um ponto chave de minha história, quando os primeiros sinais de um mistério começariam a aparecer.

Aquela tarde de primavera poderia ser linda e gloriosa para qualquer habitante de Rune-Midgard, mas para mim era uma escuridão completa. Passei dias nas catacumbas fétidas e mórbidas dentro dos territórios de uma das raças mais poderosas, semelhantes e rivais da humanidade. A Vila dos Orcs era de fato magnífica do ponto de vista bárbaro e rudimentar, mas em nada me agradava saber que naquele lugar eles colocavam tanto os mortos em combate quanto os loucos e hereges de sua própria raça.

Havia corpos demais naquela área, por isso adiantei-me até a saída porque já tinha cumprido minha missão. Ainda assim, alguns Orcs Zumbis viriam a tentar me parar no caminho, mas não tinham a menor chance. Dois deles levantaram-se do chão e vieram lentamente a passos mortos em minha direção, brandindo os seus machados enferrujados como lunáticos.

O primeiro deles tentou me acertar no rosto, mas não surtiu efeito algum. O machado simplesmente ricocheteou no escudo e vi seu braço podre desmantelar com a força que voltara do ataque. O outro Orc tentou a mesma coisa e teve o mesmo destino. Os dois se entreolharam pasmados. Trocaram os braços e levantaram-se novamente com os machados.

Eu segurava apenas meu escudo, usando uma técnica muito útil que refletia o ataque físico de volta ao inimigo. Mas então mudei de estratégia. Posicionando meu escudo para trás, estiquei todo o meu braço e concentrei minha força nele. Arremessando o escudo, aquela placa de aço girou no ar e percorria em disparada até o primeiro Orc Zumbi, destruindo seu corpo rapidamente. Vendo que eu estava sem nada para me proteger e movido pelo instinto, o segundo Orc veio novamente para me atacar, mas o escudo voltava de sua trajetória e o acertou na nuca, decapitando o morto-vivo. Firmei meu corpo e recebi o impacto do broquel voltando para meu braço esquerdo. Era o final do dia.

Após um dia inteiro de combate aos mortos-vivos do lugar, eu finalmente pude sair daquele maldito calabouço. Infelizmente já não era mais possível ver a luz do sol, mas a o crepúsculo ainda mantinha os resquícios do laranja-vívido do final do dia. Eu suava muito, mas não tinha sequer um arranhão ou uma dor que não fosse a exaustão. Para minha surpresa eu não estava sozinho. Algo me vigiava a uma distância pequena e agora começava a se locomover até que pudesse ficar visível. Ainda bem, eu tinha pensado, não havia ninguém ali no momento.

Aquele ser verde e musculoso vestido em couro grosso vinha a passos firmes e pesados até mim. Eu não me movi, pois sabia que não correria perigo com um monstro de capacidade mental inferior e que mantinha o respeito pelas minhas habilidades. Enquanto eu guardava o meu escudo, o Senhor dos Orcs parava a minha frente, com seu corpanzil mexendo a cada respiração dada.

- Você não avisou que estaria nos meus domínios, humano! – Disse ele em seu tom grave e ressoante. Não abalado, apenas fiz uma reverência a ele. Embora fossemos de raças diferentes e tivéssemos rivalidades, ganhei o respeito deles e cumprimentar seu líder de forma adequada ao seu posto era uma atitude natural para mim.

- Eu fui mandado às pressas para cá. O santo líder dos Templários precisava que eu contivesse alguns desses mortos. – Eu tinha confiança em minhas palavras, pois falava nada menos que a verdade para ele. – Alguns estavam atravessando o portal.

- É de admirar que um humano seja tão responsável para com os seus mestres, ainda que seja tão ou mais forte quanto.

- Seu elogio é uma honra para mim, Senhor dos Orcs. – Fiz novamente uma reverência.

- Não foi um elogio. Ainda não creio que alguém como você serve a outras pessoas. – Ele falava com certa curiosidade no ar. Era até engraçado ver que uma raça que outrora combatiam e matavam os seres humanos tinha certo apego para com minha pessoa. Afinal, fui eu quem derrubou sozinho seu líder anterior.

- Eu apenas gosto de ajudar os outros. – Com um breve suspiro, fechei meus olhos e voltei na direção das montanhas, onde estaria meu próximo destino. Com meus apetrechos guardados, era hora de partir. Porém, quando dei os primeiros passos, senti aquele hálito horrível e o cheiro de couro novamente. O líder dos Orcs se aproximava novamente.

- Você, aquele que é chamado de Deus Dragão, ainda temos uma dívida com você. – O Senhor dos Orcs falava em tom pesaroso. – Eu lhe devo a gratidão de ter permitido a mim ser o líder de meu povo, e por ter eliminado meu rival.

- Fico lisonjeado com sua gratidão. – Respondi ainda de costas para ele.

- Mas eu sei que você não é imortal. Você é chamado de Deus Dragão, mas você não vive tanto quanto eles. Um dia você vai envelhecer, e aí morrerá em minhas mãos. A glória dos Orcs será restabelecida.

Eu sabia que ele faria essa proposta. Mesmo matando o anterior líder deles, era uma ofensa a um Orc ter seu sangue lavado por mãos humanas, ainda mais por apenas uma pessoa. Eu olhei de canto para ele, sabendo que ambos estávamos prevendo um possível combate por honra e destino. Sorri.

- Então, vai descobrir um dia por que ganhei esse nome.

Depois de nossa breve conversa, deixei a Vila dos Orcs e parti rumo ao norte, onde eu esperaria minha esposa e meus senhores e teria uma nova missão. Mas por hora eu deveria descasar na cidade da magia, Geffen.